miniatura|260px|Ruínas da Cividade de Terroso no seu aspecto actual. A sua queda foi romanceada no livro «Uma Deusa na Bruma», de João Aguiar miniatura|260px|Lajeado e ruínas da Cividade
A Cividade de Terroso é um povoado proto-histórico com ocupação romana localizado em Terroso, na atual freguesia de Aver-o-Mar, Amorim e Terroso, no Município de Póvoa de Varzim, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA
A Cividade foi um importante povoado da cultura castreja do noroeste da Península Ibérica, conhecida na Idade Média como Montis Teroso, foi erigida no topo do monte da Cividade, na freguesia de Terroso, na Póvoa de Varzim, a menos de 5 km da costa, no limite nascente da cidade contemporânea.
Situada no coração da região castreja, a Cividade prosperou devido a estar fortemente amuralhada e pela sua localização próxima ao mar que possibilitava o comércio com as civilizações do mar Mediterrâneo. Este comércio atraiu os olhares dos Romanos; a cividade e a cultura castreja pereceram no final da Guerra Lusitana ganha por Roma através do assassinato à traição de Viriato, líder lusitano que chefiava os interesses indígenas.
Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1961.
História O povoamento da Cividade de Terroso terá sido feito no decurso da Idade do Bronze, entre os anos 900 e , como consequência da deslocação das populações residentes na planície fértil de Beiriz e na Várzea da Póvoa de Varzim. Isto é suportado pela descoberta de fossas ovoides, escavadas em 1981 por Armando Coelho, tendo sido recolhidos fragmentos de quatro vasos do período anterior ao início do povoamento da cividade. Assim, faz parte dos castros mais antigos, tal como os castros de Santa Luzia ou de Roriz.
O castro manteve relações comerciais com as civilizações do mediterrâneo, principalmente durante o domínio cartaginês do sudeste da Península Ibérica.
Durante as guerras púnicas, os Romanos tomaram conhecimento da riqueza da região castreja em ouro e estanho. Viriato, que liderava as hostes lusitanas, impedia o crescimento do Império Romano para o Norte do rio Douro. No entanto, o seu assassinato em abriu caminho para as legiões romanas.
Décimo Júnio Bruto Galaico liderou uma campanha para o domínio da região castreja, acabando por destruir a Cividade por completo, logo após a morte de Viriato. Os feitos do comandante romano ecoaram em Roma, onde passou a ser conhecido pelo cognome Galaico - de Galécia, por ter sido o primeiro a vencer os Calaicos (Kallaikoi).
thumb|esquerda|260px|Cividade de Terroso na altura das primeiras escavações arqueológicas em 1906
Algum tempo mais tarde, a Cividade foi reerguida e fortemente romanizada, dando assim início à última fase urbana do castro. A região é incorporada no Império Romano e totalmente pacificada durante o domínio de César Augusto. Na planície litoral, é criada uma vila, propriedade de uma família romana, a que se terá juntado o povo castrejo que regressaram à vida na planície - assim terá surgido Vila de Euracino. A actividade piscatória desenvolveu-se com a cetária, um complexo fabril romano de salga e transformação de pescado. Assim, partir do e durante o período imperial dá-se o progressivo abandono da Cividade.
Nas "Memórias Paroquiais de 1758", o Reitor Antonio Fernandes da Loba conjuntamente com outros clérigos da freguesia de Terroso, regista: estâ êsta freguezia toda a roda cercada de campos lavradios, e sô por hua parte coazi no meyo della tem hum Monte mais levantado, que sera tanto, como a tersa parte dos campos lavradios da tida freguezia e dizem os Antigos fora este Monte Cidade de Mouros, porque se chama este Monte da Cividade.
