Xica da Silva é uma telenovela brasileira produzida pela Rede Manchete e exibida de 17 de setembro de 1996 a 11 de agosto de 1997, em 231 capítulos, substituindo Tocaia Grande e antecedendo Mandacaru.
Escrita por Walcyr Carrasco, com colaboração de José Carvalho, sob direção de João Camargo e Jaques Lagoa, J. Alcântara, Lizâneas Azevedo e direção geral de Walter Avancini. Foi livremente baseada nos romances Chica que Manda, de Agripa Vasconcellos, e Xica da Silva, de João Felício dos Santos.
Pela personagem, Taís Araújo se tornou a terceira atriz negra a protagonizar uma telenovela brasileira, após Iolanda Braga em A Cor da Sua Pele (1965) e Ruth de Souza em A Cabana do Pai Tomás (1969). Xica da Silva foi a segunda telenovela cujos protagonistas são baseados em pessoas e fatos reais: Francisca da Silva de Oliveira de fato viveu no Arraial do Tijuco, hoje Diamantina, no século XVIII.
Contou com Taís Araújo, Victor Wagner, Drica Moraes, Carla Cabral, Murilo Rosa, Adriane Galisteu e Zezé Motta nos papéis principais.
Enredo
Com forte retratação histórica e apelo erótico, Xica da Silva se consolidou como uma trama que retratou um Brasil Colonial cruel e impiedoso, contando a história, em algumas partes verídicas, da negra escravizada Chica da Silva.
Século XVIII, o Brasil ainda colônia de Portugal, é um grande extrator de pedras preciosas e sua principal fonte de renda são os diamantes, que são descobertos por negros escravizados em garimpos no interior da Capitania Geral de Minas Gerais, atual estado de Minas Gerais. Entre as cidades com maior número de garimpos, estava Arraial do Tijuco, atualmente conhecida por Diamantina, onde se desenrola a trama de Xica da Silva, a negra escravizada que tornou-se sinhá, e uma das personalidades mais influentes nas decisões locais, o que escandalizou a sociedade de sua época.
Baseada nos livros Chica Que Manda de Agripa Vasconcellos e na obra homônima de João Felício dos Santos, Walcyr Carrasco - sob o pseudônimo de "Adamo Angel" - levou ao público a história de Xica da Silva, uma negra escravizada muito inteligente, que conseguiu a independência ao se casar com o homem mais rico do Brasil Colônia.
A trama conta a saga de Xica (Taís Araujo), uma mulher bela e sensual, que junto com sua mãe Maria (Zezé Motta), são feitas escravas do Contratador dos Diamantes Felisberto Caldeira Brant (Reynaldo Gonzaga), homem mais importante do Arraial, que foi encarregado pelo Rei de Portugal de extrair diamantes dos garimpos. Ele é o pai de Xica,[] mas nunca assumiu a paternidade, algo comum entre senhores que tinham filhos com mulheres escravizadas. Ao descobrir sua paternidade após adulta, Xica promete vingar-se por tudo que sua mãe sofreu. Anualmente, o Contratador deve pagar tributos a Coroa portuguesa, mas isso não o preocupa, já que há uma arca repleta de diamantes que serão entregues ao emissário do rei.
A sociedade do Arraial do Tijuco é basicamente formada pelas famílias do Contratador Felisberto, do capitão-mor Gonçalo (Eduardo Dusek) e do Sargento-Mor Thomaz Cabral (Carlos Alberto). Para manterem o poder, eles pretendem casar seus filhos.
A família do Contratador é formada por sua esposa Emerenciana (Khristel Byancco), seus filhos Martim (Murilo Rosa), Clara (Adriane Galisteu) e Paulina (Maria Clara Mattos). O Poderoso pretendia casar o único filho varão com Das Dores (Carla Regina), filha do capitão-mor.
