Humberto Dionisio Maschio Bonassi (Avellaneda, 10 de fevereiro de 1933 – 20 de agosto de 2024) foi um futebolista ítalo-argentino. Entre seus feitos, foi a primeira pessoa a conquistar a Copa Libertadores da América como jogador e também como treinador,lance.com.br/ Saiba quem ganhou a Libertadores como atleta e técnico inclusive conseguindo um desses títulos pelo Racing e outro pelo rival Independiente.
Apelidado de El Bocha, alcunha comum na Argentina a calvos, também defendeu as seleções de Argentina e Itália (com a qual esteve na Copa do Mundo FIFA de 1962) e se tornou em dezembro de 2022 o mais velho artilheiro da Copa América (por 1957) ainda vivo.
Maschio detém justamente uma das dez melhores médias de gols da seleção argentina - em números oficiais, foram precisamente doze gols em doze jogos. Como jogador, surgiu como um grande definidor, ainda que não atuasse exatamente como um atacante e sim como meia-direita; além do bom arremate, possuía inteligência para se posicionar no local preciso no momento indicado. A essas qualidades incorporou, a partir de sua chegada à Itália, disciplina tática.MACÍAS, Julio. MASCHIO, Humberto Dionisio. Quién es quién en la Selección Argentina, 1 ed. Buenos Aires: Corregidor, 2011, pp. 454-455
Ao final da carreira, mais recuado e sabendo ordenar e habilitar colegas como também pausar a bola quando necessário, exibia estilo mais tarde comparado ao de Juan Román Riquelme,PERUGINO, Elías (fevereiro de 2011). Humberto Maschio. El Gráfico Especial n. 28 - "100 Ídolos de Racing", pp. 46-47 como um jogador estrategista e criativo, de grande compromisso coletivo e bom panorama de jogo. Como treinador, além de trabalhar na dupla de Avellaneda, ele esteve ainda nos quatro principais clubes cordobeses - Talleres, Belgrano, Instituto e o Racing de Córdoba, assim como na dupla equatoriana Barcelona de Guayaquil e LDU Quito.
Jogador Início na Argentina Maschio foi revelado nas categorias de base do extinto Arsenal de Llavallol, onde chegou a conviver com Vladislao Cap, posteriormente seu cunhado. Ambos foram adquiridos em 1953 pelo Quilmes, então na segunda divisão. O Cervecero não subiu, mas Maschio destacou-se com 23 gols na campanha 5ª colocada; um deles, em goleada de 5-1 no Clásico quilmeño com o Argentino de Quilmes. Ao fim da temporada, ele e Cap terminaram contratados pelo Racing.
Ele não chegou a sobressair-se inicialmente, precisando intercalar o clube de Avellaneda com o serviço militar obrigatório; marcou somente um gol em 1954, mas firmou-se em 1955, a ponto de estrear em fevereiro de 1956 pela seleção argentina. Em 1957, Maschio foi um dos grandes destaques do Sul-Americano de Futebol do ano, sendo artilheiro e campeão da competição com a Albiceleste, com nove gols em seis jogos. Quatro desses gols foram no 8-2 sobre a Colômbia. Maschio marcou ainda duas vezes cada em goleadas nos clássicos com o Uruguai (4-0) e Chile (6-2).
No clássico com o Brasil, já escalado com muitos futuros campeões da Copa do Mundo FIFA de 1958, a Argentina venceu por 3-0 em duelo no qual Maschio marcou o segundo gol. No lance, encobriu Castilho. Também participou ativamente do terceiro gol: em cobrança de falta, acionou Antonio Valentín Angelillo, cujo arremate acertou a trave - na sequência, Osvaldo Héctor Cruz aproveitou o rebote para marcar. O jogo garantiu um título por antecipação dos chamados Carasucias de Lima ("Cara-Sujas de Lima"), como foi apelidado o ataque campeão a partir de gíria argentina alusiva à acne típica da juventude dos seus componentes. Dentre eles, Maschio era o mais sacrificado pelo esquema tático, equilibrando a vertigem e o talento dos demais colegas ofensivos, notadamente Angelillo e Omar Sívori. Após o título, a Argentina foi então derrotada pelo anfitrião Peru, após exibição apática creditada à festa pela conquista antecipada; foi a única derrota de Maschio pela seleção.