O Tenente Veiga Leal na Noticia da Póvoa de Varzim feita a 24 de Mayo de 1758 escreve: O Monte chamado Cividade, em que se vem vestígios bastantes de casas, que dizem formarvam alli uma cidade, que para esta vila vieram carros de tijolos das ruinas d'aquellas."
thumb|260px|Grupo de trabalhadores que fizeram as escavações em 1906 na Cividade
A cividade foi posteriormente citada por outros autores de forma leve. No início do , Rocha Peixoto incentiva o seu amigo António dos Santos Graça a subsidiar trabalhos de arqueologia na Cividade. Os trabalhos iniciam-se a 5 de junho de 1906 com 25 trabalhadores braçais e prosseguiram até Outubro do mesmo ano, interrompidos por mau tempo e recomeçadas em Maio de 1907, terminando nesse mesmo ano. Os materiais obtidos seguiram para museus na cidade do Porto.
Depois da morte de Rocha Peixoto, em 1909, algumas pedras da Cividade foram usadas para pavimentar algumas ruas da Póvoa de Varzim, nomeadamente Rua Santos Minho e Rua das Hortas. Estes atentados arqueológicos continuaram mesmo depois da classificação da Cividade como Imóvel de Interesse Público em 1961.
Em 1980, a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim convidou Armando Coelho para a realização de trabalhos arqueológicos que se desencadearam no Verão desse ano. Mais tarde, o município adquire os terrenos da acrópole e constrói o pólo arqueológico da Cividade de Terroso na sua entrada. Actualmente o arqueólogo é José Flores, que recentemente escreveu o livro Subtus Montis Terroso - Património Arqueológico no Concelho da Póvoa de Varzim Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
Em 2005, grupos de arqueólogos portugueses e espanhóis (galegos) começaram a estudar a hipótese desta cividade e outras seis serem classificadas como Património da Humanidade da UNESCO. A visita de inspectores da UNESCO está prevista para 2007.
Sistema defensivo miniatura|200px|Ruínas de uma das muralhas da Cividade de Terroso 200px|miniatura|Reforço da muralha a sudoeste
A característica mais típica dos castros é a sua fortificação. Os habitantes terão escolhido passar a viver no monte como meio de protecção contra os saques e pilhagens levados a cabo por tribos rivais. A cividade foi erigida a 152 metros de altitude, o que permite uma excelente posição de vigilância de toda a região. Um dos lados, a norte, estava bloqueado pelo monte de São Félix, onde terá surgido um castro, o Castro de Laundos, que terá servido de posto avançado.
As movimentações de Túrdulos e Célticos provenientes do Sul da Península Ibérica em direcção a Norte são referidas por Estrabão e terão motivado a melhoria dos sistemas defensivos dos castros por volta de
A Cividade de Terroso é um dos castros mais fortemente fortificados, dado que a acrópole estava circundada por três cinturas de muralhas. Estas muralhas terão sido construídas em momentos diferentes, devido ao crescimento do próprio povoado.
As muralhas eram compostas de grandes blocos sem argamassa e estavam adaptadas às características dadas pelo relevo do monte. As faces de acesso mais fácil (Sul, Este e Oeste) possuíam muralhas altas, largas e resistentes; enquanto as que se encontravam em terreno com declives abruptos eram menos cuidadas, limitando-se a reforçar as particularidades locais.
Isso pode ser facilmente visível com as estruturas descobertas a Este que apresentam um forte sistema defensivo que atinge 5,30 metros de espessura. Enquanto que a Nordeste, a muralha foi construída aproveitando o granito natural que foi apenas coroado por um muro de pedras.
A entrada, que interrompia a muralha, apresenta um lajeado de cerca de 1,70 metros de largura. O perímetro defensivo parece ter sido complementado por uma vala de cerca de 1 metro de profundidade e outro de largura no sopé do monte, conforme foi detectado aquando da construção de uma casa a norte do monte.
Estrutura urbana miniatura|280px|esquerda|Planta da Cividade no decurso das escavações de 1906, feita pelo arquitecto Arthur Cruz da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim
No interior dos três anéis de muralhas, na acrópole existem ainda ruínas de grande diversidade, de destacar os recintos funerários, que são extremamente raros no mundo castrejo. Nas escavações realizadas no início do , a Cividade parecia ter uma estrutura anárquica, mas dados mais recentes distanciam-se cada vez mais desta ideia, dado que estas denotam uma organização espacial com características próprias cuja organização advém de níveis de ocupação mais antigos ignorados nas primeiras escavações.
