Marco Pórcio Catão (234 – ; ) foi um político e escritor da gente Pórcia da República Romana eleito cônsul em com Lúcio Valério Flaco. Ficou conhecido como Catão, o Velho, Catão, o Censor, Catão Sapiente e Catão Prisco para distingui-lo de seu bisneto, Marco Pórcio Catão, o Jovem.
Catão era de uma antiga família plebeia que havia se destacado no serviço militar, mas que ainda não havia conseguido desempenhar nenhuma função na magistratura política. Foi criado segundo as tradições de seus antepassados latinos e estudou a agricultura, atividade que desempenhava quando não estava em campanha. Apesar disso, Catão chamou a atenção de Lúcio Valério Flaco, que o levou até Roma e ajudou-o, com sua influência, a galgar os diversos degraus do cursus honorum: tribuno em , questor em , pretor em , cônsul em (serviram juntos) e, finalmente, censor em .
Como censor, Catão se destacou por sua defesa conservadora das tradições romanas contra o luxo e a frivolidade da corrente helenística oriunda do contato cada vez maior de Roma com o oriente. Por conta disto, durante o seu mandato como censor, protagonizou um duro embate contra Cipião Africano, o herói da Segunda Guerra Púnica. Como político, Catão se destacou como o maior defensor e grande impulsionador da Terceira Guerra Púnica contra Cartago.
Em suas campanhas militares, Catão lutou contra os cartagineses na Segunda Guerra Púnica, entre 217 e , e participou da Batalha de Metauro, na qual Asdrúbal Barca foi morto. Como resultado destas batalhas, Roma anexou todos os territórios cartagineses na Península Ibérica e foi nomeado procônsul. Durante seu mandato, serviu na Hispânia Citerior, onde dirigiu uma campanha vingativa, eliminando os celtiberos insurgentes e tratando a população em geral com extrema dureza. Em , interveio, como tribuno militar, na guerra na Grécia contra o Império Selêucida de Antíoco III, o Grande, participando da Batalha de Termópilas (), que deu a vitória aos romanos.
É considerado o primeiro escritor importante a escrever prosa em latim e foi o primeiro autor de uma história da Itália nesta língua. Alguns historiadores argumentaram que, se não fosse pelo impacto provocado por suas obras, o grego teria substituído o latim como língua literária em Roma. Seu manual "De Agri Cultura" (também chamado de "De Re Rustica"), que significa "Sobre a Agricultura" ou "Das Coisas Rústicas", é a única obra sua a ter sobrevivido completa. Nela, entre muitos outros temas, está descrito o ritual da "suovetaurília".
Segundo Plutarco, Catão, o Velho, era loiro e de olhos azuis.
Origem Gente Pórcia thumb|esquerda|upright=1|Inscrição romana em Túsculo, a terra natal de Catão e onde ele aprendeu a valorizar seu modo de vida rústico Catão, o Velho, nasceu em 234 a.C., em Túsculo uma cidade do interior da Itália, anexada no Lácio onde seus antepassados viveram por muitas gerações. Seu pai havia conquistado uma grande reputação como soldado e seu bisavô havia chegou a receber uma recompensa do estado ao matar cinco soldados montados em uma batalha. Apesar disto, os integrantes da gente Pórcia jamais conseguiram obter um posto na magistratura romana. Quando começou sua carreira na capital, Catão foi considerado pelos patrícios como um homem novo; o sentimento de estar em uma posição injusta aliada à sua crença em sua própria superioridade em relação aos seus rivais políticos contribuíram para estimular ainda mais sua ambição.
