250px|thumb|Nossa Senhora da Conceição, acervo do Museu Júlio de Castilhos. Note-se os traços indígenas na face e nos cabelos longos e lisos. A escultura dos Sete Povos das Missões representa um dos legados mais substanciais e valiosos a sobreviver da cultura dos Sete Povos das Missões, um grupo de reduções jesuíticas fundadas no atual estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Na época posse da Espanha, os Sete Povos foram exemplos típicos do modelo missionário desenvolvido pelos jesuítas na América: uma comunidade indígena fixada em um povoado mais ou menos autossuficiente, e administrado pelos padres da Companhia de Jesus, com o auxílio dos nativos. O sucesso das reduções foi enorme, sendo um projeto social, cultural, político, econômico e urbanístico avançado para seu tempo e lugar. A participação dos índios não se conseguiu sem dificuldades, mas milhares acabaram realmente vivendo nessas reduções voluntariamente, sendo convertidos ao Catolicismo e aculturados para as formas e maneiras da vida europeia, produzindo inclusive grandes quantidades de arte, sempre sob supervisão dos jesuítas.

Essa produção artística, onde a escultura aparecia em destaque, foi orientada, naturalmente, por modelos estéticos europeus, e surgiu com o propósito básico de fornecer um auxílio visual à catequese do indígena, no processo de evangelização organizado pelos missionários do Novo Mundo. Incorporando uma multiplicidade de correntes estilísticas, algumas atualizadas, outras há muito obsoletas na própria Europa, mas com um predomínio de formas barrocas, e onde se infundiu em alguma medida também o gosto do nativo, essas obras revelam características únicas que as definem, segundo alguns autores, como uma escola regional individualizada. A maior parte do acervo escultórico missioneiro se perdeu ao longo do tempo, mas ainda existe uma significativa coleção de mais de 500 peças distribuídas entre instituições públicas e acervos privados.

A importância das esculturas missioneiras como documento histórico e artístico é imensa, e por isso foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, mas o acervo remanescente ainda precisa de atenção e cuidados para não se desfalcar ainda mais, especialmente considerando que metade das peças identificadas pertence a particulares e não é conservada como deveria ser, e algumas ainda continuam desaparecendo ou se destruindo a despeito da proteção oficial.

Entre os críticos, no entanto, a escultura dos Sete Povos ainda é motivo de polêmica: para uns ela é uma expressão única e original do multifacetado barroco latino-americano, enquanto para outros ela não passa de uma imitação tosca e servil de modelos europeus.

Os Sete Povos

Os Sete Povos das Missões foram um exemplo típico do principal modelo de evangelização criado pelos jesuítas na América: as reduções, ou seja, missões fixas em aldeamentos que reuniam os povos nativos. A história das missões remonta ao ministério dos Apóstolos instituído pelo próprio Jesus, quando mandou seus discípulos irem pelo mundo proclamando a Boa Nova.Kennedy, s/pp. O objetivo principal desses povoados foi o de criar uma sociedade com os benefícios e qualidades da sociedade cristã europeia, mas isenta dos seus vícios e maldades. Essas missões foram fundadas pelos jesuítas em toda a América colonial, e segundo Manuel Marzal, sintetizando a visão de outros estudiosos, constituem uma das mais notáveis utopias da história.Marzal (1999), pp. 489-495 thumb|esquerda|Planta da redução de São Miguel Arcanjo.

