Alexandre III (em russo: Александр III Александрович Романов, romanizado: Aleksandr III Aleksandrovich Romanov; São Petersburgo, – Palácio de Livadia, ), foi o penúltimo Imperador da Rússia, Rei da Polônia e Grão-Duque da Finlândia de 1881 até sua morte, tendo imperado no país durante um período de 13 anos, sendo o segundo filho do imperador Alexandre II com a esposa, a imperatriz Maria Alexandrovna. Alexandre era inflexivelmente conservador e reverteu várias das reformas liberais realizadas por seu pai.
Biografia Alexandre nasceu em São Petersburgo, sendo o segundo filho do czar Alexandre II da Rússia e da sua esposa Maria Alexandrovna.
Em personalidade tinha poucas semelhanças com o seu pai (de coração mole e liberal) e ainda menos com o seu tio-avô Alexandre I, conhecido por ser requintado, filosófico, sentimental e gracioso. Apesar de ser um apreciador entusiástico de ballet, ao czarevitch Alexandre Alexandrovitch faltavam o requinte e elegância necessários a membros da realeza. De fato, Alexandre orgulhava-se do fato de ser feito da mesma textura forte que caracterizava a maioria dos seus súditos. A sua honestidade cega, modos abruptos temperados por vezes de mau-humor, encaixavam-se perfeitamente na sua estatura gigantesca. Alexandre era também conhecido pela sua grande força física. A sua educação não foi dada no sentido de suavizar estas características.
Talvez o testemunho do artista Aleksandr Benois descreva bem a personalidade de Alexandre III: thumb|left|Alexandre III durante a sua juventude, por Sergey Lvovich Levitsky|229x229px
Educação miniaturadaimagem|Alexandre III e sua família. Durante os primeiros vinte anos da sua vida, Alexandre tinha poucas perspectivas para suceder ao trono russo, uma vez que tinha um irmão mais velho (o czarevich Nicolau Alexandrovich) que parecia ter uma saúde e textura fortes. Mesmo quando o seu irmão mostrou os primeiros sinais de que a sua saúde se estava a deteriorar, a possibilidade de que o herdeiro poderia morrer nunca foi levada a sério. Nicolau ficou noivo da gentil princesa Dagmar da Dinamarca em 1864.
Sob estas circunstâncias, os maiores esforços de educação foram dirigidos para Nicolau e Alexandre recebeu apenas a formação básica dada a um grão-duque da época, que não ia além de uma educação secundária com uma formação básica em línguas como o francês, o inglês e o alemão e muita prática militar.
Herdeiro aparente Alexandre tornou-se herdeiro aparente ao trono (czarevich) depois da morte súbita do seu irmão mais velho em 1865. Foi a partir dessa altura que começou a estudar os princípios das leis e administração sob a orientação de Constantino Pobedonostsev que era, na época, um professor de direito civil na Universidade de Moscovo e que, mais tarde (em 1880) se tornou Procurador Chefe do Concílio Sagrado.
Pobedonostsev não fez com que o seu aluno se interessasse muito por estudos abstratos ou por dissertações intelectuais extensas, mas influenciou o tipo de reinado de Alexandre III, moldando a mentalidade do jovem para acreditar no zelo da Igreja Ortodoxa Russa, vista como um fator essencial do patriotismo russo.
No seu leito de morte, o irmão mais velho de Alexandre, Nicolau, terá expressado o desejo de que a sua noiva, a princesa Dagmar da Dinamarca, se casasse com o irmão mais novo, o que aconteceu no dia 9 de novembro de 1866. Sendo uma união feliz, monogâmica, e forte até o fim. Pois ao contrário dos seus parentes este nunca teve amantes.
