Macúria (; , Makouria; , al-Muqurra) foi o reino núbio localizado no norte do Sudão e sul do Egito. Originalmente cobriu a área junto ao rio Nilo da terceira catarata em algum lugar ao sul Abu Hamade, bem como partes do norte do Cordofão. Sua capital foi Dongola () e às vezes o reino é conhecido pelo nome de sua sede. Quiçá surgiu no , em substituição do Reino de Cuxe centrado em Meroé. Napata, um dos centros do extinto Cuxe, serviu como importante centro político da elite macúria no início de sua existência. Já no , sua capital foi transferida para Dongola.
Pelo fim do , se converteu ao cristianismo, mas no , o Egito foi conquistado pelos exércitos islâmicos. Em 651, um exército árabe invadiu Macúria, mas foi repelido e um tratado, conhecido como Bacte, foi assinado criando uma paz relativa que durou até o . Macúria se expandiu ao anexar seu vizinho setentrional Nobácia, processo iniciado em algum momento após a conquista sassânida do Egito e concluído no reinado do rei Mercúrio. Também manteve estreitos laços dinásticos com Alódia ao sul.
Entre os séculos IX e XI, vivenciou o zênite de seu desenvolvimento cultural: novos edifícios monumentais foram erguidos, a arte de pinturas murais e cerâmica ricamente manufaturada e decorada floresceu e o núbio se tornou língua escrita prevalente. Contudo, crescentes agressões vindas do Egito, disputas intestinas, incursões beduínas e possivelmente a praga e a mudança de rotas comerciais causo o declínio do Estado nos séculos XIII e XIV. Devido a guerra civil de 1365, o reino perdeu muito de seus territórios do sul, inclusive Dongola. Já não existia mais nos anos 1560, quando o Império Otomano ocupou a Baixa Núbia. Ela foi subsequentemente islamizada, enquanto os núbios vivendo montante do e no Cordofão foram arabizados.
Fontes
esquerda|thumb|200px|Tradução em núbio antigo do (), achada em Forte Ibrim. Museu Britânico
Macúria é muito melhor conhecido do que Alódia, mas ainda há lacunas. As fontes mais relevantes à história da área são viajantes e historiadores árabes que foram à Núbia. Os relatos são geralmente problemáticos, pois muitos estavam enviesados contra os cristãos e suas obras geralmente focam apenas nos conflitos militares entre Egito e Núbia. Uma exceção é Ibne Selim de Assuã, o diplomata egípcio que foi a Dongola quando Macúria estava no ápice de seu poder no e deixou um relato detalhado.
Os núbios eram uma sociedade letrada, e grande número de escritos sobreviveram. Esses documentos foram escritos em núbio antigo numa variedade uncial do alfabeto grego com alguns símbolos coptas e alguns símbolos meroíticos. Escritos numa linguagem muito ligada ao moderno nobiin, esses documentos foram decifrados há muito tempo. A vasta maioria lida com religião ou registros legais, mas na coleção de Forte Ibrim, há alguns valiosos registros governamentais.
A construção da represa de Assuã em 1964 ameaçou inundar a metade norte de Macúria. Em 1960, a UNESCO lançou um grande esforço para fazer quanto trabalho arqueológico fosse possível antes da inundação e milhares de especialistas de várias partes do mundo foram chamados. Alguns dos sítios macúrios mais relevantes estudados foram a cidade de Faras e sua basílica, escavada por um time da Polônia; Forte Ibrim, escavada pelos britânicos; e Debeira Ocidental, estudada pela Universidade de Gana, que produziu importante informação sobre a vida cotidiana da Núbia medieval. Todos os sítios estão no que era a Nobácia; o único grande sítio arqueológico em Macúria é a parcialmente explorada Dongola.