Os jesuítas se tornaram célebres por seu pragmatismo e adaptabilidade às condições que encontravam em cada local; eram disciplinados, empreendedores e bem-preparados em vários domínios do saber, tendo em suas fileiras muitos artistas, literatos, cientistas e eruditos, e eram habilidosos também nas artes da persuasão e da docência. Eram a vanguarda da religiosidade europeia em sua época; a reunião de tantas qualidades explica o seu sucesso como missionários e se reflete na variedade de soluções práticas adotadas nas missões que fundaram por toda a América e Oriente. Adotavam ainda uma teologia peculiar, que lhes permitia em muito ceder e conformar a doutrina cristã às percepções nativas para conseguir a completude do projeto evangelizador.Marzal & Tua, pp. 9-11Reff, pp. 37-44Corsi, pp. 37-44 Sabe-se, desta forma, que o missionarismo jesuíta na parte oriental da América do Sul, controlada então pelos portugueses, desenvolveu-se num sentido diferente daquele adotado nos Sete Povos, que eram domínio espanhol. Ali os jesuítas puderam construir povoados muito mais organizados e estáveis do que aqueles criados no Brasil colonial sob a orientação do padre Manuel da Nóbrega e seus colegas.Castelknau-L'Estoile, pp. 616-637Sweet, pp. 272-276Gómez, pp. 49-71

Na região submetida à Província Jesuítica do Paraguai, onde se incluíam os Sete Povos, e que muitos consideram ter fixado o protótipo "clássico" da redução jesuítica, a povoação se definiu em torno de uma grande praça quadrangular, em cujo entorno se instalavam uma igreja, moradias dos índios, casas para viúvas e órfãos, uma escola, o claustro dos missionários, um cemitério, oficinas diversas e pequenas indústrias que atendiam necessidades básicas, pomar, horta, espaços administrativos, hospedaria e uma prisão, entre outras benfeitorias. Em fazendas semiautônomas nas proximidades, tinham escravos negros e cultivavam plantações e criavam gado; faziam comércio ou escambo de seus produtos com várias colônias espanholas e até com a Europa. Às vezes o entorno do núcleo urbanizado era protegido com trincheiras e um muro para defesa contra os ataques de indígenas selvagens e as expedições predatórias dos bandeirantes brasileiros, o que ocorreu muitas vezes.Ortiz, pp. 520-524LaboucheAguirre, pp. 282-287Hatfield, pp. 159-161 Por isso, algumas reduções, por licença especial da Coroa espanhola, possuíam pequenos exércitos e cavalaria.Aguirre, pp. 300-301 O governo dos assuntos civis e a educação elementar eram entregues em geral aos índios e respeitavam as hierarquias tribais. A educação avançada — incluindo a direção das artes, da engenharia e arquitetura —, os ofícios divinos, a catequese e a justiça, bem como a supervisão geral de todos os assuntos, ficavam a cargo dos jesuítas.Fajardo, p. 172

O modelo urbano missionário podia apresentar variações na disposição dos elementos e na quantidade de edifícios, mas seu esquema básico permaneceu constante. Em suma, as reduções eram quase cidades-Estado autossuficientes, de orientação teocrática, eram organismos econômica e culturalmente avançados para seu tempo e local, e dispunham de considerável autonomia administrativa, mesmo que fossem sujeitas a uma regulação geral pela alta hierarquia da Companhia e precisassem do beneplácito da Coroa espanhola, conquistadora e proprietária das terras, sobre as quais cobrava impostos dos padres. A Espanha também tinha interesse político na empreitada jesuíta, pretendendo que atuassem como guardas de fronteira, contendo o avanço português. As reduções proporcionavam meios de subsistência inovadores para os padrões indígenas, e inauguraram um modelo urbano e administrativo muito bem-sucedido, mas não se deve esquecer que as missões eram programas de conversão religiosa em massa e aculturação do indígena ao estilo de vida europeu, o que nem sempre ocorreu sem resistências e dificuldades. Por outro lado, procuraram preservar ou integrar muitas das caraterísticas da vida tradicional dos aborígenes em uma síntese sociocultural inédita. À parte as polêmicas que ainda cercam o tema, especialmente acerca de seu mérito ético, de qualquer maneira é fato que se criou uma cultura original dentro das missões, e nessa cultura a arte teve extraordinário papel a desempenhar.Fleck, pp. 109-116Schallenberger, pp. 27-55Kern, pp. 33-35 thumb|Os Trinta Povos da Província do Paraguai. Na área em rosa, os pontos vermelhos correspondem aos Sete Povos. thumb|Vista e elevação da Igreja de São Miguel em 1756, projeto do padre Giovanni Battista Primoli. thumb|Ruínas de São Miguel hoje.