Durante os anos em que o seu pai continuou no trono, Alexandre nunca teve um papel proeminente em público, mas deixou bem claro que tinha as suas próprias ideias e que elas não coincidiam com as práticas do governo de Alexandre II. Mais tarde, pai e filho afastaram-se devido às suas diferenças políticas e também ao ressentimento que o futuro czar sentia pelo pai, devido à longa relação que este mantinha com Catarina Dolgorukov, a sua amante mais antiga, de quem tinha filhos ilegítimos, mesmo enquanto a sua mãe, a imperatriz, sofria de uma saúde frágil.Van Der Kiste, John The Romanovs: 1818–1959 (Sutton Publishing, 2003) p. 94 Para horror de Alexandre e de toda a corte, o czar acabaria mesmo por se casar com a sua amante apenas um mês depois da morte da sua primeira esposa.Van Der Kiste, John The Romanovs: 1818–1959 (Sutton Publishing, 2003) p. 97
Reinado
Política interna No dia do assassinato de Alexandre II, tinha acabado de assinar um decreto que definia a criação de uma comissão consultiva com poderes para aconselhar o monarca. No entanto, quando subiu ao trono, Alexandre III, seguindo o conselho de Pobedonostsev, seu amigo pessoal, decidiu cancelar o decreto antes da sua publicação, deixando bem claro que o sistema de governo autocrático não seria limitado.
Todas as reformas internas levadas a cabo por Alexandre III tiveram como objetivo reverter as políticas liberais que foram implementadas durante o reinado do seu pai. O novo imperador acreditava que, ao manter-se fiel à Igreja Ortodoxa, à autocracia e ao nacionalismo (uma ideologia que tinha sido introduzida pelo seu avô, o czar Nicolau I), iria salvar a Rússia da agitação revolucionária. O ideal político de Alexandre era uma nação composta por uma única nacionalidade, língua e religião, assim como uma única forma de administração. Tentou levar a cabo esta ideia instituindo o ensino obrigatório da língua russa por todo o império, incluindo a súditos alemães, polacos e de outras nacionalidades que viviam na Rússia (com a exceção dos finlandeses), padronizando a Igreja Ortodoxa Oriental, destruindo o que restava das instituições alemãs, polacas e suecas em algumas províncias, e enfraquecendo o judaísmo através da política de perseguição aos judeus; esta legitimada através das "Leis de Maio", proposta pelo conde/ministro Nikolay Pavlovich Ignatyev, publicadas em 1882, que ditava a expulsão dos judeus dos povoados shtetl (permitido apenas nas colônias agrícolas judaicas, 1791-1917) e também restringiu as profissões que estes podiam exercer no Império Russo.
Alexandre enfraqueceu os poderes dos zemstva (assembleias regionais eleitas que tinham um sistema semelhante aos conselhos paroquiais britânicos) e colocou a administração das comunidades camponesas sob a supervisão dos proprietários de terras, nomeados pelo governo. Estes "capitães da terra" (zemskiye nachalniki) eram temidos e odiados por todas as comunidades de camponeses do império. Estas acções enfraqueceram a nobreza e o povo e fizeram com que o imperador se tornasse o controlador pessoal da administração do império.
Todas estas políticas de Alexandre III eram encorajadas por Konstantin Pobedonostsev, que foi o controlador da Igreja na Rússia ao longo do seu longo mandato como Procurador do Santo Sínodo (entre 1880 e 1905) e que se tornou tutor do filho e herdeiro de Alexandre, Nicolau. Tolstoi inspirou-se em Pobedonostsev para criar a sua personagem "Toporov" no romance Ressurreição. Outros conselheiros conservadores incluíam o conde Dmitry Tolstoy, ministro da educação e, mais tarde, da administração interna) e Ivan Durnovo, que sucedeu a Tolstoy como ministro da administração interna. Mikhail Katkov e outros jornalistas também apoiavam a política autocrática do imperador.
Encorajados pelo fato de terem conseguido assassinar o czar Alexandre II, o movimento Naródnaia vólia começou a planejar o assassinato de Alexandre III. A Okhrana descobriu o golpe e cinco dos conspiradores, incluindo Alexandre Ulyanov, irmão mais velho de Vladimir Lenine, foram presos e enforcados a 20 de maio de 1887. A 29 de Dezembro de 1888, o comboio imperial onde seguia Alexandre com a sua família, descarrilou-se num acidente em Borki. No momento em que ocorreu o acidente, a família imperial encontrava-se no vagão restaurante. O telhado ruiu e Alexandre terá segurado os seus destroços para que os seus filhos pudessem fugir para o exterior. Mais tarde, muitos membros da família referiram que foi este episódio que despontou a doença nos rins que viria a matar Alexandre.
