Louis "David" Riel (Red River, 22 de outubro de 1844 — Regina, 16 de novembro de 1885) foi um político canadense e um líder do povo Métis, uma etnia mista, de ascendência indígena e europeia - que viviam no interior do Canadá, na região onde se localizam atualmente as províncias canadenses de Manitoba, Saskatchewan, Alberta e os Territórios do Noroeste. Riel liderou dois movimentos de resistência contra o governo canadense, com o objetivo de preservar os direitos e a cultura do povo Métis, à medida que sua terra natal ficava cada vez mais na esfera de influência canadense.
A primeira destas rebeliões, a Rebelião de Red River, aconteceu em 1869, que se estendeu até o ano seguinte, 1870. O governo provisório estabelecido por Riel negociou os termos, entre direitos do povo Métis e a entrada de Red River à Confederação do Canadá como a província de Manitoba. Porém, Riel foi forçado a se exilar em Montana, nos Estados Unidos, por causa da controversa execução de Thomas Scott, ocorrida durante a rebelião. Em seu período de exílio, Riel foi eleito três vezes para a Câmara dos Comuns do Canadá, embora nunca tenha assumido efetivamente este cargo. Nestes anos, ele sofreu crises de doenças mentais, incluindo uma, ilusão na qual ele era o líder e profeta divinamente escolhido. Ele casou-se em 1881, em seu exílio nos Estados Unidos, e teve três filhos.
Em 1884, Riel voltou para Saskatchewan - então parte dos Territórios do Noroeste - para liderar o povo Métis, em uma resistência pacífica, contra o governo do Canadá. Esta resistência eventualmente escalou-se a um confronto militar conhecido como a Rebelião de Saskatchewan, ocorrida em 1885, que culminou com a prisão de Riel. Louis Riel foi condenado à pena de morte, acusado de traição, e enforcado em 16 de novembro.
Riel foi e ainda é visto com simpatia pelos francófonos do Canadá, e como um traidor pelos anglófonos do país, e sua execução causou um impacto muito forte entre as relações sociais e políticas entre a província de Quebec - majoritariamente francófona - e o resto do Canadá, primariamente anglófona. Seja visto como um Pai da Confederação ou como um traidor, Louis Riel permanece como uma das figuras mais complexas, controversas e trágicas da história do Canadá. Riel é também muitas vezes chamado de "O Pai de Manitoba", pelo seu papel desempenhado na criação da província.
Infância e adolescência thumb|150px|left|Louis Riel, aos 22 anos de idade
O Acampamento de Red River era uma comunidade na Terra de Rupert, administrada pela Companhia da Baía de Hudson, e habitada por tribos indígenas e pelos Métis, um grupo étnico, descendentes de crees, ojíbuas, saulteauxes, franceses, escoceses e ingleses. Louis Riel nasceu lá, em 1844, perto da atual capital de Manitoba, Winnipeg. Seus pais eram o Senhor Louis Riel e Julie Lagimodière.
