thumb|Francisco Madero à chegada em Pachuca em 1911
O Tratado de Ciudad Juárez foi um tratado de paz assinado entre o então Presidente do México, Porfirio Díaz, e o revolucionário Francisco Madero em 21 de maio de 1911. O tratado pôs fim aos combates entre as forças que apoiavam Madero e as de Díaz e como tal concluiu a fase inicial da Revolução Mexicana.
O tratado estipulava que Díaz, bem como o seu vice-presidente Ramón Corral, renunciariam aos seus cargos no final de maio, e que o seu substituto seria Francisco León de la Barra que exerceria funções como presidente interino até que houvesse eleições.Katz, Friedrich (1998): The Life and Times of Pancho Villa Stanford University Press, pgs 104–119. Como resultado, Díaz abandonou o México, exilando-se na França.Gonzales, Michael J. (2002): The Mexican Revolution, 1910–1940 UNM Press, pgs 76, 80–84
É significativo o facto de o tratado não mencionar nem instituir quaisquer reformas sociais que Madero havia vagamente prometido em ocasiões anteriores. Além disso, o estado Porfiriano era deixado quase intacto. Adicionalmente, Madero apoiou a ideia impopular de que todas as disputas de terras seriam resolvidas nos tribunais, onde dominavam os juízes idosos, o que levou a surtos de violência esporádicos, particularmente nas áreas rurais.
Em 7 de junho de 1911, Madero entrou na Cidade do México e em outubro desse mesmo ano foi eleito presidente, juntamente com José María Pino Suárez, o seu companheiro de candidatura, que foi eleito vice-presidente.Keen, Benjamin and Haynes, Keith (2008): A History of Latin America: Independence to the Present Cengage Learning, pg 315
Desenvolvimentos militares conducentes ao tratado
A rebelião contra o governo de Porfirio Díaz estalou no final de 1910, após Díaz ter mandado prender o seu rival Francisco Madero e anunciado a sua própria vitória numa eleição fraudulenta. As anteriores promessas vagas de uma reforma agrária por parte de Madero haviam atraído muitos apoiantes. Ele próprio escapou da prisão e fugiu para o Texas, de onde proclamou o seu famoso Plano de San Luis Potosí. Este manifesto apelava a um levantamento armado contra o Porfiriato e ao estabelecimento de eleições livres e democráticas. Como resposta à proclamação de Madero, em novembro de 1910 tiveram início confrontos violentos por todo o México.Navarro, Armando (2009): The Immigration Crisis: Nativism, Armed Vigilantism, and the Rise of the Countervailing Movement AltaMira Press, pgs 47–48
thumb|esquerda|Fotografia oficial dos vencedores da Batalha de Ciudad Juárez. Madero está sentado ao centro, Orozco à extrema direita, e Villa está em pé, à esquerda
No distrito de Guerrero em Chihuahua, Pascual Orozco atacou tropas federais e enviou os seus cadáveres a Díaz com a mensagem, "Ahí te van las hojas, mándame más tamales" ("Aqui vão as folhas, manda-me mais tamales.")Martin Donell Kohout, "Orozco, Pascual, Jr.", The Handbook of Texas Online, Texas Historical Association, acedido em 16 de junho de 2010 Iniciou então operações que ameaçavam Ciudad Juárez. Adicionalmente, a rebelião de Madero tinha também o apoio político de Abraham González, que concordava com o Plano de San Luis Potosí.
Quase pela mesma altura, o descontentamento agrário no estado de Morelos tornou-se numa rebelião sob a liderança dos irmãos Zapata, Emiliano e Eufemio.
