Maria do Carmo Miranda da Cunha (Marco de Canaveses, – Beverly Hills, ), mais conhecida como Carmen Miranda, foi uma cantora, dançarina, e atriz luso-brasileira.Castro, Ruy. Carmen: Uma Biografia - A vida de Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX. páginas 241 e 335 Sua carreira artística transcorreu no Brasil e nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950. Trabalhou no rádio, no teatro de revista, no cinema e na televisão. Foi considerada pela revista Rolling Stone como a 15ª maior voz da música brasileira, sendo um ícone e símbolo internacional do Brasil no exterior. Apelidada de "Brazilian Bombshell", Miranda é conhecida por seus figurinos extravagantes e pelo chapéu com frutas que costumava usar em seus filmes estadunidenses, fazendo desses elementos sua marca registrada.

Ainda jovem, ela aprendeu a fazer chapéus em uma boutique antes de gravar seu primeiro álbum com o compositor Josué de Barros, em 1929. A gravação de "P'ra Você Gostar de Mim" (Taí), escrita por Joubert de Carvalho, a levou ao estrelato no Brasil como a principal intérprete do samba na década de 1930. Na época, ela se tornou a primeira artista a assinar um contrato de trabalho com uma emissora de rádio no país.CARDOSO JÚNIOR, Abel. Carmen Miranda – A cantora do Brasil. São Paulo, Edição particular do autor, 1978, p.23. Seu crescente sucesso na indústria fonográfica lhe garantiu um lugar nos primeiros filmes sonoros lançados nos anos 1930. Carmen Miranda participou de cinco musicais carnavalescos lançados nesse período, como Alô, Alô, Brasil! (1935) e Alô, Alô, Carnaval (1936). Em 1939, ela apareceu pela primeira vez caracterizada de baiana, personagem que a lançou internacionalmente, no filme Banana da Terra, dirigido por Ruy Costa. O musical apresentava clássicos como "O Que É que a Baiana Tem?", que lançou Dorival Caymmi no cinema.

Ainda em 1939, o produtor da Broadway Lee Shubert ofereceu a Miranda um contrato de oito semanas para se apresentar em The Streets of Paris, depois de vê-la no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, ela fez sua estreia no cinema estadunidense no filme Down Argentine Way, ao lado de Don Ameche e Betty Grable. Naquele ano, Miranda foi eleita a terceira personalidade mais popular nos Estados Unidos e foi convidada a se apresentar junto com seu grupo, o Bando da Lua, para o presidente Franklin D. Roosevelt na Casa Branca. Carmen Miranda chegou a ser a mulher mais bem paga dos Estados Unidos, segundo o Departamento do Tesouro.

Ela fez um total de catorze filmes nos EUA entre as décadas de 1940 e 1950, nove deles somente na 20th Century Fox. Embora aclamada como uma artista talentosa, sua popularidade diminuiu até o final da Segunda Guerra Mundial. Seu talento como cantora e performer, porém, muitas vezes foi ofuscado pelo caráter exótico de suas apresentações. Miranda tentou reconstruir sua identidade e fugir do enquadramento que seus produtores e a indústria tentavam lhe impor, mas sem grandes avanços. Sua imagem se tornou a personificação de um exotismo latino-americano genérico, que foi abraçado como singular e peculiar pelo público dos EUA, mas rejeitado como inautêntico e paternalista pelos brasileiros. De fato, apesar de todos os estereótipos que enfrentou ao longo de sua carreira, suas apresentações fizeram grandes avanços na popularização da música brasileira, ao mesmo tempo em que abriram o caminho para o aumento da consciência sobre toda a cultura latino-americana. Miranda foi a primeira artista latino-americana a ser convidada a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman's Chinese Theatre, em 1941. Ela também se tornou a primeira sul-americana a ser homenageada com uma estrela na Calçada da Fama. Sua figura, muito além da música, se tornou uma influência permanente na cultura brasileira, da Tropicália ao cinema.

