A cultura dos túmulos de poço (ou tradição dos túmulos de poço) do México ocidental refere-se a um conjunto de traços culturais interligados encontrados nos estados mexicanos de Jalisco, Nayarit e, em menor grau, Colima, datando aproximadamente do período entre 300 a.C. e 400 d.C., embora não exista um consenso alargado sobre esta data final. Quase todos os artefactos associados a esta tradição de túmulos de poço foram descobertos por saqueadores e não têm proveniência atribuída, tornando a sua datação problemática.O Conselho Internacional de Museus estima que 90% das figuras de barro provêm de escavações ilegais ICOM. O primeiro túmulo de poço relevante não perturbado associado a esta tradição só foi descoberto em 1993, em Huitzilapa, Jalisco.Williams, Classic period page bem como Danien, p. 23. É interessante notar que existem algumas evidências (Meighan & Nicholson, p. 42) de que muitos dos túmulos foram saqueados em tempos antigos.

Originalmente considerados como tendo proveniência tarasca,Judy Sund, p. 13. contemporânea dos astecas, tornou-se aparente em meados do século XX, fruto de estudos adicionais, que os artefactos e túmulos eram afinal 1 000 anos mais antigos. Até há pouco tempo, os artefactos saqueados eram tudo o que se conhecia do povo e cultura ou culturas que criaram os túmulos de poço. De facto, sabia-se tão pouco, que uma grande exposição de 1998 destacando estes artefactos tinha como subtítulo: "Art and Archaeology of the Unknown Past" (em português, "Arte e Arqueologia do Passado Desconhecido").See Townsend, Richard (1998) Ancient West Mexico: Art and Archaeology of the Unknown Past, Thames & Hudson. Também Michael Coe, na quarta edição do seu Mexico: from the Olmecs to the Aztecs, fala sobre "a nossa profunda ignorância sobre a pré-história da região", p. 56.

Atualmente pensa-se que, embora os túmulos de poço tenham sido largamente difundidos pela região, esta não era uma área cultural unificada.The Oxford Encyclopedia of Mesoamerican Cultures por exemplo, diz que "Em tempo algum durante a era pré-hispânica houve uma entidade cultural ou política que se impusesse por toda a região, embora certos padrões culturais (como a construção dos túmulos de poço-e-câmara) tenham tido de facto uma grande difusão.", Michelet p. 328. Beekman (2000, p. 393) apresenta o mesmo argumento. Os arqueólogos, por seu lado, debatem-se ainda com a identificação e designação das culturas antigas do México ocidental deste período.

Descrição 350px|thumb|Sítios arqueológicos do México ocidental. Os círculos laranja indicam sítios arqueológicos. Os círculos verdes maiores destacam os sítios mais importantes. Note que os sítios formam o que foi chamado de "arco dos túmulos de poço" que se estende do noroeste de Nayarit, atravessando as terras altas do centro de Jalisco e para sul até Colima.

Crê-se que a tradição dos túmulos de poço ter-se-á desenvolvido por volta de 300 a.C..Williams, Classic period page e maioria das restantes fontes apontam a data de 300 a.C.. Por exemplo, Dominique Michelet em The Oxford Encyclopedia of Mesoamerican Cultures diz "provavelmente começou antes" de 200 a.C.. Alguns túmulos de poço pré-datam a tradição por mais de 1 000 anos - por exemplo, o túmulo de poço de El Opeño em Michoacán foi datado de 1 500 a.C. mas está relacionado com o México central e não com o México ocidental. Tal como grande parte do que se conhece sobre esta tradição, as suas origens não são bem compreendidas, embora os vales em redor de Tequila, que incluem os sítios arqueológicos de Huitzilapa e Teuchitlan, constituam o seu "núcleo indisputado".Beekman (2000) p. 388 & 394. A tradição durou até pelo menos 300 d.C. embora não haja consenso alargado sobre a data final.Existe considerável variação nas propostas para a data final da tradição dos túmulos de poço. Williams bem como o De Young Museum apontam para 300 d.C.. O Conselho Internacional de Museus, por outro lado, aponta para 500 d.C., já o Instituto Smithsoniano e a The Oxford Encyclopedia of Mesoamerican Cultures referem 600 d.C..