História
Período inicial ()
thumb|upright=1.2|Plano do dos túmulos de Tancaci (fim do - primeira metade do VI). Desde então, muitos túmulos novos foram achados, mas muitos não foram escavados thumb|upright=1.2|Enterramento num túmulo no campo de Cassinger Bari (segunda metade do - começo do VI)
No começo do , se não antes, o Reino de Cuxe com sua capital Meroé colapsou. Foi proposto que Macúria, que se constituiu no vale do Nilo entre a terceira catarata e a grande curva da quarta/quinta catarata, já sucedeu Cuxe ali no . Aqui, uma cultura homogênea e relativamente isolada chamada "pré-Macúria" se desenvolveu. Nos séculos IV e V, a região de Napata, situada perto da quarta catarata e que anteriormente era um dos locais mais importantes política e religiosamente em Cuxe, serviu de centro de uma nova elite regional, que era sepultada em grandes túmulos como os de Zuma e Tancaci. Houve um significativo aumento populacional, acompanhado por transformações sociais, resultado na absorção dos cuxitas pelos núbios, um povo que, originário do Cordofão, se assentou no vale do Nilo no . Assim, uma nova sociedade e Estado macúrios emergiram no . No final do V um dos primeiros reis macúrios transferiu a sede do reino ainda em desenvolvimento de Napata para outra localidade rio abaixo, onde a fortaleza de Dongola, a nova sede da corte real, foi fundada e que logo se transformou num vasto distrito urbano. Muitas outras fortalezas foram erigidas junto às margens do Nilo, talvez não para servir propósitos militares, mas para promover a urbanização.
Já à época da fundação de Dongola, contatos foram nutridos com o Império Bizantino. Nos anos 530, o imperador Justiniano encabeçou uma política de expansão. Os núbios eram parte do plano para ter aliados contra o Império Sassânida da Pérsia ao convertê-los à religião cristã. A corte imperial estava dividida em dois grupo, que acreditavam em duas naturezas diferentes de Cristo: Justiniano pertencia aos calcedônios, a denominação oficial do império, enquanto sua esposa Teodora aos miafisistas, que eram fortes no Egito. João do Éfeso descreveu duas missões rivais despachadas à Núbia e a miafisista chegou antes e converteu o Reino de Nobácia, ao norte, em 543. O rei nobácio não permitiu que a missão de Justiniano viajasse mais ao sul, mas o registro arqueológico sugere que Macúria se converteu ainda na primeira metade do . O cronista João de Biclaro registrou que em cerca de 568, Macúria tinha "recebido a fé de Cristo". Em 573, uma delegação macúria chegou em Constantinopla, oferecendo marfim e uma girafa e declarando suas boas relações com os bizantinos. Diferente de Nobácia ao norte (com a qual Macúria pareceu ter tido inimizade) e o Alódia no sul, Macúria abraçou a fé calcedônia. A arquitetura eclesiástica precoce em Dongola confirma a íntima relação mantida com o império, com o comércio florescendo.
Em algum ponto no , Macúria absorveu a Nobácia. Embora existam várias teorias contraditórias, parece provável que isso tenha ocorrido logo após a ocupação sassânida do Egito, presumivelmente durante a década de 620, mas antes de 642. Antes da invasão sassânida, Nobácia costumava ter fortes laços com o Egito e, assim, foi duramente atingido por sua queda. Talvez também tenha sido invadida pelos próprios sassânidas: algumas igrejas locais daquele período mostram traços de destruição e subsequente reconstrução. Assim enfraquecida, Nobácia caiu perante Macúria, estendendo Macúria até Filas perto da primeira catarata. Um novo bispado foi fundado em Faras cerca de 630 e catedrais foram estilizadas em Faras e Forte Ibrim em homenagem à Basílica de Dongola. Não se sabe o que aconteceu com a família real nobácia depois da unificação, mas está registrado que Nobácia permaneceu uma entidade separada dentro do reino unificado governado por um eparca.
Entre 639 e 641, árabes muçulmanos invadiram o Egito bizantino. Um pedido bizantino de ajuda ficou sem resposta dos núbios devido a conflitos com os bejas. Em 641/2, os árabes enviaram a primeira invasão à Macúria. Apesar de não ser claro até que ponto ao sul penetraram, acabaram sendo derrotado. Uma segunda invasão liderada por Abedalá ibne Sade ocorreu em 651/2, quando os atacantes chegaram até Dongola, que foi sitiada e bombardeada por catapultas. Ainda que tenham danificado partes da cidade, não podiam penetrar nas muralhas da cidadela. Fontes muçulmanas destacam a habilidade dos arqueiros núbios em repelir a invasão.
