A Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção, também chamada Catedral de Mariana ou Catedral da Sé de Mariana, é uma catedral católica situada em Mariana, Minas Gerais. É a sede da Arquidiocese de Mariana. A igreja tornou-se catedral da recém-criada Diocese de Mariana em 1745 e possui o título de basílica menor desde 1963.
O edifício atual desenvolveu-se a partir de uma igreja matriz do início do século XVIII. A fachada sóbria, ladeada por duas torres, abriga retábulos entalhados e dourados de diferentes fases do barroco brasileiro, pintura no forro da capela-mor, cadeiral e um órgão de tubos do século XVIII. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou a catedral e seu acervo em 1939. O templo foi reaberto em dezembro de 2022, depois de permanecer quase sete anos fechado para obras de conservação.
Histórico
Igreja matriz
O núcleo minerador do Ribeirão do Carmo possuía uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo quando a paróquia foi constituída em 1704. O minerador português António Pereira Machado havia construído outra capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, em 1703. Quando o Ribeirão do Carmo foi elevado a vila em 1711, a segunda capela foi escolhida como igreja matriz.
Os planos para uma igreja maior estavam em andamento em 1714. Jacinto Barbosa Lopes dirigiu a campanha de construção, que incorporou a capela anterior como sacristia. A nave e a capela-mor foram concluídas em grande parte entre 1716 e 1718, com estruturas de madeira e terra. Cinco retábulos estavam instalados em 1724. José Martins e Manuel de Sousa e Silva concluíram a talha e o douramento do altar-mor em 1727.
A estrutura logo precisou de reparos. António Coelho Fonseca reconstruiu a fachada e ergueu as torres a partir de 1734. José Coelho de Noronha trabalhou nos retábulos laterais entre 1744 e 1751. A talha corresponde a diferentes fases do barroco português, desde as colunas torsas e arquivoltas concêntricas do Estilo Nacional Português até as formas mais escultóricas adotadas durante o reinado de João V de Portugal.
Catedral e basílica
miniaturadaimagem|A catedral e a Praça da Sé
O papa Bento XIV criou a Diocese de Mariana em 6 de dezembro de 1745, pela bula Candor lucis aeternae. A antiga matriz tornou-se a catedral da diocese e recebeu a invocação de Nossa Senhora da Assunção. Um alvará de João V de Portugal, expedido em 2 de maio de 1747, instituiu o cabido da catedral. O documento estabeleceu quatro dignidades, dez cônegos, mestre de capela, organista, capelães, moços do coro e outros oficiais. O primeiro bispo, Manuel da Cruz, tomou posse solene em dezembro de 1748.
A catedral foi adaptada às novas funções cerimoniais. O trono episcopal e o cadeiral do cabido foram instalados na capela-mor. As irmandades do Santíssimo Sacramento e da Imaculada Conceição deixaram a capela-mor e passaram a utilizar novos retábulos próximos ao cruzeiro. As obras realizadas de 1751 a 1761 acrescentaram a capela do Santíssimo Sacramento e novos rebocos, forros, pinturas internas e douramentos. Manuel Rabelo de Sousa pintou o forro da capela-mor em 1760 e dourou os altares laterais. António José da Fonseca executou os balaústres da nave e a grade do coro.
José Pereira Arouca manteve uma oficina na catedral durante 26 anos na segunda metade do século XVIII. Os contratos preservados abrangem trabalhos no órgão, na pia batismal, nas torres, na sacristia e na casa do consistório. As paredes de terra e o terreno úmido exigiram reparos repetidos. As paredes externas foram reconstruídas em pedra e cal no fim do século, com a manutenção da forma anterior da fachada.
A Diocese de Mariana foi elevada a arquidiocese em 1.º de maio de 1906. O arcebispo Oscar de Oliveira dedicou a catedral em 15 de julho de 1963. O papa Paulo VI concedeu-lhe o título de basílica menor em 27 de novembro, pelo breve apostólico Erga almam Deiparam.
Arquitetura e arte
miniaturadaimagem|A nave em direção à capela-mor miniaturadaimagem|O retábulo-mor
A fachada possui um corpo central largo entre duas torres sineiras quadradas. Uma porta central abre-se sob três janelas de verga reta do coro, e um frontão triangular encerra o corpo central. John Bury situou o projeto na tradição da arquitetura chã, forma sóbria do maneirismo português adotada nas primeiras igrejas de Minas Gerais.
No interior, a nave central é ladeada por corredores estreitos que dão acesso aos altares laterais. Capelas junto ao cruzeiro formam um transepto pouco profundo, e um grande arco-cruzeiro enquadra a capela-mor. A talha foi executada em campanhas distintas, por isso retábulos do barroco inicial convivem com peças joaninas e rococós. O retábulo lateral mais antigo conserva uma imagem de São João Evangelista, um dos oragos da antiga matriz.
