Erasmo Esteves (Rio de Janeiro, 5 de junho de 1941 – Rio de Janeiro, 22 de novembro de 2022), conhecido artisticamente como Erasmo Carlos, foi um cantor, compositor, ator, músico, multi-instrumentista e escritor brasileiro. Um dos pioneiros do rock no Brasil, nos anos 60 fez parceria com o cantor e compositor Roberto Carlos, compondo várias músicas juntos, que gravavam em seus discos em carreira solo.

Infância e primeiros trabalhos Filho de baianos, Erasmo nasceu no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Sua mãe era mãe solteira, e seu pai desconhecido, ele só veio a conhecer seu pai aos 23 anos de idade. (28/07/2010)

Seus primeiros trabalhos foram aos 10 anos, vendendo revistas usadas numa quitanda e rãs para botequins da vizinhança. Também vendia rolinhas ao primo Raul, para quem também trabalhou colando cartazes quando ele atuou como cabo eleitoral para um candidato a deputado.

Em 1957, para ajudar a mãe, que havia se separado do padrasto de Erasmo e trabalhava muito para pagar as contas, arranjou alguns empregos nos quais pouco durava, incluindo mostrador de imóveis (do qual foi demitido após o chefe descobrir que ele promovia festas nos imóveis cujas chaves possuía), auxiliar de almoxarifado numa loja DeMillus (no qual só compareceu no primeiro dia por não suportar o cansaço), office boy na Cerâmica São Caetano (de onde saiu após flagrar uma secretária e um diretor tendo um caso) e na ACESITA (de onde saiu após o flagrarem cochilando em serviço) e secretário num escritório de advocacia, de onde saiu após começar a desempenhar suas tarefas sem a dedicação do início.

Carreira Primeiros trabalhos: anos 1950-60 Erasmo conhecia Sebastião Rodrigues Maia – que mais tarde ficaria conhecido como Tim Maia – desde a infância. Entretanto, a amizade só viria na adolescência, por meio do gosto de ambos pelo rock and roll. esquerda|miniaturadaimagem|Erasmo Carlos. Arquivo Nacional. Em 1957, Tim Maia montou a banda The Sputniks, junto de Arlênio Lívio Gomes, Wellington Oliveira e Roberto Carlos. Após uma briga entre Tim e Roberto, o grupo foi desfeito. Wellington desistiu da carreira musical e o único remanescente era Arlênio, que, no ano seguinte, resolveu propor a Erasmo e a outros amigos da Tijuca – Edson Trindade (que tocou violão no grupo Tijucanos do Ritmo, em que Tim Maia tocava bateria) e José Roberto, conhecido como "China" – formarem o grupo vocal "The Boys of Rock".

Por sugestão de Carlos Imperial, o grupo passou a se chamar The Snakes e acompanhava tanto Roberto quanto Tim Maia em seus respectivos shows. Roberto precisava de uma letra para a canção "Hound Dog", sucesso na voz de Elvis Presley; Arlênio Lívio apresentou Erasmo a Roberto, afirmando que ele teria a letra, pois era um grande fã de Elvis. Roberto descobriu outras afinidades com Erasmo. Além de Elvis, ambos gostavam de Bob Nelson, James Dean, Marlon Brando, Marilyn Monroe e torciam para o Vasco da Gama.

Quando fazia parte do The Snakes, Tim Maia ensinou Erasmo a tocar três acordes básicos no violão: ré, lá e mi.. O The Snakes chegou a acompanhar o cantor Cauby Peixoto em sua inusitada passagem pelo rock, na gravação de "Rock and Roll em Copacabana", de 1957, e no filme "Minha Sogra é da Polícia" (1958), em que o cantor interpreta a canção "That's Rock" composta por Imperial. Nos tempos da juventude, também conheceu Jorge Ben Jor, na época conhecido como "Babulina", e Wilson Simonal, que também foi agenciado por Carlos Imperial.

Erasmo inicialmente se apresentava somente com seu primeiro nome, mas o via como pobre artisticamente. Tentou então adicionar o sobrenome Esteves, mas achou a combinação pior ainda, vendo-a como "espanholada" e lembrando de quando colegas de escola faziam trocadilhos do tipo "Erasmo esteve aqui". A convivência com Roberto Carlos e Carlos Imperial o fez se interessar por "Carlos", e a decisão foi tomada após ele ler num almanaque que tal nome era considerado especial pelos ocultistas, por suas letras remeterem a lideranças poderosas (C de Cristo, rei dos judeus; A de águia, rainha das aves; R de rosa, rainha das flores; L de leão, rei dos animais; O de ouro, rei dos metais; e S de Sol, rei dos astros).

