A Cosmologia Bíblica é a teoria cosmológica que pode ser reconstituída a partir das informações contidas na Bíblia sobre o cosmos como uma entidade organizada e estruturada, incluindo sua origem, ordem, significado e destino do universo. miniaturadaimagem|Cosmologia bíblica

Sumário de Cosmologia bíblica Gianfranco Ravasi, Il cielo tra fisica e metafisica, in L'Osservatore Romano, 2009, (traduzido do italiano):

Diversidade das visões de mundo na Bíblia

A Bíblia é uma coleção de documentos que levou cerca de quinze séculos para serem compilados. Além das mudanças culturais no tempo, esteve sujeita às diversidades das civilizações egípcia, cananeia, mesopotâmica, grega e romana. Naturalmente, os autores escrevendo em tal diversa situação expressam visões de mundo diferentes, inclusive de cosmologia.Bernstein, Alan E. (1996). The Formation of Hell: Death and Retribution in the Ancient and Early Christian Worlds. Cornell University Press. p. 134. ISBN 0801481317.Berlin, Adele (2011). "Cosmology and creation". In Berlin, Adele; Grossman, Maxine (eds.). The Oxford Dictionary of the Jewish Religion. Oxford University Press. P. 188.

Em boa parte dos textos bíblicos anteriores ao exílio da Babilônia, a concepção cosmológica pressupõe a existência de um só plano de existência ou realidade física. Cotejados com a literatura sirio-cananeia, especialmente de Ugarit, entende-se que os israelitas dessa fase acreditavam estar em um disco achatado que constituía a porção seca (Terra) e flutuava sobre as águas abissais (Tehom). Acima do céu visível (o primeiro céu), haveria um firmamento rígido e cristalino no qual estavam encravadas as estrelas. O sol e a lua transitariam dentro dessa cúpula. Dentro do firmamento haveria águas e acima dele o terceiro céu, um vazio. Deus e outros seres divinos habitavam em um santo monte e compartilhavam do mesmo universo físico que os humanos. Nessa cosmogonia, a criação se deu mediante a vitória contra o caos e o mundo foi formado a partir de matéria preexistente sem forma e vazia.Sarna, Nahum M. (1997). "The Mists of Time: Genesis I-II". In Feyerick, Ada (ed.). Genesis: World of Myths and Patriarchs. New York: NYU Press. p. 560.

Durante o exílio babilônico, os israelitas entraram em contato intenso com outras culturas, como os mesopotâmicos e persas. Apesar de semelhanças de visões de mundo com os hebreus, esses povos tinham suas nuances. Os persas, influenciados pela religião zoroastriana, acreditavam que o mundo estava embutido em um balanço moral, culminando em um julgamento universal no fim da história. Os mesopotâmicos viam o mundo como renovação cíclica do drama da criação e o encenava a cada ano-novo. Em razão disso, autores bíblicos retratam Deus como não habitando no primeiro plano de existência do mundo sub lunar, mas habitava no terceiro céu, ou o paraíso (o qual é uma palavra persa). Nessa fase começa a surgir a concepção de continuidade da existência humana após a morte em um lugar messiânico.Collins, Adela Yarbro (2000). Cosmology and Eschatology in Jewish and Christian Apocalypticism. Brill, p. 24.

Nos períodos helenistas e romano ampliou-se a pluralidade, mas havia alguns elementos comuns. Influenciados pelo platonismo e estoicismo, vários autores bíblicos passaram a conceber uma ordem intrínseca e ideal do universo, o Logos. Consequentemente, a criação do cosmos passa a ser visto como fruto da ação dessa ordem, a qual seria coincidente com a sabedoria (Sofia) divina. Além da realidade física, haveria um plano ideal ou espiritual, mas cujas interações afetavam esse mundo, tais como ações de anjos e demônios. Deus já não habitava neste plano físico, tampouco geograficamente em um monte ou acima do firmamento no terceiro céu, mas em um plano espiritual, embora estivesse presente no universo. Também havia um lugar para os mortos, tanto para usufruto eterno quanto para tormentos, embora nem todos cressem nisso. Os autores bíblicos dessa época (especialmente do Novo Testamento) compartilhavam com os gregos e romanos a concepção esférica da Terra, suspensa no espaço e a considerasse como um planeta dentre os outros, cada qual ocupando seu lugar nas esferas concêntricas dos astros no universo.Lee, Sang Meyng (2010). The Cosmic Drama of Salvation. Mohr Siebeck. pp.77-78

Comparação com a cosmologia científica Quanto à disparidade entre as cosmologias bíblicas e a cosmologia científica moderna, costuma-se dizer que o objetivo da Bíblia não está no conhecimento científico, mas apenas em que o homem conheça a Deus e o propósito de sua própria existência.[Greenwood, Kyle. Scripture and Cosmology: Reading the Bible Between the Ancient World and Modern Science. InterVarsity Press, 2015.https://www.sciencemeetsreligion.org/theology/bible-science.php David H. Bailey. Can the Bible be read as a scientific textbook? Return to main theology. Science Meets Religion, 2020]

Conforme o New Bible Dictionary, o relato da cosmogonia de Gênesis "não deve ser confundido ou identificado com qualquer teoria científica sobre as origens. O propósito da doutrina bíblica, em contraste com o da investigação científica, é ético e religioso ... O todo é poético e não cede para fechar correlações científicas ... Gênesis nem afirma nem nega a teoria da evolução, ou qualquer teoria para esse assunto." New Bible Dictionary, Marshall, Ian Howard, ed. Intervarsity, 1996. pp. 269/245, 271/246, 272/247.

Ligações externas

Astronomy in the Bible (Catholic Encyclopedia)