Alan Bartlett Shepard Jr. (Derry, – Pebble Beach, ) foi um aviador naval, piloto de teste, astronauta e executivo estadunidense. Ele se tornou o primeiro estadunidense a chegar no espaço em 1961 na missão Mercury-Redstone 3 e depois foi a quinta pessoa a pisar na superfície da Lua durante a Apollo 14 em 1971.
Shepard formou-se na Academia Naval dos Estados Unidos em 1944 e lutou na Segunda Guerra Mundial no Teatro do Pacífico. Depois disso se tornou aviador naval em 1946 e piloto de teste em 1950. Ele foi selecionado em 1959 como um dos astronautas originais do Grupo 1 da NASA e fez seu primeiro voo em maio de 1961 na primeira missão tripulada do Projeto Mercury a bordo de uma nave espacial que ele nomeou como Freedom 7. Shepard chegou no espaço, porém não entrou em órbita. Foi o segundo humano a chegar no espaço depois do soviético Iuri Gagarin e o primeiro a controlar manualmente sua nave. Ele deveria voar na Mercury-Atlas 10 para um voo orbital de três dias, porém a missão foi cancelada em favor do Projeto Gemini.
Shepard foi escalado como o comandante da primeira missão Gemini tripulada, porém foi tirado do posto em 1963 depois de ser diagnosticado com doença de Ménière. Este problema foi sanado através de cirurgia em 1969 e ele foi colocado no comando da Apollo 14, indo para a Lua em fevereiro de 1971 e realizando a alunissagem mais precisa de todo o Programa Apollo. Entre novembro de 1963 e julho de 1969, e posteriormente de junho de 1971 até sua aposentadoria da Marinha e NASA em julho de 1974, trabalhou como Chefe do Escritório dos Astronautas. Depois de se aposentar ele atuou como executivo de várias empresas e fez fortuna no ramo imobiliário e bancário. Shepard morreu em 1998 por complicações relacionadas a leucemia.
Infância Alan Bartlett Shepard Jr. nasceu em em Derry, Nova Hampshire, Estados Unidos, filho de Alan B. Shepard Sr. e Pauline Renza Emerson. Ele tinha uma irmã mais nova chamada Pauline, apelidada de Polly. Sua família era descendente de Richard Warren, um puritano britânico do Mayflower. Seu pai era chamado de Bart e trabalhava no Banco Nacional de Derry, que por sua vez era propriedade do avô. Shepard Sr. entrou na Guarda Nacional dos Estados Unidos em 1915 e lutou na França com as Forças Expedicionárias Americanas na Primeira Guerra Mundial. Ele continuou na Guarda Nacional e foi chamado para lutar novamente na Segunda Guerra Mundial, chegando na patente de tenente-coronel.
Shepard estudou na Escola Adams, onde seu desempenho acadêmico impressionou seus professores; ele pulou a sexta série e foi estudar na Escola Oak Street, onde pulou a oitava série. Foi estudar em 1936 na Academia Pinkerton, uma escola particular em que seu pai tinha estudado e onde seu avô era um fideicomissário. Shepard estudou lá até o final do ensino médio. Ele desde essa época já era fascinado por voar e criou um clube de aeromodelismo em Pinkerton, com seu presente de Natal de 1938 sendo um voo em um Douglas DC-3. No ano seguinte começou a passar um bom tempo no Aeroporto Regional de Manchester–Boston, onde começou a aceitar bicos em troca de um voo ocasional dos aviões ou aulas informais sobre pilotagem.
Formou-se da Academia Pinkerton em 1940. Nessa altura a Segunda Guerra já estavam em andamento na Europa e seu pai queria que ele se alistasse no Exército dos Estados Unidos. Shepard tinha outras ideias e em vez disso escolheu servir na Marinha. Ele facilmente foi aprovado em sua prova de aceitação na Academia Naval dos Estados Unidos em Annapolis, Maryland, porém aos dezesseis anos era muito jovem para iniciar seus estudos ainda naquele ano. A Marinha em vez disso o enviou para a Academia Almirante Farragut, uma escola preparatória para a Academia Naval, formando-se em 1941. Testes realizados na Farragut indicaram que Shepard tinha um QI de 145, porém suas notas foram medianas.
