The Man of Steel é uma minissérie em seis edições publicada entre junho e agosto de 1986 pela editora de histórias em quadrinhos americana DC Comics. Escrita e desenhada pelo artista britânico naturalizado americano John Byrne, a série narra uma série de eventos que transcorrem durante cerca de dez anos e compõem a fictícia origem de Clark Kent, o super-herói conhecido como "Superman", mostrando o surgimento do herói e os primeiros anos de sua vida e desconsiderando da história do personagem toda a narrativa fictícia estabelecida até então, criando um novo cânone.

Considerada uma das obras mais representativas não apenas da história de Superman, mas também do período histórico em que se insere, The Man of Steel foi em geral bem recebida pela crítica e vendeu mais de um milhão de exemplares, mas tornou-se uma das mais controversas histórias em quadrinhos de super-herói já publicadas, pelas significativas mudanças que Byrne realizou com o personagem - embora bem aceita fora dos Estados Unidos, a história recebeu fortes críticas por parte de fãs americanos, descontentes com o "novo" Super-Homem. Ainda que as novas caracterizações, em particular a do vilão Lex Luthor, tenham influenciado inúmeras outras histórias deste então, a minissérie foi também alvo de revisões posteriores que buscaram abrandar as modificações na mitologia do personagem, reintroduzindo conceitos e personagens que haviam sido intencionalmente ignorados por Byrne, como a Fortaleza da Solidão, Krypto, o Super-Cão e a amizade entre Clark Kent e Lex Luthor durante a juventude de ambos.

Antecedentes e contexto

Com a publicação, na 123ª edição da revista The Flash, da história "Flash of Two Worlds", surgiria o conceito do "Multiverso DC", uma representação ficcional da interpretação da mecânica quântica que propõe a existência de universo paralelos. A partir da história, ficaria estabelecido que os personagens surgidos durante o período denominado "Era de Ouro dos Quadrinhos" (entre 1938 e 1955), bem como as histórias por eles protagonizadas, pertenceriam a um universo paralelo denominado Terra 2, distinto daquele em que ocorriam as histórias publicadas pela editora durante a década de 1960. Embora bem-recebido inicialmente, o "multiverso" acabaria se revelando um conceito excessivamente confuso: inúmeros universos paralelos foram surgindo nos anos seguintes, o que acabaria por confundir os leitores, afastando-os das revistas e diminuindo consideravelmente as tiragens das publicações.

Frente esta situação, a editora decidiu que era preciso "unificar" todas as publicações sob um único universo coeso e compartilhado. Mas, para poder renovar os personagens, era preciso encerrar tudo que vinha sendo publicado. Aproveitando o fato que 1985 marcaria o 50º aniversário da editora, a DC Comics decidiu lançar o evento "Crise nas Infinitas Terras", uma minissérie em 12 edições que causaria a destruição de todas as "terras paralelas", estabelecendo uma nova e revitalizada história. Como parte dessa revitalização os principais personagens da editora teriam suas origens recontadas de forma modernizada. Além de The Man of Steel, seriam publicadas Batman: Ano Um e Lanterna Verde: Amanhecer Esmeralda. Em meados daquele ano, o editor Andrew Helfer já havia recebido da DC Comics a incumbência de escolher os escritores que trabalhariam nas revistas de Superman após a conclusão do evento. Vários autores foram abordados, contribuindo com propostas para a revitalização do personagem. A maioria dos profissionais consultados pretendia realizar um reboot do personagem e há registros de que, além de Byrne, pelo menos Frank Miller, Steve Gerber, Cary Bates, Elliot Maggin, Marv Wolfman e Alan Moore também tenham encaminhado propostas à editora. (trechos arquivados no site "Superman Through the Ages!")

