thumb|290px|O poder de fogo de um couraçado, demonstrado pelo USS Iowa na década de 1980. Um couraçado ou encouraçado é um navio de guerra pesadamente blindado e armado com as peças de artilharia de longo alcance e de maior calibre existentes. Normalmente, os couraçados eram maiores, mais armados e mais blindados que os cruzadores e contratorpedeiros.
O projeto dos couraçados evoluiu, continuamente, de modo a incorporar e adaptar os mais recentes avanços tecnológicos.
Sendo considerados os herdeiros dos navios de linha à vela, do século XVIII, em alguns países, os grandes couraçados eram classificados como navio de linha (Alemão: Linienschiff) ou navio de batalha (Alemão: Schlachtschiff, Inglês: battleship, Italiano: nave da battaglia), ambos sendo abreviaturas do termo "navio de linha de batalha".
O lançamento à água, em 1906, do foi o início de uma revolução nos projetos de couraçados. Os tipos de couraçados subsequentes, projetados sob a inspiração daquele, passaram a ser conhecidos por "dreadnoughts".Massie (1991) p. 471.
Os couraçados eram um poderoso símbolo de domínio naval e de poder de uma nação. Durante décadas, os couraçados foram um fator determinante na estratégia diplomática e militar das potências que os possuíam.Sondhaus, L. Naval Warfare 1815–1914, . A corrida global às armas, em termos de construção de couraçados, foi uma das causas da Primeira Guerra Mundial, na qual se deu a Batalha da Jutlândia, um recontro entre as enormes frotas de couraçados britânica e alemã, considerado como a maior batalha naval da história. Os tratados internacionais de limitação de armamento naval, das décadas de 1920 e de 1930, limitaram o número de couraçados, mas não pararam com a sua evolução. Tanto os Aliados como as Potências do Eixo desenvolveram couraçados durante a Segunda Guerra Mundial.
Apesar de tudo, alguns historiadores e estrategas navais questionam o valor dos couraçados. A Batalha de Tsushima, entre as marinhas russa e japonesa, em 1905, foi o único confronto decisivo entre frotas de couraçados e um dos poucos ocorridos, para além da indecisiva Batalha da Jutlândia.Herwig pp. 35, 41, 42.Mahan 1890/Dover 1987 pp. 2, 3. Apesar dos seus enormes poder de fogo e proteção, os couraçados foram-se tornando, cada vez mais, vulneráveis a armas simples e baratas: inicialmente o torpedo e a mina marítima e, depois, a aeronave e o míssil. O aumento da distância de enfrentamento nos combates navais levou ao desenvolvimento do porta-aviões que substituiu o couraçado como o principal tipo de navio de linha, durante a Segunda Guerra Mundial.
Durante a Guerra Fria, apenas a Marinha dos EUA manteve alguns dos seus couraçados em serviço, usando-os em missões de apoio de fogo contra alvos em terra. Os últimos couraçados dos EUA foram abatidos ao serviço em março de 2006.
Navios de linha thumb|300px|O navio de linha a vapor francês Le Napoléon - 1850.
Um navio de linha era um grande navio de guerra à vela, construído em madeira, não blindado, com duas ou três batarias cobertas, nas quais eram montadas entre 50 e 120 peças de artilharia. O navio de linha resultou de uma evolução gradual de um projeto básico com origem nas naus desenvolvidas pelos Portugueses no século XV. À parte do crescimento em tamanho, o navio de linha pouco mudou entre a adopção da tática de linha de batalha no início do século XVII e o final da marinha de guerra à vela, na década de 1830. No final do século XVIII, o termo completo "navio de linha de batalha" foi abreviado, em alguns países, para "navio de batalha"."battleship" (Navio de Guerra) The Oxford English Dictionary. 2nd ed. 1989. OED Online. Oxford University Press. 4 de abril de 2000.
O disparo de todas as peças laterais de um navio de linha à vela permitia-lhe afundar qualquer embarcação de madeira, esmagando-lhe o casco, destruindo os seus mastros e abatendo a sua tripulação. No entanto, o alcance eficaz das suas peças era de, apenas, algumas centenas de metros e as táticas de batalha dependiam, inteiramente, do vento.