Uma das primeiras tentativas de alcançar o sucesso foi com Roberto. Após ouvir o calipso "Marina", do cantor ítalo-belga Rocco Granata, Erasmo sugeriu criar uma versão em português com Roberto, uma vez que a canção era sucesso em todos os países onde era lançada. A ideia era apresentá-la ao diretor artístico da RCA Victor. Ao chegarem lá, descobriram que Cauby Peixoto havia tido a mesma ideia e desistiram. Roberto chegou a deixar um disco que havia lançado pela Polydor para apreciação, mas nenhum contrato foi feito e "Marina", com efeito, estourou na voz de Cauby.

Já como Erasmo Carlos, lançou um compacto que seria de grande sucesso, "O Terror dos Namorados", com a novidade do Órgão Hammond de Lafayette, que era seu amigo e da Turma do Bar Divino, na Tijuca. Com a chegada da bossa nova, Erasmo também se deixou influenciar pelo gênero. Roberto chegou a se tornar crooner cantando bossa nova, influenciado por João Gilberto. Nesse período, Erasmo compôs "Maria e o Samba", cantado por Roberto. Antes de seguir carreira solo, Erasmo fez parte da banda Renato e Seus Blue Caps. Participou, junto com Roberto Carlos e Wanderléa, do programa Jovem Guarda, onde tinha o apelido de "Tremendão". Tentava se diferenciar de Elvis embora este fosse seu ídolo. Seus maiores sucessos como cantor nessa fase foram "Gatinha Manhosa" e "Festa de Arromba".

Em 1966, Erasmo compõe com Roberto o sambalanço "Toque o Balanço", gravado por Elza Soares.

Também em 1966, Erasmo, Eduardo Araújo e Carlos Imperial foram acusados de corrupção de menores, sendo, contudo, inocentados. Com o término do programa, entrou em crise, mas conseguiu se recuperar com a ajuda de seu parceiro Roberto Carlos e de sua esposa, Narinha. Nessa fase de transição fez sucesso cantando "Sentado à Beira do Caminho" e "Coqueiro Verde", primeiro samba-rock gravado por Erasmo. Roberto e Erasmo eram criticados por cantar e compor rock e de serem americanizados. Erasmo chegou a dividir um apartamento no bairro do Brooklin em São Paulo com Jorge Ben Jor, apontado como um dos criadores do estilo.

O disco Erasmo Carlos e os Tremendões já é um trabalho transitório na carreira do artista. O LP, de 1969, traz interpretações muito peculiares de canções de compositores da MPB, como "Saudosismo", de Caetano Veloso e "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, lançada no filme Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa, em que Erasmo atua com Roberto e Wanderléa) e "Teletema" (canção originalmente interpretada por Regininha, sucesso por ter sido tema da novela Véu de Noiva, da Rede Globo), de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, além da primeira gravação de "Sentado à Beira do Caminho".

Anos 70 miniaturadaimagem|Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Wanderléa no filme “Roberto Carlos e o diamante cor de rosa”, 1970. Arquivo Nacional. Na década de 1970, Erasmo assina com a Polydor. A primeira metade da década mostra o Tremendão num estilo bem diferente da Jovem Guarda. Influenciado pela cultura hippie e pelo soul, lança Carlos, Erasmo em 1971. O disco, que abre com "De Noite na Cama", escrita por Caetano Veloso especialmente para ele, traz um polêmica ode à maconha.

O existencialismo prossegue em seus outros LPs dos anos 70: Sonhos e Memórias, Projeto Salva Terra e Banda dos Contentes. "Sou uma Criança, Não Entendo Nada", "Cachaça Mecânica" e "Filho Único" são algumas canções de destaque no período. Pelas Esquinas de Ipanema, seu LP de 1978 inclui uma impactante canção que denuncia o descaso do homem com a ecologia: "Panorama Ecológico".

Participou dos filmes Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora (1971), de Roberto Farias; e Os Machões (1972), dirigido por Reginaldo Faria, que também atuou no filme. Em 1975 apareceu em show ao vivo no documentário Ritmo Alucinante, registro do festival de rock Hollywood Rock, realizado no mesmo ano, no Rio de Janeiro.

