thumb|250px|Physarum cinereum esporulando sobre folhas.

thumb|250px|Lycogala epidendrum (J.C. Buxb. ex L.) Fr. 1829.

thumb|250px|Plasmódio com a sua rede de "veias"

Bolor limoso ou fungo mucilaginoso, mas também mofo limoso, bolor mucilaginoso ou fungo gelatinoso, são nomes comuns informais, sem significado taxonómico preciso, aplicados a um conjunto polifilético de organismos, em tempos conhecido por Gymnomycota, que se pensava serem fungos do tipo mofo, cuja única característica comum consiste em formarem massas mucilaginosas semelhantes a gelatina sobre a superfície de matéria orgânica em decomposição. O conjunto inclui diversos tipos de organismos eucariotas, sem relação filogenética próxima, que podem viver como organismos unicelulares livres, mas que se agregam em massas mucilaginosas macroscópicas para formar estruturas reprodutivas multicelulares. Foram classificados como fungos, mas estudos de biologia molecular levaram à sua exclusão daquele reino. Apesar de não serem filogeneticamente relacionados entre si, as semelhanças morfológicas e ecológicas entre as cerca de 500 espécies conhecidas levam a que por conveniência o grupo seja integrado entre o "reino" parafilético dos Protista. Os conhecimentos de filogenia actuais permitem afirmar que nenhuma das espécies do grupo pertence ao moderno reino Fungi, ou seja que nenhuma delas é um «fungo» na acepção taxonómica do termo. Descrição Conhecem-se cerca de 500 espécies de fungos mucilaginosos, com distribuição natural cosmopolita mas com maior frequência nas regiões quentes e húmidas ricas em matéria orgânica em decomposição.

O nome comum é uma referência directa à fase reprodutivo do seu ciclo de vida, durante a qual formam estruturas que se assemelham a massas de muco gelatinoso. Estas estruturas são particularmente visíveis entre os Myxogastria, que são macroscópicos durante todo o seu ciclo de vida. A maior parte das colónias de atinge apenas alguns centímetros de dimensão máxima, mas algumas espécies podem formar, quando em habitats com condições ecológicas óptimas, colónias com vários metros quadrados de área e peso seco até 30 gramas.

A maioria destes organismos, especialmente os do tipo "celular", não passam a maior parte do tempo no estado mucilaginoso. Na maioria dos casos, enquanto existe alimento abundante, a espécie permanece como organismos unicelulares, microscópicos, dispersos entre as partículas alimentares ou no seu interior. Quando o alimento escasseia, estes organismos unicelulares congregam-se e começam a mover-se ordenadamente como um corpo único. Neste estado, a colónia é sensível à presença de odores no ar e pode detectar a presença de alimento. Pode também modificar rapidamente a forma e função de partes da estrutura e formar pedúnculos que produzem corpos frutificantes, libertando um elevado número de esporos na maturação, suficientemente leves para serem distribuídos pelo vento ou transportados por animais que passem pelo local.

Em geral estas espécies alimentam-se de microorganismos que vivam em qualquer tipo de material vegetal em decomposição, consumindo bactérias, leveduras e fungos. Pela sua acção contribuem para a decomposição da vegetação morta, em especial da manta morta das florestas temperadas, pelo que são frequentemente encontrados nos solos florestais e sobre troncos e ramos mortos de espécies decíduas. Nas regiões tropicais com elevada humidade do ar são também comuns sobre inflorescências, frutos e sobre as partes aéreas de plantas, especialmente nas copas das árvores.

Em áreas urbanas estas espécies ocorrem em relvados, na manta orgânica e em composto aplicada em jardinagem e hortofloricultura e entre material vegetal em decomposição resultante de podas e do corte de relvas. Ocorrem também em acumulações de folhas em decomposição em drenos pluviais e bueiros. Também podem ocorrer nos filtros de sistemas de ar condicionado quando os drenos estejam bloqueados. Taxonomia Os conhecimentos obtidos com recurso às técnicas de biologia molecular permitem que os chamados fungos mucilaginosos (ou bolores limosos), quando considerados como um grupo, formam um agrupamento polifilético.

Nas antigas classificações, construídas quase exclusivamente com base em considerações morfológicas, eram integrados no sub-reino Gymnomycota do reino Fungi (fungos). Os «fungos» do grupo Gymnomycota eram por sua vez subdivididos em três filos, hoje todos considerados obsoletos: (1) Myxomycota; (2) Acrasiomycota; e (3) Labyrinthulomycota.

Os conhecimentos de filogenia actuais permitem afirmar que nenhuma das espécies do grupo pertence ao moderno reino Fungi, ou seja que nenhuma delas é um «fungo» na acepção taxonómica do termo.