Em 20 anos de carreira, ela deixou sua voz registrada em 279 gravações somente no Brasil e mais 34 nos EUA, num total de 313 canções. Um museu foi construído em sua homenagem no Rio de Janeiro. Em 1995, ela foi tema do aclamado documentário Carmen Miranda: Bananas is my Business, dirigido por Helena Solberg. Além disso, uma interseção no cruzamento da Hollywood Boulevard com a Orange Drive, em frente ao Teatro Chinês em Hollywood, foi oficialmente nomeada "Carmen Miranda Square" em setembro de 1998. Até hoje, nenhum artista brasileiro teve tanta projeção internacional como ela.

Biografia Início de vida thumb|Travessa do Comércio, Praça 15, Centro do Rio. No início do século XX, a Travessa já era um dos mais importantes núcleos de imigrantes portugueses do Rio. No sobrado de n° 13 funcionava a pensão e residência de D.Maria, mãe de Carmen Miranda. Ali Carmen e sua família viveram seis anos. Nasceu a 9 de fevereiro de 1909 no lugar da Obra Nova, freguesia da Aliviada (posteriormente, Várzea da Ovelha e Aliviada), no concelho de Marco de Canaveses, em Portugal. Foi batizada com o nome de Maria do Carmo na igreja de São Martinho da Aliviada (posteriormente, Várzea da Ovelha e Aliviada), anexa à igreja de Várzea da Ovelha, a 14 de fevereiro de 1909. em All Music Guide. Página visitada em 9 de março de 2011. Era a segunda filha do barbeiro José Maria Pinto da Cunha (Marco de Canaveses, Várzea da Ovelha e Aliviada, 17 de fevereiro de 1887 – Rio de Janeiro, 20 de junho de 1938) e de sua mulher, Maria Emília de Miranda (Marco de Canaveses, Várzea da Ovelha e Aliviada, 3 de março de 1886 – Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1971). Ganhou o apelido de Carmen no Brasil, graças ao gosto que seu tio Amaro tinha por óperas.

A emigração da família para o Brasil já estava marcada, entretanto, ao ver-se grávida, a mãe de Carmen Miranda preferiu aguardar o nascimento da filha. Pouco depois, seu pai, José Maria, emigrou para o Brasil, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. e instalou-se na cidade do Rio de Janeiro. Em 1910, sua mãe, Maria Emília, seguiu o marido, acompanhada da filha mais velha, Olinda (1907-1931), e de Carmen, que tinha menos de um ano de idade.

No Brasil, nasceram os outros quatro filhos do casal: Amaro (1912-1988), Cecília (1913-2011), Aurora (1915-2005) Folha de S.Paulo, 23 de dezembro 2005. e Óscar (1916-1998).

1928—1939: O início da carreira artística e consagração

thumb|228x228px|No estúdio da rádio Mayrink Veiga, 1932, o jovem Manuel de Nóbrega, aos 19 anos ( 2º em pé da esq. para dir.) Carmen e Aurora Miranda (sentadas) segurando a flauta Pixinguinha. thumb|230px|Carmen Miranda fotografada por Annemarie Heinrich. Em 1928, o deputado baiano Aníbal Duarte apresentou Carmen Miranda a Josué de Barros. Josué trabalhava na Rádio Sociedade Professor Roquete Pinto (atual Rádio MEC) e levou Miranda para atuar na emissora. Ele, então, a apresentou ao diretor da Brunswick e, em 1929, ela gravou sua primeira música, o samba "Não Vá Sim'bora", de autoria de Josué. Carmen Miranda foi, então, apresentada ao diretor da gravadora RCA Victor, onde iniciou sua carreira gravando "Dona Balbina" e "Triste Jandaia". O compositor e médico Joubert de Carvalho compôs a música "Taí" com a marcha-canção "Pra Você Gostar de Mim", gravada por Miranda em 1930. A canção foi um sucesso, e o disco vendeu 35 mil cópias no ano de lançamento, um recorde para a época. Carmen Miranda era, então, aclamada pela crítica como "a maior cantora do Brasil".Sanglard, Jorge. Carmen Miranda, ícone imortal. Jornal GGN. Consultado em 23 de novembro de 2024

