Maria Clara Amado Pinto Correia (Lisboa, 30 de janeiro de 1960 — Estremoz, 9 de dezembro de 2025) foi uma professora universitária, jornalista, bióloga, escritora e historiadora da ciência portuguesa.
Biografia Filha dos médicos José Manuel Duarte Pinto Correia (Tremês, Santarém, 22 de abril de 1931 — 14 de setembro de 1988), gastroenterologista e professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa, Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada a título póstumo a 10 de Junho de 1991, e Maria Adelaide de Carvalho Amado da Cunha e Vasconcelos. Era a segunda de quatro irmãs: Rosário Pinto Correia (1958), Clara, Teresa Pinto Correia (1962) e a jornalista Margarida Pinto Correia (1966). Com a irmã, Margarida, estreou-se jovem no teatro, no grupo Tira o Dedo do Croquete, onde encenou, dirigiu e escreveu.
Viveu vários anos da sua infância em Angola, onde o pai, o professor de Medicina José Pinto Correia, foi obrigado a cumprir serviço militar como médico durante a Guerra colonial (Guerra do Ultramar). Aí lhe nasceu a paixão pela Biologia. Foi uma excelente aluna, primeiro frequentou o Liceu Francês Charles Lepierre, depois o Liceu Rainha D. Leonor.
Como escritora, foi autora de uma vasta obra, que iniciou em 1983. O seu mais conhecido romance é Adeus, princesa, que publicou aos 25 anos de idade, no qual retrata a alma da juventude do Alentejo no final da tentativa de Reforma agrária. Tem meia centena de títulos publicados, incluindo ficção, literatura infantil, ensaios, biografia, crónicas de opinião, divulgação científica e estudos de História da ciência. Em 2024, publica Antares aquele que viria a ser o seu último livro publicado em vida.
Foi casada com o escritor António Mega Ferreira, com o académico norte-americano Dick (casados em Las Vegas, em 1995, e com quem adotou dois filhos, à data com seis e sete anos) e com o fotojornalista Pedro Palma, que em 2010 organizou uma exposição no Centro Cultural de Cascais intitulada Sexpressions, com fotografias do rosto de Clara Pinto Correia no momento do orgasmo, o que provocou à data muita polémica e levou ao fim do casamento de ambos.
Em 2017, recebeu o Prémio Mulher Empreendedora, no domínio da literatura.
Através da sua amizade com o curador de arte Francisco Lacerda, foi convidada a colaborar como autora convidada para a USIA.CO.UK. Desde 2018, tem escrito textos para as suas exposições, abordando temas como a sexualidade e o uso da cor vermelha na arte contemporânea.https://usia.co.uk/overtherainbow/raphaelkessler
No dia 9 de dezembro de 2025, Clara é encontrada morta pela sua empregada doméstica, na sua casa em Estremoz, para onde se havia mudado há alguns anos, desconhecendo-se ainda a data exacta e as razões da sua morte.
Formação e atividade académica Motivada pelo sonho de um dia vir a ser Park Ranger numa reserva africana (nas revistas que o pai assinava, nomeadamente a National Geographic, fascinavam-na, particularmente as fotos de Jane Goodall com os chimpanzés), Clara Pinto Correia vai estudar Biologia para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Aí termina a licenciatura em 1984. No ano seguinte integra o corpo docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa como assistente estagiária de biologia celular e histologia e embriologia e, simultaneamente, como doutoranda no Laboratório de Biologia Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência, em ambos os casos sob orientação do professor J. David-Ferreira. Deixa-se ficar aí até 1989, ano em que vai para o Estados Unidos como visiting scientist do laboratório de Sabina Sobel, na Universidade de Nova Iorque em Buffalo para execução do projeto de doutoramento.