O sucesso levou ele e os próprios Sívori e Angelillo à Itália;Infiltrador de defesas (novembro de 1999). Placar Especial - "Os Craques do Século". São Paulo: Editora Abril, p. 91 à Itália; por atuarem no estrangeiro, estavam vedados pelo sindicato dos atletas profissionais argentinos de serem convocados pelo país, e acabaram não sendo chamados para a Copa do Mundo de 1958.GEHRINGER, Max (fevereiro de 2006). A geopolítica da bola. Placar Especial - "A Saga da Jules Rimet fascículo 6 - 1958 Suécia". São Paulo: Editora Abril, pp. 10-15 Isso também propiciou para que a estadia de Maschio na seleção fosse breve, limitada basicamente ao um ano, um mês e doze dias entre fevereiro de 1956 e abril de 1957; ainda assim, é o segundo maior artilheiro dela convocado como jogador do Racing, abaixo apenas de Omar Corbatta, outro dos Carasucias.
No futebol italiano
thumb|right|250px|Com o terno da seleção italiana junto com o também argentino Omar Sívori.
Maschio passou por Bologna, Atalanta, Internazionale e Fiorentina. Ainda como jogador do Bologna, chegou a ser emprestado à Inter para enfrentar justamente a Argentina, em amistoso não-oficial usado como preparatório da Albiceleste à Copa do Mundo FIFA de 1958. Em seu primeiro clube, foi escalado fora da posição habitual, usado como centroavante. Acabou tendo mais dificuldades de adaptação do que Sívori e Angelillo, exibindo apenas lampejos de boas atuações, ainda que conseguisse gols sobre Juventus e Inter.
Destacou-se em especial na Atalanta, onde, treinado por Ferruccio Valcareggi, foi recuado para ser trequartista, começando a destacar-se com mais regularidade. A passagem foi creditada pelo próprio Maschio como a que viu seus melhores anos na Itália, chegando a compor o time atalantino dos sonhos eleito na ocasião do centenário do clube. Pela modesta equipe da cidade de Bérgamo, Maschio participou ativamente da terceira melhor campanha realizada por ela no campeonato italiano, o 6º lugar na edição de 1961-62, na qual a Dea também foi semifinalista da Copa Mitropa. Esses feitos o fizeram ser aproveitado pela seleção italiana.
O argentino foi chamado pela Azzurra em contexto emergencial, em função de lesão do astro Giampiero Boniperti, sendo convocado de última hora para a Copa do Mundo FIFA de 1962. Acabou realizando apenas duas partidas como italiano: um amistoso contra a França, em maio, curiosamente enfrentando Héctor de Bourgoing, colega dele pela Argentina campeã de 1957; e no próprio mundial, contra o anfitrião Chile. Maschio havia ido ao torneio ao lado do também argentino Sívori e de outros dois sul-americanos, os brasileiros José João Altafini (o "Mazzola") e Ângelo Sormani. A Itália, porém, acabou eliminada na primeira fase, naquele polêmico jogo com os chilenos - na chamada batalha de Santiago, Maschio, agredido por Leonel Sánchez, chegou a ter fraturado o nariz, em infração que acabou não punida pela arbitragem, além de ser continuamente agredido verbalmente sob insinuações de ser um traidor dos argentinos. A eliminação precoce também limitou as partidas que poderia ter feito pela nova seleção, diante da proibição que a FIFA impôs encerrado o torneio ao uso de naturalizados já utilizados pelos países de origem.
