O Palácio de Estoi, igualmente conhecido como Casa de Estói, Quinta de Estói e Quinta do Carvalhal, e originalmente como Jardim de Estoy, é um edifício histórico situado nas imediações da localidade de Estói, no município de Faro, na região do Algarve, em Portugal. Parte do complexo do Palácio de Estoi é ocupado por uma unidade hoteleira. É considerado como um dos principais monumentos do Algarve, devido à sua riqueza tanto arquitectónica como decorativa, combinando elementos dos estilos barroco, rococó, neoclássico e romântico. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público.
O complexo do Palácio de Estoi é de grandes dimensões, sendo formado essencialmente por dois elementos, uma antiga casa senhorial e os jardins. A casal senhorial é constituída por vários volumes, formando sensivelmente uma estrutura em forma de U, com o Jardim do Carrascal no centro. Integra-se principalmente nas linhas barrocas italianas, com vários elementos noutros estilos. Esta variedade de estilos e formas nem sempre constitui uma combinação harmoniosa, gerando incoerências entre os elementos, criando desta forma algumas disposições que quase se podem considerar como kitsch.
No seu interior conta com várias salas ricamente ornamentadas e mobiladas, tendo a decoração utilizado o modelo francês do século XVIII. Um dos mais destacados espaços do palácio é a capela, com uma torre sineira, e um interior no estilo Luís XV, com forro de azulejos e tecto pintado. Os extensos jardins estão organizados em três níveis, e são parcialmente conjugados com diversas áreas para produção agrícola. Esta área também está profusamente decorada com árvores exóticas, esculturas e azulejos, seguindo principalmente o barroco. Entre os elementos mais destacados estão um presépio setecentista, a escultura das Três Graças, fabricada em Pisa, e o conjunto da Fonte de Ossónoba, e duas esculturas de pastores em mármore de Carrara. No terceiro piso realçam-se igualmente os dois mirantes, decorados com pinturas de Francisco Sousa Alves. O conjunto de azulejos dos jardins incluem painéis polímcromos no nível intermédio, e os painéis em tons azuis e brancos, da autoria de José Maria Pereira Junior, no plano mais elevado.
O palácio tem a sua origem numa quinta do século XVIII, fundada pelo marechal Francisco de Pereira Coutinho, que estava ligado à alta nobreza, tendo provavelmente sido inspirada no Palácio Nacional de Queluz. A quinta foi construída num período de grandes alterações económicas e sociais na região, com as famílias burguesas a ganharem poder nos centros urbanos, relegando as antigas famílias nobres para as suas propriedades no interior algarvio. A construção do palácio em si só se iniciou em meados do século XIX, pelo seu filho, Fernando de Carvalhal e Vasconcelos, que terá sido influenciado pelo Palácio da Pena, em Sintra. Porém, este faleceu antes da conclusão das obras, que foram retomadas pelo seu irmão Luís Filipe do Carvalhal, embora tenha igualmente expirado antes do palácio estar construído. Assim, a propriedade passou para o irmão mais novo, José Maria Pereira do Carvalhal, e depois para as suas irmãs. A propriedade ficou ao abandono até à década de 1890, quando foi comprada por José Francisco da Silva, que reiniciou as obras, tendo o palácio sido inaugurado em Maio de 1909, num evento de grande solenidade que durou três dias. José Francisco da Silva faleceu em 1926, tendo o palácio depois passado por vários proprietários, levando à sua progressiva degradação. Apesar de ter sido classificado como Imóvel de Interesse Público em 1977, os primeiros passos para o restauro do palácio só foram dados nos finais da década de 1980, quando foi adquirido pelo município de Faro. O monumento foi alvo de extensas obras de conservação ao longo da década de 1990, e nessa altura começou a ser planeada a sua conversão numa pousada, como forma de promover a sua rentabilização. Em 2003 iniciaram-se as obras de adaptação a pousada, que foi inaugurada na Páscoa de 2009.