Shepard gostava bastante de praticar esportes aquáticos na Academia Naval. Era um velejador hábil e competitivo, vencendo várias corridas, incluindo uma regata realizada pelo Iate Clube de Annapolis. Ele aprendeu a velejar em todas as embarcações que a academia detinha, incluindo a escuna Freedom de 27 metros. Também participava de natação e remo. Ele foi para o Colégio Principia em Illinois nas férias de final de ano de 1942 a fim de ficar com sua irmã, que não pode voltar para casa devido a restrições de viagens em tempos de guerra. Lá Shepard conheceu Louise Brewer, cujos pais eram pensionistas da família Du Pont e devotos da Ciência Cristã. O curso normal de quatro anos da Academia Naval foi encurtado para três por causa da guerra e ele se formou e foi comissionado alferes em 6 de junho de 1944, ficando na 463ª posição em uma classe de 915. No mês seguinte secretamente ficou noivo de Brewer. Ele recebeu um Bacharelato de Ciências pela Academia Naval.
Carreira na Marinha thumb|esquerda|250px|O Cogswell em 1945. Shepard foi designado em agosto de 1944 para o contratorpedeiro USS Cogswell, logo depois de passar um mês tendo aulas de aviação; era uma política da Marinha dos Estados Unidos na época que candidatos a aviação naval servissem primeiro no mar. O navio na época estava em serviço ativo no Oceano Pacífico. Ele juntou-se à tripulação em 30 de agosto quando a embarcação voltou para a base naval de Ulithi. O Cogswell dois dias depois ajudou a resgatar 172 marinheiros do cruzador rápido USS Reno, que tinha sido torpedeado por um submarino japonês, escoltando em seguida o navio avariado de volta para Ulithi. O contratorpedeiro foi fustigado pelo Tufão Cobra em dezembro e no mês seguinte enfrentou kamikazes durante a Invasão do Golfo de Lingayen.
O Cogswell voltou para os Estados Unidos em fevereiro de 1945 a fim de passar por reformas. Shepard recebeu três semanas de licença, durante as quais ele e Brewer decidiram se casar. A cerimônia ocorreu em 3 de março na Igreja Luterana de Santo Estêvão em Wilmington, Delaware. Seu pai foi seu padrinho. Os recém casados puderam passar pouco tempo juntos, já que Shepard voltou para o navio em 5 de abril em Long Beach, Califórnia. Os dois tiveram duas filhas depois da guerra: Laura em 1947 e Julie em 1951. A irmã de Louise morreu em 1956 e eles passaram a cuidar de sua sobrinha Judith Williams, quem o casal nomeou de Alice para que não fosse confundida com sua Julie, porém ela nunca foi adotada oficialmente. Eles acabaram tendo seis netos.
Shepard foi nomeado oficial artilheiro durante sua segunda viagem de serviço a bordo do Cogswell, ficando responsável pelas armas antiaéreas de vinte e quarenta milímetros na proa do navio. Eles enfrentaram kamikazes na Batalha de Okinawa, onde o contratorpedeiro serviu no perigoso papel de piquete de radar. Isto envolvia avisar o resto da frota sobre a aproximação de kamikazes, porém, como normalmente esses navios eram os primeiros a serem avistados pelas aeronaves japonesas, também costumavam ser os alvos mais prováveis. O Cogswell atuou nessa função de 27 de maio a 26 de junho, quando juntou-se a Força Tarefa de Porta-Aviões Rápidos. A embarcação também participou bombardeios navais de cidades japonesas e esteve presente em setembro na Baía de Tóquio para a Rendição do Japão. Shepard voltou para os Estados Unidos no final do mês.
thumb|upright|Shepard em 1946 como estudante de aviação. Shepard chegou em novembro de 1945 na Estação Aeronaval de Corpus Christi no Texas, começando seu treinamento básico de voo em 7 de janeiro. Era um estudante mediano e por um período quase foi tirado do treinamento aéreo e redesignado para a marinha de superfície. Shepard compensou tendo aulas particulares em uma escola local de aviação civil, algo que a Marinha desaprovava, conseguindo uma licença de piloto civil. Suas habilidades melhoraram gradualmente e os instrutores o avaliaram como acima da média no início de 1947. Foi em seguida enviado até Estação Aeronaval de Pensacola na Flórida para passar por treinamentos avançados. Sua prova final foram seis pousos perfeitos no porta-aviões USS Saipan. Ele recebeu seu distintivo de aviador naval no dia seguinte, que foi colocado em seu peito por seu pai.
