A Igreja de São Lourenço, ou Igreja Paroquial de São Lourenço, é uma igreja situada no no Largo da Rosa, na freguesia de Santa Maria Maior, anteriormente na freguesia do Socorro, em Lisboa.

Fundada no século XIII, este é um templo de arquitectura gótica e barroca situado no bairro da Mouraria, em Lisboa, implantado em posição sobranceira ao Largo do Martim Moniz e articulado directamente com o Palácio da Rosa. Encontra-se classificada como Monumento de Interesse Público, classificação que abrange igualmente o Palácio da Rosa e a respectiva área ajardinada.

História

Origens A tradição atribui a fundação da igreja a Pedro Nogueira, também conhecido por Mestre Nogueira, físico do rei D. Dinis, no ano de 1258, embora uma inscrição existente numa tribuna, na parede paralela à linha longitudinal da igreja, refira o ano de 1296:Sepultura de Pedro Nogueira, que foi do Conselho de el-rei D. Afonso III, e fundou esta igreja no ano [era] de 1296Ao seu morgadio ficou a igreja associada, passando depois à casa dos viscondes de Vila Nova de Cerveira e, mais tarde, à dos marqueses de Ponte de Lima, de quem viriam a herdar os condes e marqueses de Castelo Melhor. Existem, contudo, referências documentais anteriores a essa data: uma igreja de São Lourenço é já mencionada na Relação de 1209 ou 1229 e na Inquirição particular realizada entre 1211 e 1230, sob a designação de "Ecclesia Sancti Lourencci", surgindo também referida no Documento de Chelas, de 1261. O Catálogo de 1321 tributa a igreja em 200 libras e o comum dos seus raçoeiros em 150 libras. Em 1296, a igreja constitui já padroado dos viscondes de Vila Nova de Cerveira.

Segundo o padre João Baptista de Castro, existia na igreja, no seu tempo, um padrão de pedra com inscrição antiga segundo a qual o bispo de Lisboa D. Mateus, em 1271, erguera pessoalmente um altar dedicado a Santa Vitória, a pedido de Vicente Martins, vigário régio, e de Álvaro de Lisboa, responsáveis pela sua edificação. Em 1531, o sismo que atingiu Lisboa causou danos consideráveis na igreja e em toda a zona da Mouraria, tendo sido cobrado um imposto destinado à sua reedificação; uma lápide sepulcral existente na capela-mor data de 1536.

Segundo o testemunho de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, em 1551 a igreja dispunha de um prior e quatro beneficiados, com um rendimento de 250 cruzados, cabendo 60 cruzados a cada benefício. Possuía então a capela de Santa Vitória, servida por dois capelães e com duas missas quotidianas, a capela de São João, a de Santa Catarina, também com missa diária, e a de Santa Ana, servida por três capelães; encontravam-se ainda sediadas no templo as confrarias do Santíssimo e de São Lourenço. A capela de Santa Ana havia sido instituída no âmbito do morgado dos Nogueiras, cujo padroado pertencia aos viscondes de Vila Nova de Cerveira, sendo estes igualmente juízes perpétuos da Irmandade do Santíssimo Sacramento, título que lhes foi conferido em 2 de Junho de 1649. Uma inscrição regista a construção, em 1648, da capela de Santa Ana, mandada erigir por D. Lourenço de Lima de Brito Nogueira, oitavo visconde de Vila Nova de Cerveira, destinada a melhorar a sepultura do fundador e instituidor da igreja e do morgado:Dom Lourenço de Lima de Brito Nogueira, oitavo visconde, de Vila Nova da Cerveira, do Conselho de Estado e Despacho, Presidente da Justiça, mandou fazer esta Capela de invocação da gloriosa Sant'Ana, para melhorar a sepultura do fundador e instituidor da dita igreja e morgado, no ano de 1648Em 1611, Lourenço Macedo de Fróis, provedor das capelas dos órfãos, solicitou a Filipe II apoio para obras de recuperação do templo, no qual já não era possível celebrar culto, uma vez que os danos causados pelo terramoto do século anterior ainda não tinham sido integralmente reparados. No século XVII foi erigido, em terreno contíguo, o Palácio da Rosa, adossado aos flancos este e norte da igreja, ocupando parte do espaço anteriormente ocupado pelas antigas capelas góticas, com o qual o templo passou a comunicar através da abertura de uma tribuna lateral voltada a norte. Em 1677, João da Mota pintou o tecto da igreja em grotesco, sucedendo-lhe Raimundo do Couto, autor, em 1692, de nova pintura do tecto, a quem se atribuem também os azulejos que subsistem na capela-mor. Em 7 de Maio de 1700, foi celebrado contrato entre D. Tomás de Lima e Vasconcelos, visconde de Ponte de Lima, e os pintores douradores Francisco Rodrigues, Marcos da Silva e Manuel do Monte, para o douramento do altar-mor, pelo valor de quatrocentos e cinquenta mil réis.

