miniaturadaimagem|O preço do ouro, cotado em dólares americanos, manteve-se estável até o colapso do sistema de Bretton Woods em meados da década de 1970 O sistema de Bretton Woods de gestão monetária estabeleceu as regras para as relações comerciais entre 44 países, incluindo os Estados Unidos, Canadá, países europeus e Austrália, após o Acordo de Bretton Woods de 1944 até os Acordos da Jamaica em 1976. O sistema de Bretton Woods foi o primeiro exemplo de uma ordem monetária totalmente negociada destinada a governar as relações monetárias entre estados independentes. O sistema de Bretton Woods exigia que os países garantissem a conversibilidade de suas moedas em dólares americanos, com o dólar conversível em ouro para governos estrangeiros e bancos centrais . Ele previa maior cooperação entre os países para evitar futuras desvalorizações competitivas e, portanto, estabeleceu o Fundo Monetário Internacional (FMI) para monitorar as taxas de câmbio e emprestar moedas de reserva para países com défices na balança de pagamentos. De acordo com Barry Eichengreen, o sistema de Bretton Woods funcionou com sucesso devido a três fatores: "baixa mobilidade internacional de capitais, regulamentação financeira rigorosa e a posição econômica e financeira dominante dos Estados Unidos e do dólar".

Preparando-se para reconstruir o sistema econômico internacional enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda estava em curso, delegados de 44 países Aliados reuniram-se no Hotel Mount Washington em Bretton Woods, New Hampshire, Estados Unidos, para a Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas, também conhecida como Conferência de Bretton Woods. Os delegados deliberaram de 1 a 22 de julho de 1944 e assinaram o acordo de Bretton Woods em seu último dia. Estabelecendo um sistema de regras, instituições e procedimentos para regular o sistema monetário internacional, esses acordos criaram o FMI e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), que hoje faz parte do Grupo Banco Mundial. Os Estados Unidos, que controlavam dois terços do ouro mundial, insistiram que o sistema de Bretton Woods se baseasse tanto no ouro quanto no dólar americano. Representantes soviéticos participaram da conferência, mas posteriormente recusaram-se a ratificar os acordos finais, alegando que as instituições que haviam criado eram "filiais de Wall Street".Edward S. Mason and Robert E. Asher, "The World Bank Since Bretton Woods: The Origins, Policies, Operations and Impact of the International Bank for Reconstruction". (Washington, DC: Brookings Institution, 1973), 29. Essas organizações tornaram-se operacionais em 1945, após um número suficiente de países ter ratificado o acordo.

O crescimento do eurodólar aumentou os fluxos de capital, desafiando a regulação dos movimentos de capital. Em 15 de agosto de 1971, os Estados Unidos puseram fim à conversibilidade do dólar americano em ouro, encerrando efetivamente o sistema de Bretton Woods e tornando o dólar uma moeda fiduciária. Pouco depois, muitas moedas de câmbio fixo (como a libra esterlina) também passaram a ter câmbio flutuante, e a era subsequente foi caracterizada por taxas de câmbio flutuantes. O fim de Bretton Woods foi formalmente ratificado pelos Acordos da Jamaica em 1976. Os críticos argumentam que a dependência do sistema em relação ao dólar americano permitiu que os Estados Unidos operassem com menos restrições do que outras nações, enquanto as taxas de câmbio fixas limitavam a capacidade de países como as principais economias europeias e o Japão de ajustar a política monetária em resposta ao aumento da inflação e às mudanças nas condições comerciais. Eles também observam que o FMI e o Banco Mundial frequentemente impuseram condições políticas que exerceram pressão significativa sobre os países em desenvolvimento e restringiram a flexibilidade das economias locais.

O Sistema No sistema de Bretton Woods, os países que aderiram ao Fundo Monetário Internacional concordaram em estabelecer câmbio fixo, mas ajustável para corrigir um «desequilíbrio fundamental», expressão contida no artigo IV de seu estatuto. A expressão, no entanto, não foi claramente definida. Em sua redação original, os países deveriam consultar o FMI antes de alterar sua taxa de câmbio. O processo seria automático se a variação fosse inferior a 10%. Nos demais casos, o Fundo poderia se opor à mudança, mas na prática isso raramente aconteceu.

Cada um fixaria sua taxa de câmbio em relação ao ouro ou ao dólar norte-americano, que por sua vez tinha valor fixo de US$ 35 por onça troy. Os países industrializados, que em geral tinham câmbio estável, fizeram poucas alterações em sua taxa até 1960, mas em 1949 houve amplo realinhamento de valores, associado a uma desvalorização da libra esterlina. Quando faziam mudanças, no entanto, comunicavam com pouca antecedência ao FMI, dificultando a supervisão do organismo. Já as nações em desenvolvimento usavam diferentes regras cambiais, algumas com taxas diferentes para determinadas operações, e outras, em menor número, com taxa flutuante.

O sistema durou até 15 de agosto de 1971, quando os Estados Unidos, de forma unilateral, acabaram com a convertibilidade do dólar em ouro, o que tornou o dólar uma moeda fiduciária.Annie Lowrey (9 de fevereiro de 2011) End the Fed? Actually, Maybe Not.. Slate.com. Essa decisão, referida como choque Nixon (Nixon Shock), criou uma situação em que o dólar americano se tornou moeda de reserva, usada por muitos países. Ao mesmo tempo, outras moedas, que até então eram fixas (como a libra esterlina, por exemplo), passaram a ser flutuantes.Veja como o dólar se tornou a moeda de referência mundial. Por Giuliana Vallone. Estadão, 10 de julho de 2009.