Foi designado para o Esquadrão de Caças 42, voando um Vought F4U Corsair. Sua base era nominalmente o porta-aviões USS Franklin D. Roosevelt, porém a embarcação na época estava em reforma, ficando nesse meio tempo na Estação Naval de Norfolk na Virgínia. Shepard partiu em sua primeira viagem de serviço pelo Caribe no Franklin D. Roosevelt em 1948. A maioria dos aviadores também estavam em sua primeira viagem. Aqueles que não eram novatos puderam se qualificar para pousos noturnos em porta-aviões, uma manobra perigosa, especialmente em um Corsair, que precisava virar drasticamente na aproximação. Shepard conseguiu persuadir seu comandante a lhe permitir participar da qualificação. O navio voltou brevemente para Norfolk e então partiu para uma viagem de nove meses pelo Mar Mediterrâneo. Ele ganhou a reputação de farrista e mulherengo, também instituindo um ritual de, sempre que possível, ligar para a esposa todos os dias às 17h00min.
Serviço marítimo era normalmente alternado com períodos em terra. Shepard foi selecionado em 1950 para a Escola de Pilotos de Teste Navais na Estação Aeronaval do Rio Patuxent em Maryland. Como piloto de teste ele realizou testes de altitude a fim de obter informações sobre as massas de luz e ar em diferentes altitudes sobre a América do Norte, sustentabilidade do McDonnell F2H Banshee em porta-aviões, experimentos com o novo sistema de reabastecimento em voo da Marinha e testes em um convés de voo inclinado. Shepard por pouco evitou uma corte marcial pelo contra-almirante Alfred M. Pride, o comandante da estação, por ter feito loops na Ponte da Baía de Chesapeake e voado baixo sobre a base e as praias de Ocean City; entretanto, seus superiores John Hyland e Robert M. Elder intercederam a seu favor.
thumb|esquerda|240px|O Corsair de Shepard no convés do Franklin D. Roosevelt em 1948. Sua designação seguinte foi no Esquadrão de Caças 193, um esquadrão noturno de Banshees baseado na Estação Aeronaval de Moffett Field na Califórnia. Era parte do Grupo Aéreo 19 do comandante James D. Ramage. Aviadores navais com experiência em aeronaves a jato ainda eram relativamente raros, com Ramage especificamente requisitando Shepard por causa de um conselho de Elder. Ramage nomeou Shepard como seu ala, uma decisão que salvaria sua vida em 1954, quando seu sistema de oxigênio falhou e Shepard o guiou por conversas até pousar. Como oficial de operações do esquadrão, suas principais tarefas eram passar seus conhecimentos de aviões a jatos para colegas aviadores e mantê-los vivos. Shepard fez duas viagens de serviço no Pacífico a bordo do porta-aviões USS Oriskany. Ele foi designado em 1953 para uma viagem de combate na Guerra da Coreia, porém o Acordo de Armistício Coreano foi assinado em julho e encerrou os conflitos antes de Shepard conseguir participar.
O contra-almirante John P. Whitney requisitou os serviços de Shepard como ajudante de campo, porém ele queria voar. Ramage falou com Whitney e conseguiu que Shepard voltasse para Patuxent. Ele testou o McDonnell F3H Demon, Vought F8U Crusader, Douglas F4D Skyray e Grumman F11F Tiger. O Vought F7U Cutlass tinha a tendência de entrar em um giro invertido durante rolagens rápidas. Isto era comum em muitas aeronaves, porém o avião normalmente se corrigia se o piloto soltasse o manche. Entretanto, isto não funcionou com o Cutlass e Shepard foi forçado a ejetar quando a aeronave não saiu de seu giro. Em 1957 foi o piloto de teste do projeto do Douglas F5D Skylancer. Shepard não gostou do avião e fez um relatório não favorável. A Marinha cancelou suas encomendas e em vez disso comprou o Crusader. Ele também fez um relatório desfavorável sobre o Tiger após um incidente em que o motor falhou durante um mergulho em alta velocidade. Shepard felizmente conseguiu fazer o motor voltar a funcionar.