Cognome Catão Os homens das três gerações imediatamente anteriores ao nascimento de Catão haviam recebido o nome de "Marco Pórcio" e, segundo Plutarco,Plutarco, Vidas Paralelas, Vida de Catão, o Velho 1. Catão era conhecido originalmente como "Prisco" ("Priscus"); apesar disto, adotou posteriormente o cognome "Catão" ("Cato"). Mas é provável que seu epíteto mais comum fosse "Prisco" — utilizado para distingui-lo de seus sucessores, como o célebre Catão, o Uticense — já que não existem registros sobre qual teria sido a primeira ocasião na qual se utilizou o sobrenome Catão. Também é possível que ele tenha ganho o apelido durante a sua infância, como símbolo de distinção, pois as qualidades implícitas no significado deste cognome estavam resumidos no obsoleto título de "Sapiente" ("Sapiens"), como ele era conhecido em sua velhice e que foi transformado por Cícero em seu cognome "formal".Cícero, Laelius, sive De Amicitia 2. Dotado de grande eloquência em suas dissertações e dotado de um grande estilo oratório,Juniano Justino xxxiii.2Aulo Gélio XVII 21. atualmente ele é mais conhecido como "Catão, o Velho" ou "Catão, o Censor".
Ano de nascimento Para determinar a data de nascimento de Catão, o Velho, é preciso considerar os registros que fazem referência à sua idade na data de sua morte, um acontecimento que se sabe com certeza ter ocorrido em . Segundo a obra de Cícero,Cícero, De Senectute 4. Catão teria nascido em , o ano anterior ao consulado de Fábio Máximo, e morreu com 85 anos de idade, durante o consulado de Lúcio Márcio Censorino (o cônsul que iniciou o cerco de Cartago) e Mânio Manílio. PlínioPlínio, História Natural xxix.8. concorda com Cícero, apesar da da marcante tendência dos escritores clássicos de exagerarem a idade de Catão. Segundo Valério Máximo,Valério Máximo VIII 7.1. Catão passou dois oitenta e seis anos, enquanto que LívioLívio, Ab Urbe Condita XXXIX 40. e Plutarco defendem que ele teria mais de noventa anos quando morreu.
Plutarco rebate estas afirmações ao mencionar em sua obra uma frase atribuída a Catão; nela, o censor afirma que teria servido em sua primeira campanha com apenas dezessete anos, quando o comandante cartaginês Aníbal invadiu a Itália à frente de um enorme exército. Apesar disto, Plutarco não observou que esta afirmação de sua principal fonte, Lívio, estava incorreta ao tomar o décimo-sétimo ano de vida de Catão como sendo , vários anos antes da invasão de Aníbal. A frase reforça o cômputo de Cícero ao estabelecer o décimo-sétimo ano de Catão na data geralmente estabelecida para o início da Segunda Guerra Púnica ().
Juventude Segunda Guerra Púnica
thumb|upright=1|Situação no Mediterrâneo no início da Segunda Guerra Púnica. Catão participou ativamente desta campanha, lutando em Cápua, na Sicília e na África. Nesta época, ganhou a inimizade dos Cipiões thumb|upright=1|Fábio Máximo, um dos primeiros aliados e mentores de Catão
Quando Catão era ainda muito jovem, seu pai morreu e deixou como herança algumas propriedades no território dos sabinos, a pouca distância de sua terra natal. Ali Catão passou a maior parte da infância, treinando seu corpo através de rigorosos exercícios físicos, dirigindo as operações agrícolas de suas propriedades, aprendendo a cuidar dos negócios da família e estudando as regras da agricultura rural. Perto de suas terras existia uma modesta cabana onde morava, antes de seus três triunfos, Mânio Cúrio Dentato, cujas proezas no exército romano e cujo caráter reto e moralista ficaram na memória de todos os romanos. Dentato era muito admirado na região e suas realizações inspiraram Catão, então com 17 anos, decidiu imitá-lo em sua busca de alcançar a glória, alistando-se para combater os cartagineses durante a Segunda Guerra Púnica em . Existem muitas discrepâncias tanto nas fontes antigas como nas modernas sobre o ano no qual Catão iniciou seus serviço militar. Em , Catão serviu em Cápua e o historiador Wilhelm DrumannWilhelm Drumann, Geschichte Roms (Historia de Roma), v. p. 99, 6 Bde. Königsberg 1834-1844. teoriza que Catão teria, nesta época, vinte anos de idade, um mero tribuno militar. Fábio Máximo, que era o comandante em Cápua durante seu consulado, não tardou a perceber o valor de Catão e travou com ele uma amizade que duraria muitos anos. Ainda que Fábio continuamente afirmasse a Catão o quanto valorizava sua experiência militar, ele preferiu não revelar suas reais afinidades políticas com o objetivo de manter a seu lado o jovem Catão. No cerco de Taranto, em , Catão lutou novamente com Fábio e, dois anos depois, fez parte do seleto grupo que acompanhou o cônsul Caio Cláudio Nero da Lucânia até o norte da península Itálica, com o objetivo de reter o avanço de Asdrúbal Barca. Os escritores antigos contam que Catão contribuiu de forma decisiva para a vitória romana na Batalha de Metauro, na qual Asdrúbal foi morto. A notícia da morte do grande general, que era irmão de Aníbal, deixou-o numa situação desesperadora, especialmente depois que os romanos atiraram a cabeça decepada de Asdrúbal por cima da muralha do acampamento cartaginês.