Em Outubro de 1992, foi-lhe conferido, com distinção e louvor por unanimidade, o grau de Doutor em Biologia Celular pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto. Regressa aos EUA, agora como postdoctoral fellow no laboratório de James Robl, no Department of Veterinary and Animal Sciences da University of Massachusetts at Amherst, para desenvolver um projecto de investigação relacionado com as interacções nucleo-citoplasmáticas na clonagem de embriões de mamíferos. Em 1994 trocou o trabalho de bancada por um contrato de dois anos para fazer uma especialização em História das Ciências no Department of History of Science da Harvard University, e escrever um livro sobre História das Teorias da Reprodução, em ambos os casos sob orientação de Stephen Jay Gould e supervisão de Everett Mendelshon. Publicado o livro "The Ovary of Eve - Egg & Sperm & Preformation", em 1996 regressou a Portugal para criar na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias a licenciatura em Biologia e o mestrado em Biologia do Desenvolvimento. Paralelamente foi contratada como «research associate» de Stephen Jay Gould no Museum of Comparative Zoology da Harvard University, cargo que manteve até 2002, e como «adjunt professor» no Department of Veterinary and Animal Sciences da University of Massachusetts at Amherst, que manteve até 2001. Em 2004 prestou provas de agregação em História e Filosofia das Ciências na Universidade de Lisboa.
Foi professora catedrática da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, onde dirigiu a licenciatura em Biologia e o mestrado em Biologia do Desenvolvimento. Leccionou em ambos os cursos os módulos associados à história do pensamento biológico e à história das teorias da reprodução. Foi também «research associate» de John Murdoch no Department of History of Science da Harvard University e investigadora do Centro de Estudos de História das Ciências Naturais e da Saúde do Instituto Rocha Cabral.
Investigação Biologia
No laboratório do Prof. James Robl na University of Massachusetts, que trabalhava com o objectivo de clonar bovinos transgénicos em grande número, Clara Pinto Correia introduziu novas técnicas de localização de estruturas intra-celulares por imunofluorescência que tinha aprendido durante os seus trabalhos de doutoramento. Era consensual entre todos os cientistas, pois era isso que ensinavam os livros de biologia celular e do desenvolvimento, que o centrossoma que preside à organização do primeiro ciclo celular era de origem materna. Até então o modelo usado era única e exclusivamente o rato e a extrapolação parecia natural. Acontece que Clara Pinto Correia, depois de usar como modelo o coelho, descobriu que o centrossoma que preside à organização do primeiro ciclo celular era de origem paterna. Usando como modelo o bovino obteve os mesmos resultados. Entretanto outros grupos de investigação internacionais à medida que ensaiavam outros modelos chegavam à mesma conclusão. Os livros foram mesmo reescritos.
História das ciências O interesse de Clara Pinto Correia pela História da Biologia vem dos tempos de estudante. Porém, terá sido Stephen Jay Gould o seu guru intelectual, que a levou pelos caminhos da história das ciências. Foi com ele que Clara Pinto Correia fez a sua primeira grande investigação sobre história das teorias da reprodução, na Harvard University que viria a culminar na edição do livro "The Ovary of Eve - Egg & Sperm & Preformation". Esta investigação levou-a a fazer a sua segunda grande descoberta, sobre a história da preformação. Tudo começou com o pressuposto de que os preformacionistas do século XVII tinham desenhado pessoas pequeninas enroscadas dentro do núcleo do espermatozóide. E estas pessoas tinham até um nome. Eram os "homúnculos". Porém, quando Clara Pinto Correia começou a investigar as fontes, nomeadamente o precioso Traité de Dioptrique de Nicholas Hartsoeker (1694), não encontrou o termo em lado algum. A investigadora acabaria por concluir que o termo "homúnculo" nunca foi usado pelos preformacionista dos séculos XVII e XVIII mas trata-se antes de uma invenção da literatura secundária dos anos 1930. Esta descoberta, modesta na sua grandiosidade pois não salvou vidas nem deu a paz ao mundo, acabaria por obrigar a uma revisão dos livros de texto. Um deles foi o conhecido Developmental Biology de Scott Gilbert que na sua 4ª edição apresentava o famoso espermatozóide de Hartsoeker com o seu "homúnculo" em posição fetal, mas que na edição seguinte já tinha segregado o termo "homúnculo".
