thumb|316px|Mapa de Granada do da autoria de Piri Reis

Quemal Reis (; Galípoli, c. 1451 — Mediterrâneo, 1511) foi um corsário e almirante do Império Otomano durante o reinado do sultão . Também conhecido como Kamal Ali e, no Ocidente, como Camali, Camalicchio ou Camal Aichio. Era tio paterno de Piri Reis, outro almirante e cartógrafo otomano, que o acompanhou em muitas das suas importantes expedições navais.

Segundo algumas fontes teria sido o corsário mais famoso e mais perigoso do seu tempo e o inventor dos canhões navais de longo alcance.

Origem e início de carreira Quemal (Reis é um título honorífico que significa "capitão") nasceu na costa anatólia do Mar Egeu cerca de 1451. O seu nome completo e original era Amade Cemaledino. O seu pai era um turco de nome Ali e natural da cidade de Caramânia, na Anatólia Central. No Ocidente, particularmente em Itália e Espanha, ficou conhecido com nomes como Camali e Camalicchio. Começou a sua carreira como comandante da frota pertencente ao sanjaco bei (governador provincial) de Egriboz (atualmente Eubeia), então uma possessão otomana.

Missão naval em Espanha Em 1487, encarregou Quemal Reis da tarefa de defender as terras do emir de Granada, Maomé XII (conhecido entre os cristãos como Boabdil), o último bastião muçulmano na Península Ibérica. Quemal navegou para Espanha e desembarcou uma força expedicionária de tropas otomanas em Málaga, a qual foi capturada, juntamente com as aldeias vizinhas, tendo sido feitos muitos prisioneiros. Daí navegou paras as Ilhas Baleares e para a Córsega, onde atacou localidades costeiras antes de desembarcar as suas tropas perto de Pisa, na Península Itálica.

De Pisa deslocou-se novamente para a Andaluzia e em diversas ocasiões entre 1490 e 1492 transportou muçulmanos e judeus fugidos de Espanha para as províncias do Império Otomano, onde eram bem-vindos. Os muçulmanos e judeus espanhóis contribuíram muito para o desenvolvimento do Império Otomano através da introdução de novas ideias, métodos e tecnologias. Quemal Reis continuou a desembarcar as suas tropas na Andaluzia e tentou parar o avanço dos espanhóis bombardeando os portos de Elche, Almeria e Málaga.

Almirante da armada otomana Em 1495, Quemal Reis foi promovido a almirante da Marinha Otomana pelo sultão Bajazeto II, que ordenou a construção de um grande navio-almirante, o Göke, com capacidade para transportar 700 soldados e que estava armada com os canhões mais potentes da época. Foram construídas duas grandes galés deste tipo, uma para Quemal Reis e outra para Burak Reis. Em outubro de 1496, uma frota de 5 galés, 5 fustas, uma barca de três mastros e o um navio menor partiu de Constantinopla e atacaram o Golfo de Tarento. Em janeiro de 1497 desembarcou em Modon e mais tarde capturou diversos navios venezianos no Mar Jónico, os quais levou para Eubeia juntamente com a respetiva carga.

thumb|esquerda|upright=0.9|O Göke, navio-almirante de Quemal Reis

Em março de 1497 Bajazeto II encarregou-o de proteger os navios que carregavam bens valiosos pertencentes às fundações religiosas de Meca e Medina dos frequentes ataques dos Cavaleiros de São João, então baseados em Rodes (em 1522 os otomanos conquistaram Rodes e autorizaram os cavaleiros a abandonar a ilha pacificamente). Quemal Reis dirigiu-se para Rodes com uma força de 2 barcas e 3 fustas e capturou uma barca dos cavaleiros perto de Montestrato.

Posteriormente desembarcou em Stalimene (Lemnos) e daí navegou para Tenedos (Bozcaada) e voltou a Constantinopla. Em junho de 1497 foram-lhe atribuídas mais duas grandes galés e em julho do mesmo ano instalou a sua base de operações contra os venezianos e cavaleiros de São João na ilha de Quio, no Mar Egeu. Em abril de 1498 saiu dos Dardanelos em direção às ilhas egeias controladas pela República de Veneza à frente de uma frota de 6 galés, 12 fustas com grandes canhões, 4 baracs e 4 navios menores.