O capitão-mor repleto de interesses é casado com Dona Céu (Eliana Guttman) e além de Das Dores, ainda é pai de Ana (Ingrid Fridman) e Isabel (Ludmila Dayer). Já a família do Sargento-Mor é formada por sua segunda esposa Micaela (Teresa Sequerra), seus filhos: Luís Felipe (Fernando Eiras), Santiago (Charles Möeller), Xavier (Matheus Petinatti) e Violante (Drica Moraes), a grande vilã da trama.
Xica briga com seu senhor, e num ato impulsivo revela que descobriu ser filha do Contratador Felisberto, que, com raiva, decide vender sua filha Xica, junto com a mãe dela para o bordel do capitão-do-mato Jacobino (Altair Lima). Para vingar-se de seu pai, a escrava se alia a Quiloa (Maurício Gonçalves), um escravo apaixonado por ela, e juntos roubam a arca com os diamantes; eles escondem as pedras preciosas para não despertar suspeitas e mais tarde poderem comprar suas cartas de alforria e fugirem para algum quilombo. Com a chegada do emissário do rei, o Contratador descobre que foi roubado e procura os culpados. Em uma das primeiras cenas da novela, a sinhá Emerenciana obriga Xica a contar a verdade, como a escrava se nega, a senhora a obriga a engolir um ovo cozido fervente. Xica fica com os lábios todos queimados e impossibilitada de falar.
Sem ter como dar os tributos ao Rei, o Comendador Felisberto e sua esposa Emerenciana são condenados a prisão, e assim são degregados do Brasil, cumprindo a pena de exílio em Portugal, perdendo assim todo patrimônio que possuem. Assim, seus filhos ficam no Brasil sem nenhum sustento, e tentam refazer suas vidas. Com a prisão do Contratador e na ausência de alguém que ocupe o posto de contratador de diamantes, a família precisa arrecadar dinheiro, e decidem vender seus escravos. O capitão-do-mato não tem o valor pedido pela venda de Xica e sua mãe. Elas, então, são vendida para o Sargento-Mor Thomaz Cabral, que estupra Xica, tirando-lhe sua virgindade, o que lhe gera revolta e um ardente desejo de vingança. A mulata torna-se também escrava de Violante, filha do Sargento-Mor, uma escravocrata preconceituosa, extremamente reprimida, moralista, invejosa e amargurada, que agride e humilha Xica constantemente, tendo sido conivente com o pai no abuso de Xica, persuadindo-a para ir o local onde foi abusada. Já Maria consegue fugir com a ajuda de Quiloa, e juntos vão parar no quilombo de Severina (Leci Brandão).
Com a ruína da família Caldeira Brant, Clara é estuprada em uma curra[] tendo um surto psicótico temporário, passando a se esconder nas matas, e a vagar sem rumo pelas ruas, quase nua. No decorrer da trama, com a ascensão de Xica, a ex-escrava manda cortar as orelhas de Clara, por esta ter lhe despertado ciúmes e raiva. Martim e Paulina, irmãos de Clara, vão morar na pensão de Dona Benvinda (Miriam Pires), uma velha bruxa que cuidou sozinha de seu neto José Maria (Guilherme Piva), um homossexual enrustido, com trejeitos afeminados, sendo alvo de muitos comentários maldosos e preconceituosos. A velha bruxa hospeda vários hóspedes entre eles a costureira Elvira (Giovanna Antonelli), com quem pretende casar com seu neto para abafar comentários. No decorrer da trama os dois chegam a se unir, mas não conseguem manter relações sexuais, pois José Maria não consegue tocá-la. A relação se abala quando Xica o presenteia com um escravo chamado Paulo (Déo Garcez), o que faz José Maria aflorar seu lado afetivo, ficando em dúvida entre seus desejos, ou as aparências exigidas pela sociedade da época. Paulo torna-se amante de Elvira, com quem tem um filho. José Maria aceita essa situação, e conversa com Elvira, que aceita que seu marido também viva um caso com Paulo.