Clara Pinto Correia foi investigadora responsável pelo projecto MAPA MUNDI - O impacto das viagens imaginárias na organização do pensamento ocidental (sécs. XIV-XVIII), a decorrer no Centro de Estudos de História das Ciências Naturais e da Saúde do Instituto Rocha Cabral. Este projecto visava proceder a uma análise inter-disciplinar (Ciências naturais/Estudos do género/Psicologia/Tradição oral portuguesa/Cartografia) de quatro grandes clássicos europeus da narrativa de viagens, como "As viagens de John Mandeville", "O Livro do Infante D. Pedro" de Gil de Santisteban, a Terra Austral Conhecida, de Gabriel de Foigny, e o Suplemento à viagem de Bougainville, de Denis Diderot.
Em 2011, mudou-se para os Estados Unidos para estudar técnicas de reprodução assistida no ser humano, de que resultou a publicação de Fear, Wonder, and Science in the New Age of Reproductive Biotechnology, em coautoria com Scott Gilbert.
Principais publicações em Biologia Livros
1987 - O essencial sobre os bebés-proveta. I.N.C.M. 1988 - Histórias Naturais. O Jornal (reeditado pela Publicações d.Quixote em 1992 e pela Relógio d'Água em 1999) 1988 - Don't let my baby like me. em co-autoria com A.G.M.Campbell, Hiroko Kawashima e Ebun O. Ekunwe. Hastings Center 1990 - Portugal animal. Publicações D.Quixote (reeditado pela Círculo de Leitores e pela Relógio d'Água) 1997 - Clonai e multiplicai-vos. Texto Editora 1999 - Clones humanos - a nossa autobiografia colectiva. Relógio d'Água
Artigos
1990 - Pinto-Correia, C.; Goldstein, E.G.; Bennet, V. & Sobel, J.S. Immunofluorescence localization of an adducin-like protein in the chromosomes of mouse oocytes. Developmental Biology, 146: 301-311 1992 - Collas, P.; Pinto-Correia, C.; Ponce de Leon, F.A. & Robl, J.M. Effect of donor cell cycle stage on chromatin and spindle morphology in nuclear transplant rabbit embryos. Biology of Reproduction, 46: 501-511 1993 - Pinto-Correia, C.; Collas, P.; Ponce de Leon, F.A. & Robl, J.M. Microtubule and chromatin configurations in the first cell cycle of rabbit parthenotes and nuclear transfer embryos. Molecular and Development, 34: 33-42 1993 - Long, C.R.; Pinto-Correia, C.; Duby, R.T.; Ponce de Leon, F.A.; Boland, M.P.; Roche, J.F. & Robl, J.M. Sperm aster formation and the cell cycle in monospermic and polyspermic cow zygotes. Molecular Reproduction and Development, 36: 23-32 1994 - Pinto-Correia, C.; Poccia, D.L.; Chang, T. & Robl, J.M. Dephosphorylation of sperm midpiece antigens triggers aster formation in rabbit oocytes. Proc. Nat. Acad. Science, 97: 7894-7898 1994 - Long, C.R.; Damiani, P.; Pinto-Correia, C.; MacLean, R.A.; Duby, R.T. & Robl, J.M. Morphological features of in vitro matured bovine oocytes following fertilization and subsequent development in culture under varying conditions of fertilization. Journal of Reproduction and Fertility, 102: 361-369 1995 - Pinto-Correia, C.; Long, C.L.; Chang, T. & Robl, J.M. Factors involved in nuclear reprogramming during early development in the rabbit. Molecular Reproduction and Development, 40: 292-304 1995 - Sobel, S.; Pinto-Correia, C. & Goldstein, E. Identification of an M.60.000 Polypeptide Unique to the Meiotic Spindle of the Mouse Oocyte. Molecular Reproduction and Development, 40: 467-480 1995 - Collas, P.; Pinto-Correia, C. & Poccia, D.L. Lamin dynamics during sea urchin fertilization make pronuclear formation in vitro. Experimental Cell Research, 219: 687-698 1995 - Fissore, R.A.; Pinto-Correia, C. & Robl, J.M. Mechanism of calcium oscillations in fertilized rabbit eggs. Biology of Reproduction, 53: 766-774
Principais publicações em História das ciências Livros