A primeira grande mudança no conceito de navio de linha foi a introdução do vapor como um meio de propulsão auxiliar. A propulsão a vapor foi sendo, gradualmente, introduzida nas marinhas, durante a primeira metade do século XIX, inicialmente nas embarcações menores e, mais tarde, nas fragatas. A Marinha Francesa introduziu o vapor no navio de linha de 90 peças Le Napoleón, em 1850, o primeiro verdadeiro navio de linha a vapor. O Le Napoleón estava armado como um convencional navio de linha, mas as suas máquinas a vapor podiam dar-lhe uma velocidade de 12 nós, independentemente das condições do vento, uma vantagem potencialmente decisiva num enfrentamento naval. A introdução do vapor acelerou o crescimento, em tamanho, dos navios de linha. A França e o Reino Unido foram os dois únicos países a desenvolver esquadras de navios de linha a vapor em madeira. No entanto, alguns outros países, como a Rússia, o Império Otomano, a Suécia, o Reino de Nápoles, a Prússia, a Dinamarca e o Império Austro-Húngaro também dispuseram de alguns exemplares deste tipo de navio.Lambert, Andrew (1984) p. 144–47.
Couraçados primitivos 300px|right|thumb|Couraçado francês La Gloire - 1858. 300px|right|thumb|Couraçado de casamata confederado CSS Virginia - 1861. 300px|right|thumb|Couraçado de esporão italiano Affondatore - 1863. Os primeiros navios couraçados eram navios convencionais de madeira protegida por placas de ferro. Por isso, são ocasionalmente referidos pelo termo inglês "ironclad" (literalmente "vestido de ferro"). O engenheiro francês Dupuy de Lome projetou o primeiro couraçado, o La Gloire, lançado em 1858. Este era um navio de casco de madeira, protegido por uma couraça de ferro, que foi prontamente imitado pelos Britânicos com a sua fragata couraçada HMS Warrior. A Warrior foi totalmente construída em ferro, o que permitiu que se instalassem anteparos estanques para isolar as zonas inundadas em caso de perfuração do casco.
A diferença entre os couraçados franceses e britânicos era o fato de os primeiros terem o casco blindado, enquanto os segundos apenas tinham a bataria e as caldeiras protegidas. Isto deu uma superioridade naval à França, ainda que por pouco tempo. Com a construção do HMS Achilles em 1863, o Reino Unido iniciou a construção de navios com o casco totalmente couraçado.
A necessidade de perfurar a blindagem fez com que os navios fossem armados com peças de artilhara de cada vez maior calibre. Em 1860, as peças mais potentes da Royal Navy eram as de 8 polegadas, que disparavam projeteis de 68 libras, mas quatro anos depois já eram utilizadas peças que disparavam projeteis de 300 libras.
Na Guerra Civil Americana aparece, pela primeira vez, um navio couraçado no qual, as batarias de peças laterais são substituídas por uma torre rotativa com duas peças montadas, o USS Monitor. Este navio será um dos dois protagonistas do primeiro combate da história entre dois navios couraçados, ao enfrentar o CSS Virginia na Batalha de Hampton Roads em 1862. Este último era um navio confederado com um casco em madeira onde foi montada uma casamata blindada. O combate terminou num empate, em virtude de nenhum dos navios conseguir perfurar a blindagem do oponente. A engenharia naval da época retirou muito pouco deste combate, uma vez que ambos os navios eram ingovernáveis em alto mar. No entanto, a partir desse momento, várias nações iniciaram a construção de navios couraçados, principalmente com batarias laterais - como as do Virginia - semelhantes a qualquer navio convencional de madeira de até então.
