thumb|300px|Brasão de armas de Sacavém: «Escudo de vermelho, ponte de três arcos, com os flancos incompletos, de ouro, lavrada de negro. Em chefe, cruz em aspa, de prata. Contra-chefe ondado de seis faixas de prata e azul, onde assentam três barcas de ouro vistas de proa. Coroa mural de prata de cinco torres. Listel branco, com a legenda a negro, em maiúsculas: "SACAVÉM".» Um dos elementos centrais do brasão – a água – recorda o peso dos rios Tejo e Trancão na vida e na economia da cidade, enquanto o outro – a ponte romana – atesta a antiguidade da povoação, remontando pelo menos ao tempo dos Romanos, que aí ergueram essa construção que se manteve a ligar as duas margens do Trancão ao longo de mais de quinze séculos

A história de Sacavém é a história de uma localidade que, pela sua posição estratégica – situada na encruzilhada dos caminhos que, vindos do Norte e do Este, se dirigiam a Lisboa – esteve presente em inúmeros momentos da História portuguesa.

Povoação antiquíssima, existiu no tempo dos Romanos uma ponte em Sacavém cujos vestígios ainda eram visíveis, pelo menos, no (segundo o relato de Francisco de Holanda). Do tempo da ocupação mourisca ficou, aparentemente e sem ser confirmado, o topónimo de origem arábica (شقبان, Šaqabān); imediatamente após a tomada de Lisboa pelos cristãos, em 1147, parece ter ocorrido aqui um combate (a Batalha de Sacavém), hoje comummente considerado lendário.

Durante a Idade Média, Sacavém constituiu um reguengo, do qual viriam a ser beneficiários o almirante Manuel Pessanha, a rainha D. Leonor Teles, e depois o Condestável Nuno Álvares Pereira. Por morte deste, passou a sua posse para a Casa de Bragança, à qual viria a pertencer até à queda da monarquia.Cf. Nova História de Portugal, dir. de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, vol. X – Portugal e a Regeneração, coord. de Fernando de Sousa de A. H. de Oliveira Marques, Lisboa, Editorial Presença, 2004.

Severamente danificada durante o Terramoto de 1755, Sacavém entrou num lento marasmo que durou cerca de um século, até cerca de 1850 se iniciar a sua industrialização – donde ressalta a fundação da célebre Fábrica de Loiça de Sacavém, que espalhou o nome de Sacavém por Portugal e pelo Mundo, e a passagem do caminho-de-ferro pela povoação. Esta situação contribuiu para um aumento populacional sustentado, até meados da década de 1970, favorecendo ainda o desenvolvimento do associativismo (Cooperativa «A Sacavenense», Sport Grupo Sacavenense, entre outros).

No final da década de 1980, a freguesia ganha a sua actual configuração geográfica, com a separação da Portela de Sacavém e do Prior Velho. Em 4 de Junho de 1997, Sacavém vê enfim reconhecido todo o seu valor e potencial, tendo sido elevada a cidade. Meses mais tarde, era inaugurada a Ponte Vasco da Gama, ligando Sacavém a Montijo, e que se tornou uma obra de referência na paisagem urbana da povoação.

A Pré-História e o domínio dos Romanos e Bárbaros Neolítico / Calcolítico Está atestada na região de Sacavém a presença humana desde há vários séculos. A este propósito dizia Pinho Leal no seu monumental Portugal Antigo e Moderno:

«Sacavém é incontestavelmente uma povoação antiquíssima, e já existia no tempo dos Romanos.»Cf. LEAL, Pinho, Portugal Antigo e Moderno: Diccionário Geographico, Estatístico, Chorographico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico & Etymologico de Todas as Cidades, Villas e Freguesias de Portugal e Grande Número de Aldeias. Facsímile da edição de Lisboa, Livraria Editora de Mattos Moreira, 1873–1890, vol. 8, Lisboa, Cota d’Armas, 1990, p. 310.