A classificação anterior evoluiu inicialmente para a criação de dois grupos, que embora de natureza estritamente funcional e sem base filogenética, permitem distinguir os «fungos mucilaginosos» em função da sua fisiologia básica: Fungos mucilaginosos do tipo "celular" — nesta categoria agrupam-se as espécies cujo ciclo de vida se cumpre essencialmente sob a forma de protistas unicelulares individuais, que apenas se congregam quando é secretado um sinal bioquímico que provoca alterações comportamentais e morfológicas levando à formação de uma massa de indivíduos que age como um único organismo. Fungos mucilaginosos do tipo "plasmodial" — nesta categoria estão incluídas as espécies cujos indivíduos existem a maior parte do tempo sob a forma heterocarionte de um sincício, uma estrutura plasmodial formada pela inclusão no interior de uma única membrana celular, sem parede celular, de múltiplas células individuais modificadas. Nesta grande super-célula, o sincício, na realidade um saco de citoplasma contendo milhares de núcleos celulares individuais, coexistem, sem individualidade própria, aquilo que seriam os membros da colónia, num estado intermédio entre os organismos unicelulares e os verdadeiros organismos multicelulares. Espécies ameboides (Amoebozoa) As modernas classificações de base filogenética consideram, em sentido estrito, que o maior grupo dos «fungos mucilaginosos» constitui o agrupamento mycetozoano do grupo dos Amoebozoa, nele se incluindo as espécies que apresentam morfologia e comportamento do tipo ameboide. Os Mycetozoa (nesta acepção) incluem os seguintes três grupos: Myxogastria (ou mixomicetas) — fungos mucilaginosos heterocariontes do tipo "plasmodial", formadores de sincícios; Dictyosteliida (ou dictiostelídeos) — fungos mucilaginosos do tipo "celular"; Protosteloides — também conhecidos por «amibas protosteloides» ou «protostelídeos», são amibas capazes de produzir corpos frutificantes simples, constituídos por um pedúnculo celular que termina em um ou mais esporos. Todas as espécies conhecidas são microscópicas e ocorrem tipicamente sobre material vegetal em decomposição no qual se alimentam de bactérias, leveduras e esporos de fungos. Como os protostelídeos são amibas que produzem esporos, são considerados parte do grupo dos «fungos mucilaginosos».

Esta classificação continua a apresentar inconsistência e conflitos que carecem de resolução. Evidência molecular recente mostra que enquanto os dois primeiro grupos (Myxogastria e Dictyosteliida) serão monofiléticos, os Protosteloide são muito provavelmente um grupo polifilético. Por esta razão não existe ainda consenso em torno desta classificação. Myxogastria O agrupamento Myxogastria, do tipo plasmodial, inclui as espécies de «fungos mucilaginosos» mais frequentemente encontradas, sendo o mais visível dos agrupamentos dadas as dimensões das suas colónias.

O género mais comum é Stemonitis, que forma pequenos tufos acastanhados sobre madeira em decomposição. Outro género comum é Physarum, especialmente a espécie Physarum polycephalum, que também ocorre sobre troncos e ramos em decomposição, sobre os quais aprece como uma teia de filamento amarelos (as "veias"), e é frequentemente usada em investigação científica. O género Fuligo forma com frequência crostas em composto e outros materiais vegetais em apodrecimento.

Dictyosteliida O grupo Dictyosteliida, constituído pelas espécies do tipo celular, apresenta uma relação filogenética distante com os Myxogastria (os plasmódios) e ciclos de vida muito distintos. Na sua fase de amiba não formam grandes cenócitos e permanecem como indivíduos. Contudo vivem em habitats similares e também se alimentam de microorganismos. Quando os alimentos escasseiam e estão prontos para formar esporângios, estes organismos seguem uma estratégia radicalmente diferente: libertam moléculas sinalizadoras no seu ambiente, através das quais se congregam e forma massas de amibas, como se fora um enxame. Essas amibas comportam-se como se fossem parte de um pequeno organismo multicelular, semelhante a uma lesma, que se arrasta para um lugar iluminado e desenvolve um corpo frutificante. Alguns indivíduos transforma-se em esporos, permitindo começar a próxima geração, enquanto outros se sacrificam para formar um caule morto capaz de elevar os esporos para o ar. Protosteloides Os protosteloides apresentam características intermédias entre os dois grupos atrás descritos, mas são muito mais pequenos, sempre microscópicos, formando corpos frutificantes que produzem apenas um esporo ou, por vezes, um pequeno número de esporos.

Espécies não ameboides O grupo não ameboide de «fungos mucilaginosos» inclui os seguintes agrupamentos: Acrasida — a ordem Acrasida inclui as espécies que pertencem ao agrupamento taxonómico Heterolobosea do supergrupo Excavata. Apresentam um estilo de vida semelhante aos Dictyostelids, mas as suas amibas composrtam-se de forma diferente, apresentando pseudópodes. O grupo integrou o filo Acrasiomycota, hoje considerado obsoleto. Plasmodiophorida — a ordem Plasmodiophorida agrupa protistas parasíticos pertencentes ao supergrupo Rhizaria. Inclui géneros que causam patologias vegetais em diversas culturas, entre as quais Phytomyxea (que afecta couves) e Spongospora (que afecta a batata). Os Plasmodiophorida também formam cenócitos, mas são parasitas internos de plantas. Labyrinthulomycetes (ou Labyrinthulomycota) — a classe Labyrinthulomycetes é um grupo de organismos marinhos que produz estruturas reticuliformes sobre as superfícies infestadas, pertencente ao supergrupo Chromalveolata. A estrutura reticuliforme é um "labirinto" (daí o nome) de pequenos tubos através dos quais as amibas, que são desprovidas de pseudópodes, se movem. Fonticula — é um género de «fungo mucilaginoso», considerado em incertae sedis, que forma corpos frutificantes em forma de taça. Fonticula não apresenta relação filogenética próxima com Dictyosteliida ou Acrasidae. O seu enquadramento taxonómico é incerto, mas aparente ser próximo de Nuclearia, que por sua vez é filogeneticamente próximo dos verdadeiros fungos (Fungi). <center> 'Estrutura taxonómica dos «fungos mucilaginosos»