Os Sete Povos nasceram como uma evolução das dezoito Reduções do Tape, fundadas a partir de 1626 na margem oriental do rio Uruguai, numa região que hoje é parte do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. Cerca de dez anos depois os bandeirantes brasileiros destruíram quinze desses povoados e aprisionaram mais de 20 mil indígenas, para serem vendidos como escravos em São Paulo. Em 1638 destruíram as três reduções restantes. Sob esse assédio, os índios e padres remanescentes se refugiaram na margem ocidental do rio Uruguai.Pinto, pp. 15-20 O avanço bandeirante só foi contido na Batalha de M'Bororé, em 1641, mas então, com a dissolução da União Ibérica, novos fatos políticos colocaram a empreitada missioneira na região em suspenso, só sendo retomada em 1682. Então foram criadas as sete reduções que se tornaram conhecidas como os Sete Povos das Missões, algumas delas sobre as ruínas da fundação anterior.Pinto, pp. 15-22

Foram elas, segundo informa Pinto:Pinto, pp. 17; 24-27

São Nicolau, fundada em 1626 pelo padre Roque Gonzalez de Santa Cruz e reinstalada em 1687 pelo padre Anselmo de la Matta São Miguel Arcanjo, fundada pelo padre Cristóvão de Mendoza em 1632 e reinstalada em 1687 pelo padre Anton Sepp São Francisco de Borja, fundada em 1682 pelo padre Francisco Garcia de Prada São Luiz Gonzaga, fundada em 1687 pelo padre Miguel Fernández São Lourenço Mártir, fundada em 1690 pelo padre Bernardo de la Vega São João Batista, fundada em 1697 pelo padre Anton Sepp Santo Ângelo Custódio, fundada em 1706 pelo padre Diego Haze

Enquanto que a primeira iniciativa missioneira na região teve objetivos acima de tudo evangelizadores, como declarou Armindo Trevisan, os da segunda parecem ter sido primariamente econômicos, nascendo da perspectiva de aproveitamento do enorme rebanho de gado que vivia livre no pampa, e que era cobiçado também pelos portugueses, tanto que os tropeiros brasileiros que caçavam aquele gado se tornaram um dos primeiros agentes da agressiva penetração portuguesa na região, invadindo cada vez maiores territórios espanhóis. O gado adquiriu tal importância para os jesuítas porque eles compreenderam que se as condições de vida para os índios não eram boas, especialmente na alimentação, a educação espiritual também fracassava. O gado se criava com facilidade, e era todo aproveitável: dava couro, carne e leite, além de prover meio de tração e de transporte. Também cavalos e mulas havia em abundância. Calcula-se que esse rebanho, incluindo as várias espécies, em determinado período atingiu um milhão de cabeças.Trevisan (1978), pp. 32-34 Porém, para Maldi, justamente por isso o componente político da reinstalação das reduções também foi forte:

"A recolonização de parte das áreas perdidas e a fundação de novas missões foi feita com os índios Guarani assumindo a função de 'presidiários' isto é, 'guardas da fronteira'. Sob essa condição seriam fundadas na margem oriental do Uruguai as sete missões que ficariam famosas como Sete Povos das Missões, tornando-se, como afirma Gadelha (1996), 'futuro centro de resistência ao Tratado de Madri'. Como 'presidiários da fronteira', os índios Guarani foram amplamente requisitados entre o período de 1637 até 1735 pelos governadores para as mais diversas atuações na fronteira, desde o combate a grupos inimigos até trabalhos de vigilância, o que se constituiu num fator definitivo no sentido de acirrar a perseguição dos bandeirantes paulistas. Por outro lado, a reconstituição das missões guaraníticas do sul, com o firme propósito de deter o avanço português, tornou os índios alvo da violência lusitana."Maldi