Aarão Leal de Carvalho Reis foi um engenheiro civil, urbanista, professor, empresário e político brasileiro. Nasceu em Belém, no Pará, em 6 de maio de 1853, e morreu no Rio de Janeiro, em 11 de abril de 1936. Em 1893, chefiou a comissão que comparou as localidades candidatas à nova capital de Minas Gerais. Depois que o Congresso Mineiro escolheu o antigo arraial de Curral del-Rei, Aarão assumiu a primeira fase da Comissão Construtora da Nova Capital e coordenou o trabalho que resultou no plano urbano de Belo Horizonte.
Aarão não escolheu a atual localização de Belo Horizonte como sua primeira opção. No relatório final da comissão de 1893, preferiu Várzea do Marçal, planície nos arredores de São João del-Rei, atendida pela ferrovia e mais barata em seus cálculos. A decisão por Belo Horizonte coube ao Congresso Mineiro. Depois da votação, Aarão recebeu a tarefa de planejar a cidade no local escolhido. Em meio a divergências com o governo de Bias Fortes, pediu exoneração da Comissão Construtora. O pedido foi aceito em 20 de maio de 1895, e Francisco de Paula Bicalho assumiu a chefia dois dias depois.
O plano foi aprovado em 15 de abril de 1895. A área urbana recebeu ruas dispostas em malha regular, atravessadas por avenidas diagonais e cercadas pela atual Avenida do Contorno. Fora desse perímetro ficavam as zonas suburbana e de sítios. As ruas centrais, as diagonais, as praças e os eixos traçados pela comissão formam boa parte do centro de Belo Horizonte. A cidade está entre as primeiras cidades brasileiras planejadas segundo os princípios urbanísticos do fim do século XIX.
Ao longo da carreira, Aarão também foi diretor-geral dos Correios, diretor do Banco da República do Brasil, diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil e diretor do Lloyd Brasileiro. Criou empresas industriais e de fornecimento de energia no estado do Rio de Janeiro. Na política, representou o Pará na Câmara dos Deputados durante parte de 1911 e de 1927 a 1930. Aarão é o patrono da cadeira 1 da Academia Nacional de Engenharia.
Formação e primeiros trabalhos
Aarão nasceu em Belém, filho de Fábio Alexandrino de Carvalho Reis e Anna Rosa Leal de Carvalho Reis. Seu pai trabalhava como inspetor da alfândega na cidade e ocupou outros cargos na administração do Império. Em 1869, Aarão matriculou-se na Escola Central do Rio de Janeiro, transformada em Escola Politécnica em 1874. Concluiu o curso de engenheiro geógrafo em 1872 e o de engenheiro civil em 1874, quando recebeu também o grau de bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas. Começou a dar aulas de matemática antes de terminar a graduação e trabalhou depois como professor da Escola Politécnica.
thumb|Porta relógio que pertenceu a Aarão Reis, no acervo do Museu Histórico Abílio Barreto.
Em 1873, entrou na administração pública como praticante da diretoria responsável pelas obras da Alfândega do Rio de Janeiro. Dois anos depois, passou a fiscalizar a construção do novo matadouro de Santa Cruz. Quando o contrato da obra foi rescindido, integrou em 1879 uma comissão presidida pelo engenheiro Cristiano Benedito Ottoni, que examinou os serviços concluídos e calculou o que ainda precisava ser feito. Aarão organizou depois a Companhia Ferro-Carril de Caxambi e trabalhou como engenheiro-gerente na construção da linha, na preparação dos regulamentos e no início da operação.
Na década de 1880, Aarão trabalhou com ferrovias, telégrafos e obras hidráulicas. Entre 1881 e 1885, chefiou o serviço telegráfico da Estrada de Ferro D. Pedro II. Em 1885, participou dos trabalhos do Açude do Cedro, em Quixadá, no Ceará. Ainda no período imperial, aderiu ao republicanismo e adotou ideias positivistas. Depois da Proclamação da República, tornou-se engenheiro-chefe da Estrada de Ferro de Pernambuco. Em 1890, assumiu a direção-geral da Secretaria de Agricultura, Indústria, Viação e Obras Públicas e trabalhou com os ministros Demétrio Ribeiro, Francisco Glicério e Quintino Bocaiúva. Entre 1891 e 1892, chefiou a área técnica da Companhia Ferro-Carril da Tijuca e presidiu a Companhia Geral de Melhoramentos no Maranhão.
