A Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, também conhecida como Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, e tradicionalmente como Aguadelupe, é um edifício religioso situado em Raposeira, no município de Vila do Bispo, no Distrito de Faro, em Portugal.
Foi construída provavelmente no século XV, embora possa ter raízes num edifício mais antigo. É considerado um dos mais relevantes monumentos históricos na região, devido à sua arquitectura nos estilos Gótico e tardo-gótico, e à sua presumível ligação ao Infante D. Henrique.
Foi classificada como Monumento Nacional em 1924.Vilas e Aldeias do Algarve Rural, 2003:28-29
Descrição O edifício está situado perto da estrada para Lagos, entre as localidades de Figueira e Raposeira, distando cerca de dois quilómetros a esta última. Geograficamente, localiza-se num vale nos limites da Serra de Espinhaço de Cão, na região do promontório de Sagres.
A capela apresenta uma aparência muito austera e sólida, sendo composto por uma só nave de três tramos, suportada nas paredes laterais por grandes contrafortes escalonados. A cobertura é de duas águas forradas a telha vã, com várias gárgulas. A fachada frontal do edifício é rasgada por uma porta de forma ogival de aresta chanfrada, de uma só arquivolta, sendo as bases e as impostas no estilo românico. Os capitéis são decorados com cordoados e um rosto humano. Por cima situa-se uma rosácea, com um grande desvio em relação ao eixo da fachada, de formato simples e com uma cruz de pedra no centro, sendo os vãos tapados com vidros. A fachada é rematada por uma cruz, que em 1926 era de madeira, substituindo provavelmente a cruz primitiva do período gótico. O edifício possui uma segunda entrada na fachada Sul, com tancil de aresta chanfrada e impostos apenas ligeiramente decorados. Em cima desta porta situa-se uma pequena abertura de tancil recto, onde foi instalada uma sineta. Na parede oposta, foram abertas duas frestas para iluminação.
A cobertura da nave é suportada por dois arcos ogivais, assentes sobre quatro mísulas em grossos botaréus. A nave está separada da capela-mor por um arco triunfal, que originalmente poderia ter atravessado por uma viga, suportada pelas impostas, que serviria para pendurar uma lâmpada. Tanto este arco como os dois da nave e os das portas são todos de aresta chanfrada e com o ponto rebaixado, elementos típicos do gótico primitivo. O arco triunfal é suportado por colunas com capitéis de cesto largo, sendo o do lado Norte decorado com uma cabeça de bovino, enquanto que o oposto tem uma cabeça humana, o que pode ser uma alusão aos evangelistas Lucas e Mateus. A capela-mor é de forma rectangular, de duplo tramo, estando coberta por uma abóbada suportada por cruzaria de ogivas, com dois florões, e que está assente sobre arcos de forma ogival, suportados por oito colunas laterais com capitéis. Estes capitéis apresentam esculturas de motivos vegetalistas, humanos e de animais, como ramos e folhagens. Os capitéis estão ligados por um friso que percorre as três paredes da capela-mor, à altura dos ábacos. A abóbada é fechada por peças de pedra, com representações humanas, celestiais e associadas à vida campestre. As representações vegetais e animais, tanto nos capitéis como nos fechos, poderão ter sido inspiradas nas espécies da região. Na capela-mor, destaca-se igualmente o janelão, separada em duas frestas rematadas por arcos de volta perfeita, que possivelmente tenha tido origem no edifício primitivo, embora a sua forma exterior terá sido adulterada por obras de reparação. O altar é composto por um simples paralelepípedo em alvenaria, construído já na época moderna, que substituiu o antigo altar gótico. No lado direito da capela-mor, anexo ao Sul do edifício, está um pequeno compartimento para a sacristia, coberto por um telhado de uma só água. Um outro elemento de interesse no interior do edifício é a pia baptismal, de construção simples em calcário, e que está suspensa numa das pilastras do primeiro arco da nave. Está decorada apenas com uma cruz e vários traços e arruelas em relevo.
Os elementos dos encordoados e as figuras humanas apresentam um estilo típico do Gótico tardio, podendo as representações das cordas, máscaras e redes ser uma alusão à libertação dos cristãos capturados pelos povos islâmicos, motivo associado à devoção de Nossa Senhora de Guadalupe. A composição sóbria do edifício é reforçada pela reduzida presença de elementos decorativos e de vãos que permitam a iluminação. A forma do edifício e a presença dos contrafortes permite uma comparação com os templos góticos construídos durante o reinado de D. Dinis, sendo diferente apenas nas dimensões e na atenção dada à iluminação, principalmente na capela-mor. Porém, esta composição austera apresenta um grande contraste em relação aos elementos decorativos, sendo alguns deles cronologicamente integrados no gótico tardio. A janela ao fundo da ábside e a planta de forma rectangular da capela-mor também são típicos dos finais do gótico, criando desta forma uma miscelânea de estilos, que indicam com um grande grau de certeza que o edifício foi alterado após a sua construção.
A capela não apresenta quaisquer inscrições, salvo duas possíveis letras I (referente ao termo latino Ioannes - João), uma na primeira mísula esquerda da nave, outra no lado exterior da cabeceira, junto ao janelão. Algumas partes da ermida ainda apresentam uma construção em grés local, em várias tonalidades, entre o vermelho escuro e o amarelo. O edifício é considerado como um dos raros exemplos da arquitectura medieval no Algarve, por ter sobrevivido ao Sismo de 1755, sendo talvez a mais antiga construção de natureza religiosa nesta parte do Barlavento Algarvio. O conjunto da capela inclui um centro de interpretação, com espaços destinados à realização de exposições.