Descrição thumb|left|Diagrama do Palacio de Estoi Localização e acessos O Palácio de Estói está situado sensivelmente na área setentrional da aldeia com o mesmo nome, estando integrado na sua malha urbana.SANTOS, 2008:131-133 Tem acesso pelas ruas da Horta Nova e de São José, sendo nesta última a entrada principal do palácio. O sítio arqueológico das Ruínas romanas de Milreu situa-se nas proximidades do palácio. A aldeia de Estoi situa-se numa área de ambiência rural, na transição entre o Barrocal e a faixa costeira do Algarve. Situa-se a cerca de 10 Km de distância da capital de concelho, a cidade de Faro.
Conservação e importância O conjunto do palácio e dos seus jardins é conhecido pela sua arquitectura ecléctica, sendo considerado por muitos autores como o exemplo mais significativo de arquitectura romântica no Algarve e um dos principais do país. O imóvel destaca-se igualmente pela sua riqueza decorativa, pelas suas grandes dimensões, e pela complexa conjugação dos jardins com espaços dedicados à produção agrícola. É considerado um dos principais monumentos de Estói, em conjunto com as Ruínas romanas de Milreu,MARQUES, 1999:166 fazendo desta aldeia uma das mais conhecidas na região do Algarve. A importância do palácio advém em parte da sua monumentalidade singular na região, onde o património palaciano é pouco comum, devido à fraca situação económica durante os últimos séculos, a instabilidade social, e desastres naturais.LEAL, 2006:83 Num artigo publicado no periódico Povo Algarvio em 1963, o jornalista Luciano Marcos sublinhou a forma como o palácio e os seus jardins constituíram uma recriação das residências abastadas do passado: «No palácio encantador de Estoi poder-se-ia rodar um filme sem gastar astronómicos números de dólares como fazem as grandes companhias quando pretendem fazer um filme com as características da vida opulenta dos tempos idos. Foi exactamente deste género de vida que eu vi em meu redor ao olhar aquele terraço com um belo lago tendo no meio um valoroso trabalho em mármore, uma obra prima do sinzel como todos os bustos e as muitas figuras humanas que este palácio tem». José Fernandes Pereira, na sua obra Arquitectura Barroca em Portugal, classificou o palácio como «a mais notável residência do Sul», explicando que «é-o não tanto pela casa, onde no exterior surgem já alguns indícios neoclássicos e no interior se desenvolve uma rica decoração de estuques, mas pela qualidade cenográfica dos seus jardins», que são «um espaço de representação e fruição de prazeres», simbolizando o «sonho romântico quando a natureza surge como o grande refúgio».PEREIRA, 1992:197-198
O Palácio e os seus jardins foram classificados como Imóvel de Interesse Público e fazem parte da zona de protecção do Núcleo Urbano Antigo de Estói.
Composição thumb|left|Rua que corta a meio a propriedade do palácio, com uma ponte ligando as duas metades O Palácio de Estoi é um exemplo de uma antiga casa senhorial, utilizada principalmente nos períodos de veraneio. Pode ser classificado como uma quinta de recreio, devido à sua composição, formada pelo edifício palacial em si e vários espaços abertos, incluindo os extensos jardins. O conceito de quinta de recreio surgiu no século XVIII no Algarve, para designar uma propriedade que combinava as vertentes económica e de lazer. No caso do Palácio de Estoi, as áreas produtivas, como os pomares de citrinos, foram organizadas em combinação com os espaços ajardinados, que incluem vários estruturas e equipamentos lúdicos, como casas de fresco, pavilhões de chá, um coreto, e vários lagos artificiais. O palácio não é o único exemplo de uma quinta de recreio no concelho de Faro, existindo outros imóveis que podem ser classificados com esta tipologia, como a Horta dos Macacos e a antiga Quinta da Família Bívar Cumano.FERNANDES e JANEIRO, 2008:17 A propriedade foi organizada sensivelmente no sentido Norte - Sul, com a fachada principal orientada no sentido setentrional, de forma a deixar o edifício do palácio e os jardins virados para Sul.PINTO, 2020:29