A nova capital de Minas Gerais
Estudo das localidades
A transferência da capital mineira já era discutida antes da República. A Constituição estadual de 1891 fixou a mudança. Ouro Preto tinha pouco espaço para crescer, e os republicanos favoráveis à transferência viam a antiga capital como uma cidade do Império. O governo mineiro escolheu cinco localidades para os levantamentos técnicos: Barbacena, Juiz de Fora, Paraúna, Várzea do Marçal, planície nos arredores de São João del-Rei onde se formou o bairro Colônia do Marçal, e Belo Horizonte, nome que o antigo Curral del-Rei havia recebido em 1890.
O presidente estadual Afonso Pena entregou os trabalhos a Aarão. A comissão mediu o terreno, examinou as fontes de água e calculou as condições de saneamento, transporte e construção de cada localidade. Também avaliou a salubridade, os materiais disponíveis e o custo das obras. Os resultados foram reunidos no relatório entregue ao governo mineiro em 1893.
Belo Horizonte e Várzea do Marçal ficaram como as duas opções finais. Aarão preferiu Várzea do Marçal, onde a ferrovia já chegava e o terreno exigiria menos obras iniciais. Seus cálculos também apontavam um custo menor. O Congresso Mineiro escolheu Belo Horizonte em dezembro de 1893. A comissão daquele ano e a Comissão Construtora criada em 1894 tinham tarefas diferentes. A primeira comparou os locais candidatos e recomendou Várzea do Marçal. A segunda planejou uma cidade no arraial escolhido pelos deputados estaduais.
Comissão Construtora
O governo estadual criou a Comissão Construtora da Nova Capital pelo Decreto n.º 680, de 14 de fevereiro de 1894, e nomeou Aarão engenheiro-chefe. A equipe tinha engenheiros, arquitetos, desenhistas, agrimensores, médicos e funcionários administrativos. Coube à comissão medir o arraial, estudar o abastecimento de água e a rede de esgoto, calcular as desapropriações, abrir as vias e preparar os projetos dos edifícios públicos.
miniaturadaimagem|esquerda|Planta cadastral do arraial de Belo Horizonte preparada durante os estudos para a nova capital
A comissão desenhou as casas, os terrenos, os caminhos, os córregos e os edifícios que existiam no arraial. Com essas medidas, calculou as indenizações e definiu por onde passariam as ruas da nova cidade. O plano geral foi aprovado pelo Decreto estadual n.º 817, de 15 de abril de 1895. Nessa altura, a relação entre Aarão e o governo mineiro já estava desgastada. Ele havia sido escolhido por Afonso Pena e dirigido a Comissão Construtora com ampla autonomia, mas perdeu parte dessa liberdade depois que Bias Fortes assumiu a presidência do estado. Os motivos exatos do rompimento não ficaram inteiramente esclarecidos. Duas explicações aparecem na historiografia: a discordância de Aarão com a participação mais ampla de empresas privadas na construção da capital e a pressão do governo para admitir pessoas indicadas politicamente, algumas sem a qualificação técnica que ele exigia.
Abílio Barreto atribuiu a Aarão a frase "A politicagem quer entrar na Comissão. É tempo de eu sair". Uma correspondência de 25 de abril de 1895 já mencionava seu pedido de demissão. O governo concedeu-lhe a exoneração, a pedido, em 20 de maio, e Francisco de Paula Bicalho tomou posse dois dias depois. Aarão saiu, portanto, por iniciativa própria, mas em meio ao conflito com a nova administração estadual.
miniaturadaimagem|Planta geral da nova capital aprovada em 1895
A cidade foi inaugurada em 12 de dezembro de 1897 com o nome oficial de Cidade de Minas. O governo retomou o nome Belo Horizonte em 1901. Aarão já não trabalhava para a Comissão Construtora quando a capital foi inaugurada, embora o traçado aprovado durante sua chefia tenha orientado a abertura das ruas e a divisão inicial do território.
