Veridiana Valéria da Silva Prado (São Paulo, 11 de fevereiro de 1825 — São Paulo, 11 de junho de 1910)https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19100612-11504-nac-0005-999-5-nothttps://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19100614-11506-nac-0006-999-6-not foi uma aristocrata e intelectual brasileira. Mulher poderosa da alta sociedade, marcou profundamente a vida social, política e cultural de São Paulo no final do Império e início da República Velha.
Era proprietária de terras que foram loteadas no processo de industrialização da cidade de São Paulo durante o século XX e que compreendem hoje bairros paulistanos inteiros. Administrou as fazendas da Família Prado, uma importante família que desde o século XVIII comercializava escravos e açúcar, e comandou em sua Chácara Vila Maria um dos salões culturais de maior importância de São Paulo na segunda metade do século XIX, que posteriormente ficou conhecido como o Palacete de Dona Veridiana. Lá recebeu artistas, intelectuais, cientistas, estadistas e membros da Família Real como D.Pedro II e a Princesa Isabel.
Foi uma mulher marcante para a cidade, seja pelas obras de caridade, ou pelo seu incentivo à agricultura, aos esportes e às artes. Também destacou-se devido aos seus empreendimentos, sendo inclusive proprietária do jornal “O Comércio de São Paulo” e dona de fazendas e casas comerciais de café.
Era filha de Antônio da Silva Prado, barão de Iguape, cafeicultor, comerciante de açúcar e de tropas, um dos paulistanos mais ricos da época, e de Maria Cândida de Moura Vaz. Os seus pais enfrentaram preconceito social e uma barreira legal ao casarem-se, pois a mãe, Maria Cândida, era uma mulher divorciada.
Veridiana casou-se com seu meio-tio Martinho da Silva Prado, mas depois separou-se, sendo o divórcio considerado um escândalo para a sociedade da época. No entanto, ela obteve o comando da família e teve 6 filhos, 36 netos e 96 bisnetos.
Veridiana educou os filhos, que exerceram papéis de destaque na política, nos negócios, na vida social e cultural do país, entre eles, Antônio da Silva Prado, seu filho primogênito, que foi Ministro de Estado, senador, deputado e o primeiro prefeito de São Paulo do período republicano (1899 a 1911); e Eduardo Prado, fundador da Academia Brasileira de Letras.
Atualmente possui uma rua em sua homenagem, a Rua Dona Veridiana, localizada no bairro de Higienópolis, em São Paulo.
Biografia
Nascimento e infância Veridiana nasceu na propriedade do pai, em São Paulo, no dia 11 de fevereiro de 1825, no casarão de sua família, que ficava até então na Rua Direita, esquina com a Rua São Bento, na atual Praça do Patricarca. Ela tinha um irmão mais velho chamado Veríssimo e não houve distinção na criação dos dois, pois o pai deles não queria criar a filha para que ela se tornasse submissa ao marido. O barão de Iguape desejava que Veridiana seguisse os passos da mãe e da avó, Ana Vicência, que eram mulheres poderosas da Família Prado, empreendedoras e carismáticas.
Na casa da família, três anos antes do nascimento de Veridiana, o seu pai, Antônio da Silva Prado, hospedara o príncipe regente Dom Pedro I, em 1822, ano em que o monarca visitou São Paulo, e proclamou a independência do Brasil. Antônio Prado já era homem rico, sobretudo por conta de uma fortuna que vinha das tropas de mulas e do comércio.
Veridiana podia escutar as conversas das personalidades que visitaram o casarão na Rua Direita, entre eles, estadistas, artistas, cientistas e homens de negócios, que conversavam sobre empreendimentos, alianças políticas e questões municipais como a construção do teatro São José e da Santa Casa de Misericórdia.
Antônio Prado, em uma de suas viagens de negócios ao Rio de Janeiro, levou os filhos para conhecer a Corte. Foram recebidos pela Marquesa de Santos, amante do imperador e a mulher mais influente da Corte. Na infância, Veridiana se destacava diante a todos devido à graça e à vivacidade. A Marquesa teria a elogiado, ao chamá-la de “menina misureira”.