Os túmulos de poço do México ocidental caracterizam-se por um poço vertical ou quase vertical, escavado até profundidades entre os 3 e os 20 metros, frequentemente em tufo vulcânico. O fundo do poço abre-se para uma ou duas (ocasionalmente mais) câmaras horizontais, com 4 por 4 metros (com variação considerável), e tecto baixo. Os túmulos de poço estavam frequentemente associados com um edifício sobrejacente.

Em cada câmara são encontrados múltiplos enterramentos e as evidências indicam que os túmulos foram usados por famílias ou linhagens ao longos do tempo.Coe et al., p. 102. Williams, Classic period page. O trabalho necessário à criação dos túmulos de poço juntamente com o número e qualidade das oferendas fúnebres indicam que os túmulos eram usados exclusivamente pelas elites da sociedade,Beekman (2000) p. 388. e demonstram que as culturas dos túmulos de poço eram muito estratificadas nesta época tão antiga.

Figuras e representações cerâmicas As oferendas funerárias encontradas nestes túmulos incluem figuras de cerâmica ocas, joias de obsidiana e conchas, pedras semipreciosas, vasilhas (que frequentemente continham alimentos), e outros utensílios domésticos como volantes de fusos e metates (ver esta imagem no Flickr para uma reconstrução). Itens mais incomuns incluem cornetas de conchas de estrombos revestidas com estuque e outros apliques. Ao contrário de outras culturas mesoamericanas como a olmeca e a maia, os artefactos dos túmulos de poço apresentam pouca ou nenhuma iconografia e parecem por isso desprovidos de qualquer significado religioso ou simbólico.Covarrubias (1957) p. 87. 250px|thumb|right|Uma par de ancestrais de Nayarit, 100 a.C. - 200 d.C., executado no estilo de Ixtlán del Río.

As numerosas figuras de cerâmica têm atraído a maior parte da atenção, e contam-se entre as mais dramáticas e interessantes produzidas na Mesoamérica.Christensen. De facto, estas cerâmicas eram aparentemente o escape primário para a expressão artística das culturas dos túmulos de poço e existem poucos a nenhuns registos de arquitectura monumental associada, estelas ou outra arte pública.Meighan and Nicholson, p. 47.

Dado que a vasta maioria destas peças são de proveniência desconhecida, a sua análise foca-se sobretudo nos seus estilos e temas.

Estilos Os principais grupos estilísticos incluem:

Ixtlán del Río. Estas figuras abstratas têm corpos planos e algo quadrados com faces muito estilizadas incluindo aneis nasais e múltiplos brincos. As figuras sentadas têm membros esguios e cordiformes enquanto as figuras em pé têm membros curtos e grossos. Foi um dos primeiros estilos a ser descrito, e o conhecido etnógrafo e caricaturista Miguel Covarrubias afirmou que "atinge os limites da caricatura absurda e brutal, um conceito estético peculiar que aprecia a criação de perturbadoras monstruosidades sub-humanas."Covarrubias, p. 89-90. Segundo o historiador de arte George Kubler "os corpos quadrados, bocas expressivas, e olhos abertos e fixos transmitem uma expressão perturbadora que é apenas em parte aligeirada pela animação e energia plástica das formas túrgidas."Kubler, p. 194.

right|300px|thumb|Uma figura do estilo "chinesco" (tipo C), mostrando os arquetípicos olhos rasgados e inchados e pernas curtas e coniformes.

As figuras do estilo "Chinesco" foram assim designadas pelos negociantes de arte devido à sua suposta aparência chinesa. Um tipo antigo, o "chinesco" é identificado com Nayarit Ver, p.e., Kubler, p. 194. e foram identificados até cinco subgrupos principais, embora exista uma sobreposição considerável entre eles.Meighan e Nicholson afirmam que os tipos "chinescos" "fundem-se de um modo bastante complexo", p. 58. As figuras do tipo A, as do chamado "Chinesco clássico",Kan. p. 21. são representações realistas. Um curador proeminente, Michael Kan, diz que o "seu exterior subtil e calmo, sugere emoção em lugar de demonstrá-la".Kan, p. 22. Estas figuras do tipo A são tão semelhantes entre si que foi sugerido que se trataria da produção de uma única "escola".Kan, p. 17, quem faz referência a Peter Furst (1966) "Shaft Tombs, Shell Trumpets and Shamanism", Ph. D. dissertation, UCLA. Os tipos B até E são mais abstratos, caracterizados por olhos rasgados e inchados fundidos na face, e largas cabeças retangulares ou triangulares. Estas figuras apresentam-se muitas vezes em poses sentadas ou reclinadas, com pernas bulbosas e encurtadas que afunilam até um ponto.Kan. p. 22.

