Diogo de Castilho (; Trasmiera, – Coimbra, 1574) foi um arquiteto e empreiteiro de origem cantábria ativo em Portugal desde 1509 até à sua morte. Ficou particularmente ligado à cidade de Coimbra, onde desenvolveu intensa atividade (enquanto arquiteto-empreiteiro, tinha brigadas de trabalhadores em obras simultâneas), marcando o gótico final (intervenções no Mosteiro de Santa Cruz, no Mosteiro de São Marcos de Coimbra, etc.) e a emergência do novo idioma renascentista (Colégios Universitários na Rua da Sofia, etc.), tendo ainda ocupado cargos destacados no âmbito da vida citadina.
Biografia A sua ascendência permanece incerta; segundo Pedro Dias, no entanto, praticamente todos os autores são unânimes em aceitar que o seu pai era o abade de Liérganes, na Cantábria. Diogo de Castilho era irmão, dez anos mais novo, de João de Castilho, com o qual trabalhou no início de carreira. Foi casado com Isabel Ilharco, filha de um negociante de ferro.Dias, Pedro – Os portais manuelinos do Mosteiro dos Jerónimos. Coimbra: Instituto de História de Arte, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1993Pereira, Fernando António Baptista – História da Arte Portuguesa: Época Moderna (1500-1800). Lisboa: Universidade Aberta, 1992, p. 46-48
Veio para Portugal em 1509 e durante dois anos esteve envolvido com João de Castilho nas obras da capela-mor da Sé de Braga. A sua formação gótico-manuelina prosseguiu em Lisboa ao trabalhar na construção do Mosteiro dos Jerónimos (1517), assumindo depois a responsabilidade da construção dos túmulos de D. Afonso Henriques e na igreja do Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra, cuja conceção geral lhe é atribuída (esta atribuição não é unânime; segundo Pedro Dias, dada a pouca experiência anterior de Diogo, a conceção deverá ter sido de João de Castilho, tendo Diogo vigiado e dirigido a obra). Realiza empreitadas nas regiões do Porto e de Coimbra (Tentúgal; Góis).
Radica-se na cidade do Porto e, depois, em Coimbra . Logo em 1524 é nomeado mestre das obras dos paços reais de Coimbra, para substituir Marcos Pires, entretanto falecido; sete anos mais tarde é instituído no cargo de mestre pedreiro (arquiteto e empreiteiro) das obras do Mosteiro de Santa Cruz (1531/1547). Ficaria também intimamente associado à implantação da Universidade de Coimbra, sendo responsável pela conceção e edificação de vários colégios localizados na Rua da Sofia (ou da Sabedoria), nomeadamente o emblemático Colégio da Graça, fundado em 1543, que serviu de matriz para os que se lhe seguiram. Coimbra iria, assim, ocupar o epicentro da sua atividade, que se repartiu por um vasto leque de empreendimentos, alguns puramente arquitetónicos, outros predominantemente de engenharia (obras do reparo da ponte e encanamento, etc.).Serrão, Vítor – História da Arte em Portugal: o renascimento e o maneirismo. Lisboa: Editorial Presença, 2002, pp. 70-72
Trabalhou de início dentro de parâmetros tardo-medievais, alcançando mais tarde um novo estatuto, vindo a ocupar cargos destacados na cidade de Coimbra (nomeadamente enquanto interlocutor junto do rei em representação dos interesses do Mosteiro de Santa Cruz). Em 1547 D. João III nomeou-o cavaleiro da Casa Real. Diogo de Castilho privou com altas dignidades da época (tanto a nível local como central), desfrutando de uma posição social e financeira privilegiada.
Obra A obra de Diogo de Castilho percorreu tempos diferentes, emergindo no período do manuelino, de que podem citar-se como exemplos o coro-alto de Santa Cruz, as capelas-mor da Igreja Matriz de Góis e da Igreja do Mosteiro de São Marcos, ou a capela de São João Batista na Igreja de São Francisco, Porto (que Pedro Dias considera uma "joia arquitetónica"Dias, Pedro – Arte Portuguesa, da pré-história ao século XX: a arquitetura manuelina. Fubu Editores S.A., 2009, p. 64). Viria depois a afirmar-se em pleno no quadro de valores do renascimento, realizando obras marcantes da arquitetura portuguesa desse período. Para essa abertura à influência clássica terá contribuído o contacto com Nicolau Chanterene, com quem contactou em Lisboa e Coimbra, com João de Castilho, que cedo integrou as novas direções na sua obra, com Frei Brás de Barros, o grande reformador de Santa Cruz, e com João de Ruão.