Veríssimo e Veridiana foram apresentados a Daniel Müller, um engenheiro da época muito conhecido, que teria fascinado as crianças com suas explicações sobre edificações de palácios, demonstrando uma enorme curiosidade de Veridiana desde cedo.
Durante o período da Regência, a menina estudou, leu, viajou com os pais e aprendeu inglês, francês e alemão com suas governantas. Era muito interessada - de bonecas e livros aos negócios do pai.
Casamento No dia 24 de junho do ano de 1838, completando 13 anos, por imposição paterna, Veridiana casou-se com seu meio-tio Martinho da Silva Prado, quatorze anos mais velho do que ela. Seu casamento precoce com o próprio tio foi uma forma de proteção ao patrimônio da família. O casamento foi discreto e ocorreu no oratório do bispo D.José Antônio dos Reis, no Rio de Janeiro.
Dois meses depois, o ex-marido da mãe de Veridiana, Maria Cândida, faleceu e houve a legalização do casamento dos pais de Veridiana, que foi realizado na casa do barão de Iguape, no dia 10 de agosto de 1838.
O primeiro filho de Veridiana nasceu quando ela tinha 15 anos. Aos 22, ela já era mãe de cinco filhos, e até os 35 anos de idade, teve mais outros três filhos.No entanto, nem todos sobreviveram, morrendo duas meninas.
Fazenda Campo Alto Durante os 10 primeiros anos de casamento, ela viveu com o marido Martinho na recém-adquirida Fazenda Campo Alto, que ficava então em Mogi Mirim. 1839 foi o ano em que o casal conseguiu mudar-se para a fazenda, que era um grande engenho produtor de açúcar, já que no início do século XIX o café não era uma cultura importante em São Paulo.
Veridiana ajudou Martinho a comprar Campo Alto com a venda de suas jóias, sendo sócia do marido nos negócios. Ele, por outro lado, fez muita economia e mesmo sendo um homem que gostasse de ir à festas, deixou de ir, pois não tinha roupas.
A propriedade tornou-se uma fazenda-modelo de produtividade e rentabilidade e o casal só a deixava para ir a São Paulo quando Veridiana estava para dar à luz. Quando em São Paulo, o casal ficava em uma chácara na Consolação, que era uma propriedade auto-suficiente.
Divórcio Apesar da convivência feliz entre Veridiana e Martinho, as diferenças pioraram entre eles especialmente após a morte do Barão de Iguape, em 1875, que era um grande mediador nos conflitos familiares.
No ano de 1876, a filha do casal, Ana Blandina, solteira e com 33 anos, é pedida em casamento por Antonio Pereira Pinto Júnior. Veridiana aceita a proposta, mas Martinho se opõe. Veridiana ganha pela insistência e o casamento ocorre em março de 1877.
Mas, a relação entre Veridiana e Martinho se desgasta e eles se separam em 1878. O divórcio era considerado um escândalo para a elite paulista da época. No entanto, Veridiana nunca se separou legalmente, apenas viveu uma vida paralela ao ex-marido. O vínculo formal ainda foi mantido com Martinho, que aparece inclusive no testamento de Veridiana, documento produzido em 1884.
Viagem para Paris Veridiana ocupava, em 1848, uma chácara ao lado da igreja da Consolação. Mas em 1882, ela viaja para Paris para visitar sua filha Ana Blandina, futura condessa Pereira Pinto pela Santa Sé, que vivia na França com seu marido diplomata.
Encantada com a vida intelectual e social em Paris, Veridiana volta para São Paulo e no mesmo ano de 1882 começa a construção de um palacete na chácara que comprara em 1879 no então bairro de Santa Cecília. A chácara fica conhecida como “Vila Maria”, uma homenagem de Veridiana à sua dama de companhia, Maria das Dores, mulher casada com Antonio Pacheco Chaves, em um matrimônio auxiliado por Veridiana.
Na chácara, transformou sua casa em um palacete, um dos locais mais elegantes da cidade e um ponto de encontro para intelectuais, políticos, artistas e cientistas.
Vida social e intelectual Veridiana era muito culta, falava bem francês e um pouco de italiano e ainda lia bem nas duas línguas.
