miniaturadaimagem|Instituições políticas formais, como a nossa Constituição, parlamentos e tribunais, constituem objeto central de análise do institucionalismo, entendido como o estudo das regras, normas e estruturas que moldam o comportamento político Institucionalismo é uma abordagem teórica das ciências sociais que destaca o papel das instituições — entendidas como regras formais, normas informais e padrões de interação — na conformação do comportamento político, econômico e social. De modo geral, instituições são entendidas como regras formais, normas informais e padrões de interação que estruturam as relações entre atores coletivos e individuais. O institucionalismo tem origem na ciência política e na economia, mas suas formulações se expandiram para a sociologia, a história e
A tradição institucionalista atravessou diferentes fases ao longo do século XX: o “velho institucionalismo”, o movimento behaviorista que o sucedeu e, a partir da década de 1970, o chamado "novo institucionalismo" (new institutionalism).
Origens As primeiras formulações institucionalistas remontam ao final do século XIX e início do século XX, associadas sobretudo à economia e à ciência política norte-americana. Autores como Thorstein Veblen e John R. Commons criticaram o individualismo metodológico da economia clássica, destacando o papel das instituições na mediação entre interesses individuais e ordem social.Veblen, Thorstein.'The Theory of the Leisure Class'. New York: Macmillan, 1899.Commons, John R.'Institutional Economics: Its Place in Political Economy'. New York: Macmillan, 1934.Cavalieri, Marco Antonio Ribas. "O surgimento do institucionalismo norte-americano de Thorstein Veblen: economia política, tempo e lugar". Economia e Sociedade, v. 22, n. 1, p. 199-224, 2013. doi:10.1590/S0104-06182013000100002. Na ciência política, o estudo das constituições, das formas de governo e do direito público foi durante décadas o foco dominante, caracterizando o chamado "velho institucionalismo".Easton, David. "Political Science in the United States: Past and Present". International Political Science Review, v. 6, n. 1, p. 133-152, 1985.Peters, B. Guy.'Institutional Theory in Political Science: The New Institutionalism'. Londres: Continuum, 1999.
A partir das décadas de 1950 e 1960, esse enfoque passou a ser questionado pelo movimento behaviorista, que se consolidou nos Estados Unidos como reação ao formalismo jurídico-político europeu, considerado excessivamente formalista, pouco científico e incapaz de explicar o comportamento efetivo dos atores políticos. O movimento marcou a hegemonia de métodos quantitativos, surveys de opinião e estudos de comportamento legislativo e eleitoral até os anos 1970.lmond, Gabriel A. "Political Science: The History of the Discipline". In: Goodin, Robert E.; Klingemann, Hans-Dieter (eds.).'A New Handbook of Political Science'. Oxford: Oxford University Press, 1996 David Easton, por exemplo, propôs que a ciência política deveria adotar métodos empíricos e quantitativos, com base em indicadores observáveis, para ser uma “ciência de fato”. Em sua obra The Political System (1953), Easton argumentou que a disciplina precisava abandonar descrições jurídicas e adotar uma perspectiva sistêmica, centrada nos fluxos de demandas, apoio e decisões dentro do processo político.Easton, David.'The Political System: An Inquiry into the State of Political Science'. New York: Alfred A. Knopf, 1953. Na mesma linha, Robert Dahl em A Preface to Democratic Theory (1956) e depois em Who Governs? (1961) deslocou o foco da análise de regras constitucionais para o comportamento de atores concretos, como elites locais, grupos de interesse e eleitores. Dahl considerava que apenas a observação empírica do processo decisório poderia revelar a distribuição real de poder, em contraste com a abordagem formalista das instituições.Dahl, Robert.'A Preface to Democratic Theory'. Chicago: University of Chicago Press, 1956.Dahl, Robert.'Who Governs? Democracy and Power in an American City'. New Haven: Yale University Press, 1961.
A partir das décadas de 1970 e 1980, desenvolveu-se o chamado novo institucionalismo (new institutionalism), que marcou uma reorientação teórica nas ciências sociais. O movimento surgiu em reação tanto ao behaviorismo, que privilegiava atitudes individuais e comportamento político mensurável,Peres, Paulo Sérgio. "Comportamento ou instituições? A evolução histórica do neo-institucionalismo da ciência política".'Revista Brasileira de Ciências Sociais', v. 23, n. 68, p. 53-71, 2008. doi: 0.1590/S0102-69092008000300005. quanto às explicações estruturalistas centradas em fatores econômicos ou sociais amplos, como o faz a tradição marxistaMarch, James G.; Olsen, Johan P. "The New Institutionalism: Organizational Factors in Political Life". American Political Science Review, v. 78, n. 3, p. 734-749, 1984.March, James G.; Olsen, Johan P. "Neo-institucionalismo: fatores organizacionais na vida política". 'Revista de Sociologia e Política', v. 16, n. 31, p. 121-142, 2008 . na ciência política, ou em valores coletivos, como na sociologia funcionalista.