Segundo João Baptista de Castro, existiam na igreja, em 1763, diversas capelanias: três delas, apresentadas pelos referidos padroeiros enquanto administradores do morgado de Santa Ana, tinham côngrua de 40 mil réis cada uma; havia ainda outra capela reduzida a 145 missas e duas outras reduzidas a uma única, de 216 missas. Refere-se também a capela de Santa Vitória, administrada por D. António da Silveira, com rendimento de 80 mil réis, e a capela de Santa Catarina, com obrigação de coro, administrada por D. Isabel Josefa, de Telheiras. Os priores administravam ainda outra capela, também com obrigação de coro, no valor de 80 mil réis, enquanto a Irmandade do Santíssimo provia quatro capelas e a Irmandade das Almas três, de 50 mil réis cada.

Terramoto de 1755 e reedificações posteriores Nas Memórias Paroquiais de 12 de Novembro de 1761, assinadas pelo pároco Bernardo Bulhões de Araújo, refere-se que a igreja, então colegiada, possuía os altares-mor de Nossa Senhora da Piedade, do Espírito Santo, de São Tomás de Aquino, do Senhor Jesus, de Nossa Senhora da Conceição, de Santa Catarina (instituído por Constança Ana Palhavã e administrado pela Coroa) e de Santa Vitória (instituído por D. Vicente Martins Flor da Rosa e administrado por D. Tomás da Silveira), além das irmandades do Santíssimo e das Almas. O pároco, apresentado pelo padroeiro, o visconde de Vila Nova de Cerveira, recebia 250 mil réis, tendo a colegiada quatro beneficiados apresentados pelo mesmo padroeiro; nesta altura, a colegiada tinha como anexa a igreja paroquial de Oeiras.

O terramoto de 1 de Novembro de 1755 causou graves danos ao edifício, provocando a queda do coro e de cerca de metade do tecto da nave, a partir da porta principal, tendo, todavia, permanecido ilesa a capela-mor, sem que se registassem vítimas. O Santíssimo Sacramento foi transferido, num primeiro momento, para a igreja do Menino Deus e, posteriormente, para o interior da cerca do palácio dos viscondes de Vila Nova de Cerveira, onde se erigiu um altar provisório; veio depois a ser instalado numa sala do mesmo palácio, especialmente preparada para o efeito. A igreja foi então reconstruída com fachada de traça simples, voltada a poente, dotada de porta de entrada sobrepujada por janela de coro e ladeada pela torre sineira; as obras de recuperação ficaram concluídas em 1763.

Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, o altar-mor recebeu uma imagem de São Lourenço proveniente da igreja do extinto convento de São Camilo de Lellis (sito na zona da actual Praça da Figueira); a imagem deste santo havia sido trazida em procissão solene para a igreja em 1836. Em 18 de Março de 1889, transitou para a Casa do Despacho da Irmandade do Santíssimo mobiliário proveniente do extinto Convento de Nossa Senhora da Esperança. Em 1867, o templo foi reedificado, tendo o culto sido reaberto ao público em 24 de Novembro desse ano; datam desta campanha os quatro sinos da torre, fundidos pelo industrial Cândido Rodrigues Bellas, bem como, muito provavelmente, a pintura do tecto.«Igreja de São Lourenço». In: ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (org.). Portugal Património: Guia-Inventário. Volume VII (Lisboa). Conselho científico de José Mattoso, Paulo Pereira e Teresa Belo. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008. p. 258