Riel era o filho mais velho, de um total de 11 crianças, de uma família Métis respeitada na comunidade. Seu pai, Senhor Riel, tornou-se famoso em sua comunidade por organizar um grupo que suportava Guillaume Sayer, um Métis que foi preso por desafiar o monopólio comercial na região. Eventualmente, Sayer foi libertado pelas autoridades, devido à pressão dada pelo grupo comandado pelo Senhor Riel. A libertação de Sayer também acabou com o monopólio da Companhia da Baía de Hudson na região, tornando o nome Rier muito conhecido na comunidade do Red River. Lagimodière, por outro lado, era filha de Jean-Baptiste Lagimodière e Marie-Anne Gaboury, uma das primeiras famílias brancas a estabelecerem-se na região, em 1812. A família Riel era conhecida também pelo serem cristãos fervorosos e pelos seus fortes laços de família.Stanley (1963), pp. 13–20
Em sua infância, Louis Riel foi educado pelo padre da Igreja Católica em Saint Boniface, Manitoba. Aos 13 anos de idade, ele tornou-se um aluno de Alexandre Taché, o Bispo de Saint Boniface. Em 1858, Taché fez com que Riel - aluno talentoso, em sua opinião - estudasse na Petit Séminaire - uma escola religiosa, dedicada à formação de padres - da Faculdade de Montreal, em Montreal, Quebec, sob a direção da Ordem Supliciana. Descrições de Louis Riel à época indicam que ele era um estudante excelente na área de idiomas, ciências e filosofia, com o porém de exibir instabilidade emocional.Stanley (1963), pp. 26–28
Após a morte prematura de seu pai em 1864, Riel perdeu interesse em seus estudos religiosos na Faculdade de Montreal, tendo saído da Faculdade em março de 1865. Por um tempo ele estudou em no convento das Freiras Cinzas, mas foi logo expulso, devido à sua indisciplina no convento. Por um tempo o jovem Riel continuou em Montreal, morando na casa de sua tia, Lucie Riel. Pobre por causa da morte de seu pai, Riel conseguiu um emprego em uma firma de direito, de Rodolphe Laflamme. Neste período, ele teve um romance com uma jovem mulher, cujo nome era Marie-Julie Guernon. Este romance culminou em um pedido de casamento por parte de Riel, mas a família de Guernon não aceitou que uma filha deles casasse com um Métis, e logo o relacionamento dos dois acabou. Após recuperar-se deste desapontamento, Riel, não gostando de seu trabalho na firma de direito, decidiu deixar Quebec para trás,Stanley (1963), pg. 33 por volta de 1866. Ele trabalhou (em trabalhos informais e de curta duração) por um tempo em Chicago, Illinois, Estados Unidos, enquanto morava com o poeta Louis-Honoré Fréchette, e após isto trabalhou durante algum tempo como um porteiro em Saint Paul, Minnesota, Estados Unidos, antes de retornar à sua terra natal, o Red River, em 26 de julho de 1868.Para essa seção, ver Stanley, Louis Riel, pp. 13–34.
Rebelião de Red River
A maior parte da população da comunidade de Red River eram Métis ou outras etnias indígenas norte-americanas. Ao retornar, porém, Riel observou que tensões religiosas, nacionalistas e raciais estavam crescendo na localidade, devido à migração de famílias anglófonas protestantes na região. A situação política também era incerta, com negociações ocorrendo pela transferência da Terra de Rupert, da Companhia da Baía de Hudson para o Canadá. Finalmente, apesar de avisos do Bispo Teché e do Diretor da Companhia da Baía de Hudson, William Mactavish, para o então primeiro-ministro do Canadá, John Alexander Macdonald, que um censo da área por parte do governo canadense na área iria agravar as tensões já existentes, o ministro canadense de Trabalhos Públicos, William McDougall, ordenou um estudo da população local. A 20 de Agosto de 1869, chegou um grupo de especialistas, comandados pelo coronel John Stoughton Dennis. Este facto aumentou muito a ansiedade entre os Métis. Muitos deles não tendo títulos de possessão de terras, que de qualquer maneira estava organizado em um sistema Seigneurial de cultivo (semi-feudal, modo de cultivo de terra muito usado entre os colonizadores da Nova França).
Líder dos Métis Por volta de agosto, Riel denunciou o censo à população local, e em 11 de Outubro de 1869, o trabalho do censo foi interrompido por momentos por um grupo de Métis, na qual Riel estava incluído. Este grupo organizou-se como o Comitê Nacional dos Métis, em 16 de outubro, na qual Riel era o secretário e John Bruce o presidente. Quando chamado pelo Conselho de Assiniboia, controlado pela Companhia da Baía de Hudson, para explicar suas ações de 11 de outubro, Riel declarou que qualquer tentativa por parte do Canadá em assumir autoridade governamental na região seria imediatamente disputada por parte dos Métis, a não ser que Ottawa negocie e chegue a um acordo primeiramente. Mesmo assim, o Coronel McDougall, que falava apenas inglês, foi escolhido como o vice-governador do Territórios do Noroeste. Um grupo comandado por McDougall tentou entrar em Red River em 2 de novembro, mas eles foram forçados a recuarem aos Estados Unidos, e, no mesmo dia, um grupo Métis, comandado por Riel, invadiu e tomou o controle de Fort Garry, sem sangue.
