José Carlos Pereira Ary dos Santos GOIH (Lisboa, 7 de dezembro de 1936https://observador.pt/opiniao/in-memoriam-de-um-comunista-czarista/ – Lisboa, 18 de janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português.

Célebre poeta e diseur, ficou na história da música portuguesa por ter sido o autor das letras de quatro canções vencedoras do Festival RTP da Canção e, consequentemente, selecionadas para representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção: Desfolhada Portuguesa (1969), interpretada por Simone de Oliveira, Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973), interpretada por Fernando Tordo e Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos. Além disso, assinala-se ainda a sua importante colaboração como letrista de fados e outro tipo de canções interpretados por Amália Rodrigues e Carlos do Carmo.Museu do Fado

Biografia

Infância e juventude Nascido numa família da alta burguesia de origens aristocratas, e o mais velho de quatro irmãos, José Carlos Ary dos Santos iniciou a sua instrução no Colégio Infante de Sagres, nas Laranjeiras, em Lisboa. Contudo, tendo sido afastado por mau comportamento, foi mandado para o colégio jesuíta Nun'Álvares, em Caldas da Saúde, Santo Tirso. Mais tarde regressaria aos estudos em Lisboa, no Colégio de São João de Brito, onde foi um dos primeiros estudantes.

Após a morte da mãe, Ary dos Santos viu publicados, pela mão de familiares, alguns dos seus poemas. Tinha 14 anos e viria a rejeitar esse livro, que considerava de fraca qualidade. O poeta eminente revelaria as suas qualidades em 1954, ao ser incluído na Antologia do Prémio Almeida Garrett.

Pela mesma altura, incompatibilizado com o pai, sobretudo pela vivência da homossexualidade do poeta, abandonou a casa da família.

Entretanto, ainda frequentou as Faculdades de Direito e Letras, mas nunca acabou os cursos.

Atividade profissional Para seu sustento económico, Ary exerceu variadas actividades; foi, nomeadamente, vendedor e empregado de escritório, até se estabelecer no ofício de redator de publicidade, colaborando com diversas empresas.

De resto, na sua época, nessa época, escritores como Alves Redol, Alexandre O’Neill, Urbano Tavares Rodrigues, Luís Sttau Monteiro ou Orlando da Costa emprestariam o seu talento poético a um setor publicitário emergente, criando slogans que ficaram na memória dos portugueses.

Ary dos Santos colaborou com a LPE Morrison, a Zeiger, a Suíço-Português e a Espiral.

Na Espiral, onde inciou colaboração em 1970, criou slogans reconhecidos como «Minha Lã, Meu Amor», para a Woolmark, «Knorr é naturalmente melhor», para a Knorr, ou «Mais seguro, mais futuro», cujo cliente era o Grémio Nacional dos Seguradores.

Outro slogan que permaneceu durante anos foi o de um purificador de hálito, que Ary terá criado a meio de uma reunião, «Halazon, a melhor invenção depois do beijo», e também «Cerveja Sagres, a sede que se deseja».

Atividade literária e cívica A estreia literária efetiva de José Carlos Ary dos Santos dá-se com a publicação de A Liturgia do Sangue (1963).

Em 1969 adere ao Partido Comunista Português, com qual participa activamente nas sessões de poesia do então intitulado Canto Livre Perseguido.

Através da música, Ary dos Santos conquistará o grande público, concorrendo, por mais que uma vez, ao Festival RTP da Canção, sob pseudónimo, como exigia o regulamento. Classificar-se-ia em primeiro lugar com as canções Desfolhada Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973), interpretada por Fernando Tordo e Portugal no Coração (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos.

Com Fernando Tordo escreve mais de 100 poemas para canções do músico e o duo Tordo/Ary continua a ser, até hoje, um dos mais profícuos da História da Música Portuguesa. São de sua autoria canções intemporais, como Tourada, Estrela da Tarde, Cavalo à Solta, Lisboa Menina e Moça, O amigo que eu canto, Café, Dizer Que Sim à Vida, Rock Chock, Meu amigo está longe.

Estas canções foram interpretadas por cantores como Fernando Tordo, Carlos do Carmo, Mariza, Amália Rodrigues, Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho. Alguns dos maiores sucessos deste último, como Os Putos, Lisboa Menina e Moça e Quando Um Homem Quiser foram com poemas de Ary dos Santos.

