Diversos Atos de violência organizada sucederam-se na Região Metropolitana do Rio de Janeiro da noite de sábado, 20 de novembro, até o dia 27 de novembro de 2010, quando bandidos ligados ao narcotráfico tentaram promover um "arrastão" na Rodovia Rio-Teresópolis — um trecho da BR-116 também conhecido como "Rodovia Rio-Magé" — em Duque de Caxias, causando a morte de um motorista. Durante os ataques e depois, durante as operações, registrou-se que pelo menos 181 veículos teriam sido incendiados pelos criminosos. Nesse período, ocorreram ainda 39 mortes, cerca de duzentas detenções para averiguação e quase setenta prisões. Terra, 28 de novembro de 2010.
Em 24 de novembro, em entrevista ao Jornal Nacional da Rede Globo, o Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, solicitou o apoio logístico da Marinha do Brasil e o Ministro da Defesa Nelson Jobim lhe assegurou esse direito em nome do Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava de viagem à Guiana. Recorrer à Marinha foi uma decisão inédita no país em se tratando de combate ao tráfico e aos criminosos nas favelas. No dia seguinte, o Ministério da Defesa informou que, a pedido do Governo do Rio de Janeiro, seriam enviados oitocentos homens da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército Brasileiro para auxiliarem a polícia no combate aos ataques, além de dois helicópteros e tripulação da Força Aérea Brasileira e dez blindados de transporte. Com a chegada dos militares, as operações se desdobraram em novas estratégias.
No dia 25 de novembro, deu-se a maior ofensiva da Polícia Militar do Rio de Janeiro, com seu Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) atuando ao lado da Polícia Civil do Rio de Janeiro, encabeçada pela Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e em parceria com o Corpo de Fuzileiros Navais, que disponibilizou seis blindados do Batalhão de Blindados de Fuzileiros Navais e um grupamento de fuzileiros navais da mesma unidade para apoio logístico da operação, que resultou na tomada do território da Vila Cruzeiro, região da cidade que até então estava em poder dos narcotraficantes do Comando Vermelho. Cerca de quinhentos policiais além da Força Nacional participaram da ação, que logrou logo com êxito em ocupar o espaço no dia 26 de novembro de 2010.
Durante a ocupação, os narcotraficantes da região puderam escapar para o "Complexo do Alemão", ocupado por uma quadrilha da mesma facção criminosa, numa região constituída pelo conjunto de treze favelas, que foram cercadas pelas polícias civil, militar e federal, com o apoio das Forças Armadas. Em 27 de novembro, de 2010 depois de uma ordem emitida pelos policiais aos envolvidos para que se entregassem "até o pôr do sol", trinta e um traficantes se renderam.
Na manhã do dia 28 de novembro de 2010 as forças de segurança, formadas pela Polícia Militar, através do BOPE, do Batalhão de Polícia de Choque, do Comando de Policiamento Ambiental e demais unidades convencionais, pela Polícia Civil através da Coordenadoria de Recursos Especiais e delegacias especializadas, pela Polícia Federal o Comando de Operações Táticas em conjunto com o Grupo de Pronta Intervenção e o Exército através da Brigada Paraquedista, entraram no conjunto de favelas e assumiram o controle da comunidade em menos de duas horas, prendendo trinta criminosos e apreendendo dezenas de armas e dez toneladas de drogas. A operação começou às oito horas da manhã e às 13h22min as bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro foram hasteadas no alto do teleférico do morro do Alemão. Todo o ocorrido tem sido chamado de Guerra do Rio de Janeiro, e especialistas consideram que esta é uma das maiores operações policiais já realizadas nas favelas da cidade, por conta de suas conquistas e apreensões de drogas e armamentos significativas. A partir de 2011, a área deverá ser ocupada por uma Unidade de Polícia Pacificadora, a fim de pacificar e eliminar o tráfico na região.
Cronologia dos ataques
A onda de violência teve início no dia 20 de novembro, quando um grupo de criminosos, na tentativa de promover um arrastão na Rodovia Rio-Magé (trecho da BR-116), em Duque de Caxias, causou a morte a tiros de um motorista de ônibus.