No quilombo, Quiloa lidera uma revolta contra os senhores de escravos, e faz de tudo para fugir da opressão da sociedade hipócrita movida pela cobiça dos diamantes. Para comandar a extração dos diamantes, chega de Portugal ao Arraial do Tijuco o Contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira (Victor Wagner), que é o noivo prometido de Violante. O sonho dela é ter seu primeiro beijado dado por ele, já que nunca foi tocada por homem nenhum, e só relacionava-se com o noivo por cartas.
Em uma visita a prometida, João Fernandes se apaixona perdidamente por Xica, que pela primeira vez se vê amando um homem. Mesmo sob pretextos de Violante ao pai, o Sargento-Mor decide vender a escrava para João Fernandes, por um valor alto, devido a constantes conflitos que Xica passa a criar no casarão de Sargento-Mor, como parte do seu plano de vingança. Totalmente encantado pela sedutora mulata, o contratador faz de tudo para possuí-la, mas a escrava se mostra difícil, o que o atiça ainda mais. Percebendo o interesse do contratador, Xica seduz ainda mais o extrator de diamantes, e após uma intensa noite de amor, consegue sua alforria. A partir disso, o envolvimento entre eles se torna cada vez mais forte a ponto de João Fernandes assumir sua relação com a negra, e desfazer seu noivado com Violante, que não suporta ser preterida por uma escrava forra, e jura fazer de tudo para acabar com a relação de Xica e João Fernandes.
Sempre desprezada pela sociedade branca do Arraial do Tijuco, Xica, em uma cena antológica, desfila pelas ruas do arraial em uma carruagem elegante, portando sapatos, luvas, peruca branca, maquiagem e um lindo vestido de seda, tecido este dedicado somente as mulheres brancas e ricas, causando o repúdio da sociedade preconceituosa. É nessa cena que Violante manda uma escrava jogar urina na negra, se tornando o estopim para outros moradores acertarem a ex-escrava com pedras e ovos podres, porém Xica não perde sua altivez, e continua andando de cabeça erguida.
Não sendo aceita, Xica resolve se vingar de todos que a desprezaram, e não perde a oportunidade de vê-los em péssimo estado. Fugindo da mocinha tradicional que sofre em silêncio, Xica da Silva se vinga de seus algozes, cometendo algumas atrocidades, como mandando esquartejar um escravo e colocar seus restos na feijoada e servir aos convidados, entre outras barbaridades, chegando a pagar escravos para arrancar os dentes de uma escrava, que Violante pagou para seduzir o contratador. A negra transforma sua casa em um palácio, vestindo suas mucamas como damas da corte, usando perucas coloridas e fazendo todos curvarem-se diante de seu poder. A ascensão da negra se dá quando João Fernandes manda canalizar um grande rio, a quem dá o nome de Mar de Xica, e compra uma embarcação para sua amada.
Paralelo a isso, Martim e das Dores, antes prometidos, vêem sua relação ruir quando o pai da moça proíbe qualquer envolvimento depois do pai do rapaz ser preso como traidor da Coroa. Os dois resolvem fugir e para que isso dê certo armam um plano: o rapaz irá embora e a moça será dada como morta após ingerir uma erva. Tempos depois, ela acordará, será enterrada pelo amado. A situação se complica quando os dois são desmascarados e das Dores é presa acusada de bruxaria, e condenada a forca.
Para destruir a relação entre Xica e João Fernandes, Violante arma com um negro uma cena, que indica que a ex-escrava trai o contratador e, o plano dá certo. O homem mais importante expulsa a amada de casa, que volta a sofrer preconceito racial pelas ruas do arraial. Já João Fernandes começa a se envolver com outras mulheres. Enquanto está pobre, Xica passa a realizar atos de caridade, e também é responsável por libertar das Dores da forca, ao mandar um garoto roer as cordas. Quando a filha do capitão-mor cai após a corda se romper, todos acreditam se tratar de um milagre. Livre para viver com seu amado, das Dores se descobre grávida, mas acaba se separando de Martim. O filho dos dois levará a uma grande disputa, já que o pai da moça quer cuidar do filho para que ele possa levar o sobrenome da família adiante. Nesse período, o capitão-mor acaba assassinado.