Nos primeiros anos do século XX, a abertura da Rua do Marquês de Ponte de Lima obrigou a demolições e a alterações na envolvente urbana, com desaparecimento do antigo e pequeno largo e da escadaria que dava acesso à porta principal, ainda existentes por volta de 1840, ficando a igreja ao nível da nova via. Em 5 de Fevereiro de 1902, foi colocada no altar-mor a imagem de Nossa Senhora da Pureza, anteriormente venerada na capela do palácio dos condes de Castelo Melhor, junto aos Restauradores, adquirido em 1889 pelo marquês da Foz e entretanto demolido. Em 1904, concluíram-se novas obras de beneficiação promovidas pelo marquês de Castelo Melhor, então visconde de Várzea e juiz perpétuo da Irmandade do Santíssimo, facto registado em lápide colocada sobre a porta de acesso à sacristia.

Em 1926, o edifício encontrava-se sob dependência do Ministério da Justiça. Entre 1928 e 1936, foi proprietário do imóvel João da Silveira Pinto da Fonseca, sucedendo-lhe, a partir de 1949, os seus herdeiros; em 1958, a propriedade pertencia a Helena Castelo Melhor. Em 1970, o conjunto formado pelo Palácio da Rosa e pela Igreja de São Lourenço foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), apresentando o imóvel, nessa altura, significativo estado de degradação.

Intervenções arqueológicas e classificação Em 1989, na sequência da criação do Gabinete Técnico da Mouraria, foram empreendidas obras de consolidação e recuperação, acompanhadas pelo engenheiro Fernando Lizzi e por uma equipa multidisciplinar que integrou elementos do IPPAR, técnicos do Instituto José de Figueiredo, historiadores de arte e a equipa de azulejaria da CML. Esta intervenção permitiu compreender estratigraficamente o edifício e revelar uma parte significativa da primitiva igreja medieval, até então desconhecida. Entre 1992 e 1993, realizou-se nova intervenção arqueológica, sob direcção científica de Clementino Amaro, a pedido da Direcção Municipal de Reabilitação Urbana de Lisboa, com o objectivo de consolidar a estrutura, desentulhar uma capela gótica e registar as sucessivas inumações; sob a igreja foram identificados quinze silos de ocupação islâmica anteriores à construção do templo, o que evidencia uma ocupação prévia do local, ligada ao antigo povoado de al-Uxbuna.

Em 27 de Janeiro de 2005, por despacho do presidente do IPPAR, foi aberto o procedimento com vista à eventual classificação do conjunto, incluindo o Palácio da Rosa, encontrando-se este em vias de classificação desde 12 de Maio desse ano; em 21 de Junho de 2005, foi determinado o encerramento da proposta de classificação isolada do edifício, por se integrar no processo de classificação conjunta com o palácio. Em 14 de Junho de 2012, foi publicado, através do Anúncio n.º 12827/2012, no Diário da República, 2.ª série, n.º 114, o projecto de decisão relativo à classificação do edifício como , com fixação da respectiva Zona Especial de Protecção.

Descrição

Exterior A igreja insere-se na malha urbana irregular do bairro da Mouraria, zona que surgiu como área periférica muçulmana após a conquista cristã da cidade, delimitada por muralha e quatro portas, e onde o templo funcionou como espaço de culto cristão activo desde a segunda metade do século XII até ao século XIX. Localiza-se em posição de gaveto, sobranceira ao Largo do Martim Moniz, articulando-se de forma directamente comunicante com o Palácio da Rosa. A planta é rectangular, resultante da justaposição de dois rectângulos correspondentes à nave e à capela-mor, aos quais se adossam corpos laterais, apresentando volumetria paralelepipédica e cobertura em terraço.

Fachada principal