Orozco e Villa tomam Ciudad Juárez
thumb|Ciudad Juárez situa-se na fronteira entre o México e os Estados Unidos. A sua localização teve um papel importante na batalha pela cidade e a preocupação com uma possível intervenção dos Estados Unidos atrasou o ataque dos rebeldes
Encorajado pelas notícias das revoltas, Madero cruzou a fronteira de regresso ao México em fevereiro de 1911. Juntaram-se-lhe Pancho Villa e Orozoco e em abril o exército começou a aproximar-se de Ciudad Juárez. Orozco e Villa seguiram à frente com 500 homens cada, enquanto Madero os seguiu com 1 500 cavaleiros. A cidade foi sitiada no final do mês, depois de o exército de Madero ter encontrado alguma resistência nos campos de Chihuahua. Madero pediu a rendição do comandante da guarnição de cidade, o que este último recusou, esperando que as fortificações que ele havia construído lhe permitiriam defender a cidade até à chegada de reforços. Preocupado também com a possibilidade de que um ataque direto à cidade poderia fazer com que obuses de artilharia caíssem do outro lado da fronteira, o que poderia provocar uma intervenção externa, e perante uma série de propostas de paz de Díaz, Madero hesitou em atacar a cidade, ordenando mesmo que os seus comandantes levantassem o cerco.Scheina, Robert L. (2003): Latin America's Wars: The Age of the Professional Soldier, 1900–2000 Brassey's, pg 15 Contudo, Orozco desrespeitou esta ordem e, juntamente com Villa, atacou. Após dois dias de combates a cidade caiu nas mãos dos insurreicionistas. Madero interveio pessoalmente para que fosse poupada a vida do comandante da guarnição da cidade, general Navarro, o qual tanto Orozco como Villa queriam ver executado pelas execuções de prisioneiros de guerra rebeldes. Isto, em conjunto com o facto de que ambos os líderes foram ignorados por Madero nas suas nomeações políticas, ofendeu-os e alienou-os dele.
Zapata no centro e sul do México
thumb|Emiliano Zapata e o seu pessoal juntamente com o general Manuel Asúnsolo e o revolucionário Abraham González em Cuernavaca em abril de 1911
Quase ao mesmo tempo que Villa e Orozoco marchavam sobre Ciudad Juárez, a revolta zapatista ganhava força e alastrava aos estados de Puebla, Tlaxcala, Mèxico, Michoacán e Guerrero. Em 14 de abril, Madero designou oficialmente Emiliano Zapata como seu representante na região.McLynn, Frank (2002): Villa and Zapata: A History of the Mexican Revolution Carroll & Graf Publishers, pgs 92–95 Contudo, Zapata pensava que se não controlasse totalmente todas as principais localidades de Morelos pela altura em que Madero concluísse as negociações com Díaz, as exigências do seu movimento agrário e a questão da autonomia de Morelos seriam ignoradas ou colocadas em segundo plano. A primeira ação militar de Zapata foi tomar a localidade de Chinameca, onde obteve mantimentos essenciais.Krauze, Enrique (1998): Mexico: Biography of Power: a History of Modern Mexico, 1810–1996 Harper Collins, pgs 283–285 Subsequentemente, Zapata, por razões políticas e estratégicas, decidiu atacar a cidade de Cuautla. Porém, para confundir os seus adversários, começou por atacar as localidades de Izúcar de Matamoros (mais tarde retomada pelas forças federais) e Chietla. A partir dali circundou Cuautla e capturou Yautepec e Jonacatepec onde conseguiu mais mantimentos, munições e soldados. Chegado o mês de maio, dentre os principais centros urbanos da região, apenas Cuautla e a capital de Morelos, Cuernavaca, permaneciam fora do seu controlo.
Zapata iniciou o ataque a Cuautla em 13 de maio, com 4 000 homens contra os 400 soldados de elite do chamado "Quinto de Ouro"; o 5º Regimento de Cavalaria do Exército Federal. A batalha prolongou-se por quase uma semana e tem sido descrita como "seis dos mais terríveis dias de batalha em toda a Revolução". Consistiu em combates casa a casa, e corpo a corpo, e sem quartel de ambos os lados. O general Victoriano Huerta chegou à vizinha Cuernavaca com 600 reforços, mas decidiu não ir em auxílio da guarnição de Cuautla pois temia que a capital se revoltaria na sua ausência. Em 19 de maio, o que restava do "Quinto de Ouro" retirou-se da cidade que foi então ocupada pelos soldados de Zapata.