Com ambos os lados sendo incapazes de decidir a batalha a seu favor, Ibne Sade e o rei posteriormente se reuniram e elaboraram o tratado chamado Bacte. De início, era um cessar-fogo que também continha a troca anual de bens (escravos macúrios pelo trigo egípcio, têxteis, etc.), uma troca típica dos Estados do nordeste da África e talvez uma continuação dos termos já existentes entre os núbios e bizantinos. Provavelmente, em tempos omíadas, o tratado foi ampliado, regulando a segurança dos núbios no Egito e dos muçulmanos em Macúria. Enquanto alguns estudiosos modernos veem o Bacte como submissão de Macúria aos muçulmanos, é claro que não era: os bens trocados eram de igual valor e Macúria era reconhecido como um Estado independente, sendo um dos poucos a derrotar os árabes na primeira expansão islâmica. O Bacte permaneceria em uso por mais de seis séculos, não obstante às vezes interrompido devido a invasões mútuas.
thumb|esquerda|Arqueiro núbio segundo manuscrito português do thumb|esquerda|Versão em 3D da Igreja de Dongola. Foi a maior no reino ( 28 x 37,3 x 34,8 m.) e serviu de inspiração para muitas igrejas núbias e etíopes, como aquelas de Lalibela
O foi um período de consolidação. Sob Mercúrio, que viveu no final do e início do VIII e a quem o relato copta de João, o Diácono se refere como “novo Constantino”, o Estado parece ter sido reorganizado e o cristianismo miafisista se tornou o credo oficial. Ele provavelmente também fundou o monumental mosteiro de Gazali (cerca de cinco mil metros quadrados) em Uádi Abu Dom. Zacarias, filho e sucessor de Mercúrio, renunciou à sua reivindicação ao trono e entrou num mosteiro, mas manteve seu direito de proclamar um sucessor. Houve três reis diferentes e vários ataques muçulmanos até antes de 747, quando o trono foi tomado por Ciríaco. Naquele ano, afirma João, o Diácono, o governador omíada do Egito aprisionou o patriarca copta, resultando numa invasão por Macúria e cerco de Fostate, a capital egípcia, após o qual o patriarca foi libertado. O episódio foi referido como "propaganda egípcia cristã", embora ainda seja provável que o Alto Egito estivesse sujeito a campanha macúria, talvez raide. A influência núbia no Alto Egito permaneceria forte. Três anos depois, em 750, os filhos de , o último califa omíada, fugiram à Núbia e pediram asilo a Ciríaco, mas sem sucesso. Em cerca de 760, Macúria quiçá foi visitado pelo viajante chinês Du Huan do Império Tangue.
Zênite ()
O reino estava no auge entre os séculos IX e XI. Durante o reinado de João no início do , as relações com o Egito foram cortadas e o Bacte deixou de ser pago. Com a morte de João, em 835, um emissário abássida chegou, exigindo o pagamento macúrio dos 14 pagamentos anuais que faltavam sob ameaça de guerra se as exigências não fossem atendidas. Assim, confrontado com a demanda de mais de cinco mil escravos, o novo rei Zacarias III "Augusto" teve seu filho coroado, possivelmente para elevar seu prestígio, e enviou-o ao califa em Baguedade para negociar. Sua viagem causou muita atenção. O patriarca siríaco do Miguel descreveu Jorge e seu séquito em alguns detalhes, escrevendo que montava um camelo, empunhava um cetro e uma cruz de ouro nas mãos e que um guarda-chuva vermelho foi carregado sobre sua cabeça, bem como que estava acompanhado por um bispo, cavaleiros e escravos, e à esquerda e à direita havia jovens segurando cruzes. Poucos meses depois de chegar, Jorge, que era descrito como educado e bem-educado, conseguiu convencer o califa a perdoar as dívidas núbias e reduzir os pagamentos do Bacte a uma cadência de três anos. Em 836 ou início de 837, retornou à Núbia. Após retornar, nova igreja foi feita em Dongola, a Igreja Cruciforme, que tinha uma altura aproximada de 28 metros e se tornou o maior edifício de todo o reino. Um novo palácio, o chamado Salão do Trono de Dongola, também foi construído, mostrando fortes influências bizantinas.