A erva-mate , também chamada mate ou congonha,FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.680 é uma árvore da família das aquifoliáceas, originária da região subtropical da América do Sul. É consumida como chá mate (quente ou gelado), chimarrão ou tereré no Brasil, no Paraguai,Cocina Rica Bebidas de la Gastronomía Paraguaya na Argentina, no Uruguai, na Bolívia e no Chile.
É considerada árvore símbolo do Rio Grande do Sul conforme lei nº 7.439, de 8 de dezembro de 1980. Também é parte integrante dos símbolos do estado do Paraná, estando representada, com um ramo da planta, na bandeira e no brasão estaduais (Decreto-Lei Estadual nº 2.457, de 31 de março de 1947).
Etimologia "Mate" deriva do termo quéchua mati, que designa o recipiente onde é bebido o chimarrão.FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 102 "Congonha" deriva do tupi kõ'gõi, que significa "o que mantém o ser".FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.453
O nome científico Ilex paraguariensis foi dado em 1820 pelo botânico francês Auguste de Saint-Hilaire após entrar em contato com a planta pela primeira vez no Paraguai.Erva-mate, o ouro verde do Paraná Jornal Gazeta do Povo
Descrição Pode atingir doze metros de altura. Tem caule cinza, folhas ovais e fruto pequeno e verde ou vermelho-arroxeado. As plantas só se reproduziam por meio de pássaros da região, que ingeriam o pequeno fruto e defecavam sua semente. A plântula é muito sensível ao sol, tanto que, mesmo no plantio moderno, a técnica exige sombreamento até que a planta atinja alguma maturidade.
Cultivo Atualmente, existem viveiros que produzem mudas de variedades selecionadas, cujo plantio é feito com técnicas especiais em grandes hortos. Para facilitar a colheita anual dos ramos, a árvore é severamente podada para manter-se com não mais de três metros de altura. Dessa forma, evitam-se plantas altas que dificultem a colheita das folhas jovens, consideradas nobres na infusão do chá-mate. Outra prática bastante popular no planalto curitibano, habitat original da erva-mate, é conciliar o plantio da araucária com o da erva-mate. Técnicas como essa são comuns para um controle ambiental mais rígido e para evitar o desgaste do solo. thumb|esquerda|300px|Flores e frutos de erva-mate no Jardim Botânico de San Diego, em Encinitas, na Califórnia, nos Estados Unidos
Processo de produção Até meados do século XX, o processo de produção, no Brasil, era semelhante ao método indígena para a obtenção do produto final, sendo as etapas divididas em corte, sapeco (chamuscamento) e secagem. Quanto à secagem, existem duas formas:A colheita do erva-mate pela população cabocla Universidade Federal da Fronteira Sul o carijo, processo rústico utilizado pelos indígenas (a denominação foi determinada pelos guaranis, referindo-se ao "jirau" - armação de madeira semelhante a estrado ou palanque - onde se colocava a erva) utilizando uma espécie de estrado feito de varas e cipó nos quais se colocavam as folhas, as quais deveriam secar durante horas sobre um braseiro;Secagem convectiba do Erva - Mate Departamento de Engenharia Química e Engenharia de Alimentos - Universidade Federal de Santa Catarina - acessado em 9 de dezembro de 2017 o barbaquá, uma elaboração adaptada para uma maior produção, exigindo maiores investimentos do empresário, muito utilizado a partir do século XX. Neste processo, as folhas secavam com o calor transportado através de um túnel de alvenaria, sendo a fumaça desviada para que a mesma não deixasse gosto e cheiro na folha.
Por fim, ocorre o cancheamento (picotamento) e a separação das folhas.