Também Carlos do Carmo cantou Lisboa, menina e moça, Os putos, e outras letras de Ary, sendo de destacar o seu álbum antológico Um homem na cidade, composto por 12 temas, todos com letra do poeta, aliados a um conjunto de composições inovadoras; entre eles, além de Um homem na cidade, refiram-se Fado do Campo Grande, Nova feira da ladra, Namorados de Lisboa, Fado varina ou Balada para uma velhinha. Além dessas, Estrela da tarde, Menor/Maior, Sonata de outono ou Novo fado alegre são igualmente temas de referência na carreira do fadista, escritas por Ary dos Santos.

Após o 25 de Abril, torna-se um activo dinamizador cultural da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. No Verão Quente de 1975, juntamente com militantes da UDP e de outras forças radicais, envolve-se no assalto à Embaixada de Espanha, em Lisboa.

Autor de mais de 600 poemas para canções, Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes. Notabilizou-se também como declamador, tendo gravado um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira. À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz - Rua da Saudade, que pretendia ser uma autobiografia romanceada.

Vida pessoal miniaturadaimagem|imagem de divulgação Homossexual assumido, a sua orientação sexual teria sido a causa principal da sua saída de casa com apenas 16 anos, zangado com a família, e de começar a trabalhar nessa idade para se sustentar.

Ary dos Santos deixou poucos poemas onde abordasse o tema da homossexualidade. Tem poemas sobre Rimbaud, António Botto e Cesariny e outro raro exemplo como o poema Meu Amigo Está Longe. O amigo que estava longe era um soldado de quem Ary dos Santos gostava e que tinha partido para a guerra do Ultramar.

Falecimento e legado thumb|Placa na casa onde Ary dos Santos viveu e morreu Homem de personalidade forte e de apetites excessivos, grande fumador e bebedor, Ary dos Santos acabaria por adoecer de cirrose, vindo a morrer com apenas 47 anos a 18 de Janeiro de 1984, em sua casa na Rua da Saudade, n.º 23, R/C direito, em Alfama, Lisboa.

Por testamento, instituiu como seu herdeiro universal o Partido Comunista Português.

O seu nome foi dado a um largo do bairro de Alfama, descerrando-se uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro. Em 1988, Fernando Tordo editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos Santos na sua infância. Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade — canções de Ary dos Santos.

Bibliografia Entre as suas obras encontram-se:

1953 - Asas 1963 - A Liturgia do Sangue 1964 - Tempo da Lenda das Amendoeiras 1965 - Adereços, Endereços 1968 - Insofrimento In Sofrimento 1970 - Fotos-grafias 1970 - Ary por Si Próprio 1973 - Resumo 1974 - Poesia Política 1975 - Lllanto para Alfonso Sastre y Todos 1975 - As Portas que Abril Abriu 1977 - Bandeira Comunista 1979 - Ary por Ary 1979 - O Sangue das Palavras 1980 - Ary 80 1983 - Vinte Anos de Poesia 1984 - As Palavras das Cantigas 1984 - Estrada da Luz 1984 - Rua da Saudade

Homenagens e reconhecimento A 4 de Outubro de 2004 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo.

No dia 4 de junho de 2016 foi inaugurada em Sacavém a Biblioteca Municipal Ary dos Santos.

Família José Carlos Ary dos Santos era filho do médico Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 1905 – Lisboa, 1957) e de sua mulher, Maria Bárbara de Miranda e Castro Pereira da Silva (Vila Nogueira de Azeitão, 1899 – Lisboa, 1950). Era irmão germano de Maria do Rosário de Castro Pereira Ary dos Santos (1938), Maria Isabel Pereira Ary dos Santos (1940) e de Diogo António Pereira Ary dos Santos (1944-1965),Necrologia de Diogo Ary dos SantosZé Carlos Ary dos Santos: um outro olhar Aluno finalista do curso de teatro do Conservatório Nacional e estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Diogo Ary dos Santos, suicidou-se com uma sobredosagem de calmantes, facto que muito desgostou José Carlos Ary dos Santos. e irmão consanguíneo de Ana Maria Granger Ary dos Santos (1953). Seu avô paterno foi o Carlos Ary dos Santos, docente na Faculdade de Medicina de Lisboa e autor de diversos ensaios na sua área profissional, bem como, sobre numismática e medalhística.

Ligações externas

Retratos Contemporâneos: Ary dos Santos documentário, Rogério Ceitil, RTP (2002)

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