O Período Yamato (japonês: 大和時代-Yamato-jidai) na historiografia japonesa compreende o intervalo de tempo marcado pelo primeiro governo centralizado do Japão realizado pela Corte de Yamato. Esse período histórico se inicia a partir do final do Período Yayoi em meados do século III e se encerra no ano de 710 com a realocação da capital nipônica para Kyoto.
Esse período é reconhecido como o responsável pela unificação de grande parte do arquipélago japonês dominado principalmente pela corte estabelecida na região de Nara. Há inúmeras evidências do contato da população desta região com nações vindas do continente como os Chineses e os Coreanos. Consequente a isto o período Yamato também é reconhecido como o período de introdução da religião budista no Japão.
Atualmente as considerações históricas quanto ao período Yamato estão entrando em conflito. Novas pesquisas já trabalham em um processo de revisão quanto a definição da titulação do período. Junto desse processo é possível ver uma nova denominação do período Yamato, agora reformulado quanto a outros dois períodos, sendo respectivamente o período Kofun (250 a 538) e o período Asuka (538 a 710).TAKENAGA, B. S. A divisão histórica japonesa. Estudos Japoneses, [S. l.], v. 7, p. 5-20, 1987. DOI: 10.11606/issn.2447-7125.v7i0p5-20. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ej/article/view/142793. Acesso em: 8 jan. 2021.
Período Kofun thumb|left|180px|Estatueta haniwa do século VI.
Mitos, Origens e Fontes O processo de fundação do reino de Yamato ainda é complexo de ser definido. As principais fontes para investigação desse passado histórico estão nos achados arqueológicos e nas poucas produções de relatos e em crônicas semi-míticas como o Kojiki (Registros de assuntos antigos) e o Nihon Shoki (Crônicas do Japão), quanto aos dois últimos, os registros mais antigos da história japonesa, textos que narram as origens dos homens e dos deuses do Japão. A falta de fontes viáveis leva os pesquisadores do assunto a entrar em dissonância quanto a certos aspectos da história do período.
Estabelecimento dos Yamato O Kojiki relata um processo de migrações para regiões propícias a agricultura saindo da região de Kyushu, além da existência de um reino grande e influente acima – o reino de Yamato. Outros documentos como o Gishi Wajiden (livro que narra a história de Gi uma das dinastias chinesas) e o Wei Zhi colaboram a uma linha de estudo que acredita que a definição das nações do continente para o Wa (nome do Japão para os chineses) referenciava ao reino de Yamato.
O reino de Yamato nasce dentro da região de Nara na ilha principal Honshu, conquista soberania sobre a maior planície fértil do Japão, e se torna o maior e mais poderoso do arquipelágo. No século II, o Japão se desenvolvia como um conjunto de pequenas comunidades desarticuladas, o território estava mergulhado em grandes conflitos internos devido a essa problemática. No século III, porém, uma mulher é escolhida para reinar sobre cerca de 30 “pequenas nações”, essa vitória simboliza o nascimento do reino de Yamato inicialmente governado pela lendária rainha e xamã Himiko a “filha do sol”, o qual sugere ancestralidade direta com a deusa do sol Amaterasu. O Japão nasce com a legitimação do poder, temporal e religioso, do reino que domina as terras férteis. Com isso, fica mais fácil justificar ideologicamente sua hegemonia e conquistar o respeito dos demais clãs e reinos.
As evidências históricas tendem a datar a consolidação do poder do reino de Yamato e a existência de um chefe supremo para o século III ou IV, embora o Kojiki aponte o ano de 660 como o início do reinado do que seria o primeiro imperador humano descendente de Amaterasu e o primeiro da linhagem da casa imperial, chamado Jimmu. Se existiu mesmo um imperador com esse nome, os historiadores ainda não conseguiram descobrir. Sabem, porém, que a classe dirigente japonesa nessa época era composta por grandes proprietários territoriais que dominavam os clãs e que gravitavam em torno de um imperador. miniaturadaimagem|231x231px|O Daisenryō-Kofun, tumba dedicada ao Imperador Nintoku (XVI imperador do Japão), é o túmulo maior do Japão; foi feito no século V e encontra-se na cidade de Sakai, prefeitura de Osaka. Os soberanos do período eram, muito provavelmente, chamados pelo título de ōkimi (“Grandes Reis”), como nos permitem entrever as antigas inscrições em espadas do século V. A ascensão deste reino é paralela ao desenvolvimento do cultivo de arroz e sua expansão pelo território japonês. As largas construções funerárias nas quais os ōkimi eram enterrados continuam sendo os principais testemunhos do surgimento de um governo centralizado nesta época.
Kofun
O contato japonês com a península coreana foi responsável por introduzir no país uma série de práticas inovadoras como alguns rituais sagrados, certas formas de artesanato e antigas formas de práticas funerárias. O vestígio arqueológico mais marcante desse período são os túmulos semelhantes aos da Coréia e do nordeste da Ásia. Esses túmulos, os kofun, guardam os restos mortais de imperadores e aristocratas. São de grandes dimensões e ornamentados, como o do príncipe Nintoku, na região de Nara, que alcança 500 m de largura e 35 m de altura. Os kofun testemunham a riqueza e o poder dos dirigentes de Yamato assim como funcionam de elementos simbólicos de transmissão de poder e de coesão para uma linhagem de governantes.PÉREZ, LETICIA LAFUENTE. Kofun: Una Aproximación Al Megalitismo Japónes. IN: Kokoro: Revista para la difusión de la cultura japonesa, 2171-4959, Nº. Extra 2, 2015 (Ejemplar dedicado a: Japón: identidad de identidades (II) / coord. por Fernando Cid Lucas, Bernardo Santano Moreno) (em Espanhol)https://japanese-wiki-corpus.github.io/history/Kofun%20(tumulus).html
Os kofun simbolizam a mudança de período na história japonesa, saindo do período Yayoi e dos antigos métodos de sepultamento - os funkyubo. Esses diferentes túmulos indicam principalmente uma mudança cultural derivada do contato da população nipônica com os povos do continente. Esses túmulos podiam ter de 40 a 80 metros de largura, tinham formato de fechaduras e normalmente eram cercados por estatuetas de argila chamados de “haniwa”- pequenos objetos confeccionados em barro representando homens com armaduras e espadas, casas, animais, especialmente os cavalos.https://jref.com/articles/haniwa.192/
Em todo o Japão há um total de 161 560 kofun, sendo a província de Hyogo com maior número – 16 577 túmulos.