Embora o complexo do palácio seja um elemento distinto da malha urbana de Estoi, pela sua arquitectura e estrutura dos vários espaços, ainda assim mantém uma ligação à aldeia através da rede viária, que condicionou a sua organização. Esta situação é particularmente visível numa rua que atravessa completamente a propriedade, que parte do Jardim de Ossónoba, em Estoi, e que dá acesso a vários terrenos agrícolas, levando à divisão dos jardins em duas áreas distintas. Por outro lado, o próprio palácio e os seus terrenos também impuseram limites à expansão urbana de Estoi, principalmente na zona Norte. Palácio thumb|Sala no interior do palácio, em 2018 O edifício do palácio desenvolve-se num só piso, de forma horizontal, com o corpo central mais elevado e saliente em relação ao resto da fachada. Os vários volumes do palácio estão organizados sensivelmente em forma de U, tendo no centro um espaço verde de planta quadrangular, o Jardim do Carrascal, que era considerado originalmente a entrada principal do palácio. A fachada exterior é relativamente sóbria, tendo sido organizada de forma simétrica e contando com elementos decorativos em argamassa, de forma a imitar o calcário. A fachada voltada para os jardins está dividida em três panos por pilastras de ordem jónica, sendo cada um destes panos rasgado por um vão de sacada, de forma semicircular, rematado por óculo de frontão contracurvo.SANTOS, 2008:139-140 O imóvel, que corresponde à parte superior do complexo do palácio, foi construído numa plataforma artificial, de forma a dominar os jardins e a zona produtiva, de acordo com os trâmites iluministas do século XVIII. Esta influência também é visível na organização lógica dos volumes do palácio, com as áreas nobres no centro, flanqueadas pelas alas laterais e pela capela. Esta disposição também foi motivada pela própria natureza dos terrenos no local do edifício, que formam um declive proeminente.
O edifício ostenta uma miscelânea de estilos, sendo principalmente baseado no barroco italiano, com elementos do neoclássico, neorrococó e a arte nova. Vilhena de Mesquita descreveu o palácio em 1988 como tendo vinte e oito salas,MESQUITA, 1988:335-336 sendo de especial interesse, pelas suas dimensões e pela riqueza do seu mobiliário e decoração, o Salão Nobre, a Sala de Jantar e a Sala de Visitas, esta última igualmente conhecida como Sala Azul. A decoração interior utilizou o modelo francês do século XVIII, tendo por exemplo o Salão Nobre sido composto no Estilo Luís XV. Esta sala foi decorada com pinturas em tela no tecto e nas janelas, da autoria de Adolfo Greno, em conjunto com telas de pequenas dimensões do artista José Maria Pereira Júnior, enquanto que a pintura dourada do estuque foi assinada por Manuel da Costa. As peças de mobiliário foram fornecidas pela companhia de Manuel Marino, e exibem laqueados do artista Domingos Costa. Adolfo Greno e Domingos Costa também trabalharam na decoração interior da Igreja de Estoi. A Sala de Jantar, no estilo renascentista, também se destaca pela suas pinturas do tecto, executadas por José Maria Pereira Júnior, e pelo seu mobiliário em nogueira, com entalhes em estilo italiano. Em seguida situa-se a Sala de Visitas, igualmente decorada de acordo com o padrão Luís XV, salientando-se o tecto, executado por Domingos Costa, e o mobiliário, suprido pela empresa de Manuel Marino. No interior do edifício também merecem destaque duas saletas, com tectos pintados pela artista Maria Barreta, de Nápoles, e o vestíbulo, por onde se dá acesso ao Jardim do Carrascal. Os compartimentos do palácio são de plantas quadradas e rectangulares, aos quais se tem acesso por longos e estreitos corredores, mas grande parte das salas têm portas de ligação entre si. Outro artista destacado que trabalhou no palácio foi Pereira Cão, como azulejista e pintor decorador.LEAL, 2006:151 Capela e pousada