Além do aspecto cambial, o acordo previa que o FMI concederia crédito aos países para suportar dificuldades temporárias de pagamento. A cada país foi atribuída uma quota de participação no Fundo, que estabelece uma proporção de quanto pode obter em financiamento e de seu poder de voto nas deliberações do organismo.

As origens do sistema As bases políticas do sistema Bretton Woods podem ser encontradas na confluência de várias condições principais: as experiências comuns da Grande Depressão, a concentração de poder em um pequeno número de Estados e a presença de uma potência dominante querendo (e supostamente capaz de) assumir um papel de liderança.

As experiências da Grande Depressão Um alto nível de concordância entre os países sobre as metas e meios do gerenciamento econômico internacional facilitou em muito as decisões tomadas pela conferência de Bretton Woods. A fundação daquele acordo foi uma crença comum no intervencionismo. Apesar de os países desenvolvidos diferirem quanto ao tipo de intervenções que preferiam para suas economias nacionais (a França, por exemplo, preferia um maior planejamento e intervenção estatal, enquanto os Estados Unidos eram favoráveis a uma intervenção estatal mais limitada), todos, no entanto, baseavam-se predominantemente em mecanismos de mercado e na noção de propriedade privada.

Assim, foram as semelhanças, mais do que as diferenças, que foram postas em evidência. Todos os governos participantes de Bretton Woods concordavam que o caos monetário do período entreguerras forneceu valiosas lições.

A experiência da Grande Depressão, quando a proliferação de controles e barreiras de comércio levaram ao desastre econômico, estava fresca na memória dos participantes. Os conferencistas esperavam evitar a repetição da debandada dos anos 30, quando os controles das trocas minaram o sistema internacional de pagamentos, base do comércio mundial. A política de "beggar-thy-neighbor" ("empobrece teu vizinho") dos governos dos anos 30 — usando tarifas alfandegárias a fim de aumentar a competitividade de seus produtos de exportação e, assim, reduzir os déficits da balança de pagamentos — ocasionaram espirais deflacionárias que resultaram na diminuição da produção, desemprego em massa e declínio generalizado do comércio mundial. O comércio nos anos 30 ficou restrito a blocos monetários (grupos de nações que empregavam uma moeda equivalente, como o bloco da "Libra esterlina" do Império Britânico). Esses blocos retardaram o fluxo internacional de capitais e as oportunidades de investimentos estrangeiros. Apesar de esta estratégia tender a aumentar o dinheiro arrecadado pelo governo a curto prazo, ela piorou drasticamente a situação a médio e longo prazo.

Assim, para a economia internacional, todos os planificadores de Bretton Woods favoreceram um sistema relativamente liberal, o qual se baseava primeiramente no mercado, com um mínimo de barreiras ao fluxo de comércio e capital privados. Apesar de não estarem inteiramente de acordo sobre a maneira de pôr em prática esse sistema liberal, todos concordaram com um sistema aberto.

Segurança econômica Também com base nas experiências do período entreguerras, os planificadores estadunidenses desenvolveram um conceito de segurança econômica — entendendo que um sistema econômico liberal internacional aumentaria as possibilidades de paz no pós-guerra. Um dos que viram tal segurança foi Cordell Hull, o secretário de Estado dos Estados Unidos de 1933 a 1944.Kenneth Waltz, Man, the State and War (New York: Columbia University Press, 1969). David P. Calleo e Benjamin M. Rowland, American and World Political Economy (Bloomington, Indiana: University of Indiana Press, 1973). Hull acreditava que as causas fundamentais das duas guerras mundiais estavam na discriminação econômica e nas guerras comerciais. Especificamente, tinha em mente acordos bilaterais de controle de comércio e trocas da Alemanha Nazi e o sistema de preferência imperial praticado pelo Reino Unido (pelo qual membros ou antigos membros do Império britânico beneficiavam de um status comercial especial). Hull argumentava que:

O surgimento do intervencionismo governamental thumb|200px| Harry Dexter White, do Tesouro americano, e John Maynard Keynes, na conferência inaugural dos governadores do Fundo Monetário Internacional, em 1946. Os países desenvolvidos também decidiram que o sistema econômico liberal internacional requeria intervencionismo do governo. Após a Grande Depressão, a administração pública da economia emergiu como uma atividade primeira dos governos de Estados desenvolvidos: emprego, estabilidade e crescimento eram então assuntos importantes da política pública. Com isso, o papel do governo na economia nacional ficou associado com a apropriação, pelo Estado, da responsabilidade de garantir a seus cidadãos um certo grau de bem-estar econômico. O welfare state (estado de bem-estar social) nasceu a partir do impacto da Grande Depressão, que criou um ambiente para o intervencionismo estatal na economia, e das contribuições teóricas da escola econômica Keynesiana, que defendia a necessidade de intervenção estatal a fim de manter níveis adequados de emprego.

Em âmbito internacional, essas ideias também surgiram da experiência dos anos 30. A prioridade dos objetivos nacionais, a ação independente nacional no período entreguerras e uma nova dinâmica para a macroeconomia mundial, como alta tarifação e desvalorizações competitivas, que contribuíram para o desenvolvimento da economia durante os próximos anos, possibilitando ser chamado de Os Anos Dourados do Capitalismo (Golgen Ages), em que, o mundo experimentou suas maiores taxas de crescimento durante os trinta próximos anos. Contudo, a lição foi, como explica Harry Dexter White, adepto do New Deal e principal arquiteto do sistema Bretton Woods:

Para garantir a estabilidade econômica e a paz política, os Estados concordaram em cooperar para regular o sistema econômico internacional. O pilar da visão americana do mundo pós-guerra era o comércio livre. Liberdade de comércio implicava tarifas baixas e, entre outras coisas, uma balança comercial favorável ao sistema capitalista.