Com efeito, parece ter sido ocupada já na Pré-História (períodos do Neolítico e, com maior probabilidade, do Calcolítico, do qual parecem datar três machados de pedra polidaVide Património de Arqueologia .); há notícia da existência de uma gruta sob o Largo do Terreirinho, junto ao Santuário da Senhora da Saúde, a qual, ao ser escavada na década de 1980, revelou a existência de vestígios pré-históricos.Vide Sítios Arqueológicos, do Ministério da Cultura Português.

Os Romanos thumb|300px|A Ponte Romana de Sacavém, desenhada por Francisco de Holanda no terceiro quartel do e incluída na sua Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, sob o título Lembrança Pera Redificar a Ponte de Sacauem, surge representada com um elevado número de arcos, denotando assim um rio muito mais caudaloso que hoje em dia Em finais do , chegam à Península Ibérica os Romanos. Olisipo (antigo nome de Lisboa), alia-se às legiões romanas, sendo cedo absorvida no Império, e recompensada com a atribuição do estatuto de município (isto é, de cidadania plena, estando por isso isenta do pagamento das exacções a que outros territórios, conquistados pela força das armas, estavam sujeitos) e o nome de Felicidade Júlia (em honra de Júlio César).

Administrativamente, o município ulissibonense integrava-se no Convento Escalabitano, e este, por sua vez, fazia parte, primeiro da província da Hispânia Ulterior e, a partir de 29 a.C (por divisão decretada por Augusto), da Lusitânia, com capital em Emerita Augusta (correspondente à moderna Mérida, na Estremadura espanhola).

Este município abrangia um extenso território rural, cobrindo uma distância aproximada de cinquenta quilómetros ao redor da área urbana (e destinado à sua autossuficiência), pelo que logicamente o local onde se implanta a moderna Sacavém se achava aí integrado.

Sobre Sacavém em concreto, porém, apenas podermos afirmar que no da nossa Era aí passava um troço comum a duas estradas romanas:

a Via XV, que ligava Olisipo à capital provincial de Emerita Augusta, com passagem pela cidade de Escálabis, a moderna Santarém, então capital do Convento Escalabitano; a Via XVI, que ligava Olisipo a Bracara Augusta, capital do Convento Bracarense, na província da Galécia, correspondente à actual Braga.

Ainda hoje subsistem vestígios desta rede viária, sob o pavimento das ruas António Ricardo Rodrigues e José Luís de Morais (que mais tarde seriam o eixo fundamental à volta do qual se processou a urbanização da povoação, ligando Sacavém de Cima a Sacavém de Baixo).Vias Romanas em Portugal - Itinerarios

Já neste tempo parece de relevo a importância de Sacavém e do seu rio; com efeito, os Romanos teriam construído uma ponte sobre o Trancão, da qual ainda existiriam vestígios dos pilares de assentamento no leito no , segundo diversos relatos – designadamente os de Francisco de Holanda (que a ela alude na sua obra Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, de 1571, na qual anota a necessidade de o rei – então D. Sebastião – proceder à reconstrução da ponte romana, e faz dela um esboço, onde surge representada com quinze arcos, denotando assim a existência de um rio muito mais caudaloso que actualmenteCf. HOLANDA, Francisco de, Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, introdução e notas de José da Felicidade Alves, Lisboa, Livros Horizonte, 1984, pp. 26–28 (Capítulo 7.º – Das Pontes e Calçadas Públicas de Lisboa).) e de Miguel Leitão de Andrada (no «2.º Diálogo» da sua Miscelânea, datada de 1629). Esta ponte (que ainda hoje constitui o elemento central do brasão de armas de Sacavém) era a continuação natural da via que seguia pelas ruas anteriormente mencionadas, ligando Sacavém à margem Norte do seu rio.

