Aracy Balabanian (; Campo Grande, 22 de fevereiro de 1940 – Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2023) foi uma atriz brasileira. Reverenciada como uma das maiores atrizes do país, tornou-se renomada por seus papéis marcantes na teledramaturgia ao longo de quase seis décadas de carreira. Balabanian é ganhadora de vários prêmios, incluindo três Prêmios APCA, um Troféu Imprensa e um Melhores do Ano, além de ter sido agraciada com o prestigiado Troféu Mário Lago por sua contribuição artística.
Balabanian fez sua estreia profissional na peça Os Ossos do Barão (1963) no papel de Isabel. No entanto, sua carreira nos palcos começou muito antes disso, no teatro amador, quando tinha apenas 14 anos. Em seu primeiro papel, recebeu elogios da crítica, sendo aclamada como o "nascimento de uma estrela". Recebeu prêmios por suas atuações em O Defunto (1961) e Macbeth (1962), quando ainda estudava na Escola de Arte Dramática. Entre seus destaques no teatros, incluem-se ainda Júlio César (1964), Marat/Sade (1967), Primeira Feira Paulista de Opinião (1968), Hair (1969), Fulaninha e Dona Coisa (1991) e Clarice Coração Selvagem (1998).
Na televisão, sua estreia ocorreu em 1964 como antagonista de Marcados pelo Amor, na Record, e, na sequência, se transferiu para a TV Tupi, onde foi alçada ao posto de protagonista das principais obras da emissora. Aracy tornou-se muito popular por protagonizar sucessos de audiência da década de 1960, como Um Rosto Perdido (1965), Meu Filho, Minha Vida (1967), Antônio Maria (1968), Nino, o Italianinho (1969) e A Fábrica (1971). Durante a década de 1970, foi contratada pela TV Globo, onde continuou a protagonizar obras e consolidou-se como uma atriz de renome.
Cinco vezes indicada ao Troféu Imprensa, Balabanian ganhou um em 1995 por seu papel antagônico Filomena Ferretto em A Próxima Vítima. Aracy é conhecida por interpretar tipos exagerados que destacam-se nas produções. Ainda em seu currículo, destacam-se a batalhadora Milena em Locomotivas (1977), a cobradora Maria Faz-Favor em Coração Alado (1980), a vilã Helena em Elas por Elas (1982), a ardilosa Marta em Ti Ti Ti (1985), a misteriosa Maria em Que Rei Sou Eu? (1989), a excêntrica Armênia em Rainha da Sucata (1990) e Deus nos Acuda (1992), e a doce Germana em Da Cor do Pecado (2004). No entanto, foi como a socialite decadente Cassandra do humorístico Sai de Baixo (1996-02) que ganhou maior destaque do público.
Juventude miniatura|Vista panorâmica do centro de Campo Grande, MS, cidade natal da atriz
Filha de imigrantes da Armênia, seus pais foram para o Brasil fugindo do Genocídio armênio, promovido pelos turcos otomanos naquele país. Eles fixaram residência em Campo Grande, capital do atual estado de Mato Grosso do Sul, onde Aracy e os irmãos nasceram. Seu pai se chamava Rafael Balabanian e era comerciante, e a mãe, Estér Balabanian, era dona de casa.
Aos quinze anos mudaram-se para São Paulo e Aracy ajudava os pais na criação dos sete irmãos menores. Aprovada no vestibular para ciências sociais e para a Escola de Arte Dramática, abandonou os estudos de sociologia para se dedicar ao teatro, sua verdadeira paixão. Diz que viveu em uma época em que era considerado feio uma mulher fazer teatro, já que, então, acreditava-se que mulheres deveriam ser donas-de-casa e cuidar de assuntos domésticos.
Carreira Formação acadêmica e primeiros anos no teatro Aos quatro anos de idade, Aracy já tinha em mente que queria ser atriz. Em sua cidade, Campo Grande, não existiam teatros e ela frequentava muito o cinema na juventude com sua irmã, sendo o neorrealismo italiano seu gênero favorito. Desde pequena, porém, ela brincava de estar no palco representando: colocava uma cortina, fazia roupa de papel crepom e inventava a peça. Aos quinze anos e acompanhando sua família, mudou-se para São Paulo, onde passou a ter maior contato com o mundo artístico.