Como muitos dos primeiros artistas no Brasil, Carmen Miranda já era uma estrela bem estabelecida da música popular e do rádio (ver: Era de Ouro do Rádio e Rádio no Brasil). Sua transição para o cinema e seu sucesso na indústria fonográfica lhe garantiram um lugar nos primeiros filmes sonoros lançados na década de 1930. Sua carreira no Brasil foi intimamente ligada ao gênero de filmes musicais, que se baseava nas tradições carnavalescas do país, nas celebrações anuais e nos estilos musicais da cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, em particular (ver: Cinema do Brasil).

Em 1926, ela apareceu como figurante no filme A Esposa do Solteiro, e, quatro anos depois, assinou contrato para Degraus da Vida, que não chegou a ser rodado. Miranda também apresentou um número musical em O Carnaval Cantado no Rio (1932), o primeiro documentário sonoro sobre o tema popular, e três músicas em A Voz do Carnaval (1933), que combinou imagens reais das celebrações do carnaval de rua no Rio com um enredo fictício, oferecendo infinitos pretextos para números musicais. Sua aparição seguinte no cinema foi em Alô, Alô, Brasil (1935), e seu status de estrela da música popular foi refletido no fato de ela ter sido escolhida para se apresentar no número de encerramento do filme, a marcha "Primavera no Rio", que ela havia gravado pela RCA Victor em agosto de 1934. Carmen Miranda roubou o show com esse desempenho, e o chefe dos estúdios da Cinédia, Adhemar Gonzaga, decidiu torná-lo o número final do filme, em vez de um número liderado pelo cantor Francisco Alves, como havia sido planejado inicialmente. Poucos meses após o lançamento de Alô, Alô, Brasil, a revista Cinearte declarou: "Carmen Miranda é atualmente a maior figura popular do cinema brasileiro, a julgar pelo número de correspondências que ela recebe".

O êxito do filme levou a Cinédia a chamá-la para um novo musical, Bonequinha de Seda. Esta, por algum motivo não elucidado, provavelmente devido a uma viagem à Argentina, não aceitou o papel, que foi dado a Gilda de Abreu. Miranda logo passou a ser chamada de "A Pequena Notável" — devido à sua estatura baixa, apelido dado, na época, pelo radialista César Ladeira. Em seu filme seguinte, Estudantes (1935), Carmen Miranda foi, pela primeira vez, escalada para um papel narrativo. Nesta produção, chamada de "meio do ano", lançada para coincidir com os festejos juninos, Carmen interpretou Mimi, uma jovem cantora de rádio (que apresenta dois números no filme), que se apaixona por um estudante universitário interpretado pelo cantor Mário Reis. 200px|thumb|left|Cartaz do filme Alô, Alô, Carnaval. Carmen Miranda foi fundamental para o sucesso da próxima co-produção dos estúdios Waldow-Cinédia, o musical Alô, Alô, Carnaval, que contou com um elenco de estrelas do mundo da música popular e do rádio, incluindo a irmã de Carmen, Aurora Miranda. Pelos padrões brasileiros da época, Alô, Alô, Carnaval foi uma grande produção. O set reproduziu o interior do luxuoso Cassino Atlântico do Rio, onde algumas das cenas foram filmadas, e os cenários para determinados números musicais. Carmen desempenhou claramente um papel crucial na atração, como é evidenciado por um cartaz anunciando o filme, que inclui apenas uma imagem dela, uma fotografia de corpo inteiro, apoiada aparentemente em um grande cartaz listando os membros do elenco, com o seu nome no topo. Embora, em 1936, a versão original do filme tivesse dado a Francisco Alves o número final, foi o memorável desempenho de Carmen e Aurora em "Cantores de Rádio" que conquistou o público. Quando uma cópia restaurada do filme foi lançada em 1974, foi precisamente o seu número musical que foi escolhido para fechar o filme, em reconhecimento ao apelo duradouro da fama internacional de Carmen, bem como ao valor de entretenimento inerente à sua performance.