A fome de 1891-1892 e a epidemia de cólera que se seguiu contribuíram para o aumento da atividade liberal, uma vez que o governo russo não conseguiu lidar com a crise e teve de dar permissão aos zemstvos para ajudarem os súbditos afetados. Entre outras personalidades da época, Tolstoi ajudou a organizar cantinas de sopa e Anton Chekhov dirigiu programas de prevenção de cólera em várias aldeias.
Relações externas thumb|esquerda|upright=0.8|Alexandre III no seu uniforme,Por Nikolai SverchkovMuseu Russo Alexandre desprezava aquilo que via como influência externa desnecessária em geral e influência alemã em particular, por isso adotou princípios tipicamente nacionalistas e tinha como ideal uma Rússia homogénea em língua, administração e religião. Com tais ideais e inspirações, nunca conseguia concordar com o pai que, apesar de ser também patriota, tinha grandes simpatias com os alemães, utilizando frequentemente a língua alemã em conversas privadas, sendo várias vezes ridicularizado pelos seus exageros e excentricidades e por basear a sua política externa na melhoria das relações com o Reino da Prússia.
Este antagonismo tornou-se público durante a Guerra Franco-Prussiana quando o czar Alexandre II da Rússia apoiou o governo prussiano enquanto o czarevich não escondeu as suas simpatias pelo governo francês. O antagonismo voltou a reaparecer numa moda intermitente durante os anos de 1875-1879 quando a "Questão do Oriente" causou grande entusiasmo entre a sociedade russa. No início, o czarevitch era mais eslavófilo do que o governo, mas a sua natureza pragmática protegeu-o de muitos exageros cometidos por outros e nenhuma das ilusões populares que o possam ter afetado ultrapassaram a sua própria observação da situação na Bulgária onde ele comandou uma parte do exército invasor.
Nunca sendo consultado em questões políticas, Alexandre dedicou-se aos seus deveres militares e cumpriu-os de forma consciente e não agressiva. Após muitos erros e desapontamentos, o exército chegou a Constantinopla e foi assinado o Tratado de São Estêvão, mas muito daquilo que se ganhou com o documento foi perdido no Congresso de Berlim. Otto von Bismarck falhou e não conseguiu cumprir aquilo que era esperado dele em segredo pelo czar.
Em troca do apoio russo, que o tinham ajudado a criar o Império Alemão, pensava-se que ele ajudaria o Império Russo a resolver a Questão do Oriente de acordo com os seus próprios interesses, mas para surpresa e indignação do governo de São Petersburgo, ele preferiu atuar como "separador honesto" no congresso e, pouco depois formou uma aliança com a Áustria com o único objetivo de contrariar os propósitos russos na Europa de Leste.
O czarevitch confirmou assim a posição que tinha mantido durante a Guerra Franco-Prussiana e chegou rapidamente à conclusão de que o melhor para a Rússia era recuperar rapidamente da sua exaustão temporária e preparar-se para uma reorganização radical na marinha e exército. Para apoiar as suas crenças, sugeriu que certas reformas deveriam ser introduzidas.
Vida familiar thumb|direita|upright=1.0|Alexandre III com a sua esposa Maria Feodorovna em 1868 Após o assassinato do seu pai, Alexandre III foi aconselhado a deixar o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, uma vez que seria difícil manter a família em segurança nesse edifício. Assim, Alexandre mudou-se para o Palácio de Gatchina, localizado 30 km a sul de São Petersburgo, que se tornou a sua residência principal. A partir desse momento, as visitas de Alexandre a São Petersburgo começaram a ser raras e sempre acompanhadas de grandes medidas de segurança e, passou a preferir alojar-se no Palácio de Anichkov e não no Palácio de Inverno.