Plano urbano
Aarão dividiu o território em zona urbana, zona suburbana e zona de sítios. A zona urbana ficava dentro da avenida chamada inicialmente de Avenida 17 de Dezembro, que recebeu depois o nome de Avenida do Contorno. A zona suburbana tinha ruas ajustadas ao terreno e um desenho menos regular. A zona de sítios foi reservada para pequenas propriedades, colônias agrícolas e parte do abastecimento de alimentos da capital.
Na zona urbana, ruas de 20 metros de largura formavam uma malha ortogonal. Avenidas de 35 metros atravessavam essas ruas em diagonal. A Avenida Afonso Pena tinha 50 metros e cortava a cidade no sentido norte-sul. O projeto calculava espaço para cerca de 200 mil habitantes. Árvores plantadas ao longo das vias e dos espaços públicos faziam parte das medidas de sombra, ventilação e saneamento previstas para a capital.
miniaturadaimagem|esquerda|Planta original da capital dos Estados Unidos, Washington, D.C., projetada pelo francês Pierre Charles L'Enfant, uma das inspirações para a planta de Belo Horizonte.
A estação ferroviária, os edifícios administrativos, as áreas comerciais, os bairros residenciais e o parque central foram distribuídos ao longo das ruas e avenidas do plano. A região da estação, junto à atual Praça da Estação, tornou-se um dos primeiros núcleos comerciais. Os lotes reservados aos funcionários públicos formaram o bairro Funcionários. Aarão havia espalhado os prédios do governo por pontos diferentes da cidade. Depois de sua saída, Francisco de Paula Bicalho concentrou a administração estadual em torno da Praça da Liberdade, e alguns edifícios do desenho inicial não foram construídos.
O plano também reservou uma área verde dentro da zona urbana. O terreno tornou-se o Parque Municipal Américo Renné Giannetti, projetado pelo paisagista francês Paul Villon. Aarão morou durante parte dos trabalhos na antiga chácara que ocupava o local. O parque foi inaugurado em 26 de setembro de 1897.
Ruas em malha ortogonal cortadas por diagonais também haviam sido usadas nos planos de La Plata e Washington. Em Belo Horizonte, a comissão ajustou esse desenho ao perímetro reservado para a capital e aos pontos escolhidos para a estação, o parque e os edifícios públicos. As ruas largas, a arborização, as praças e as áreas abertas seguiam ideias europeias de circulação, higiene e ventilação que circulavam entre engenheiros e urbanistas no fim do século XIX.
Construção, moradia e expansão
A construção da capital exigiu a desapropriação e a demolição de boa parte do antigo arraial. Moradores perderam casas, terrenos e espaços usados por irmandades religiosas. As novas ruas cortaram caminhos e antigas divisões de propriedade de Curral del-Rei. O trabalho transformou rapidamente uma povoação existente em um canteiro de obras organizado a partir da planta de 1895.
A zona urbana recebeu os prédios públicos, as redes de água e esgoto, a iluminação e os lotes submetidos às regras de construção. O preço dos terrenos e essas exigências deixaram muitos operários fora do perímetro da Avenida do Contorno. A Comissão Construtora não preparou moradias permanentes em quantidade suficiente para as pessoas empregadas nas obras. Acampamentos e assentamentos começaram a ocupar terrenos próximos aos canteiros e áreas além da zona urbana antes da inauguração da capital.
A planta previa que a ocupação começasse dentro da Avenida do Contorno e avançasse depois para os subúrbios. A cidade real cresceu também fora desse perímetro desde os primeiros anos. As remoções, os preços dos lotes, as normas de construção e a distribuição desigual dos serviços separaram as áreas planejadas dos assentamentos formados por trabalhadores e famílias de menor renda.