O retábulo-mor pertence à primeira fase da construção. Seu trono entalhado foi perdido. A abertura é ocupada por uma grande pintura da Imaculada Conceição, datada do início do século XVIII e referente à antiga invocação da igreja. A mudança de orago também alterou o cruzeiro. Imagens da Imaculada Conceição e de São José ocupam retábulos dispostos em diagonal junto ao arco-cruzeiro.
O forro da nave não conserva sua primeira composição pictórica. Um medalhão do rococó tardio mostra a Assunção entre anjos, sob as armas do Império do Brasil. Na capela-mor, a pintura realizada por Manuel Rabelo de Sousa em 1760 mostra clérigos canonizados em meio a uma cúpula imaginária e arquiteturas pintadas. A obra integra um grupo de forros em perspectiva produzidos em Minas Gerais por pintores formados em métodos do norte de Portugal. Abaixo da pintura, o cadeiral entalhado possui pequenos painéis à maneira chinesa.
Motivos chineses também cobrem a caixa do órgão e a face interna do tapa-vento da entrada principal. O tapa-vento e a tampa entalhada da pia batismal são atribuídos a Francisco Vieira Servas. José Pereira Arouca executou a bacia de pedra. Um painel do Batismo de Cristo no batistério é atribuído a Manuel da Costa Ataíde.
Órgão
miniaturadaimagem|O órgão de tubos do século XVIII
A catedral recebeu seu órgão de tubos de Portugal em 1753, depois que o governador de Minas Gerais solicitou à Coroa um instrumento e um relógio em junho de 1752. A Fazenda Real pagou por sua instalação em setembro de 1753. Manuel Francisco Lisboa projetou e construiu a tribuna lateral sob o coro onde o instrumento foi instalado. O órgão possui 17 registros distribuídos por dois teclados.
O instrumento foi atribuído durante muito tempo ao organeiro hamburguês Arp Schnitger. Sua fachada de três torres segue o modelo norte-alemão conhecido como Hamburger Prospekt, e a caixa se assemelha à do órgão da Catedral de Faro, em Portugal. Nenhuma inscrição ou documento conhecido identifica Schnitger como seu construtor. Gerhard Doderer propôs como autor Johann Heinrich Hulenkampf, antigo assistente de Schnitger que trabalhou em Lisboa. As armas franciscanas na caixa de Mariana e uma data de 1723 deram origem à hipótese de que o órgão tenha sido construído para o Convento de São Francisco de Lisboa. A comparação entre as caixas de Mariana e Faro encontrou o mesmo plano geral, mas mãos escultóricas distintas, sem comprovar a procedência de uma mesma oficina.
O órgão deixou de funcionar em 1937. A Beckerath Orgelbau o restaurou entre 1980 e 1984, com a reposição de tubos, teclados e outras peças ausentes. Uma segunda intervenção, realizada pela Edskes Orgelbau entre 2000 e 2002, recuperou os teclados manuais originais, as dimensões dos tubos e um sistema de afinação do século XVIII. O instrumento foi desmontado outra vez quando a catedral fechou em 2016. Durante a remontagem, em 2022, foram encontrados danos causados por cupins nos someiros. Frédéric Desmottes restaurou essas peças em Cuenca, na Espanha, em 2025. O órgão voltou a ser utilizado em 8 de dezembro de 2025, depois de nove anos sem ser tocado.
Tombamento e restauração
O IPHAN inscreveu a catedral no Livro do Tombo das Belas Artes em 8 de setembro de 1939, sob a inscrição 263 e o processo 75-T-1938. O tombamento abrange o edifício e seu acervo. A catedral também integra o conjunto arquitetônico e urbanístico de Mariana protegido em âmbito federal.
A campanha de obras mais recente começou em janeiro de 2016 por meio do PAC das Cidades Históricas. A intervenção abrangeu estrutura, cobertura, drenagem, instalações hidrossanitárias e acompanhamento arqueológico. Etapas posteriores trataram forros, retábulos, arcos, pinturas, cimalhas, douramentos e iluminação. O IPHAN destinou cerca de 10,6 milhões de reais aos projetos e às obras.
As prospecções pictóricas revelaram uma paleta anterior de bege-claro e vermelho-escuro sob camadas mais recentes. Os moradores escolheram essas cores em audiência pública realizada em março de 2017, por 51 votos a 10. A catedral foi reaberta em 15 de dezembro de 2022.
Galeria
Ver também
Mariana Arquidiocese de Mariana Maneirismo no Brasil Barroco no Brasil Arquitetura colonial do Brasil
Ligações externas
Paróquia Nossa Senhora da Assunção no site da Arquidiocese de Mariana Página do IPHAN sobre a restauração de 2016–2022
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