Produção

Origens e planejamento O início do envolvimento de Byrne com o projeto não é claro. À época, o próprio afirmaria em entrevista à revista Amazing Heres que havia sido o escritor Marv Wolfman quem o havia convidado a participar da "competição" promovida pela DC Comics e elaborar uma proposta para Superman, enquanto Byrne ainda estava trabalhando para a Marvel Comics, concorrente direta da DC - e ele, empolgado com a ideia, teria mostrado para Helfer e para o editor e arte-finalista Dick Giordano qual era a sua visão para o personagem, caso assumisse os roteiros e desenhos de uma de suas revistas. Em 2002, numa entrevista para o site brasileiro Universo HQ, Byrne narraria os eventos de forma diferente: teria sido Giordano quem o havia convidado para o projeto, após o término do contrato com a Marvel. Em 2006, em entrevista publicada no livro Modern Masters: John Byrne, editado pela TwoMorrows Publishing, Byrne manteria o declarado na entrevista de 2002, apontando Giordano como o responsável por convidá-lo para participar do projeto.COOKE, p. 45-55

De todas as propostas apresentadas para as revistas do personagem, a de Wolfman possuía tantas similaridades com a de Byrne que a editora convidaria o primeiro para participar da reformulação, assumindo o cargo de roteirista de uma das três revistas protagonizadas por Superman que acabariam sendo lançadas após The Man of Steel. Dentre os conceitos da autoria de Wolfman está a caracterização de Lex Luthor, que deixaria de ser um típico "cientista louco", e cujo conflito com Superman teria tido início quando ambos eram adolescentes vivendo em Smallville (a versão anterior de Luthor culpava Superman, então agindo ainda apenas como "Superboy", pelo acidente que o havia deixado calvo) e seria redefinido como um influente e inescrupuloso empresário de Metrópolis e um dos homens mais ricos do mundo - nas palavras de Byrne, "uma mistura entre Donald Trump, Ted Turner, Howard Hughes e talvez até Satã".

Após ser convidado para trabalhar com Byrne, Wolfman se reuniu com o escritor para lhe expor suas ideias para Lex Luthor, sob duas condições: a primeira era que Byrne não poderia aproveitar nem parte do conceito se não aceitasse a proposta de Wolfman integralmente, tal qual ele a ofereceria; e a segunda que, se a proposta fosse rejeitada por Byrne, Wolfman não aceitaria o convite e outra pessoa teria que ser o roteirista de Action. Byrne concordou com tais termos, e ouviu a proposta. Embora Byrne julgasse interessante o conceito proposto para Lex Luthor, acabaria por rejeitar a proposta, pois Wolfman queria redefinir também a caracterização de Lois Lane, transformando-a na amante do vilão, e isso entraria em conflito com a caracterização que Byrne já tinha em mente para a personagem. Os dois acabariam por chegar a um meio-termo: a caracterização de Wolfman para Luthor foi mantida, e Byrne retrataria Lois de acordo com o que já planejava.

Lançamento da minissérie Fazer uma minissérie contando a origem de Superman não estava nos planos originais nem de Byrne nem da editora. Seguindo o conceito de reboot, a equipe - não apenas Byrne, mas também Wolfman e o desenhista Jerry Ordway - havia planejado fazer com que cada uma das revistas dos personagem tivesse uma temática diferente, mas todas se dedicando aos primeiros anos de sua carreira, mostrando o seu amadurecimento e o aprendizado pelo qual passaria até se tornar um herói de destaque. Até o momento da assinatura do contrato, os editores da DC Comics também pareciam ter essa mesma pretensão de mostrar o personagem "aprendendo" a ser um super-herói durante as primeiras histórias. Segundo Byrne, assim que o primeiro ano de histórias começou a ser discutido, entretanto, editora começou a demonstrar que não mais apoiava essa ideia, insistindo que o personagem já fosse mostrado como um herói "estabelecido" - assim, surgiu The Man of Steel, uma forma resumida de contar o período de "aprendizado" pelo qual Superman teria passado.