Balabanian foi uma excelente aluna no colégio Bandeirantes, onde foi incentivada por sua professora de português a frequentar eventos culturais. Aos 12 anos, emocionou-se profundamente ao assistir a uma peça da companhia teatral de Maria Della Costa, o que a fez decidir que seu destino estava no palco. Um encontro com Augusto Boal, durante uma apresentação de Ratos e Homens, a levou a fazer um teste para o Teatro Paulista de Estudantes, no qual foi aprovada. Ali, conheceu e aprendeu com Beatriz Segall. Sua estreia no teatro amador, aos 14 anos, em 1954, foi dirigida por Beatriz, e recebeu elogios do crítico Décio de Almeida Prado, que considerou sua estreia como o nascimento de uma estrela. Incentivada por nomes como Beatriz Segall, Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, ela foi aconselhada a investir em sua carreira como atriz, mas também priorizar seus estudos. Ela ingressou na USP para estudar Ciências Sociais e também na Escola de Arte Dramática (EAD).
No terceiro ano, no entanto, abandonou a faculdade de sociologia, dedicando-se exclusivamente à EAD, onde se formou após quatro anos de estudo. Aracy considerava essa experiência maravilhosa, especialmente pelos excelentes professores, como Alfredo Mesquita, fundador da escola, que lhe proporcionou diversas oportunidades. Este valorizava a autodidatismo e destacava a importância de valores como pontualidade e bom domínio da língua portuguesa. Além dos ensinamentos de Alfredo Mesquita, Sérgio Cardoso compartilhava suas habilidades em maquiagem, aprendidas de forma autodidata, enquanto Cacilda Becker e Gianfrancesco Guarnieri também contribuíam com suas aulas e palestras.
Formada na décima turma da EAD, que cursou entre os anos de 1959 e 1962, recebeu ali seus primeiros prêmios, tais como o de melhor interpretação do ano em 1961 junto a Myriam Muniz em O Defunto, de René de Obaldia e por Macbeth em 1962. A partir de então, participou de diversas montagens teatrais, consolidando sua carreira nos palcos. Sua primeira peça profissional foi Os Ossos do Barão, do Jorge de Andrade, com direção de Maurice Vaneau, em 1963, no papel de "Isabel". Em sua estreia, Balabanian recebeu o importante Prêmio APCA de atriz revelação no teatro.
1964–69: Estreia na televisão e consolidação como atriz de telenovelas A sua estreia em televisão foi na peça Antígona, de Sófocles, montada pela TV Tupi. No entanto, foi em 1964 que Balabanian atuou em sua primeira telenovela, gênero que viria a se consagrar como uma das maiores atrizes do país. Em Marcados pelo Amor (1964), da Record, atuou como a vilã dissimulada "Lúcia Dias Martinelli", disposta a destruir o relacionamento amoroso de sua própria irmã. Neste ano, ainda, atuou em Vereda da Salvação, de Antunes Filho, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), que se baseava em um intenso trabalho de preparação dos atores, incluindo exercícios específicos e laboratórios focados na recriação naturalista de um ambiente rural dominado pelo fanatismo religioso.
Em 1965, transferiu-se para a TV Tupi, convidada para protagonizar a telenovela Um Rosto Perdido, ao lado de Hélio Souto, onde interpretou a jovem "Alba", moça que vive em uma ilha e desenvolve um romance com um náufrago sem memória. Fez uma substituição na peça Depois da Queda (1965), com a Cia. de Maria Della Costa, em uma excursão pelo Brasil, onde interpretava "Holga". Ainda na Tupi, estrelou o seriado O Amor Tem Cara de Mulher, em 1966, que contava ainda com Vida Alves, Cleyde Yáconis e Eva Wilma como um quarteto de mulheres distintas que compartilhavam seus desafios na vida enquanto trabalhavam em um salão de beleza.
Em 1966, também, esteve no elenco da peça Júlio César, em mais uma parceria com Antunes Filho, peça a qual Balabanian descreve como um dos maiores fracassos de sua carreira. O elenco estrelado incluía Sadi Cabral como Júlio César, Jardel Filho e Raul Cortez competindo pela menor saia, e Juca de Oliveira e Luis Gustavo divertindo a todos com piadas constantes. Glória Menezes aparecia brevemente como Pórcia. O ensaio geral foi extremamente longo e caótico, com pessoas desmaiando e confusão no palco. Na estreia no Teatro Municipal de São Paulo, Sadi se machucou e continuou atuando, apesar das gargalhadas da plateia ao ver, acidentalmente, o traseiro de Júlio César. O espetáculo ficou apenas quinze dias em cartaz, resultando em problemas financeiros, incluindo seu pagamento com um cheque sem fundos.