História Descoberta e disseminação thumb|direita|300px|Depósito de erva mate em plena floresta no estado do Paraná Os guaranis da região nordeste da Argentina parecem ter sido os descobridores do uso da erva-mate. No Século XVI, os guaranis passaram este conhecimento aos colonizadores espanhóis, que o disseminaram por todo o Vice-Reino do Rio da Prata. A erva chegou a ser proibida no sul do Brasil durante o século XVI, sendo considerada "erva do diabo" pelos padres jesuítas das reduções do Guayrá. A partir do século XVII, no entanto, os jesuítas passaram a incentivar o seu uso pelos índios com o objetivo de afastá-los das bebidas alcoólicas.Schmidt, Maria Auxiliadora in: Histórias do Cotidiano Paranaense 2º Ed. - Letraviva Editora, pag 48
Por volta de 1690, Anton Sepp, jesuíta austríaco, ao encontrar índios na Banda dos Charruas, conta: "(...) um deles pediu apenas um pouquinho de uma erva paraguaia que não é outra coisa senão as folhas secas de determinada árvore, moídas em pó. Esse pó os índios deitam na água e dele bebem (...)" Sabe-se assim que para além da utilização da erva-mate em folha também existe a sua utilização em pó (resultado da moagem da folha).
Em viagem ao sul do Brasil, o viajante e médico alemão Roberto Avé-Lallemant relatou, em meados de 1858: "É o mate a saudação da chegada, o símbolo da hospitalidade, o sinal da reconciliação. Tudo o que em nossa civilização se compreende como amor, amizade, estima e sacrifício, tudo o que é elevado e bom impulso da alma humana, do coração, tudo está entretecido e entrelaçado com o ato de preparar o mate, servi-lo e tomá-lo em comum." thumb|250px|Pés de erva-mate no Jardim Botânico de Buenos Aires, na Argentina
Ciclo da erva-mate no Brasil
miniaturadaimagem|Ocorrência de Erva Mate Nativa no Brasil(MG, SP, RJ, MS, PR, SC, RS) No século XIX, o Paraguai se isolou dos outros países, proibindo a exportação de erva-mate para fora do país. Isto fez a Argentina e o Uruguai substituírem a erva-mate importada paraguaia pela brasileira, desenvolvendo, desta forma, o cultivo e o beneficiamento da planta em Santa Catarina, ParanáA planta que fez um estado prosperar Gazeta do Povo e Mato Grosso do Sul.Erva-mate Santo Antônio. Disponível em http://www.ervamatesantoantonio.com.br/museu/. Acesso em 11 de agosto de 2015. Em meados dos século XIX a erva-mate chegou a representar 85% da economia paranaense, fato importante para a emancipação do Paraná do estado de São Paulo.
Propriedades esquerda|380px|thumb|"Sapeco (queima) da erva-mate": pintura do século XIX de Alfredo Andersen Existe uma errônea afirmação de que a erva-mate possui um efeito negativo no desempenho sexual masculino: todavia, a Ilex paraguariensis possui um poder afrodisíaco, sendo ingerido para combater a infertilidade e a impotência.GIL, Felipe. No rastro de Afrodite: plantas afrodisíacas e culinária. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004. ISBN 85-7480-232-8.
Análises e estudos sobre a erva-mate têm revelado uma composição que identifica diversas propriedades benéficas ao ser humano, pois estão contidos nas folhas da erva-mate alcaloides (cafeína, teofilina, teobromina etc.), ácidos fólicos e cafeico (taninos), vitaminas (A, B1, B2, C, e E), sais minerais (alumínio, ferro, fósforo, cálcio, magnésio, manganês e potássio), proteínas (aminoácidos essenciais), glicídeos (frutose, glucose, sacarose etc.), lipídios (óleos essenciais e substâncias ceráceas), além de celulose, dextrina, sacarina e gomas.Comissão discutirá o cultivo, os usos e benefícios da erva-mate Site da Câmara dos Deputados - acessado em 14 de junho de 2018Aspectos Fitoquímicos da Ilex paraguariensis Universidade Federal do Paraná - acessado em 14 de junho de 2018
A erva também possui propriedades diuréticas moderadas, bem como efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e de eliminação de gorduras. Um estudo que apontou esses resultados positivos, bem como possíveis efeitos antimutagênicos, também incluiu referências para diversos outros estudos que apontam possível ação carcinógena associada ao consumo da erva-mate, devido à contaminação por agentes alquilantes durante o processo de secagem das folhas.