O novo institucionalismo apresenta diferentes vertentes analíticas:Hall, Peter A.; Taylor, Rosemary C. R. "Political Science and the Three New Institutionalisms". Political Studies, v. 44, n. 5, p. 936-957, 1996.<ref>Hall, Peter A.; Taylor, Rosemary C. R. "As três versões do neoinstitucionalismo".Lua Nova: Revista de Cultura e Política', n. 58, p. 193-223, 2003.</ref>
Institucionalismo histórico: enfatiza a ideia de que instituições são moldadas por processos de longo prazo, em que escolhas iniciais restringem alternativas futuras — fenômeno conhecido como dependência de trajetória (path dependence). Pequenas decisões em momentos de conjuntura crítica, como reformas constitucionais, guerras ou crises econômicas, podem gerar arranjos institucionais duradouros. Uma vez estabelecidas, as instituições tendem a se reproduzir por mecanismos de autorreforço, que tornam custoso ou improvável o retorno a alternativas descartadas. Autores como Theda Skocpol, mostraram como configurações estatais distintas condicionaram diferentes resultados revolucionários. Paul Pierson destacou que políticas públicas criam legados que estruturam o comportamento dos cidadãos e das elites, tornando-se cada vez mais difíceis de reverter ao longo do tempo. Já Kathleen Thelen analisou como mudanças institucionais não ocorrem apenas em grandes rupturas, mas também de forma incremental, por mecanismos como conversão, deriva ou superposição institucional.Pierson, Paul. "Increasing Returns, Path Dependence, and the Study of Politics".American Political Science Review', v. 94, n. 2, p. 251-267, 2000.</ref><ref>Thelen, Kathleen. "Historical Institutionalism in Comparative Politics".Annual Review of Political Science', v. 2, p. 369-404, 1999.Oliveira Lima, Enzo Lenine Nunes Batista; Mörschbächer, Melina. "Contribuições e desafios do institucionalismo histórico na Ciência Política contemporânea".'BIB', n. 81, p. 103-122, 2016. Institucionalismo da escolha racional: parte dos pressupostos da teoria da escolha racional, segundo os quais os atores são racionais e orientados pela maximização de seus interesses. Nessa perspectiva, instituições não são vistas como estruturas culturais ou históricas, mas como arranjos de regras e incentivos que reduzem incertezas e tornam possível a cooperação entre indivíduos em situações de interdependência estratégica. A influência da teoria dos jogos é central: dilemas como o jogo do prisioneiro ilustram como, na ausência de regras estáveis, atores tenderiam a adotar comportamentos oportunistas. Instituições funcionam, assim, como mecanismos de coordenação que limitam comportamentos oportunistas, estabelecem sanções e aumentam a previsibilidade das interações. Entre os principais autores, Douglass North definiu instituições como “as regras do jogo em uma sociedade”, que estruturam os incentivos da vida política e econômica.North, Douglass C.'Institutions, Institutional Change and Economic Performance'. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. Já Kenneth Shepsle e Barry Weingast aplicaram esse enfoque ao estudo do Congresso norte-americano, argumentando que regras legislativas, como a distribuição de comissões e direitos de agenda, moldam resultados coletivos ao reduzir custos de transação e estabilizar expectativas.Shepsle, Kenneth A.; Weingast, Barry R. "Structure-Induced Equilibrium and Legislative Choice".'Public Choice', v. 37, n. 3, p. 503-519, 1981. Outra contribuição fundamental ao institucionalismo da escolha racional foi dada por Elinor Ostrom, que demonstrou, a partir de extensos estudos empíricos sobre recursos de uso comum (commons), que comunidades podem desenvolver instituições próprias de governança capazes de garantir sustentabilidade sem depender exclusivamente do Estado ou do mercado. Em Governing the Commons (1990), Ostrom apresentou princípios de desenho institucional aplicáveis à gestão coletiva de recursos, consolidando a ideia de governança policêntrica. Sua contribuição lhe rendeu o Prêmio Nobel de Economia em 2009, tornando-se a primeira mulher laureada na área.Ostrom, Elinor. 'Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action'. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. Outro autor central é Jack Knight, que concebe as instituições como o resultado de conflitos distributivos entre atores assimétricos. Em Institutions and Social Conflict (1992), Knight argumenta que instituições não são apenas arranjos cooperativos que reduzem incerteza, mas também refletem equilíbrios de poder que beneficiam determinados grupos. Essa perspectiva introduziu uma leitura crítica dentro do institucionalismo da escolha racional, aproximando-o de debates normativos sobre justiça e desigualdade.Knight, Jack. Institutions and Social Conflict. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.Rezende, Flávio da Cunha. "Convergências e controvérsias sobre a mudança institucional: modelos tradicionais em perspectiva comparada". Revista de Sociologia e Política, v. 20, n. 41, p. 37-51, 2012. doi:10.1590/S0104-44782012000100004 . Institucionalismo sociológico: diferencia-se das demais vertentes por compreender instituições não apenas como regras formais ou constrangimentos estratégicos, mas como estruturas culturais e cognitivas que moldam identidades, crenças e práticas sociais. Nesse enfoque, instituições são sustentadas pela legitimidade e pelo compartilhamento de significados, de modo que os indivíduos e organizações tendem a conformar-se a normas amplamente aceitas, mesmo quando isso não maximiza sua eficiência. Um marco dessa corrente é o artigo de John W. Meyer e Brian Rowan (1977), que mostrou como organizações frequentemente adotam estruturas formais como “mitos racionais” para obter legitimidade perante o ambiente, ainda que tais estruturas pouco afetem seu funcionamento cotidiano.Meyer, John W.; Rowan, Brian. "Institutionalized Organizations: Formal Structure as Myth and Ceremony". American Journal of Sociology, v. 83, n. 2, p. 340-363, 1977. Outra contribuição decisiva foi a de Paul DiMaggio e Walter Powell (1983), ao desenvolverem o conceito de isomorfismo institucional, isto é, a tendência de organizações a se tornarem semelhantes devido a pressões coercitivas (leis e regulações), miméticas (imitação em contextos de incerteza) e normativas (profissionalização e socialização em comunidades de especialistas).DiMaggio, Paul J.; Powell, Walter W. "The Iron Cage Revisited: Institutional Isomorphism and Collective Rationality in Organizational Fields". American Sociological Review, v. 48, n. 2, p. 147-160, 1983.
Desenvolvimento recente e debates