Anos 80 esquerda|miniaturadaimagem|Erasmo Carlos. Arquivo Nacional. Erasmo Carlos começa os anos 80 com um projeto ambicioso. Erasmo Convida é um pioneiro projeto no Brasil. Foram doze canções interpretadas em dueto com artistas como Nara Leão, Maria Bethânia, Gal Costa, Wanderléa, A Cor do Som, As Frenéticas, Gilberto Gil, Rita Lee, Tim Maia, Jorge Ben e Caetano Veloso. A faixa de abertura do álbum foi a que teve maior destaque nas rádios: a regravação de "Sentado à Beira do Caminho", com a participação do parceiro Roberto Carlos nos vocais.

No ano seguinte, o LP Mulher tem uma grande repercussão com as canções "Mulher (Sexo Frágil)" (escrita com sua mulher, Narinha), "Pega na Mentira" e "Feminino Coração de Deus" (de Sérgio Sampaio). O sucesso na mídia, que continuou com Amar Pra Viver ou Morrer de Amor (1982), trouxe uma cobrança para Erasmo: assim como o parceiro Roberto Carlos (no auge do sucesso), ele deveria lançar um trabalho inédito todos os anos. "Lentinha, para tocar no rádio", como disse o cantor ao relembrar seus discos na época. Embora seja a década com mais lançamentos de trabalhos novos, Erasmo tem algumas ressalvas sobre os seus discos a partir da segunda metade da década - Buraco Negro (1984), Erasmo Carlos (1985), Abra Seus Olhos (1986) e Apesar do Tempo Claro... (1988). O disco de 1988 seria seu último na Polydor (selo da Polygram, mais tarde Universal Music).

Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura, cantou, ainda que numa participação especial diminuta, no coro da versão brasileira de "We Are the World", o hit americano que juntou vozes e levantou fundos para a África, ou USA for Africa. O projeto Nordeste Já (1985), abraçou a causa da seca nordestina, unindo 155 vozes num compacto, de criação coletiva, com as canções "Chega de Mágoa" e "Seca d'Água". Elogiado pela competência das interpretações individuais, foi, no entanto, criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro.

Erasmo participou de duas noites na primeira edição do Rock in Rio em 1985. A primeira foi no mesmo dia de Ney Matogrosso, Baby do Brasil & Pepeu Gomes, Whitesnake, Iron Maiden e Queen; nesta primeira apresentação, foi hostilizado pelo público colado no palco, mais voltado para o heavy metal, que vaiava, atirava objetos e gesticulava reprovação por seu som, algo que já haviam feito logo antes com Ney. Na apresentação seguinte, desta vez dividindo palco com Barão Vermelho, Gilberto Gil, Blitz, Nina Hagen, The B-52s e Yes, a recepção foi mais amistosa e positiva. Erasmo antes estava programado para tocar na mesma noite de AC/DC, Ozzy Osbourne e Scorpions, mas por conta da má experiência anterior, decidiram colocá-lo num dia com uma plateia potencialmente mais receptiva.

Em 1989 gravou o álbum ao vivo Sou uma Criança, com participações de Leo Jaime e dos grupos Kid Abelha e João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, lançado pela pequena gravadora SBK.

Anos 90 Nos anos 90, o trabalho de Erasmo apareceu de forma bissexta na canção. Além de sempre assinar com Roberto Carlos as canções feitas para seus discos anuais, ele lançou dois discos. Homem de Rua, lançado pela Sony Music em 1992, chegou a ter repercussão com a faixa-título, que fez parte da trilha da telenovela De Corpo e Alma, mas a canção era tema do personagem Bira de Guilherme de Pádua, que, ao lado da esposa Paula Thomaz, assassinou a atriz Daniella Perez, filha da autora da novela Glória Perez. Por conta desse acontecimento, Erasmo em respeito a atriz, nunca mais cantou essa música. Outra gravação de destaque foi "A Carta", que teve a participação de Renato Russo.

Em 1995, ele voltou a ter destaque nas comemorações dos trinta anos da Jovem Guarda, que rendeu discos e shows. No ano seguinte, Erasmo gravou o álbum É Preciso Saber Viver, com regravações de canções de seu repertório. O destaque foi para "Do Fundo do Meu Coração", dueto com Adriana Calcanhotto.