21 de novembro de 2010
Seis homens portando fuzis abordaram três automóveis na Linha Vermelha, na altura da Rodovia Washington Luís. Dois veículos foram incendiados e um foi abandonado pelo grupo. Em fuga, eles pararam e alvejaram um carro oficial do Comando da Aeronáutica. O governo do Rio informou que havia informações dos serviços de inteligência sobre um plano de ataque, orquestrado por líderes de facções criminosas que estão na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná.
22 de novembro de 2010
Por volta das 22h, uma cabine da Polícia Militar, próxima à Linha Amarela, na região do Jardim América, sofreu um ataque por ocupantes de dois veículos que passaram em alta velocidade, disparando rajadas de tiros. No dia seguinte, outra cabine foi atacada com um tiro, em Irajá, no subúrbio do Rio.
23 de novembro de 2010
Todo o efetivo policial do Rio de Janeiro foi colocado nas ruas para combater os ataques. Foi pedido o apoio da Polícia Rodoviária Federal para fiscalizar as estradas. Ao longo da semana, a Marinha, o Exército e a Polícia Federal a Força Nacional passaram a integrar as forças de segurança para combaterem a onda de violência.
24 de novembro de 2010
thumb|250px|left|Ônibus incendiado (Reprodução de imagens da TV Brasil.)
Segundo o comandante do 3º Batalhão da Polícia Militar, no Méier, um Honda Civic foi queimado, no início da noite, no acesso ao Túnel Noel Rosa. Também na Zona Norte, na Tijuca, os bombeiros foram chamados para controlarem as chamas de um carro incendiado na rua Félix da Cunha. No mesmo bairro, um homem havia sido preso, portando uma garrafa de gasolina, horas antes. Na delegacia, ele confessou que agia a pedido de traficantes do Complexo do Alemão.
Em Del Castilho, uma van foi incendiada. No bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste, um ônibus e uma van foram destruídos. Duas vítimas sofreram queimaduras. Em Anchieta, na Via Light, um ônibus também foi incendiado por bandidos e um passageiro ficou ferido sem gravidade.
A Polícia Militar também confirmou o incêndio de um carro na Favela do Jacarezinho, próximo à avenida Dom Hélder Câmara, no subúrbio do Rio, por volta das 19h30min. Segundo informações, policiais teriam sido recebidos a tiros ao tentarem acessar a comunidade, o que prejudicou a ação dos bombeiros, que só puderam controlar as chamas após o tiroteio.
Às 19h, próximo à estação de trem Presidente Juscelino, em Mesquita, na Baixada Fluminense, um ônibus foi assaltado e depois incendiado por bandidos. Mais tarde, um outro coletivo foi destruído na cidade, dessa vez na Avenida Presidente Costa e Silva, em Edson Passos. Uma cabine da PM foi metralhada e um carro foi incendiado no Jardim América. Criminosos também puseram fogo em um ônibus em Benfica, nas proximidades da comunidade do Arará e de Manguinhos. Ninguém ficou ferido. Um carro e um caminhão foram queimados na Avenida dos Democráticos, em Bonsucesso.
Em Niterói, um carro foi queimado por criminosos, próximo à favela Vila Ipiranga, mas ninguém ficou ferido. Na cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, dois suspeitos de incendiarem um carro foram presos com um galão cheio de gasolina. Eles teriam dito que agiram por ordem de um traficante de uma comunidade local. Um dos criminosos, segundo a polícia, seria da favela Barreira do Vasco, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Quatro carros sofreram ataques de bandidos em Cabo Frio por ordem de traficantes da capital, em uma extensão da onda de violência na região metropolitana. O comércio foi fechado, também por ordem dos criminosos.
25 de novembro de 2010
thumb|Automóvel queimado no bairro das Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro. Reprodução de imagens da TV Brasil (ABr).
