O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN, em espanhol: Ejército Zapatista de Liberación Nacional), é uma organização armada mexicana de caráter político-militar e composição de maioria indígena. Sua estratégia militar é a guerrilha. Seu objetivo é "subverter a ordem para fazer a revolução socialista e criar uma sociedade mais justa" (ver indigenismo).
Foi a público no estado mexicano de Chiapas em 1 de janeiro de 1994, quando um grupo de indígenas encapuzados e armados atacaram e ocuparam várias cabeceras municipais no mesmo dia em que entrava em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte, durante o governo de Carlos Salinas de Gortari, desestabilizando o sistema político mexicano e questionando suas promessas de modernidade. Seu objetivo era derrubar o presidente eleito democraticamente e a implantação de um governo socialista no México, fazendo alusão ao estilo de Cuba, Vietnã ou Angola. Após o fracasso militar de sua revolução, decidiu empreender uma atividade política, mantendo as armas e um caráter de guerrilha de esquerda radical. Seu comando tem por nome Comité Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral (CCRI-CG) do EZLN.
Antecedentes
Durante o regime do partido único Partido Revolucionário Institucional (PRI) que durou mais de 70 anos, os movimentos camponeses, operários e populares que discordavam do modelo de nação priista enfrentaram consecutivas e sistemáticas repressões, o que fez com que muitos jovens considerassem os canais legais da participação política fechados e apostassem na formação de organizações armadas para buscar a derrota de um regime que de seu ponto de vista era autoritário, e melhorar as condições de vida da população.
De uma dessas organizações, a Forças de Libertação Nacional (FLN), surgiu o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
As FLN foram fundadas em 6 de agosto de 1969, no norte do país: (Monterrey, Nuevo León) e, segundo o general Mario Arturo Acosta Chaparro, em seu informe Movimentos subversivos no México, "haviam estabelecido suas zonas de operação nos estados de Veracruz, Puebla, Tabasco, Nuevo León e Chiapas".
Em fevereiro de 1974 aconteceria em San Miguel Nepantla, Estado de México, um confronto entre uma unidade do Exército federal - à frente do qual estava o então tenente coronel Acosta Chaparro - e integrantes da FLN. Alguns destes perderiam a vida no combate, como Carmen Ponce e Dení Prieto e outros seriam presos, como ocorreu com María Gloria Benavides, que denunciou haver sido torturada.Como consequência deste confronto, as FLN perderam sua capacidade operacional. No início da década de 1980, alguns de seus militantes decidiriam a fundação do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Assim, em 17 de novembro de 1983, um grupo de pessoas entre as quais se encontravam indígenas e mestiços, declaram formalmente constituída a formação de um exército regular que em 1 de janeiro de 1994 sairia à luz pública sob a declaração de guerra ao governo mexicano.
Características Suas ações se articulam sobre três pensamentos mínimos: A defesa de direitos coletivos e individuais negados aos povos indígenas mexicanos; A construção de um novo modelo de nação que inclua a democracia, a liberdade e a justiça como princípios fundamentais de uma nova forma de fazer política; A formação de uma rede de resistência e rebeliões no mundo todo em nome da humanidade e contra o neoliberalismo.
Etapas históricas
Segundo documentos zapatistas, a história do EZLN teve sete etapas. A primeira foi a de seleção dos líderes revolucionários (cinco homens e uma mulher) que formariam a primeira célula político-militar da organização. A segunda seria a da fundação propriamente dita do Exército Zapatista de Liberação Nacional, após a instalação do primeiro acampamento zapatista em Chiapas, que chamariam de "La Pesadilla". A terceira etapa foi de preparação e estudo de estratégia e tática militar, a partir de manuais dos exércitos estadounidense e mexicano e de instalação de novos acampamentos como "El Fogón", "Reclutas", "Baby Doc", "De la Juventud" e até um chamado "Margaret Thatcher".Comunicado de 10 de novembro de 2003.