Maschio transferiu-se à Internazionale após a Copa e, treinado pelo também argentino Helenio Herrera, ganhou o campeonato italiano de 1963, em campanha na qual chegou a marcar no Derby della Madonnina com o Milan. Contudo, não se firmou nos nerazzurri; atribuía a falta de espaço a ciúme do próprio Herrera, alguém que preferiria ter mais protagonismo do que seus jogadores. Depois de um ano em Milão, iria para a Fiorentina, novo clube treinado por Valcareggi. Fora duas boas temporadas em Florença, ambas com o 4º lugar na Serie A: na primeira, Maschio marcou gols sobre Inter, Juventus e no Derby dell'Appennino com o campeão Bologna.
Já na segunda temporada, a de 1965-66, Maschio participou ativamente da conquista da Copa da Itália, embora já não estivesse na Viola na ocasião da volta olímpica: combinou com os dirigentes que teria facilitado seu regresso ao Racing desde que contribuísse na classificação à decisão, em semifinais travadas muitos meses antes da final; as semifinais deram-se ainda em fevereiro e a decisão ocorreria apenas em maio. O acordo de cavalheiros terminou cumprido.
Consagrando-se no Racing thumb|right|300px|O Racing campeão mundial em 1967. Maschio é o segundo agachado, da esquerda para a direita.
Sua volta ao Racing chegou a ser inicialmente criticada entre os dirigentes locais, que viam-no como veterano e precisaram ser convencidos pelo treinador Juan José Pizzuti, com quem Maschio trocava cartas; haviam sido colegas como jogadores na década de 1950 na equipe, período em que Pizzuti sagrou-se o segundo profissional com mais gols pelo clube. Maschio reestreou como racinguista já na 6ª rodada do campeonato argentino de 1966.
Naquele torneio, o clube de Avellaneda fez história ao registrar 39 jogos seguidos de invencibilidade, então um recorde na era profissional da competição. A estatística foi tão significativa que o vice-campeão River Plate teria vencido qualquer outro campeonato argentino na década, menos aquele - que, por outro lado, acabaria também sendo o último vencido pela Academia pelos 35 anos seguintes.
Maschio atuou em 31 jogos da campanha campeã argentina de 1966, marcando seis gols (um deles, em Clásico de Avellaneda vencido por 2-0 dentro da Doble Visera do Independiente) e fornecendo outras seis assistências. Em meio àquela trajetória, ele chegou a reaparecer uma vez pela seleção argentina em amistosos preparatórios à Copa do Mundo FIFA de 1966, em junho; foi em jogo considerado não-oficial, contra o clube italiano do Cagliari. Por conta disto, a partida não costuma ser considerada nas estatísticas dele pela seleção, normalmente resumidas ao período de 1956-57.
O título argentino de 1966 da chamada Equipo de José, como era conhecido o elenco treinado por Juan José Pizzuti, também terminou histórico por germinar o time vencedor da Copa Libertadores da América de 1967. Já veterano, Maschio contribuiu com seis gols no torneio continental, cuja final foi alcançada em paralelo a uma campanha finalista também no Torneio Metropolitano - perdido para o Estudiantes de La Plata em escalação mista dos racinguistas, que na semana seguinte começariam a travar as decisões sul-americanas contra o Nacional. Nelas, Maschio alternou bons e apagados momentos - sendo, nos bons, o cérebro dos argentinos; envolveu-se, em especial, no segundo gol da finalíssima, em triangulação pelo meio-campo antes da bola terminar cruzada por Juan Carlos Cárdenas para o artilheiro Norberto Raffo ser habilitado perto do gol.
Meses depois, o time tornou-se o primeiro do futebol argentino a vencer (contra o Celtic) o Mundial Interclubes, gerando um orgulho nacional que rendeu homenagens oficiais até mesmo do Independiente; Maschio teria tido seu melhor desempenho na segunda das três partidas, desdobrando-se contra o mais habilidoso dos adversários, Bobby Murdoch. Em 1968, ele ainda teria novo título, amistoso mas prestigiado, após triunfos sobre o Flamengo e Deportivo La Coruña no Troféu Conde de Fenosa. Os cariocas conseguiriam revanche na Copa Mohamed V de 1968, troféu também amistoso, mas festejado de modo especial justamente por ter sido ganho sobre o então campeão mundial.