Se se admitir que o célebre Itinerário de Antonino se baseia em trajectos levados a cabo por Antonino Pio, e atendendo ao facto de serem mencionadas na obra as vias em causa, é natural que o dito imperador tenha passado pela povoação e pela sua ponte sobre o Trancão…

Há ainda a notícia de em Sacavém ter existido (segundo o relato do Anónimo Napolitano, e incluído no volume II do Corpus Inscriptionum Latinarum – CIL –, relativo à Hispânia) uma inscrição epigráfica (cujo paradeiro é hoje desconhecido) que rezava o seguinte:

Não se conseguiu, porém, até ao momento, aventar uma leitura plausível para este monumento; com excepção da primeira linha, que remete para um nome ou cognome inteligível (Sílvio), o conteúdo das três restantes linhas é objecto de grandes conjecturas. Emil Hübner, o redactor do CIL, propôs que as abreviaturas MAG, nas linhas 2 e 3, dissessem respeito a dois mestres (magistri), talvez responsáveis por um vico, uma pequena unidade administrativa a nível rural, o que pressuporia talvez a existência de um vico no local de Sacavém, junto à ponte, e que seria governado por estes dois mestres; esta tese colheu também a aprovação de Jorge de Alarcão. Vasco Gil Mantas, por seu turno, propõe que se tratassem dos mestres de um santuário que existiria talvez nas proximidades, o que também não seria inverossímil. Seja como for, tal parece testemunhar, sem sombra de dúvida, a presença romana no local.Inscrições romanas do termo loures (pdf)

Alanos e visigodos Aos Romanos sucederam-se as ocupações dos povos bárbaros, na sequência das suas migrações para Ocidente: primeiro dos Alanos (que ocuparam todo o Sudoeste peninsular durante cerca de meia década, sem porém deixarem quaisquer vestígios significativos na região), e depois dos visigodos (que teriam edificado aqui uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, sob a qual se encontram hoje as ruínas da capela de Nossa Senhora da Vitória).Cf. LEAL, Pinho, op. cit., p. 313.

Domínio muçulmano thumb|esquerda|250px|A actual capela de Nossa Senhora da Vitória ergue-se, segundo a tradição, onde se situou outrora a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, existente na povoação durante o domínio muçulmano

Conquista e coabitação A partir de 711, tem início o domínio muçulmano da Península Ibérica. Lisboa (Lixbuna) é tomada em 716 por forças bérberes sob o comando de Abdalazize ibne Muça (que à data exercia o cargo de governador do Alandalus em nome do califa de Damasco, sendo filho do governador da província da Ifríquia, Muça ibne Noçáir), e por essa época devem também ter caído não só as povoações que integravam o termo de Lisboa (entre os quais Sacavém), bem como os vários povoados das redondezas, como Xantara (isto é, Sintra).

Tal como nas demais regiões do Gharb al-Andalus (o «Ocidente do Andaluz», região que corresponde, grosso modo, à antiga Lusitânia romana e incluía, portanto, a maior parte do moderno Portugal), número significativo de hispano-romano-godos da região de Lixbuna, embora se tenham arabizado (tornando-se bilíngues em árabe – a nova língua da administração – e no baixo-latim medieval que mantinham como língua do culto), não se islamizaram (ou apenas o fizeram tardiamente), tendo remanescido cristãos; entre eles, estariam alguns habitantes do lugar de Sacavém que, de acordo com a tradição, puderam manter o seu culto na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, mediante o pagamento de um tributo monetário (a jizia), tornando-se assim moçárabes, ou seja, cristãos vivendo debaixo do domínio muçulmano, tendo como suma autoridade o bispo moçárabe de Lisboa – algo possibilitado pela relativa tolerância religiosa do Islão para com os chamados «Povos do Livro» (Alal Quitabe), ou seja, judeus e cristãos.

Julga-se mesmo que a torre medieval em Sacavém de Cima, no Largo do Terreirinho, fronteira à Capela da Senhora da Saúde, no centro histórico da povoação, tenha provavelmente origem muçulmana, e seria aí que, de acordo com a tradição, os cristãos pagavam a jizia às autoridades mouriscas. Terá depois sofrido intervenções de restauro durante a Idade Média, achando-se hoje, contudo, bastante arruinada.Cf. LEAL, Pinho, op. cit., p. 311.

Sacavém no Alandalus De acordo com o relato de uma fonte muçulmana (o geógrafo sírio Iacute Alhamaui), Sacavém era «um dos povoados de Lisboa, a Oriente dela», sendo a povoação classificada como uma qarya (palavra donde deriva o termo alcaria, e que se pode traduzir, precisamente, como pequeno povoado, vilaMEDIEVALISTA).