thumb|Amadeo Bordiga, 1924 Bordiguismo é uma corrente marxista inspirada pelo italiano Amadeo Bordiga, fundador do Partido Comunista Italiano (na altura "Partido Comunista de Itália"), caracterizada sobretudo pela oposição à participação nos parlamentos e eleições "burguesas", e a partir dos anos 30 também pela rejeição do socialismo da União Soviética, considerado como "capitalismo de Estado". A posição antiparlamentarista de Bordiga foi criticada por Vladimir Lenine em Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo.
Grande parte da tradição política designada como "bordiguista" foi desenvolvida sem a participação de Bordiga, que foi preso em 1926 pelo regime de Mussolini, e que, mesmo depois de libertado, dedicou-se unicamente à sua atividade profissional (como engenheiro e arquiteto), só tendo regressado à ação política em 1944. Tal veio a originar, em 1952, uma rutura entre, por um lado, Bordiga e um grupo de discípulos que pretendia regressar a um programa similar ao inicialmente desenvolvido nos anos 20, e por outro, muitos dos "bordiguistas" dos anos 30 e 40, que pretendiam incorporar os desenvolvimentos ideológicos entretanto ocorridos na clandestinidade e no exílio. A corrente bordiguista em sentido mais estrito (a que continuou a seguir Bordiga a partir de 1952) agrupou-se no Partido Comunista Internacional, atualmente divido em várias organizações rivais (continuando as principais a reclamar o nome "Partido Comunista Internacional").
Ideias Leninismo e papel do partido Bordiga inscreve-se na tradição leninista, ao contrário de outros grupos ultra-esquerdistas que emergiram dos movimentos críticos do comunismo oficial e acabaram por rejeitar o contributo do líder soviético, nomeadamente o comunismo de conselhos. Enquanto este acabou por recusar a ideia de um partido como forma de organização da classe operária, considerando que esta só era verdadeiramente representada pelos conselhos operários, Bordiga considerava que a ditadura do proletariado consistia na ditadura do partido, e que os conselhos operários só poderiam desempenhar um papel revolucionário se fossem criados a partir das secções do partido comunista. O bordiguismo, no entanto, é muitas vezes considerado um desvio de esquerda no sentido de que Lenine dá esta palavra no seu panfleto Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo, que se refere a Bordiga para criticar sua recusa absoluta e incondicional de participar em eleições.
Bordiga defendia a ideia de um partido organizado pelos princípios do "centralismo orgânico". Um partido baseado no centralismo orgânico não põe os seus princípios à votação dos seus membros, mas sim irá sempre preservar os princípios considerados corretos, com os militantes aceitando esses princípios. O partido deverá liderar a classe operária em vez de participar na politica parlamentar. Para os bordiguistas, a "invariância" é um aspeto central da doutrina, de forma que o corpo do pensamento marxista não precisa ser revisto ou enriquecido à luz dos acontecimentos. Resultado de um processo científico, foi definido de uma vez por todas em 1848 no Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels e corretamente desenvolvido até o terceiro congresso da Internacional Comunista em 1921. O papel do partido é manter intacto a teoria e o programa comunista, e Bordiga é muito crítico face aos comunistas que pretendem modificar a doutrina.
Nessa concepção muito rígida do partido toda a atividade é impulsionada pelo centro, que mantém a correção da teoria. Os opositores dos bordiguistas geralmente falam sobre o "fetichismo do partido" que substituiria o partido pela classe trabalhadora. Além disso, o bordiguismo geralmente insiste na distinção feita por Marx entre o partido formal e o partido histórico, sendo o primeiro a organização contingente e o segundo o corpus ideológico indestrutível independente de sua encarnação militante. Assim, para os bordiguistas, o verdadeiro Partido Comunista pode, em um período desfavorável, consistir apenas de um punhado de membros que trabalham para defender a teoria enquanto esperam dias melhores.
Socialismo A versão de Bordiga do Leninismo levou-o a considerar que o socialismo não é uma sociedade em que os trabalhadores controlem os seus locais de trabalho (fábricas, empresas, minas, etc.) individuais, já que o local de trabalho continuaria a ser propriedade, neste caso dos trabalhadores. O socialismo significa a abolição da propriedade, requerendo um controlo social centralizado sobre todos os meios de produção. Bordiga também via o socialismo como o fim das classes sociais e do Estado — no entanto, uma administração central continuaria responsável pelos assuntos da sociedade, e os cargos diretivos não seriam escolhidos por eleição, mas por um processo não-democrático em que profissionais selecionariam os mais adequados para cada função.
O socialismo seria também uma sociedade sem dinheiro, em que numa primeira fase os bens seriam distribuídos por racionamento e, no seu estádio mais desenvolvido, por acesso livre. Também a planificação económica seria feita por cálculos em espécie, contabilizando quantidades físicas produzidas e utilizadas, sem lhes atribuir um equivalente monetário quantitativo. No entanto, embora sem dinheiro, durante algum tempo existiriam "vales-trabalho", que difeririam do dinheiro porque perderiam o seu valor se não fossem usados dentro de um dado período e só poderiam ser usados para adquirir os produtos predefinidos, funcionando como cupões de racionamento.
Como todos os grupos da ultra-esquerda, o bordiguismo não considera que a URSS fosse uma economia socialista. Para os bordiguistas, a URSS era um país de economia de mercado que funcionava pelas regras singulares do capitalismo de Estado. Bordiga também utilizou o termo "industrialismo de Estado" para definir os primeiros anos da era soviética.