Em junho de 1498 apareceu na ilha de Paros e navegou depois para Creta, onde desembarcou as suas tropas em Sitia, cidade que capturou juntamente com as aldeias próximas antes de enviar tropas batedoras para examinarem as características do castelo veneziano próximo. No mês seguinte dirigiu-se a Roseta, no Egito, com uma frota de 5 galés, 6 fustas e duas barcas, para transportar 300 peregrinos que se dirigiam a Meca, os quais levavam consigo ducados de ouro enviados por Bajazeto II ao sultão mameluco.

Perto do porto de Abu Kabir, a frota otomana capturou dois navios portugueses (um galeão) e uma barca depois de um feroz combate que durou dois dias. Quemal Reis navegou depois para Santorini e capturou uma barca veneziana antes de capturar outro navio português no Mar Egeu.

Guerras Otomano-Venezianas Em janeiro de 1499 Quemal Reis embarcou em Constantinopla com uma frota de 10 galés e outros 4 navios de outros tipo e em julho juntou-se-lhe uma grande frota otomana enviada pelo grão-vizir . A frota sob o comando de Quemal Reis passou então a ser composta por 67 galés, 20 galeotas e cerca de 200 navios mais pequenos. Com esta frota, Quemal Reis iniciou uma guerra em larga escala contra a República de Veneza, a qual ficou conhecida como a .

thumb|Batalha de Zonchio, também conhecida como Batalha de Sapienza de 1499 ou Primeira Batalha de Lepanto

Em agosto de 1499, depois de ter chegado ao Mar Jónico com a sua grande armada, Quemal Reis encontrou uma frota veneziana de 37 galés, 17 galeotas e cerca de 100 navios menores comandada por Antonio Grimani perto do Cabo Zonchio, onde se desenrolou a Batalha de Zonchio, também conhecida como Batalha de Sapienza de 1499 ou Primeira Batalha de Lepanto. A batalha naval, a primeira da história em que foram usados canhões em navios, teve lugar em quatro dias diferentes (12, 20, 22 e 25 de agosto de 1499) e saldou-se numa importante vitória dos otomanos. Durante os combates foi afundada a galé de Andrea Loredan, membro da influente família Loredan de Veneza. Antonio Grimani foi feito prisioneiro a 29 de setembro, mas acabou por ser libertado e tornar-se-ia Doge de Veneza em 1521. O sultão Bajazeto II ofereceu 10 das galés venezianas capturadas a Quemal Reis, que estacionou a sua frota na ilha de Cefalónia entre outubro de dezembro de 1499.

Em dezembro de 1499 os venezianos atacaram Lepanto com o objetivo de retomarem os territórios perdidos no Mar Jónico. Quemal Reis saiu de Cefalónia e reconquistou Lepanto aos venezianos, onde se manteve entre abril e maio de 1500 e onde os seus navios foram reparados por um exército de operários otomanos. Partindo de Lepanto, Quemal Reis navegou até à ilha de Corfu, onde bombardeou os portos venezianos.

Em agosto de 1500 voltou a derrotar a armada veneziana na , também chamada de Segunda Batalha de Lepanto. Quemal Reis bombardeou a fortaleza de Modon e capturou a cidade. Mais tarde combateu novamente a armada veneziana ao largo da costa de e capturou esta cidade e um bergantim veneziano.

thumb|esquerda|Fortaleza otomana de Modon

thumb|esquerda|Monemvasia

De Coron, Quemal Reis dirigiu-se para a ilha de e afundou a galé veneziana Lezza. Em setembro de 1500 atacou e em outubro apareceu no Cabo de Santa Maria da ilha de Lêucade antes de terminar a campanha e voltar a Constantinopla em novembro. Na sequência da vitória na Batalha de Modon, a armada e exército otomanos rapidamente dominaram a maior parte das possessões venezianas na Grécia, tendo Modon e Coron, os "dois olhos da República" sido perdidas para os otomanos. Os ataques da cavalaria otomana alcançaram os territórios venezianos no norte da Itália e em 1503 Veneza teve que negociar a paz reconhecendo as conquistas otomanas.

Em janeiro de 1501, Quemal Reis saiu de Constantinopla com uma armada de 36 galés e fustas. Em fevereiro desembarcou na ilha de Eubeia e em Náuplia antes de se navegar para Corfu em março. Daí navegou para o Mar Tirreno, onde capturou a ilha Pianosa e fez muitos prisioneiros. Em abril de 1501 desembarcou novamente em Náuplia e em Monemvasia com uma frota de 60 navios, o que levou o comandante veneziano baseado em Corfu a chamar de volta os navios venezianos que se dirigiam ao Líbano e ao Levante para reforçar as defesas da República Sereníssima que ainda restavam na Moreia.