Cada um dos quadrantes da Cividade está dividido em núcleos em torno de um pátio familiar quase sempre lajeado e divididos por duas ruas principais que se intercruzam. Algumas casas possuíam um átrio. No seu apogeu, a cividade teria perto de 12 hectares e habitavam nela várias centenas de pessoas.
Fases thumb|230px|Pormenor do interior de uma das casas thumb|230px|Pátio familiar thumb|230px|Núcleo familiar da Cividade de Terroso thumb|230px|O Cardium era uma das vias principais do povoamento thumb|230px|Pormenor de casas da Cividade A Cividade passou por várias fases de urbanização: durante os primeiros séculos, as pequenas habitações eram construídas à base de elementos vegetais misturados com barro.
As primeiras construções em pedra só começaram a tomar forma no , material que passou a ser utilizado devido ao progresso tecnológico com o fabrico de picos de ferro, uma tecnologia que só estava disponível na Ásia Menor, mas que acabou por ser trazida para a Península Ibérica com a colonização fenícia no Litoral Atlântico durante os séculos VIII e
As construções desta época são, caracteristicamente, circulares com diâmetros entre 4 e 5 metros e com paredes com 30 a 40 cm de espessura. As pedras de granito eram fracturadas ou lascadas, para posteriormente serem posicionadas em duas fiadas, com a face mais lisa para o exterior e interior da casa. O espaço entre as duas pedras era preenchido com pequenas pedras e argamassa de saibro dando uma estrutura robusta às paredes.
Na última fase da Cividade, a fase romana (com inícios em 138-), após a destruição por Décimo Júnio Bruto Galaico, dá-se uma reorganização urbana com recurso a novas técnicas construtivas e alteração de formas e dimensões. Principalmente com o aparecimento de estruturas quadrangulares, em substituição das circulares tipicamente castrejas. As coberturas deixam de ser de origem vegetal e passam a ser feitas com tégula.
As pedras usadas nesta fase para a construção das habitações eram quadrangulares; mantendo-se o esquema de duas fiadas, mas o espaço interior era mais largo e preenchido por saibro ou barro e pedras de pequeno ou médio tamanho, resultando em paredes mais espessas com 45 a 60 cm.
Núcleos familiares Os núcleos familiares, compostos de quatro a cinco divisões circulares, envolviam um pátio lajeado para onde convergiam as portas das diferentes divisões. Estes pátios centrais tinham papel importante na vida familiar e eram onde se desenrolavam as actividades diárias familiares. Estes núcleos seriam fechados à chave, revelando a preocupação pela privacidade das famílias.
O interior das construções da segunda fase, anterior à romana, possuía pisos finos de barro ou saibro. Alguns destes pisos eram decorados com a impressão de cordas, desenhos ondeados e impressão de círculos, especialmente nas lareiras. Na fase de influência romana, estes pisos tornaram-se mais cuidados, densos e espessos.
Arruamentos Os núcleos familiares eram divididos por arruamentos estreitos com espaços algo públicos. Os dois arruamentos principais tinham a orientação típica romana do decúmano e cardo. O decúmano era um arruamento que seguia da muralha a Nascente para Poente e flectia-se ligeiramente para Sudoeste a partir do encontro com o cardo (arruamento Norte-Sul), terminando na entrada da Cividade. O acesso exterior realizava-se por uma delicada descida até ao caminho que ainda hoje é utilizado para aceder à cividade.
Estes arruamentos principais dividiam o povoado em quatro partes. Cada uma dessas partes era composta por quatro a cinco núcleos familiares.
Em alguns pontos da Cividade foram descobertos vestígios de esgotos ou caneiros que serviriam para encaminhar as águas das chuvas.
Cultura