Rubber Soul é o sexto álbum de estúdio da banda britânica de rock The Beatles. Foi lançado em 3 de dezembro de 1965 pelo selo Parlophone da gravadora EMI no Reino Unido, acompanhado pelo single, que não faz parte do álbum, "Day Tripper" / "We Can Work It Out". O lançamento original na América do Norte, distribuído pela Capitol Records, apresenta dez das quatorze canções e duas faixas omitidas do álbum anterior. Foi descrito como uma importante realização artística da banda, recebendo críticas favoráveis e liderando paradas de vendas do Reino Unido e dos Estados Unidos por várias semanas.

As sessões de gravação ocorreram em Londres durante um período de quatro semanas, começando em outubro de 1965. Pela primeira vez em sua carreira, os Beatles estavam disponíveis para gravar um álbum livre de turnês, filmagens ou compromissos no rádio. Muitas vezes referido como um álbum de folk rock, particularmente por sua versão norte-americana, Rubber Soul incorpora uma mistura dos estilos de música pop, soul e folk. O título deriva do coloquialismo "plastic soul". Depois de A Hard Day's Night, em 1964, foi o segundo disco dos Beatles a conter somente material autoral.

As canções demonstram a crescente maturidade dos Beatles como letristas e, na incorporação de tons de guitarra mais brilhantes e uma nova instrumentação, como o uso da sitar, do harmônio e do efeito fuzz no baixo elétrico, o grupo buscou sons e arranjos mais expressivos para sua música. O projeto marcou uma progressão no tratamento da banda ao formato do álbum como uma plataforma artística, uma abordagem que eles continuaram a desenvolver com Revolver (1966) e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). As quatro faixas omitidas no lançamento norte-americano apareceram mais tarde em Yesterday and Today.

Rubber Soul foi altamente influente no círculo social e artístico dos Beatles, levando a um foco na criação de álbuns com canções consistentemente de alta qualidade, se afastando do formato single. Foi reconhecido pela crítica musical como um álbum que abriu as possibilidades da música pop em termos de abrangência lírica e musical, e como uma obra-chave na criação de estilos como a psicodelia e o rock progressivo. A revista Rolling Stone classificou-o em quinto lugar em sua lista "Os 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos". Em 2000, foi escolhido em 34º lugar na terceira edição do livro All Time Top 1000 Albums de Colin Larkin. O álbum foi certificado seis vezes em disco de platina pela Associação Americana da Indústria de Gravação em 1997. Em 2013, Rubber Soul foi certificado em platina pela Indústria Fonográfica Britânica por suas vendas no Reino Unido desde 1994.

Contexto esquerda|miniaturadaimagem|256x256px|Os Beatles em uma entrevista de imprensa durante sua turnê norte-americana em agosto de 1965, dois meses antes do início das sessões de Rubber Soul. A maioria das canções em Rubber Soul foram compostas logo após o retorno dos Beatles a Londres, após sua turnê norte-americana de agosto de 1965. Além de marcarem um novo recorde de audiência após tocarem para 55 mil pessoas no estádio Shea, a turnê permitiu que a banda se reunisse com Bob Dylan em Nova Iorque e Elvis Presley em Los Angeles. Embora os Beatles tivessem lançado Help! naquele mesmo mês, a exigência por um novo álbum a tempo do Natal seguia o cronograma estabelecido com a EMI por Brian Epstein, o empresário do grupo, e George Martin, seu produtor musical, em 1963.

Em suas novas canções, os Beatles se inspiraram em artistas da música soul de gravadoras como Motown e Stax, particularmente os singles que eles ouviram no rádio durante a turnê, e no folk rock contemporâneo de Dylan e dos Byrds. Dois anos após o inicio da Beatlemania, a banda estava aberta para explorar novos temas em suas letras através da combinação de seu descontentamento em tocar para plateias cheias de fãs histéricos, seu poder comercial, uma curiosidade compartilhada obtida por meio da literatura e do uso de alucinógenos, e os seus interesses no potencial do estúdio.