Na primeira edição, originalmente, Clark Kent, já vivendo em Metrópolis, seria responsável por salvar um ônibus espacial antes mesmo de ter adotado a identidade de Superman. Entretanto, o ônibus espacial Challenger acabaria por explodir em janeiro de 1986, durante uma missão - e isso fez com que a primeira edição tivesse que ser alterada quando ainda estava sendo produzida, com a inclusão de uma "nave experimental da NASA" na roteiro. Como todas as revistas estavam sendo produzidas com razoável antecedência, tais alterações não implicaram em nenhum adiamento.

Em cada uma das seis edições da minissérie foram estabelecidas e/ou explicadas outras importantes características do personagem, que continuariam a ser exploradas nas histórias publicadas nos anos seguintes. Ao final de The Man of Steel, Clark Kent tem 28 anos e atua como Superman há cerca de pelo menos cinco anos. O fato de Superman usar uma roupa tão apertada, por exemplo, é explicado como decorrente da bioelectricidade do personagem - o "campo bioelétrico" do personagem seria tão desenvolvido que não apenas tornava-o mais resistente a danos, como também envolveria roupas coladas ao corpo, tornando-as igualmente mais resistentes. Byrne explicaria ainda como Superman podia se barbear ou cortar o cabelo e de que forma o Sol influenciava os seus super-poderes.

Conceitos e temática Krypton e as "exigências indispensáveis" de Byrne

Byrne afirmou em mais de uma oportunidade ter apresentado à editora o que chamou de "Lista de Exigências Indispensáveis", apontando quais características do personagem ele entendia que precisavam ser alteradas - por exemplo, abandonar a existência de outros personagens que também teriam sobrevivido à explosão de Krypton, como Supergirl e Krypto, e elementos excessivamente fantásticos, como a Fortaleza da Solidão e a cidade engarrafada de Kandor - para uma verdadeira reformulação do personagem, sempre afirmando que apenas uma dessas "exigências" teria sido recusada pela editora.

Numa entrevista realizada em 2002, revelou qual teria sido a exigência recusada: "(...) um dos problemas que percebi que confrontaria com minha versão de 'único sobrevivente' era como ficaríamos sabendo que a kryptonita poderia matá-lo. Quero dizer, claro que todos nós sabemos que kryptonita pode matar o Super-Homem, mas no contexto da história do personagem, como saberíamos? E mais importante, como ele saberia? Minha solução foi não colocar o bebê Kal-El no foguete em direção à Terra, mas sim a sua mãe, Lara, grávida. Ela chegaria, daria à luz e o bebê ganharia seus poderes aos poucos. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, como resultado, morreria". Jenette Kahn, presidente da editora, teria vetado essa única ideia, por considerá-la excessivamente afastada da versão original.

Como alternativa à morte de Lara, Kahn propôs que a kryptonita fosse retratada como sendo um elemento radioativo responsável pela morte de kryptonianos antes mesmo da explosão do planeta. Byrne acabaria achando a sugestão melhor que a sua ideia original, e a implementaria. A caracterização de Krypton como um planeta frio e estéril, por mais peso que acabasse possuindo no projeto, não havia surgido exatamente por iniciativa de Byrne, mas de Dick Giordano, um dos editores da DC Comics e o arte-finalista da minissérie. Giordano queria que os leitores tivessem a impressão de que tudo seria diferente a partir da primeira página - e isso deveria começar com uma nova caracterização do planeta Krypton.

Inicialmente Byrne não pretendia modificar tanto o planeta e a personalidade dos pais de Superman, apenas retratá-los de forma mais futurista. Mas ao se questionar quais elementos de Krypton, especificamente, lhe incomodavam, Byrne percebeu que aquilo que mais lhe parecia prejudicial à história era o carinho (se não "patriotismo") com que Superman via o planeta. Assim, buscou retratar Krypton como um planeta pouco acolhedor - "um mundo que, no final, o Super-Homem ficaria feliz em deixar", nas suas palavras.

Relação de Superman com os Estados Unidos