A capela era de grande importância para a vida religiosa local, sendo normalmente utilizado em casamentos e na bênção do gado, além de ser um ponto habitual de peregrinações, especialmente durante períodos de seca. Continua a ter funções religiosas, sendo a sua principal festa realizada em Fevereiro, em honra de Nossa Senhora das Candeias, cujo ponto fulcral é a procissão das velas em redor do edifício. Este evento está ligado a uma tradição local de que se as velas entrassem no templo ainda acesas, isto garantiria uma boa receita de ervilhas quadradas. Outra importante festa na capela é a Quinta-Feira da Ascensão, durante a qual são abençoadas as espigas e o gado. Estas manifestações religiosas também estão associadas ao Nossa Senhora da Guadalupe, cuja cor negra está supostamente ligada a cultos de fertilidade.
História Antecedentes O local onde se situa o monumento terá sido ocupado desde o período Neolítico, tendo sido encontrada, nas traseiras do edifício junto à ermida, uma lagareta que foi utilizada desde aquela época até à Idade Média. Junto à capela também foi encontrado um menir, igualmente atribuído ao Neolítico. A Capela de Nossa Senhora da Guadalupe não é um exemplo único da construção de um templo cristão junto a antigas estruturas pagãs no Algarve; por exemplo, a Igreja de Nossa Senhora do Verde, no concelho de Portimão, também foi instalada numa zona conhecida pelos seus monumentos megalíticos, junto a um antigo edifício romano, que poderia ter sido um templo. Este processo, que pode estar relacionado a uma tentativa de cristianizar as estruturas pagãs e de outras religiões, surgiu noutros pontos do país,LASCARIZ, 2015:99 como por exemplo em Milreu, onde o antigo templo romano foi reaproveitado para o culto cristão.BRANCO e CONCEIÇÃO, 2015:54 A igreja da Senhora do Verde também teve um papel muito importante ligado à fertilidade agrícola, da mesma forma como a Capela de Nossa Senhora de Guadalupe insere-se em várias tradições ligadas ao gado e às culturas.
Construção Manuel João Paulo Rocha relata na sua obra Monografia de Lagos que no reinado de D. Dinis (r. 1279-1325) já se faziam referências à existência desta capela. Segundo o historiador, alguns autores referiram que antes de ser construída a primeira igreja em Lagos, possivelmente concluída no século XV, os habitantes daquela povoação assistiam às cerimónias religiosas na Capela de Nossa Senhora de Guadalupe.ROCHA, 1909:75
O edifício foi dedicado a Nossa Senhora de Guadalupe, cujo culto se iniciou em Espanha no século XIII, mas que só se disseminou em Portugal após a Batalha do Salado, em 1340, tendo sido construídos vários santuários em sua invocação em território nacional. A lenda de Nossa Senhora da Guadalupe está associada aos navegantes e marinheiros, e aos combates contra os muçulmanos e ao resgate dos cristãos capturados, o que poderia explicar a instalação de um templo em sua invocação no Barlavento Algarvio, uma zona extrema do país que era frequentemente assolada por piratas islâmicos. Alguns dos elementos decorativos do edifício também apresentam figuras que podem estar ligadas ao tema dos cristãos presos. Porém, as esculturas humanas e dos encordoados são típicos do período tardo-gótico, apontando a construção da capela para meados do século XV. Isto está de acordo com as teorias do professor e historiador Manuel Castelo Ramos, que considerou que o edifício terá sido construído durante o reinado de D. Afonso V, numa época em que o Infante D. Henrique já circulava por esta região do Barlavento Algarvio. Com efeito, D. Afonso V está ligado ao culto de Nossa Senhora de Guadalupe, uma vez que em 1464 foi em peregrinação até ao Mosteiro Real de Santa Maria de Guadalupe, em Espanha. Outras teorias apontam para a sua construção no século XIII, pelos Templários, ou no século XIV. Com efeito, a forma sóbria do edifício e os grossos contrafortes laterais são semelhantes aos templos góticos do período dionisino, mas alguns elementos, nomeadamente parte da decoração e a janela na capela-mor, são mais comuns nos finais do gótico, indicado que a capela muito provavelmente terá sido alvo de intervenções após a sua construção. O investigador Francisco Augusto Garcês Teixeira calculou que a ermida foi construída entre os séculos XII, devido a certos elementos como as ogivas rebaixadas e a decoração ainda de teor românico, e XIV, período em que se expandiu consideravelmente o culto de Nossa Senhora da Guadalupe, e foi construído o santuário em Espanha. Porém, Garcês Teixeira considerou que a análise era difícil de fazer, devido à localização geográfica do edifício, à forma rude das pedras lavradas, e à pobreza dos materiais utilizados. Manuel Castelo Ramos admitiu a hipótese que poderia ter existido um edifício anterior, talvez demolida por um sismo, e que tenha sido depois reconstruída, talvez utilizando os antigos materiais. Uma possível prova deste processo são as várias imperfeições na capela, como a falta de simetria entre o pórtico e a rosácea na fachada, e entre a rosácea e a as janelas no lado oposto da nave. A capela poderá ser um dos mais antigos templos no país dedicados da Nossa Senhora de Guadalupe.
Séculos XV e XVIII