O estilo Ameca, associado com Jalisco, caracteriza-se por uma face alongada e testa alta frequentemente coberta com tranças ou com um toucado semelhante a um turbante. O nariz aquilino é também alongado e os olhos grandes são largos e penetrantes, com aros pronunciados criados pela adição de tiras de argila separadas (filetes) à volta dos olhos.Covarrubias, p. 91. Estes filetes são muitas vezes chamados apliques. A boca ampla está fechada ou ligeiramente aberta e as grandes mãos têm unhas cuidadosamente delineadas. Kubler detecta um estilo inicial "cara-de-ovelha" que parece erodido ou derretido pelas passagens contínuas da modelação, que unem as partes do corpo ao invés de dividi-las, e um estilo mais tardio em que as figuras são "mais animadas e articuladas de modo mais incisivo".Kubler, p. 193. 300px|thumb|Um cão de Colima, gordo e talvez engordado Na discussão dos tipos cerâmicos, Kubler, p. 195, refere-se aos "cães engordados e comestíveis de Colima". A cerâmica de Colima pode ser identificada pelas suas formas suaves e arredondadas e o seu engobe castanho-avermelhado.Metropolitan Museum of Art . Colima é particularmente conhecido pela grande variedade de figuras de animais, sobretudo de cães. Os temas humanos no estilo de Colima são mais "polidos e menos exuberantes" que outras figuras de túmulos de poço.Kan, p. 26.

Outros estilos são El Arenal, San Sebastián, e Zacatecas. Embora exista um consenso geral sobre os nomes e características dos estilos, não há unanimidade. Adicionalmente, estes estilos sobrepõem-se frequentemente em maior ou menor grau, e muitas figuras desafiam qualquer categorização.

Temas Os temas mais comuns da cerâmica da tradição dos túmulos de poço são:

Quadros em cerâmica mostrando várias ou mesmo várias dúzias de pessoas em várias atividades aparentemente típicas. Provenientes sobretudo das terras altas de Nayarit e Jalisco, estes quadros fornecem uma rica percepção etnográfica sobre as práticas funerárias, o jogo de bola mesoamericano, a arquitetura (sobretudo arquitetura perecível), e talvez mesmo sobre o pensamento religioso durante o período formativo tardio.Ver Taylor para uma discussão sobre a compreensão religiosa oferecida por estes quadros.

Alguns quadros são quase fotográficos no seu detalhe e têm sido associados a ruínas arquitetónicas no campo.Foster et al., p. 47 bem como Wiegand, p. 400. 300px|thumb|Um quadro cerâmico circular representando mais de uma dúzia de músicos e dançarinos Os cães de cerâmica são amplamente conhecidos a partir de túmulos saqueados de Colima. Geralmente, nas culturas mesoamericanas acreditava-se que os cães representavam guias das almas dos mortosEntre muitos outros, ver Coe et al., pp. 103–104, ou Kubler, p. 195. e vários cães de cerâmica ostentam máscaras humanas.Ver estas imagens no Flickr para um exemplo de um cão mascarado de Colima. Outro é parte da Colecção Stafford no Los Angeles County Museum of Art (ver Sculpture of Ancient West Mexico, Nayarit, Jalisco, Colima). Outrossim, deve notar-se também que os cães eram frequentemente uma das principais fontes de proteína animal na antiga Mesoamérica.Coe (1994), p. 45 e muito outros.

Pares de antepassados (ou de casamento) de figuras masculinas e femininas são comuns entre as oferendas funerárias da tradição dos túmulos de poço. Estas figuras, quiçá representando antepassados,Metropolitan Museum of Art, . podem estar unidas ou separadas e estão frequentemente executadas no estilo de Ixtlán del Río.