O ano seguinte foi bastante prolífico para sua carreira na televisão. Balabanian foi a protagonista de Meu Filho, Minha Vida (1967), no papel de "Nellie Addams", que teve seu filho sequestrado ainda criança e entregue como parte de uma plano para uma família ambiciosa. A produção foi valorizada pelo forte desempenho dramático da atriz, lhe rendendo uma indicação de Melhor Atriz ao prestigiado prêmio Troféu Imprensa. Nesse ano, ainda participo de produções de menor repercussão como Angústia de Amar e Sublime Amor, ambas na TV Tupi.
Em 1967, fruto de mais uma parceria com o diretor Ademar Guerra (a qual se iniciara em 1966 na peça Oh, que Delícia de Guerra), esteve no elenco da peça Marat/Sade. Balabanian fazia parte do coro como "Rossignol", uma personagem cômica, que interagia com outros cantores e pacientes mentais. Apesar de estar envolvida em novelas e cuidando de sua mãe doente, Aracy viu este trabalho como desafiador e recompensador, sentindo uma forte conexão com o público. Ela dançava, cantava e se entregava ao papel, deixando uma marca significativa. Régis Cardoso frequentemente menciona que Aracy é a única lembrança que ele tem de Marat/Sade, o que a enche de orgulho. Balabanian recebeu o segundo APCA de sua carreira por este trabalho.
miniatura|upright|Aracy com Carmem Monegal e Sérgio Cardoso em uma cena de Antônio Maria (1968), na Tupi
Contrário à carreira da atriz, o pai de Aracy só aceitou a opção profissional da filha em 1968, quando contracenou com Sérgio Cardoso na telenovela Antônio Maria, onde deu vida à mocinha "Heloísa", alvo da paixão de "Antônio Maria" (Cardoso), enfrentando as maldades da irmã "Marina" (Monegal), que tentava impedir seu romance. O trabalho lhe rendeu sua terceira indicação ao Troféu Imprensa de Melhor Atriz. Neste ano, Balabanian fez diversas participações no teatro, incluindo as peças Verde que Te Quero Verde, A Lua Muito Pequena, A Receita, A Caminhada Perigosa, Animália e Primeira Feira Paulista de Opinião, que sofreu muita perseguição da censura pela Ditadura Militar. Em 1969, estrelou com Juca de Oliveira a novela Nino, o Italianinho, como a jovem "Bianca", uma moça meiga, tímida, não muito bonita e com um defeito na perna, que nutria em segredo uma paixão pelo protagonista. Neste ano, também, esteve em cartaz com o musical Hair.
1970–79: Prosseguimento da carreira e contratação pela TV Globo miniatura|upright|Aracy em cena da novela A Fábrica (1972), da TV Tupi
Após temporadas em cartaz com Hair nos palcos, voltou à televisão em 1971 protagonizando a telenovela A Fábrica. Na trama, deu vida à "Isabel", filha do falecido dono de uma fábrica de tecelagem, que tem a missão de reconstruir o legado do pai após um incêndio que destruiu todo o seu patrimônio. A novela foi criada para reverter a fase ruim de novelas da TV Tupi, trazendo Aracy novamente em par romântico com Juca de Oliveira com propósitos de repetir o sucesso do trabalho anterior. Em 1972, foi contratada pela TV Globo e esteve no elenco de O Primeiro Amor, no papel da psicóloga "Giovana", e na primeira temporada versão brasileira do seriado Vila Sésamo.
Agora contratada pela TV Globo, passou a integrar o elenco das principais produções da emissora, onde tornou-se bastante popular pela versatilidade de seus papéis. Em 1974, foi escalada como uma das cinco protagonistas de Corrida do Ouro, de Lauro César Muniz e Gilberto Braga, como a humilde e inteligente "Tereza". A trama acompanha um velho fazendeiro que morre e deixa em seu testamento que sua herança seria dividia misteriosamente entre cinco mulheres: Tereza, "Isadora" (Sandra Brea), "Gilda" (Célia Biar), "Patrícia" (Renata Sorrah) e "Ilka" (Maria Luíza Castelli).