Na quarta etapa, por volta de 1985, o grupo fez os primeiros contatos com os povos da região. A quinta etapa é chamada pelo próprio EZLN de "crescimento explosivo", pois sua área de influência abarcou não só a Selva Lacandona, como também as zonas de Los Altos e do norte de Chiapas. A sexta etapa foi marcada por uma votação interna da organização, que dizia respeito a ir ou não à guerra contra o governo mexicano e aos preparativos para o levante, após o "sim" da maioria. (Os zapatistas situam cronologicamente nesta etapa um conflito, em maio de 1993, com elementos do Exército federal, no que chamaram de "Batalha da Corralchén"). Em dezembro de 1993, o EZLN, amparando-se no Artigo 39º da Constituição Política do México, inicialmente planejava a derrubada do então presidente, Carlos Salinas de Gortari, sob a acusação de que, nas eleições de 1988, "havia usurpado o posto do primeiro mandatário por meio de uma fraude eleitoral de enormes proporções". Com esse mesmo postulado, declarava guerra ao Exército Mexicano, chamando os poderes Legislativo e Judiciário “a restaurar a legalidade e a estabilidade da Nação, por meio da deposição do ditador".
O EZLN considerava que o sexêio salinista tinha como ponto de partida um processo eleitoral atormentado por irregularidades que iam desde um censo com cidadãos já falecidos - fazendo com que parecesse que haviam votado; até um sistema de apuração de votos que, quando registrou números favoráveis ao ex priísta Cuauhtémoc Cárdenas Solórzano, "veio abaixo"; passando pela queima das cédulas eleitorais quando a sociedade e os partidos políticos de oposição exigiram a recontagem para esclarecer a eleição. Ainda assim, precisamente porque as cédulas foram queimadas, a teoria de fraude foi uma ideia que predominou em boa parte da população mexicana sem que nunca tenha sido comprovada. Além disso, em 1994 o governo de Salinas de Gortari gozava de tão boa reputação, tanto no México quanto fora, que chegou a concorrer para presidir a Organização Mundial do Comércio (OMC) e, em alguns círculos de política nacional, se aventava a possibilidade de reformar a Constituição para permitir sua reeleição.
Cronologia política e militar
Entre a madrugada de 29 de dezembro de 1993 e a tarde de 31, aconteceria a sétima etapa programada pelo EZLN, com o objetivo de atacar simultaneamente quatro cabeceiras municipais e outras três "na passagem", reduzir as tropas policiais e militares nesses locais e atacar dois grandes quartéis do Exército Federal.
Ainda que já existissem diversos informes que relatavam a presença zapatista na região conhecida como os Altos de Chiapas, o ato tomaria de surpresa o Governo Federal, que se preparava para a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte, entre Estados Unidos, Canadá e México.
1994 thumb|300px|right|Estado de Chiapas. Em 1º de janeiro de 1994, o autodenominado Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), repentinamente e sem uma declaração prévia, inicia uma insurreição armada no estado de Chiapas, conhecida como levante zapatista. Uma vez realizadas as ocupações, emitem a Primeira Declaração da Selva Lacandona, por meio da qual declaram guerra ao governo mexicano ao mesmo tempo em que pedem "trabalho, terra, teto, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz".
Nas primeiras horas do ano novo, os rebeldes atacam e conseguem ocupar as cabeceras municipais de San Cristóbal de Las Casas, Altamirano, Las Margaritas e Ocosingo, Oxchuc, Huixtán e Chanal.
Em 2 de janeiro, atacou a XXXI Zona Militar em um combate que durou mais de dez horas, apesar do comandante militar, o general Gastón Menchaca Arias, haver concedido o dia de folga a vários integrantes de suas tropas por causa do ano novo. Ao final, o EZLN não conseguiu seu objetivo e recuou para dentro da mata.