Tipos de ervas Apesar da erva-mate ser uma única planta, os processos de colheita, secagem e peneiramento para a obtenção do mate para consumo diferem: Erva-mate chimarrão: erva-mate fresca com granulometria mais fina e presença de outras partes do ramo. O padrão brasileiro define a erva-mate de chimarrão de maior qualidade como PN-1, que contém no mínimo 70% de folhas e 30% de outras partes do ramo. Esta erva é consumida principalmente no sul do Brasil, sendo rara ou nula sua presença em outros países do Cone Sul. Pode conter açúcar, apesar desta adição ser condenada por tradicionalistas gaúchos. Erva-mate moída grossa: erva-mate fresca com granulometria mais grosseira comparado a erva-mate de chimarrão tradicional. Difere levemente no sabor do chimarrão tradicional e é propensa a entupir menos o mate. Erva-mate cancheada: erva-mate que passa por um processo grosseiro de processamento, sendo apenas seca e triturada. Pura folha: erva-mate que é utilizada apenas a folha, fresca ou envelhecida. É amplamente consumida no Uruguai. sendo este padrão conhecido como mate gaucho ou Tipo Uruguaio. Padrão argentino: erva-mate envelhecida, com granulometria mais grosseira, contendo também partes do ramo. Notabilizada por apresentar um sabor mais forte que o chimarrão. Erva-mate para tererê: erva-mate com granulometria mais grosseira, varia em seu envelhecimento conforme o local da produção. Também pode ser jujada (adição de chás ou sabores de frutas) no processo de fabricação. Amplamente consumida no Paraguai e no centro-oeste brasileiro. Barbaquá ou Erva de carijo: erva-mate com processo de secagem diferenciada, na qual as folhas são sapecadas utilizando um sistema de secagem tradicional denominado carijo. Atualmente é apenas produzida de forma artesanal por pequenos produtores. Adquire um sabor levemente defumado, sendo utilizada a folha e também o caule. thumb|direita|380px
Lenda da Erva-mate
A lenda dos avá-guaranis da origem da erva-mate (caá ou ka’a, “erva” em guarani) diz que um ancião tinha uma filha única lindíssima que era cobiçada por diversos homens, mesmo de outros lugares. Num sonho, porém, esse ancião recebeu a visita de Nhanderu, que lhe explicou que sua filha não podia pertencer a uma pessoa só, e o fez prometer que, quando ela morresse, a enterraria em frente à sua casa. Pouco tempo depois a filha adoeceu e faleceu e, conforme prometido a Nhanderu, o pai a enterrou em frente à sua casa e, em pouco tempo, brotou em seu lugar a ka’a, a erva-mate, que podia ser compartilhada com todos.SOUSA, Alexsander Brandão Carvalho. Jaha jaike ore yvype (vamos entrar novamente em nossas terras): o movimento de retomada territorial dos Avá-Guarani na região oeste do estado do Paraná. p. 74. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2026. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/272572?show=full. Acesso em: 19 jun. 2026.
Em outra versão da lenda, de origem indeterminada, uma tribo indígena nômade se deteve nas ladeiras das serras onde nasce o Rio Tabay (Argentina). Quando retomou seu caminho, um dos membros da tribo, um índio velho e cansado pelos anos, ficou refugiado na selva, na companhia de sua filha Yaríi, que era muito bonita. Um dia, chegou ao esconderijo do velho um homem, Yaríi cantou uma melodia triste e suave para que o visitante adormecesse.
O velho ofereceu ao visitante uma carne assada de acuti, um roedor da região e um prato de tambu, que é preparado com uma larva de carne branca e abundante que os guaranis criam nos troncos de pindó.