De acordo com Ringo Starr, Rubber Soul foi o "disco de partida" dos Beatles, escrito e gravado durante um período em que, em grande parte por influência da maconha, "Nós estávamos expandindo em todas as áreas das nossas vidas, nos abrindo para várias atitudes diferentes". O álbum reflete especialmente o amadurecimento de John Lennon como compositor, como ele foi encorajado a abordar questões mais amplas do que antes através do exemplo de Dylan. A perspectiva de George Harrison foi transformada pelas experiências dele e de Lennon com o LSD, contando que a droga havia revelado a ele a futilidade da fama exacerbada da banda por "abrir todas essas outras consciências".

O autor Mark Prendergast reconheceu Rubber Soul como "o primeiro disco dos Beatles que foi visivelmente influenciado pelas drogas". Lennon o chamava de "o álbum da erva". A maconha apelou ao ideal boêmio da banda. Paul McCartney disse que era típico de uma mudança do álcool para uma "cena mais beatnik, como o jazz".

Produção

Histórico de gravação As gravações de Rubber Soul começaram em 12 de outubro de 1965 no estúdio EMI (atual Abbey Road Studios) em Londres; a produção final e mixagem ocorreram em 15 de novembro. Durante as sessões, os Beatles normalmente se concentravam em ajustar o arranjo musical de cada canção, uma abordagem que reflete a crescente divisão entre a banda ao vivo e suas ambições como artistas de estúdio. O produtor George Martin mais tarde descreveu Rubber Soul como "o primeiro álbum a apresentar um novo, crescido Beatles ao mundo", adicionando: "Pela primeira vez começamos a pensar nos álbuns como arte por si só, como entidades completas." As sessões se estenderam por treze dias e totalizaram 113 horas, com mais dezessete horas (entre seis dias) permitidas para mixagem.

A banda trabalhou em um prazo apertado para garantir que o álbum estivesse completo a tempo de um lançamento antes do Natal. No entanto, eles estavam na posição até então desconhecida de poderem se dedicar exclusivamente a um projeto de estúdio, livres de turnês, filmagens ou compromissos no rádio. Os Beatles cederam a apenas duas interrupções durante esse período. Em 26 de outubro, eles receberam suas medalhas como membros da Ordem do Império Britânico no Palácio de Buckingham, entregues por Isabel II; e entre 1º e 2 de novembro, a banda filmou suas aparições no programa The Music of Lennon & McCartney da emissora Granada. A partir de 4 de novembro, quando apenas cerca de metade do número necessário de canções estava quase concluída, as sessões estavam agendadas para terminar às três da manhã todos os dias.

Depois de A Hard Day's Night em 1964, Rubber Soul foi o segundo álbum dos Beatles a conter somente material autoral. Como os principais compositores da banda, Lennon e McCartney lutaram para completar canções suficientes para o projeto.Lewisohn, Mark. "High Times". In: . Após a sessão de 27 de outubro ser cancelada em razão da falta de um novo material, Martin disse a um repórter que ele e o grupo "esperavam retomar na próxima semana" mas não considerariam gravar canções de outros compositores. Os Beatles completaram "Wait" para o álbum, tendo gravado sua faixa rítmica durante as sessões de Help! em junho de 1965. Eles também gravaram a música instrumental "12-Bar Original", uma blues de doze compassos no estilo de Booker T. & the M.G.'s. Creditado a todos os membros da banda, permaneceu inédito até 1996.

O grupo gravou as canções "Day Tripper" e "We Can Work It Out" durante as sessões de Rubber Soul para ser lançada como um single acompanhando o álbum. Evitando a necessidade de divulgar o single com várias aparições na televisão, os Beatles optaram por produzir videoclipes para as duas canções, a primeira vez que eles fizeram com um single. Dirigidos por Joe McGrath, os clipes foram filmados nos estúdios de filmagem Twickenham no sudoeste de Londres em 23 de novembro.