O único grande aproveitamento da Batalha de Hampton Roads foi a introdução do esporão como arma ofensiva, utilizada pelo Virginia para afundar a corveta USS Cumberland quando esta estava ancorada. Chegaram-se a construir navios cujo armamento principal era o esporão. Um exemplo destes era o couraçado italiano Affondatore, que estava dotado de um grande e forte esporão e armado com duas torres rotativas com peças de 250 mm. No entanto, durante a Batalha de Lissa em 1866 - na guerra contra a Áustria - o Affondatore não conseguiu afundar nenhum navio inimigo, comprovando-se que o esporão só era eficaz contra embarcações imóveis.
Os Britânicos desenvolveram couraçados de bataria central, que tinham a sua artilharia instalada nos bordos, ao centro do casco, protegida por uma forte blindagem. No entanto na fragata couraçada austríaca Erzherzog Ferdinand Max - que afundou, com o seu esporão, na Batalha de Lissa, a fragata couraçada italiana Re d'Itália imóvel por falha mecânica - alterou-se a forma tradicional da montagem da artilharia nos bordos laterais, colocando-se as peças principais na proa. Diversas marinhas do mundo, abandonaram a construção de couraçados de bataria central, trocando-a por navios de torre, monitores ou navios com casamatas nos bordos laterais.
Monitores e couraçados de torre thumb|right|300px|Couraçado norte-americano USS Monitor - 1862. 300px|thumb|right|Couraçado de torre britânico HMS Captain - 1869.
Em 1859, o capitão de mar e guerra britânico Cowper Coles patenteou a sua ideia de uma torre rotativa, construindo para a Dinamarca o KMD Rolf Krake e adiantando-se, assim, ao engenheiro sueco Jan Ericsson que desenharia para os EUA, em setembro de 1861, o USS Monitor e outros navios do mesmo tipo. Posteriormente, em 1864, com base nas ideias de Coles, modificou-se o HMS Royal Sovereign de 3 150 t, construído em madeira, cuja artilharia, originalmente montada nos bordos laterais, foi substituída por quatro torres com cinco peças de 12,5 t de peso, que disparavam projeteis de 300 libras, montadas na linha central do navio.
A torre proposta por Coles apareceu oportunamente, já que o peso das peças de artilharia aumentava rapidamente e, com ele, a dificuldade de as manejar. Os primeiros mecanismos eram simples: uma cremalheira circular engrenada com um pinhão acionado por manivelas, toda a estrutura rodando, tendo como pivô central e ancoragem à coberta um eixo sólido de 4 polegadas. Por sua vez, Ericsson usou, no Monitor, um cabrestante a vapor, atuando através de várias engrenagens até uma roda dentada fixa sobre o eixo central da torre.
O Monitor serviu de inspiração e deu a designação a um tipo de embarcações com as mesmas caraterísticas. Os monitores eram embarcações baixas, desenhadas para a navegação fluvial e costeira e não para o alto mar. Durante a Guerra Civil Americana foram construídas várias classes destes navios, inicialmente fluviais e costeiros, mas, no final da guerra foram lançados os monitores da Classe Miantonomoh, com capacidade de navegação oceânica. Os monitores desta classe não tinham mastros para não causarem obstáculos à sua artilharia, montada em duas torres rotativas, cada uma com peças Dahlgren de 15 polegadas. O USS Miantonomoh atravessou o Atlântico em 1866-1867 e o USS Monadnock circundou a América do Sul para atingir o porto de São Francisco na Califórnia.
Os primeiros navios de torre destinavam-se, também, à defesa costeira. No entanto, em 1863, foram construídos nos estaleiros ingleses de Lairds, os couraçados Tousson e Mounassir para os Estados Confederados da América, que logo foram embargados por pressão diplomática dos EUA e adquiridos pelo Reino Unido. Estes couraçados eram navios para navegação oceânica, ainda que os Britânicos os tenham empregues como batarias flutuantes. Foram rebatizados como HMS Scorpion e HMS Wivern, tendo um deslocamento de 2750 t, com duas torres rotativas, cada qual montando duas peças de 9 polegadas. O problema de projeto destes navios era o fato de as peças interferirem com os mastros. Ainda assim, foi este o projeto que Coles utilizou para desenhar o couraçado peruano Huáscar, o primeiro deste tipo para o alto mar, lançado em 1865.