Em 6 de novembro, Riel convidou um grupo de anglófonos de Red River a uma convenção, juntamente com alguns representantes do povo Métis, para discutir e negociar. Em 1 de dezembro, Riel propôs uma lista de direitos, como condição necessária para a entrada das Terras de Rupert à Confederação do Canadá. Muito dos anglófonos aceitaram as condições de Riel, mas uma minoria - extremistas canadenses - organizaram-se em oposição à Riel. Este grupo - que se auto nomeou "Grupo do Canadá" - era liderado por John Christian Schultz, Charles Mair. Coronel Dennis e pelo major Charles Boulton. McDougall tentou fazer com que sua autoridade fosse respeitada pelos Métis, autorizando o uso de um contingente armado por parte de Dennis, mas os anglófonos da região ignoraram em alistar-se ao contingente armado de Dennis. Schultz, porém, conseguir atrair cerca de 50 recrutas, com a qual Schultz fortificou sua casa e sua loja. Riel cercou a casa de Schultz, e este foi obrigado a render-se. Ele e seus 50 soldados foram presos na parte superior do Fort Garry.
Governo provisório thumb|300px|right|O governo provisório dos Métis
Ao saber dos acontecimentos em Red River, Ottawa mandou três emissários para a comunidade, incluindo um representante da Companhia da Baía de Hudson, Donald Alexander Smith. Enquanto eles estavam à caminho de Red River, o Comitê Nacional dos Métis inaugurou um governo provisório em 8 de dezembro, com Riel sendo escolhido como presidente em 27 de dezembro. Os encontros entre Riel e os emissários de Ottawa aconteceram em 5 e 6 de janeiro de 1870, mas tais encontros não levaram a lugar nenhum, e Smith decidiu apresentar o caso em um Fórum público, no assentamento. Em 19 de 20 de janeiro, Smith, em discursos públicos, assegurou à população da comunidade sobre a vontade e a honestidade do governo do Canadá no caso, fazendo com que Riel propusesse a formação de um Conselho composto por um mesmo número de anglófonos e de Métis, em consideração aos discursos de Smith. Em 7 de fevereiro, uma nova lista de direitos foi apresentada para os emissários de Ottawa, e Smith e Riel concordaram em enviar representantes a Ottawa para negociações diretas.
Resistência canadense e a execução de Scott thumb|left|250px|O momento em que Scott é executado
Apesar do aparente progresso nas negociações, o "Grupo do Canadá" estava planejando planos contra o governo provisório dos Métis. Porém, em 17 de fevereiro, 48 pessoas do grupo, incluindo Boulton e Thomas Scott, foram presas perto de Fort Garry.
Boulton foi julgado em um tribunal comandado por Ambroise-Dydime Lépine, e condenado à morte por sua interferência com o governo provisório. Ele foi perdoado, mas Scott interpretou esta ação como um sinal de fraqueza por parte dos Métis, declarando abertamente suas opiniões aos Métis. Após discussões entre Scott e seus guardas de vigia, estes insistiram ao tribunal que Scott fosse julgado também por insubordinação. Em seu julgamento, Scott foi condenado à morte, acusado de desafiar a autoridade do governo provisório. Smith tentou fazer com que Riel perdoasse também Scott, reduzindo a pena para prisão por tempo indeterminado, mas Riel, segundo o próprio Smith, então respondia:
Scott foi executado por fuzilamento em 4 de março. Os motivos de Riel por ter permitido a execução foi a causa de muita especulação, mas a justificativa própria de Riel era que era necessário mostrar aos canadenses que os Métis precisavam ser vistos seriamente.
A criação de Manitoba e a expedição de Wolseley