Instrumentação

Lennon lembrou que Rubber Soul foi o primeiro álbum em que os Beatles tomaram o controle no estúdio e fizeram demandas ao invés de apenas aceitar os padrões de gravação. De acordo com Tim Riley, o disco reflete "a nova afeição por gravar" em detrimento das apresentações ao vivo. De acordo com Barry Miles, Rubber Soul e seu sucessor de 1966, Revolver, foram "quando (os Beatles) 'fugiram' de George Martin e tornaram-se entidades criativas próprias". Em 1995, George Harrison contou que Rubber Soul era o seu álbum favorito dos Beatles, adicionando: "Certamente nós sabíamos que estávamos fazendo um bom álbum. Mas o mais importante era que, de repente, nós ouvíamos sons que não éramos capazes de ouvir antes".

Durante as sessões, Paul tocou um baixo Rickenbacker 4001 de corpo sólido, que produzia um som mais cheio que de seu Höfner de corpo oco. O desenho do Rickenbacker permitiu uma maior precisão melódica, uma característica que conduziu McCartney a contribuir com linhas de baixo mais complexas. Durante o resto de sua carreira nos Beatles, esse modelo iria se tornar o principal baixo de Paul em estúdio. Harrison utilizou uma Fender Stratocaster pela primeira vez, mais notavelmente em sua parte da canção "Nowhere Man". A variedade nos tons de violão e guitarra por todo o álbum também foi auxiliada pelo uso de capos por George e John em canções como "If I Needed Someone" e "Girl".

Em Rubber Soul, os Beatles afastaram-se da instrumentação padrão do rock and roll, especialmente pelo uso da sitar por George em "Norwegian Wood". Tendo sido apresentado ao instrumento no set de filmagem de Help!, o interesse de Harrison foi alimentado por seus colegas fãs de música indiana Roger McGuinn e David Crosby dos Byrds, em meio a turnê dos Beatles nos Estados Unidos. Também foi feito o uso do harmônio durante as sessões, marcando a estreia deste instrumento no rock.

A vontade da banda de experimentar sons foi ainda demonstrada com Paul tocando um baixo com efeito fuzz sobre sua parte de baixo padrão em "Think for Yourself", e no uso de um piano feito para soar como um cravo barroco em "In My Life". O último efeito surgiu após John sugerir que George Martin tocasse algo "como Bach". Martin gravou o solo de piano com a fita rodando em meia velocidade; quando tocada na velocidade normal, o som acelerado dava a ilusão de um cravo. Desse modo, os Beatles utilizavam o estúdio de gravação como um instrumento, uma abordagem que eles desenvolveriam mais a fundo em Revolver. As harmonias vocais de Lennon, McCartney e Harrison foi outro detalhe que veio a tipificar o som de Rubber Soul.

Paul contou que como parte de seu maior envolvimento na produção do álbum, a banda participou das sessões de mixagem invés de deixar George Martin trabalhar em sua ausência. Até o final de sua carreira, a versão "principal" dos álbuns dos Beatles era sempre a mixagem monofônica. De acordo com o historiador Bruce Spizer, Martin e os engenheiros da EMI dedicavam maior parte do tempo e atenção para as mixagens em mono, geralmente relegando a mixagem estereofônica como um "truque". A banda geralmente não estava presente nas sessões de mixagem em estéreo.

Dinâmica da banda Enquanto Martin relembrou as sessões como tido sendo "um momento muito alegre", o engenheiro de som Norman Smith sentiu que "algo havia acontecido entre Help! e Rubber Soul", e que aquela atmosfera familiar, que uma hora caracterizava a relação da banda com a equipe de produção, havia desaparecido. Ele contou que o projeto revelou os primeiros traços do conflito artístico entre Lennon e McCartney, e o atrito dentro da banda à medida que mais esforço era gasto no aperfeiçoamento de cada canção. Isso também se evidenciou em uma discussão sobre qual canção deveria ser o lado A do próximo single, com John insistindo em "Day Tripper" (a qual ele era o compositor principal) e contradizendo publicamente o anúncio da EMI sobre o próximo lançamento.