Período de paz No período entre as duas campanhas, Catão voltou às suas terras na Sabínia, onde revelava frequentemente sua austeridade, vestindo-se e comportando-se da mesma forma que seus escravos. Os seus vizinhos o admiravam quando jovem, pelo seu modo de vida e por sua oratória concisa e articulada, escolhendo-o frequentemente para servir de árbitro em suas disputas ou para representá-los perante o estado, tarefas para as quais Catão estava sempre disposto a ajudar.
Por conta disto, a oratória de Catão foi melhorando: o jovem camponês ganhou confiança em si mesmo, aprendeu os modos utilizados pelos patrícios em suas disputas, aprendeu as leis romanas e empregou os princípios da justiça que havia aprendido mediando as disputas entre vizinhos para analisar a diversidade de comportamentos de seus concidadãos.
Moral romana Perto das terras de Catão estava as de Lúcio Valério Flaco, um jovem patrício membro da poderosa gente Valéria. Na sociedade romana da época estava ocorrendo uma transição entre os valores tradicionais da vida rústica, baseada havia muito tempo no Lácio (e, de forma geral, em toda a Itália), para valores mais ostensivos, procedentes da civilização helênica e oriental. A magistratura mais alta da política romana, o consulado, estava nas mãos de uma poucas famílias aristocráticas imensamente ricas. Estes patrícios, apesar de famosos por sua corruptibilidade, também eram populares entres os romanos por sua generosidade, modos elegantes, oratória refinada, conhecimentos artísticos e literários e, sobretudo, pela fama de seus antepassados. Os nobres menos favorecidos reagiram criando uma facção no Senado que defendia o retorno aos valores tradicionais herdados dos sabinos, um sinal da resistência e da robustez. Flaco, um membro desta facção conservadora, não pôde ignorar a energia e a moral de Catão, sua austeridade e padrão de vida, características às quais se somavam ainda a sua eloquência e talento militar. Os líderes da facção senatorial que promovia a transição para um modelo orientalizado eram da família dos Cipiões, com Cipião Africano à frente, Marco Cláudio Marcelo e Tito Quíncio Flaminino; a facção conservadora era liderada por Flaco, Fábio Máximo, Catão e seus aliados.
Trajetória política Flaco era um político muito perspicaz e esperava que emergissem jovens de valor para apoiarem sua facção, o que fez de Catão, com sua eloquência e espírito marcial, um possível candidato. Ele sabia que as virtudes da coragem e da capacidade de persuasão que Catão possuía eram muito valorizadas em Roma e que a única forma de ele conseguir alcançar as magistraturas mais elevadas era se destacando no Fórum Romano. Por isto, ele sugeriu ao jovem camponês que dirigisse suas ambições para o campo político, assessorando-o sempre que possível. Flaco convidou Catão até sua casa em Roma e ratificou seu apoio político, fazendo com que o jovem começasse a se destacar por suas próprias habilidades na audiência do Fórum, o que fez de Catão um candidato mais do que viável para uma magistratura.
Princípio da carreira militar e política thumb|esquerda|upright=1|Sardenha, a província onde Catão serviu como pretor e, segundo alguns autores, aprendeu grego com a ajuda de Quinto Ênio
Questor