Enquanto isso, chegava ao fim a Batalha de Ocosingo, uma das mais sangrentas dos primeiros dias de enfrentamento. Segundo fontes governamentais, o exército federal combateu o EZLN com a instrução de cuidar da população civil, o que ficou dificultado quando os subversivos se protegeram usando os moradores como reféns. Uma dessas ações teve como resultado a morte do Subcomandante Insurgente Pedro, chefe do estado maior do EZLN.
No dia 3 os rebeldes capturam o general Absalón Castellanos Domínguez, ex governador de Chiapas, mas em 4 de janeiro o exército já tinha o controle total de Ocosingo e das demais cabeceras municipais que o EZLN havia tomado. Durante os oito dias seguintes, a capacidade de ataque do EZLN era quase nula. Informes Castrenses confirmavam a derrota do EZLN pelo exército federal e seu fracasso quanto à "marcha à Cidade do México" citada na Primeira Declaração da Selva Lacandona, já que militarmente os rebeldes não tiveram oportunidade de ir além dos municípios inicialmente tomados.
O ataque dos subversivos resultou num saldo de 57 mortos e 40 feridos.
Após a surpresa inicial, o presidente da República Mexicana, Carlos Salinas de Gortari, dirige uma primeira mensagem à nação em 6 de janeiro, negando que se tratava de um levante indígena e oferecendo perdão a quem decidisse depor as armas. Desde então o governo acusa o EZLN de receber apoio estrangeiro, enquanto o EZLN emite um comunicado no qual rechaça essas acusações e denuncia abusos dos militares contra os quais lutaram.
Não havendo alcançado seus objetivos e frente à resposta militar, os rebeldes reagiram em um primeiro momento buscando negociação e propuseram o bispo de San Cristóbal de las Casas, Samuel Ruiz, Rigoberta Menchú e o jornalista Julio Scherer como mediadores do diálogo. Depois disso, Días estabeleceu os requisitos que deveria cumprir a comissão negociadora. O governo respondeu nomeando, no dia 10 de janeiro, Manuel Camacho Solís como comissário para a Paz e a Reconciliação em Chiapas, oferecendo ao EZLN "paz com justiça e democracia".
O EZLN prosseguiu com suas atividades guerrilheiras e, no dia 8, persegue com disparos as instalações do quartel general da XXXI Zona Militar (San Cristóbal de las Casas). Registraram-se atentados contra torres de abastecimento elétrico e contra um gasoduto de petróleo mexicanos. Além disso, presumidos zapatistas derrubaram duas torres de abastecimento elétrico nos estados de Puebla e Michoacán e, no dia seguinte, explodiu um carro-bomba na capital mexicana, e grupos simpatizantes aos zapatistas armam uma bomba no palácio do governo de Acapulco. Depois, um carro-bomba explodiu próximo a um campo militar no estado do México, em Hidalgo e na capital mexicana, respectivamente. Os rebeldes advertiram que outros atentados seriam possíveis na capital mexicana.
No dia 12 de janeiro, o presidente Carlos Salinas de Gortari ordenou um cessar-fogo unilateral do Exército em Chiapas, como primeiro passo para iniciar o diálogo, e enviou à Comissão Permanente do Congresso da União sua proposta de Lei de Anistia geral. Nesse momento, os confrontos motivados pela insurreição haviam causado 108 mortes, segundo dados oficiais, enquanto o subcomandante insurgente Marcos afirmaria anos mais tarde que 46 rebeldes foram mortos durante os 12 dias de combates entre a guerrilha e o exército mexicano em janeiro de 1994.
No âmbito político, o 18 de janeiro levou à renúncia do governador interino de Chiapas, Elmar Setzer, que foi substituído por Javier López Moreno e o EZLN, que havia aceitado Manuel Camacho como comissário de Paz, propôs uma agenda de quatro pontos para negociar e estabeleceu, mediante um comunicado, a agenda para iniciar a negociação. Os rebeldes também anunciaram intenções de trocar o ex-governador sequestrado por prisioneiros zapatistas. Camacho Solís aceitou a proposta. Cerca de 70 mil pessoas marcharam na cidade do México a favor da paz.