Em maio de 1501, com uma força de 8 galeotas e 13 fustas, Quemal Reis escoltou os navios de carga que carregaram material de construção para reforçar as fortalezas otomanas nas ilhas de Quio e Tinos, onde capturou a galé de Girolamo Pisani, o comandante veneziano local, um estandarte oficial de São Marcos, o patrono de Veneza, além de outra galé veneziana de nome Basadonna.

Quemal Reis dirigiu-se depois ao porto de Zonchio, perto de Navarino (Pilos), com uma frota de 5 galeotas e 14 fustas, onde desembarcou e capturou o castelo veneziano e as localidades vizinhas depois de um cerco que durou menos de dez horas. No porto de Zonchio foram capturadas três galés, uma caravela e outros navios venezianos que ali estavam atracados. Estes navios foram levados primeiro para Modon, depois para a ilha de Egina e finalmente para Eubeia. Mais tarde conquistou Navarino, anexando mais um porto importante às possessões otomanas. Em junho de 1501 navegou para o Mar Adriático e reforçou as defesas otomanas em Voiussa e Vlora.

Operações no Mediterrâneo Ocidental e Atlântico Em julho de 1501, Quemal Reis, acompanhado pelo seu sobrinho Piri Reis, zarpou do porto de Modon com uma força de 3 galés e 16 fustas e dirigiu-se ao Mar Tirreno, onde se aproveitou da guerra entre Jacopo d'Appiano, governante de Piombino, e as forças papais sob o comando de César Bórgia. Os otomanos desembarcaram em Pianosa e capturaram-na rapidamente, fazendo muitos prisioneiros.

thumb|Forte de Teglia, na ilha de Pianosa thumb|Mapa da Europa e do Mediterrâneo desenhado em 1513 por Piri Reis, sobrinho de Quemal Reis

De Pianosa, Quemal Reis seguiu para o Canal de Piombino e atacou as localidades costeiras da área. Em agosto de 1501 desembarcou na Sardenha e capturou várias localidades costeiras e fez prisioneiros. Combateu com vários navios de guerra genoveses ao largo das costas da Sardenha, os quais escaparam rumo ao norte depois de danificados por tiros de canhão.

Ainda em agosto de 1501, Quemal Reis zarpou para as Baleares, desembarcando em Maiorca, onde se deram ferozes combates com os espanhóis. Quemal Reis seguiu depois para a Espanha continental e capturou 7 navios espanhóis ao largo de Valência. Nestes navios descobriu um estranho adorno de cabeça feito em penas (cocar?) e uma pedra negra desconhecida. Foi-lhe dito por um dos prisioneiros que tais coisas provinham das terras recentemente descobertas do outro lado do Oceano Atlântico. Esse prisioneiro afirmava ter visitado essas terras três vezes sob o comando de um homem chamado Colombo e que tinha em sua posse um mapa desenhado pelo próprio Colombo que mostrava a novas terras situadas além do Mar da Escuridão. Este mapa viria a ser uma das principais fontes do famoso mapa de 1513 desenhado pelo almirante e cartógrafo Piri Reis, sobrinho de Quemal Reis.

Depois de deixar Valência, ainda em agosto de 1501, Quemal Reis zarpou para sul e bombardeou as defesas costeiras da Andaluzia antes de desembarcar as suas tropas, que atacaram vários portos e cidades. Dirigiu-se depois para oeste, passando o Estreito de Gibraltar e entrando no Atlântico. Depois de atacar várias localidades da costa atlântica, Quemal dirigiu-se para sul, paras as Canárias, onde encontrou pouca resistência por parte dos espanhóis.

Como noutras ocasiões, Piri Reis aproveitou a viagem com o tio para desenhar o seu famoso portulano, conhecido como "Mapa de Piri Reis", que depois se viria a incluir na sua obra Kitab-ı Bahriye (Livro da Navegação). Seguindo a linha costeira, Quemal voltou ao oriente, desta vez ao longo da costa norte africana, tendo desembarcado em vários pontos de Marrocos e Argélia. Ao largo de Trípoli, na Líbia capturou vários navios genoveses, onde também interceptou várias galés venezianas antes de voltar para Constantinopla.