A captura bem-sucedida de Cuautla tornou Zapata um herói para as pessoas comuns por todo o México e foram escritos novos corridos sobre ele. Após a tomada de Cuautla, o governo federal controlava apenas cinco estados e algumas áreas urbanas. O próprio Porfirio Díaz afirmou mais tarde que, embora sentisse que podia defender-se contra Villa e Orozco em Chihuahua, a queda de Cuautla foi o acontecimento que o persuadiu a acordar a paz com Madero.
O compromisso thumb|José Yves Limantour, conselheiro de Díaz que o encorajou a renunciar à presidência
Tão cedo como março de 1911, os representantes de Madero encontraram-se em Nova Iorque com o ministro das finanças de Díaz, José Yves Limantour, e com o embaixador do México nos Estados Unidos, para discutirem a possibilidade de paz entre os dois lados. Limantour propôs o fim das hostilidades e ofereceu uma amnistia para todos os revolucionários, a demissão do então vice-presidente Ramón Corral, a substituição de quatro ministros do governo de Díaz e de dez governadores estaduais à escolha de Madero, e ainda o estabelecimento do princípio de "não-reeleição" que impediria Díaz de se candidatar a mais um mandato como presidente (que seria o seu nono). Madero respondeu positivamente embora também afirmasse que qualquer tipo de acordo de paz teria que incluir a renúncia imediata de Díaz.
Confrontado com o cerco de Ciudad Juárez e a rebelião em Morelos, Díaz e os membros do seu governo tornaram-se mais dispostos a negociar e lançaram uma "hábil ofensiva de paz" dirigida a Madero. Tal foi, em grande medida, resultado do pânico gerado entre os grandes proprietários de terras associados ao regime de Díaz (os hacendados) e a elite financeira, os quais representavam uma ala "moderada" dentro do governo. De facto, alguns Porfiristas esperavam que Zapata não tardaria em marchar sobre a própria Cidade do México, a não ser que se concluísse a paz com Madero.
O ponto de vista moderado no interior do governo de Díaz era representado por Jorge Vera Estañol que num memorando para o ministro de relações exteriores escreveu que havia duas revoluções em curso no México: uma revolução política, baseada sobretudo no norte, cujo objetivo era estabelecer eleições livres e remover o próprio Díaz do poder, e uma revolução social cujo objetivo era a "anarquia" e que se alastrava pelo México rural. Estañol recomendou chegar a acordo com o primeiro grupo de revolucionários, concordando com o princípio de não-reeleição e uma amnistia geral, de forma a evitar que o segundo grupo fosse bem-sucedido. Além do seu medo da "anarquia", Estañol estava também preocupado com a possibilidade de a revolução social poder levar a uma intervenção militar do Estados Unidos.
As opiniões de Estañol representavam aquelas de uma parte da classe alta que estava disposta a pôr-se de acordo com pelo menos uma parte da classe média de forma a esmagar as revoltas camponesas, como a de Zapata, que surgiam por todo o México. Limantour, que concordava amplamente com Estañol, tinha o apoio dos financeiros mexicanos, que temiam a degradação do crédito internacional do México e uma crise económica geral como resultado da agitação social em curso, bem como o dos grande proprietários de terras que estavam dispostos a pôr-se de acordo com Madero se tal pusesse fim às revoltas agrárias.
thumb|esquerda|Porfirio Díaz a cavalo em 1910 ou 1911
A este grupo social opunham-se por outro lado os elementos mais reacionários do governo de Díaz, concentrados sobretudo no exército federal, os quais pensavam que os rebeldes deviam ser tratados pela força bruta. Esta facção era representada pelo general Victoriano Huerta, que mais tarde tentaria um golpe de Estado contra Madero. De igual modo, o general, e potencial sucessor de Díaz, Bernardo Reyes escreveu numa carta a Limantour que "a repressão (contra os insurreicionistas) deveria ser levada a cabo com a maior das energias, punindo sem piedade todos quantos participavam na luta armada". Contudo, Díaz acabaria por recusar os conselhos dos seus generais considerando-os uma "fanfarronice à Custer" e escolheu antes buscar fazer a paz com a ala moderada da revolução. Limantour havia conseguido finalmente persuadi-lo a demitir-se.