Luta contra o antifascismo Os bordiguistas são conhecidos por considerar que o fascismo e o antifascismo são duas faces da mesma moeda burguesa. O antifascismo seria uma armadilha usada pela burguesia para desviar os proletários da sua verdadeira luta: a luta de classes, independentemente de o Estado ser democrático, fascista ou autoritário. Alguns autores às vezes equiparam o bordiguismo a um certo negacionismo, com base num polémico texto publicado no jornal Programme communiste em 1960, "Auschwitz ou o grande álibi", embora este não questione a existência das câmaras de gás.
Organizações Há várias organizações derivadas da tradição bordiguista e do "Partido Comunista Internacional" fundado por Bordiga, as principais usando essa designação e podendo ser distinguidas pelo nome do jornal da secção italiana respetiva:
Partido Comunista Internacional (Il Programma Comunista) Partido Comunista Internacional (Il Partito Comunista) Partido Comunista Internacional (Il Comunista) Partido Comunista Internacional (Bolletino) n+1 / Quaderni Internazionalisti Grupo Comunista Mundial Robin Goodfellow
Outras organizações reivindicam-se da herança da esquerda comunista italiana, mas não do bordiguismo posterior à II Guerra Mundial:
Corrente Comunista Internacional, com origem na secção francesa dos anos 30/40 da esquerda comunista Tendência Comunista Internacionalista, antes Instituto Internacional para o Partido Revolucionário, criada a partir do Partido Comunista Internacionalista (Battaglia Comunista) Grupo Internacional da Esquerda Comunista, com origem numa facção da Corrente Comunista Internacional
História "Ala esquerda" do Partido Socialista Italiano A partir de 1910 começou a emergir uma ala esquerda no Partido Socialista Italiano (PSI), contra o que consideravam como a linha moderada seguida pelo grupo parlamentar do partido, nomeadamente o apoio de alguns deputados à Guerra ítalo-turca. No congresso de 1912, a ala esquerda saiu-se vitoriosa, levando a saída do partido dos deputados pró-governamentais e à rejeição da autonomia do grupo parlamentar.
Simultaneamente, na Federação dos Jovens Socialistas, a "ala esquerda", dinamizada, entre outros, por Amadeo Bordiga (que havia criado em Nápoles o Clube Socialista Revolucionário Carlo Marx, em contraponto à estrutura local do PSI, dominada pelos moderados), defendendo uma organização virada para as lutas sociais, derrotou os moderados que defendiam que a Federação dos Jovens e o seu jornal (L'Avanguardia) deveriam-se dedicar sobretudo ao estudo e reflexão teórica e à difusão cultural.
Durante a I Guerra Mundial (no qual Bordiga esteve mobilizado em 1915 e 1916), o PSI oscilou entre várias posições, associadas às diferentes fações do partido. Na sequência do congresso de Roma, em 1917, ganho pela ala esquerda, Bordiga dinamizou a "fracção revolucionária independente", defendendo a revolução proletária em contraponto com a linha puramente pacifista da maioria do partido.
Em 1918, na sequência da Revolução Russa, a "fracção intransigente" passa a publicar o jornal Il Soviete e a designar-se como a "Fracção Comunista Abstencionista"; os "abstencionistas" defendiam que o partido deveria aderir a Internacional Comunista e abandonar todas as ligações com o sistema parlamentar, renunciando a toda a ação eleitoral e parlamentar. A fracção de Il Soviete participa no 2º Congresso da Internacional Comunista, onde consegue impor a sua linha de expulsar da Internacional as organizações que não aceitem todos as teses da Internacional; por seu lado, renuncia ao abstencionismo, aceitando a posição de Lenine de participação nas eleições.
Partido Comunista de Itália Em 1921, no congresso de Livorno do PSI, as correntes radicais separam-se e, sob a liderança de Bordiga, fundam o Partido Comunista de Itália (PCd'I). O novo partido rejeita (mesmo que para lutar contra o fascismo) qualquer política de frente unida com outras organizações partidárias, embora a admita a nível dos sindicatos; tal linha em breve o fez entrar em conflito com a Internacional Comunista, que, a partir da ascensão do fascismo, havia começado a defender a política de aliança entre as várias correntes socialistas; ao mesmo tempo, o PSI expulsou a sua ala direita, tendo a Internacional Comunista ordenado a fusão entre o PCd'I e o PSI "de esquerda". Na sequência dessas divergências, a direção do PCd'I foi destituída pela Internacional, mas a fusão com o PSI acabaria por não resultar.
Em 1924, o PCI (a sigla pelo qual se tornou comum designar o Partido Comunista de Itália, ainda que a mudança para Partido Comunista Italiano só tenha ocorrido nos anos 40) realiza uma conferência na clandestinidade, que se salda numa vitória para a ala esquerda "bordiguista": 35 das 45 federações aprovam as suas teses, considerando que a vitória do fascismo demonstrava que a luta era entre "ditadura da burguesia" ou "ditadura do proletariado" (rejeitando assim acordos com os sociais-democratas ou com os partidos "burgueses" antifascistas) e também criticando a excessiva centralização e hierarquização da Internacional. No entanto, a liderança do Partido continuou nas mãos da facção de Antonio Gramsci, com o apoio da Internacional.
Nos anos seguintes Bordiga e os seus apoiantes, em oposição à direção do Partido e da Internacional se opõem à política da "bolchevização", nomeadamente à criação de células de empresa (que Bordiga considerava levarem os trabalhadores a só discutirem os problemas específicos do seu lugar de trabalho, deixando a política geral para os intelectuais) e estabelece ligações com a oposição trotskista internacional.
Em 1926, a "esquerda comunista" italiana tinha elaborado os seus princípios fundamentais: rejeição de estratégia de "frente única" dos partidos de esquerda, de alianças antifascistas, do "socialismo em um só país" estalinista e de qualquer forma de defesa da "democracia burguesa".
Fracção de Esquerda do PCI