Na madrugada do dia 25, pelo menos dois carros foram incendiados na cidade do Rio de Janeiro: um na rua Jornalista Orlando Dantas, do bairro de Laranjeiras, na Zona Sul da capital, e outro na Avenida Ayrton Senna, na Zona Oeste, por volta de 1h42min. Ambos foram controlados pelos bombeiros e não apresentaram feridos. Durante a manhã, criminosos atearam fogo a um caminhão, a um carro e a duas motos na Avenida Brasil, na altura de Barros Filho. Antes, um microônibus havia sido incendiado na Zona Norte, na rua Sampaio Viana, próxima à rua do Bispo, no bairro do Rio Comprido. Os ataques a veículos continuaram durante todo o dia, principalmente nos subúrbios das Zonas Norte e Oeste, embora também haja registros em cidades da região metropolitana, em Macaé, no Norte Fluminense, e em Cabo Frio, na Região dos Lagos. Durante a tarde, a polícia detectou onze ataques em toda a capital.
O trocador de um ônibus incendiado na Tijuca foi ferido em um ataque ocorrido na altura da rua José Higino. Já Santa Cruz foi o bairro que mais sofreu ataques durante todo o dia. No total, cinco veículos foram queimados (um ônibus, duas kombis e duas vans). O estacionamento de um supermercado, em Bonsucesso, foi atingido por uma granada lançada por bandidos, ferindo uma pessoa e danificando dois carros. Na rua Aquidabã, localizada em Lins de Vasconcelos, um carro foi incendiado durante a tarde. No local, houve troca de tiros entre criminosos e policiais, o que levou o comércio a fechar as portas e as pessoas a não saírem de suas casas.
Na Avenida Dom Hélder Câmara, em Benfica, um outro carro foi incendiado. Um veículo e um ônibus também sofreram ataques de bandidos no Cachambi. Outro ônibus foi destruído em Costa Barros. Em São Gonçalo, três bandidos atearam fogo a um ônibus, no bairro Porto Velho. Um deles foi preso pela polícia. Também na Estrada de Santa Isabel, mais um coletivo foi incendiado. Nesse caso, testemunhas acusaram motoristas de vans de se aproveitarem da situação para promoverem ataques a ônibus, seus concorrentes no transporte da população.
Em Macaé, município do Norte Fluminense, a mais de 180 km da capital, um ônibus foi destruído por criminosos, no bairro Lagomar. Na cidade, um homem morreu e dois ficaram feridos em troca de tiros com a polícia, na comunidade de Nova Holanda, dominada pelo tráfico de drogas. O Disque-Denúncia, serviço telefônico de combate ao crime disponibilizado à população para fazer denúncias da atividade de criminosos, bateu o recorde de chamadas, na quinta-feira, totalizando 1.042 atendimentos somente nesse dia. Esse dado confirma a adesão dos habitantes do Rio à repressão ao crime organizado na cidade.
Duzentos policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) entraram na vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. No entanto, muitos traficantes fugiram para o Complexo do Alemão.
26 de novembro de 2010
thumb|left|O Complexo do Alemão, zona para onde o bando de Vila Cruzeiro fugiu após a Marinha apoiar a polícia.
Na manhã do dia 26, por volta das 9h50m, policiais do BOPE invadiram lentamente o Complexo do Alemão, enquanto outros fizeram "varredura" e busca na parte de baixo da Vila Cruzeiro. Segundo o titular da 26º DP (Todos os Santos), Jader Amaral, o objetivo do cerco era evitar a saída de criminosos que fugiram da Vila Cruzeiro para o Morro do Alemão. Por volta da 10h30m da manhã, um policial militar levou um tiro de raspão na cabeça enquanto acessava o complexo, na Estrada do Itararé, e imediatamente foi socorrido e levado ao hospital ainda consciente.
Com a chegada dos paraquedistas, as operações se desdobraram em dois comandos distintos: o primeiro, continuando por responsabilidade da secretaria de segurança pública do estado, com o auxilio da Marinha para as incursões, como já vinha sendo, e o segundo por parte do Comando Militar do Leste, patrulhando todos os caminhos (cerca de quarenta) que dão acesso aos morros da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão.