Rancho carnavalesco era um tipo de agremiação carnavalesca típica da cidade do Rio de Janeiro, entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX em sua fase áurea, existindo até a década de 1990. A procissão tinha a presença de rei e rainha, ao som de uma marcha-rancho com ritmo mais pausado que o samba, acompanhado por instrumentos de sopro e corda.

O primeiro Rancho carnavalesco foi o "Reis de Ouro", criado pelo pernambucano Hilário Jovino Ferreira, que introduziu no carnaval carioca novidades como o enredo, personagens como o casal de mestre-sala e porta-bandeira e o uso de instrumentos de cordas e de sopro. Quase 10 anos após sua extinção total, um novo rancho foi criado em Copacabana, o "Flor do Sereno".

Os ranchos tinham grande influência dos folguedos negros, como os Cucumbis e as Congadas, possivelmente trazidos pelos africanos de origem Banto e sudanesa e das tradições musicais populares portuguesas, muito difundidas nas camadas mais desassistidas da população carioca. Os ranchos eram identificados com a classe média, enquanto as escolas de samba, em sua origem, eram identificadas com classes sociais mais baixas. Apesar de originários do Rio de Janeiro, os ranchos chegaram a ser exportados para outros estados. Em Belém do Pará, ficou famoso o Rancho Não Posso Me Amofiná, que venceu diversas vezes o concurso de rancho local, e posteriormente transformou-se em escola de samba.

Caracterização O desfile de um rancho carnavalesco pode ser descrito como uma procissão, com a presença de um rei e uma rainha, ao som de uma marcha-rancho, acompanhado por instrumentos de sopro e corda, ritmo mais pausado que o samba. De acordo com Câmara Cascudo, eram características típicas dos ranchos as vestimentas vistosas, sendo utilizados em seus desfiles instrumentos como o violão, a viola, o cavaquinho, o ganzá, o prato, e às vezes, a flauta. Não eram usados instrumentos de percussão. Havia os mestres, um de Harmonia, um de Canto e um de Sala, responsável pela coreografia.

Os ranchos desfilavam com porta-estandarte e mestre-sala — adaptados, posteriormente, pelas escolas de samba — que tinham que dançar e ficar atentos a qualquer movimento. Nos primórdios, a enorme rivalidade entre os ranchos podia causar numa situação humilhante, que era a de ter seu estandarte roubado por um componente de um rancho rival. Naquele tempo o mestre-sala desfilava armado de navalha para proteger o pavilhão de sua agremiação. Em desfiles extras, não competitivos, não era incomum que houvesse provocações que terminavam em brigas entre diferentes agremiações.

História A historiografia tradicional aponta que o criador do formato de rancho carnavalesco tipicamente carioca foi o pernambucano Hilário Jovino Ferreira, ao fundar, em 1893, o Reis de Ouro, após participar do rancho Dois de Ouro, situado no Beco João Inácio, na Pedra do Sal. De acordo com o depoimento do próprio Hilário ao cronista Vagalume, o Dois de Ouro não seria "propriamente um rancho", mas "um arremedo".

A presença de ranchos nas festas populares da cidade data de décadas antes da fundação do Reis de Ouro, que, contudo, só saíam no Dia de Reis. Referindo-se aos chamados "ranchos de cucumbys", Mello Moraes Filho afirma que os ranchos existiram no Rio em 1830. Martha Abreu, por sua vez, afirma que os ranchos já existiam no Rio de Janeiro no início do século XIX. Escrevendo em meados do século XIX, Manuel Antônio de Almeida descreve um "um grande rancho chamado das baianas, que caminhava adiante" de uma procissão no centro da cidade. O pesquisador Brasil Gerson, por sua vez, considera que o primeiro rancho carnavalesco teria sido o Rancho das Sereias, surgido no começo da República, na Pedra do Sal, na Prainha. A variedade de informações aponta para uma origem incerta para os ranchos.

O que se pode afirmar é que nos primeiros anos do século XX, os ranchos se tornaram a grande atração do carnaval carioca, principalmente após o primeiro desfile do Ameno Resedá que estabeleceria o formato da brincadeira carnavalesca, apresentando desfiles descritos como verdadeira óperas populares.

Em 1894, o Reis de Ouro foi recebido no Palácio do Itamaraty pelo Marechal Floriano Peixoto. Em 1911, o Marechal Hermes da Fonseca convidou o Ameno Resedá para visita ao Palácio Guanabara. No ano de 1909 ocorreu o primeiro desfile competitivo oficial que se tem notícia, organizado pelo Jornal do Brasil, que foi vencido pelo Mamãe Lá Vou Eu, e tendo o Ameno Resedá como vice-campeão.

Em 21 de fevereiro de 1919 foi criada a Liga Metropolitana Carnavalesca, pelos ranchos, contando como membros fundadores: Ameno Resedá, Flor do Abacate, Miséria e Fome, Unidos da Aliança, Arrepiados, Cangaceiros do Caju, Jasmin de Ouro, Lírio do Amor, Cravina, Estopa e Deusa da Folia.

Com o crescimento das escolas de samba, os ranchos foram desaparecendo. A extinção do Ameno Resedá em 1941 foi considerada o início do fim dos ranchos, que entraram em declínio no final dos anos 50. Em 1968, a Revista Quatro Rodas já os descrevia como "uma tradição que por falta de apoio oficial, já estava morrendo".Revista Quatro Rodas, ano VIII, nº91, março de 1961, página 61

Em 1972 o Parasita de Ramos voltou a desfilar após 30 anos de inatividade, quando desfilou junto com Decididos, Aliados, Índios do Leme, Azulões da Torre, Recreio da Saúde e União dos Caçadores.

O último desfile oficial de ranchos que se tem registrado ocorreu no ano de 1993, com a participação de seis agremiações.O Globo, 15 de fevereiro de 1993, Matutina, Jornais de Bairro, página 9

Em 8 de outubro de 2000, foi criado em Copacabana o rancho Flor do Sereno, com as cores azul, verde e prata, a partir de uma tentativa de estudiosos de reviverem esta tradição aparentemente perdida. Ainda há dúvidas entre especialistas se o Flor do Sereno poderia se configurar como um rancho legítimo, uma vez que não apresenta todos os elementos dos ranchos antigos, e já que foi criado de forma artificial, a partir de uma manifestação popular já extinta há vinte anos .

Concursos Rio de Janeiro AnoCampeãoEnredoTotal de participantesRef.1909Mamãe Lá Vou Eu ?1911Flor do AbacateReinado da TurquiaCorreio do Amanhã, quarta, 25 de fevereiro de 1911, pág 31912Ameno Resedá Corte Celestialhttps://www.historia.uff.br/cantareira/mat/art1.htm1914Ameno Resedá1915Corbeille de FloresSonho de Dulcinéia1919Flor do AbacateCorte dos Doges1920Recreio das FloresAída ? 1921Recreio das FloresInferno de Dante ?1922Recreio das FloresParaíso de Dante ?A Noite, quinta, 22 de fevereiro de 1923, página 21923Ameno ResedáLenda encantadaA Noite, quinta, 14 de janeiro de 19261924Flor do AbacateSalomão e a Rainha de Sabá19251926União da AlliançaA Manhã, quinta, 18/02/1926, pág. 41927Alliança Club1928Caprichosos da EstopaDionísio1929Caprichosos da Estopa Nos Festins e Orgias da Encantadora Salomé1930Flor do AbacateA Queda de Palmyra 111931Flor do AbacateAtilla e os Hunos4O Globo, 18 de Fevereiro de 1931, Matutina, Geral, página 21932Flor do AbacateA Tomada de Babilônia Pelos Persas1933Recreio das Flores1934Recreio das FloresEntre Outras Mil... És Tú Brasil!171935Recreio das FloresParaíso de Momo131936Recreio das FloresA Sereia de Nilo51937União das FloresCidade Cristã do Oriente71938União das FloresOsíris81939União das Flores81940Turunas de Monte AlegreGrandeza e Virtude de Uma Nação3, a partir de O Jornal, 14/02/651941Turunas de Monte AlegreMoysés91942Turunas de Monte AlegreUnião das Américas1943-1945não houve desfile1946Turunas de Monte Alegre1947Turunas de Monte Alegre1948Turunas de Monte AlegreAquarela do Brasil6Jornal do Brasil, quarta, 18 de janeiro de 1950. Página 12.1949União dos CaçadoresMinas de Prata41950Decididos de QuintinoBrasil Império5O Globo, 23 de Fevereiro de 1950, Matutina, Geral, página 3Jornal do Brasil, sábado 04/11/1950 1951Decididos de QuintinoMeu Brasil9O Cruzeiro, 24 de fevereiro de 1951 http://fotolog.terra.com.br/cartepostale:180Jornal do Brasil, sábado 03/02/1951, pág 10.1952Decididos de Quintino8O Globo, 28 de Fevereiro de 1952, edição matutina, Geral, página 91953Decididos de QuintinoO Carnaval Carioca e Seus Campeões8O Globo, 18 de Fevereiro de 1953, Matutina, Geral, página 7JB quinta, 19 de fevereiro de 20021954União dos Caçadores1955União dos Caçadores11O Globo, 23 de fevereiro de 1955, Matutina, Geral, página 4O Globo, 24 de fevereiro de 1955, Matutina, página 91956União dos Caçadores81957Unidos do CunhaExaltação à Arte Teatral Brasileira10 a partir de (Eneida. História do carnaval carioca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1958: 143.)1958Recreio da SaúdeA Lenda do Saci111959Decididos de QuintinoGlória dos Campeões do Mundo111960Decididos de Quintino1961Decididos de QuintinoLeques Imperiais8O Globo, 17 de fevereiro de 1961. http://br.vlex.com/vid/globo-noticiava-17-fevereiro-250790866 1962Decididos de QuintinoForça de Uma Raça91963Decididos de QuintinoReminiscências e Fatos Presidenciais7Jornal Última Hora, 27 de fevereiro de 1963, caderno 2, página 6 e 1 de março de 1963, caderno 1, página 12.1964Decididos de QuintinoEpopéia Patriótica81965União dos CaçadoresRio de Janeiro, Maravilha do Século81966União dos CaçadoresBorba Gato7Jornal do Brasil, 26 de Fevereiro de 1966, 1º Caderno, página 5.1967Tomara que ChovaHomenagem aos Grandes Compositores da Música Erudita e Popular do Brasil71968Decididos de QuintinoCarlos Gomes e Suas Cinco Óperas Imortais81969 União dos CaçadoresAmor de Carnaval8Jornal Última Hora, 15 de fevereiro de 1969, caderno 2, página 6.1970Aliados de QuintinoO Guarani61971Decididos de Quintino61972Aliados de Quintino71973Parasitas de RamosFatos do Carnaval51974Decididos de Quintino61975União dos CaçadoresAbassá de Oxóssi81976Recreio da Saúde101977Parasitas de RamosA Festa do Café101978Aliados de QuintinoO Mundo Encantado do Faz de Conta101979Aliados de Quintino101980Recreio da SaúdeA Volta do Éden111981Decididos de QuintinoO Mar11O Globo, 17 de Fevereiro de 1986, Matutina, Jornais de Bairro - Madureira, página 81982Decididos de Quintino (Grupo 1-A)O Folclore6Aliados de Quintino (Grupo 1-B)61983Decididos de Quintino (Grupo 1-A)O Quê Que a Bahia Tem?7Império de São Cristóvão (Grupo 1-B)71984Decididos de Quintino (Grupo 1-A)7Foliões de Jacarepaguá (Grupo 1-B)71985Decididos de Quintino (Grupo 1-A)7Paz e Amor de Camboatá (Grupo 1-B)71986Aliados de Quintino (Grupo 1-A)Pintando o Sete7Azulões da Torre (Grupo 1-B)71987Azulões da Torre61988Azulões da Torre71989Decididos de Quintino1990Decididos de Quintino71991Decididos de Quintino41992Alegria da Saúde61993 6

Bibliografia GONÇALVES, Renata de Sá. Os Ranchos pedem passagem. Rio de Janeiro, PPGSA/IFCS/UFRJ, 2003. FERNANDES, Nélson da Nóbrega. Escolas de Samba: Sujeitos Celebrantes e Objetos Celebrados. Rio de Janeiro, Coleção Memória Carioca, vol. 3, 2001. EFEGÊ, Jota. Ameno Resedá: o rancho que foi escola. Rio de Janeiro, Letras e Artes, 1965. EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas do Carnaval Carioca. Rio de Janeiro, Funarte, 1985. ABREU, Martha. O império do divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 2001. GERSON, Brasil. História das ruas do Rio: e de sua lembrança na história política do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000. MORAES FILHO, Mello. Festas e tradições populares do Brazil. Rio de Janeiro: Fauchon e Cia., 1895.

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