Área Shiki thumb|350px|Monte Miwa
Durante o primeiro século do período Yamato, a corte provavelmente se encontrava instalada na região de Shiki, no pé do Monte Miwa, uma vez que nessa região foi encontrada uma grande concentração de construções funerárias. A dimensão dessas construções não deixa dúvidas de que se tratavam de construções efetuadas sob um governo forte e centralizado. Esse desenvolvimento é relacionado por muitos autores à ampliação da produção rural por meio de novas tecnologias (introdução do metal, técnicas de irrigação, etc.). Os primeiros reis Yamato eram profundamente relacionados aos deuses (kami), e detinham funções tanto seculares como religiosas (no antigo Japão, a palavra governo – matsurigoto – era relacionada ao culto religioso). Com efeito, como afirma o nihon shoki, acreditava-se que a dinastia real era descendente direta da divindade do Sol (Amaterasu Omikami). O Mt. Miwa, próximo da região Shiki, foi uma região de veneração sagrada que estava vinculada ao governo dos primeiros Yamato. O Nihon Shoki fala de um rei desse período, Sujin, que teria dado importância para os rituais sagrados e os kami. O rei Sujin também teria sido responsável por salvar o reino Yamato de inúmeras calamidades ao apelar aos deuses locais (do Mt. Miwa), de acordo com os relatos míticos do Nihon Shoki. Todas essas observações apontam para o papel fundamental da religião na legitimação dos primeiros reis yamatai.
Área Saki thumb|left|200px|Armadura militar encontrada em um kofun
A partir de meados do século IV, os ōkimi yamato passaram a ser enterrados na região de Saki, a noroeste da atual cidade de Nara. Nessa época, os yamato principiavam um movimento de expansão militar e reafirmação religiosa. O santuário de Isonokami substituiu o Mt. Miwa como centro religioso do reino, e as práticas religiosas e militares se tornam cada vez mais dependentes. O uso de armas de metal e sua presença como oferenda aos deuses nos santuários Saki, além de mitos do Nihon Shoki (como um referente aos filhos da rainha Suinin) indicam essa relação cada vez mais profunda estabelecida entre essas duas esferas.
Kanji
A Escrita chinesa foi introduzida no Japão durante o século IVSeeley, Christopher (2000). A history of writing in Japan. University of Hawai'i Press Ainda hoje a escrita japonesa combina a escrita chinesa (Kanji) com os seus dois outros alfabetos silábicos, o hiragana e katakana.
Hegemonia dos Yamato
Os primeiros séculos da história japonesa são marcados pelo processo de criação de um estado. O reino de Yamato era a região japonesa com contatos mais intensos com as culturas do continente asiático e por isso foi se desenvolvendo, alargando o seu domínio territorial e impondo-se sobre diversas áreas do arquipélago.
É a partir das tentativas de hegemonia política com uma centralização do poder por parte do reino de Yamato que podemos considerar o nascimento do Japão, ou melhor, é nesse momento que reino de Yamato e Japão (o país) passam a se confundir.
Durante o século V o reino Yamato alcança seu maior poderio e atinge seu desenvolvimento máximo. Nessa época foram construídos os principais Kofun, além de sistemas complexos de irrigação e o estabelecimento de formas complexas de controle político. A importação da cultura asiática, entre outras coisas, colabora com o grande desenvolvimento do reino Yamato no século v na agricultura, artes e metalurgia.
O intercâmbio de Yamato com os reinos da Coréia e com a China se estreita. Os japoneses iniciam trocas com os vizinhos do continente, sobretudo com os coreanos. Incorporam as técnicas de tecelagem do brocado, da cerâmica e, através dos coreanos, começam a assimilar a escrita chinesa. Alguns nobres coreanos que haviam perdido espaço com as lutas internas em seu território foram recebidos na corte de Yamato, passando a fazer parte significativa das famílias da nobreza desse.DOS REIS QUADROS, M. P. Lealdade visceral: as origens do haraquiri no Japão medieval. Revista Historiador, [S.l.], n.1, 2020. Disponível em: https://revistahistoriador.com.br/index.php/principal/article/view/26 Acesso em: 8 jan. 2021.
A área Kawachi-Izumi thumb|left|180px|Elmo encontrado em Kofun
A partir do começo do século V os grandes túmulos reais passam a ser construídos nas regiões do sul de Kawachi e do norte de Izumi. Os maiores túmulos atingiram entre 365 (tumba de Richu) e 486 metros de largura (tumba de Nintoku). O deslocamento do centro político do reino é relacionado pela maior parte dos historiadores à influência exercida sobre a corte por clãs senhoriais do Japão antigo, atuando como ministros do governo ou se unindo à dinastia reinante por meio de uniões matrimoniais.Imamura, Keiji (1996). Prehistoric Japan: New Perspectives on Insular East Asia. University of Hawaii Press.Lee, Kenneth B (1997). Korea and East Asia : the story of a Phoenix. Praeger.