Em sua propriedade, na Chácara Vila Maria, chegou a receber D.Pedro II (1886), a Princesa Isabel (1884), Orville Derby e Loefgreen, Domingos José Nogueira Jaguaribe, Luis Pereira Barreto, Cesário Motta Junior, Diogo de Faria, além de Capistrano de Abreu, Ramalho Ortigão, Graça Aranha, conde D'Eu, Teodoro Sampaio, Joaquim Nabuco e os negros abolicionistas Luís Gama e José do Patrocínio.
Veridiana ainda viveu no mesmo tempo da Rainha Vitória, com a qual era comparada devido a personalidade similar.De acordo com notícia publicada no jornal Correio Paulistano de 19 de novembro de 1884, em seu diário, escreveu a Princesa Isabel: “A propriedade de D. Veridiana, lindíssima; casa à francesa, exterior e interior muitíssimo bonitos, de muito bom gosto. Os jardins tem gramados dignos da Inglaterra, a casa domina tudo, há um lagozinho, plantações de rosas e cravos, lindos. Vim de lá encantada”.Em seu palacete, onde movimentou sua vida social, Veridiana teve empregados de origens diversas, entre eles, um índio e dois afrodescendentes, sendo que ela tinha como dama de companhia uma jovem negra, que era pianista e só falava com ela em francês. O seu mordomo era um índio botocudo e Veridiana tinha ainda como cocheiro um homem suíço, que a levava a passear de coche durante os fins de tarde pela atual Avenida Higienópolis. Os jardineiros do seu palacete eram todos europeus e ela abria o jardim às crianças do bairro, seguindo o exemplo seguido da condessa Penteado.
Vítima de críticas vindas das mulheres da elite paulista, Veridiana ainda teria sofrido um boato de que em seu palacete supostamente ficaria um clube masculino, do tipo dos clubes exclusivos ingleses, sendo o local vedado o acesso de mulheres. Mas essa fabulação popular tem sido refutada como fruto de devaneios dos afortunados na cidade, distanciados da vida comum dos demais moradores de São Paulo.
Apesar de Veridiana ser monarquista, mesmo após a Proclamação da República, defendeu a libertação dos escravos.Em 1870 foi presidente da Sociedade Redentora para libertação dos escravos, formada por senhoras da sociedade.
Em 1892, para ajudar seu filho caçula, Eduardo Prado, que era dono do jornal “O Comércio de São Paulo”, Veridiana investiu capital e assumiu a frente do jornal, inclusive em 1902 chegou a requerer na Junta Comercial de São Paulo o registro de uma nova marca para o periódico. Ela depois vendeu o jornal a Francisco Glicério.
Em 1901, durante o pico de uma das maiores crises do setor cafeeiro, Veridiana, junto a seu filho Eduardo da Silva Prado, abriu um negócio de compra e venda de "fazendas, secos, molhados, calçados e outros artigos" na Fazenda Brejão, que ficava no município paulista de Santa Cruz das Palmeiras e era um terreno com mais de 730.000 pés de café.
Enquanto Eduardo foi para a Europa, em 1881, Verdiana ajudou um dos amigos dele, o geólogo americano Orville Derby, que ficou hospedado na Chácara Vila Maria, onde recebeu cuidados médicos até se restabelecer.
Chácara Vila Maria e o Palacete Dona Veridiana 320px|thumb|Chacara Dª Veridiana. Em 1879, Veridiana adquiriu o terreno onde veio a construir seu palacete, com planta em estilo europeu francês, e com material totalmente importado da Europa, ocupando uma grande área, desde a antiga Rua de Santa Cecília (atual Rua Dona Veridiana) até a atual Avenida Angélica, com divisa entre a avenida Higienópolis e a atual Rua Martinico Prado. A propriedade, com belos jardins, pomar, espelho d’água com cisnes e marrecos e cocheiras com cavalos de raça, recebeu o nome de Chácara Vila Maria. A construção ficou a cargo do engenheiro Luiz Liberal Pinto, que foi também o responsável por importar todo o material utilizado. O palacete de Dona Veridiana impressionava os paulistanos mesmo durante as obras que seguiam em 1883.