Na obra dos novos colégios universitários de Coimbra Diogo Castilho aperfeiçoou o novo estilo e acomodou-o às exigências da nova situação. Destaque-se o Colégio da Graça (classificado como Monumento Nacional em 1997), onde fixou o modelo para os restantes colégios universitários conimbricenses, muitos deles também de sua autoria. Com este vasto conjunto de edificações Diogo de Castilho deu um importante contributo "para a implantação local e na região envolvente (e mesmo à escala nacional e extraeuropeia) do novo formulário" (Paulo Pereira, 1992).
Com decoração austera, tanto o claustro como a igreja do Colégio da Graça apresentam aspetos inovadores, contando-se entre as primeiras edificações portuguesas desenhadas segundo o novo estilo renascentista. Foi nesta igreja que se fez a implementação original da planta de nave única com capelas intercomunicantes. O seu interior apresenta planta longitudinal, com nave única coberta com abóbada de pedra de caixotões e seis capelas laterais, tendo a capela-mor, quadrada, largura igual à da nave e do coro-alto. O claustro começou a ser edificado cerca de 1548; aqui, Diogo de Castilho utilizou a ordem jónica (recomendada para edifícios de letrados no tratado de Sebastiano Serlio), e inspirou-se no Claustro da Hospedaria do Convento de Cristo em Tomar (este modelo claustral seria repetidamente glosado nos colégios posteriores). De planta quadrada e ângulos cortados, o claustro do Colégio da Graça "apresenta uma estrutura de dois pisos, com três tramos por banda. O piso térreo possui arcada geminada e é coberto por abóbada de berço, cujos arcos torais estão apoiados em mísulas. O andar nobre [de outra autoria] terá sido edificado somente no século XVII. Os capitéis do claustro foram desenhados à semelhança dos capitéis esculpidos nas pilastras da igreja".
Com a sua intensa atividade na cidade de Coimbra Diogo de Castilho "definiu tipologias próprias e estabeleceu parâmetros do desenvolvimento arquitetónico da cidade durante um largo período. [...] Em Coimbra ir-se-á estabelecer, sob sua responsabilidade, um conjunto homogéneo de espaços arquitetónicos num sentido coerente do imaginário das formas. Rejeitando deliberadamente formulários e impondo conceções que iria explorar quase até à exaustão e à imutabilidade formal, aparece-nos um conjunto coeso que começa a tomar forma na década de 40 e se irá prolongar e estender para além da sua morte".
Algumas obras Conceção global e direção da construção dos túmulos de D. Afonso Henriques e D. Sancho I, Igreja do Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra (c. 1518-1522). Capela-mor da Igreja do Mosteiro de São Marcos de Coimbra, Tentúgal (1522-1523). Coro-alto e refeitório do Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra (contrato de 1528). Igreja de São João das Donas – hoje Café Santa Cruz (1527-1530). Capela de S. João Batista, ou de João Carneiro ou do Desagravo (c. 1530), Igreja de São Francisco (Porto). Capela-mor da Igreja Matriz de Góis (concluída em 1531). Capela-mor da Igreja de Trofa do Vouga (1534). Coro-alto da Igreja de S. Pedro de Frades (1539). Conceção da versão inicial da igreja e do claustro do Mosteiro da Serra do Pilar (com João de Ruão); a autoria das edificações atuais continua a levantar dúvidas, pois o mosteiro foi reconstruído no século XVII sem que se conheça o autor ou se saiba se a traça definitiva foi fiel à configuração quinhentista inicial (vários indícios permitem admitir que o claustro atual poderá ser próximo da traça original).Mosteiro da Serra do Pilar. Porto: Direção Regional de Cultura do Norte. Colégio da Graça, Rua da Sofia, Coimbra (fundado por D. João III em 1543). Lanço Novo, construído c. 1547-1548 para albergar o Colégio das Artes , Coimbra. Colégio do Carmo, Rua da Sofia, Coimbra (início em 1548; claustro de 1600, obra do pedreiro Francisco Ferreira). Claustro do Colégio de S. Tomás, Rua da Sofia, Coimbra (início em 1555). Claustro do Colégio de S. Jerónimo (edifício pertence à Universidade de Coimbra), Largo Dom Dinis, Coimbra (início em 1565).
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