Louise Michel (Vroncourt-la-Côte, – Marselha, ), cujo apelido era Enjolras, foi professora, poetisa, enfermeira, escritora e blanquista da França. Reconheceu-se anarquista durante a Comuna de Paris, na qual foi uma das mais importantes communards. Foi também primeira a deflagrar a bandeira negra como símbolo dos ideais libertários, popular nos séculos seguintes entre os adeptos do Anarquismo.
Preocupada com a educação infantil, Michel lecionou alguns anos em Paris até 1856. Aos 26 anos nessa mesma cidade já era autora de uma extensa obra literária, política e educacional com foco nos movimentos sociais revolucionários. Na Comuna de Paris participou tanto na linha de frente nas barricadas, como em funções de apoio até ser capturada e deportada para a Nova Caledônia. Retornou à França em 1880 onde se tornara extremamente popular, participou de inúmeros eventos e reuniões operárias, continuou sendo vigiada pelo estado pelo resto de sua vida, sendo presa diversas vezes por seu ativismo político até sua morte aos 74 anos de idade.
Após seu falecimento continuou sendo considerada e homenageada como uma das mais notáveis anarquistas, feministas, sindicalistas e educadoras libertárias do século XIX, preservando tal reconhecimento até à atualidade.
Biografia Primeiros anos thumb|upright|Louise Michel aos nove anos de idade Louise Michel nasceu no Castelo de Vroncourt (Haute-Marne) do Lorde Charles-Etienne Demahis, em 29 de Maio de 1830, filha da serviçal, Marianne Michel e Etienne Charles Demahis, filho de seu patrão.Dictionnaire biographique du Mouvement ouvrier français, article Louise Michel, Jean Maitron, Les Editions de l'Atelier, 1997 (disponible sur biosoc.univ-paris1.fr ) Sua criação é assumida por seus avós paternos, que lhes proporcionam educação humanista de qualidade. Ainda na adolescência tem contato com os escritos de filósofos como Rousseau e Voltaire. Muito precocemente desenvolve um temperamento altruísta que permearia toda sua vida.
Após a morte de seu avô em 1850 Michel muda-se para Chaumont onde faz um curso de magistério, mas é impedida de lecionar nas escolas estatais por se recusar a jurar lealdade para Napoleão III e seu império. Diante das agruras do império ela se torna radicalmente antibonapartista, chegando mesmo a dizer que se sentiria contemplada com o assassinato de .
Em setembro de 1852, aos 22 anos, Michel funda uma escola livre em Audeloncourt onde leciona por um ano, ensinando princípios republicanos — inclusive com aulas de canto onde os alunos aprendem a cantar a Marselhesa. Ao fim deste período a escola é obrigada a fechar por pressão das autoridades. No fim de 1854 ela abre outra escola, desta vez em Clefmont lecionando nela por um ano. Por ensinar princípios republicanos passa novamente a ser perseguida pelo governo.
Em Paris Em 1856 Michel se muda para Paris, onde passa a lecionar em um colégio interno para moças em Montmartre, ao mesmo tempo em que se dedica apaixonada e intensamente a atos de solidariedade e política revolucionária. Durante os próximos quinze anos Michel prossegue dando continuidade às suas atividades de ensino. Em 1865 ela funda uma escola (cujo período diário letivo é 12 horas) na 'rue Houdon, proferindo também um curso na rue Oudot em 1868. Gradualmente vai se mostrando favorável a novos ideais, apoiando a criação de escolas e orfanatos laicos.
thumb|upright|left|Victor Hugo em 1875
Interessada em literatura, Louise Michel publica nesta mesma época diversos textos, incluindo os poemas que escreveu sob o pseudônimo de Enjolras.http://www.terresdecrivains.com/Louise-MICHEL Pelo seu envolvimento com a literatura, não demora muito até que conheça Victor Hugo, um dos mais famosos e respeitados escritores da época. Louise passa a se corresponder com Victor Hugo até 1879, enviando-lhe alguns de seus poemas.Sur toupie.org Enfeitiçada pelo charme de Victor Hugo,Interview de Xavière Gauthier sur biosoc.univ-paris1.fr alguns historiadores afirmam que eles teriam tido uma filha juntos, Victorine, criada por uma babá desde o seu nascimento.Yves Murie, Victorine, le grand secret de Louise Michel, SAEP, 2000 (article de La République des Lettres Tal hipótese no entanto continua a ser questionada. Victor Hugo retrata Michel como sua personagem "Judith, la sombre Juive" e "Ária, la romaine", mulheres excepcionais com destinos trágicos.
Michel acaba por participar de um ambiente revolucionário que à época se dava nos meios intelectuais de Paris. Conhece Jules Vallès, Eugène Varlin, Raoul Rigault e Émile Eudes, entre outros, jornalistas e militantes organizados em torno do periódico de oposição ao governo chamado Le cri du peuple (O Grito do Povo). Em 1862, torna-se membro da "União dos poetas", em 1869, é escolhida secretária da Liga Democrática de moralização, cuja meta era auxiliar os trabalhadores desempregados a uma vida digna. À época, Louise se reconhece como blanquista, ou seja, uma adepta do movimento revolucionário republicano e socialista, fundado por Auguste Blanqui.
Em agosto de 1870, durante a Guerra franco-prussiana aos 40 anos de idade Louise Michel milita contra o encarceramento de blanquistas entre estes Émile Eudes e Brideau. Em setembro, após a queda do Império, ela participa do Comitê de vigilância dos cidadãos do XVIII arrondissement, do qual será eleita presidente; na época conhece Théophile Ferré por quem se apaixona. Quando a fome se abate sobre Paris, Michel cria um refeitório comunitário para as crianças. Na época conhece Georges Clemenceau, então presidente da Câmara de Montmartre. E assiste a acontecimentos surpreendentes: mulheres, crianças e guardas confederados que confraternizam com a população em alegria e paz. Pouco depois Louise Michel abandona o blanquismo para se unir à ala mais radical da revolução, composta pelos anarquistas, que consideram necessário investir em uma ofensiva a Versalhes com a o intuito de dissolver o governo de Adolphe Thiers, no momento em que este possui poucas tropas. Louise junto com outros anarquistas se dispõem a ir até Versalhes e assassinar Thiers.Fernand Planche, La vie ardente et intrépide de Louise Michel, Édition Tops-H. Trinquier, 2005 No entanto o plano não tem andamento e a oportunidade é perdida.
A Comuna thumb|upright|Louise Michel com a farda da Guarda Nacional
thumb|upright|A prisão de Louise Michel, por Jules Girardet
Durante a Comuna de Paris Louise Michel desempenhará diversas atividades. Assumirá inicialmente a função de enfermeira nos frontes de batalha cuidando dos feridos nas barricadas. Mais tarde, durante o cerco de Paris, passa a ser uma combatente vestindo a farda da guarda nacional — fato incomum para a época, já que este traje era tido como exclusivamente masculino.
Uma anedota da época diz que desde que Louise vestiu a farda da Guarda Nacional em 22 de Janeiro de 1871, simultaneamente passou a exercer a função de propagandista da Comuna, manteve o 61.o Batalhão de Montmartre, dirigiu a carroça-ambulância que cuidava dos feridos e participou do Clube da Revolução na Igreja de Saint-Bernard. Nos dias 17 e 18 de Março Louise Michel desempenhou um papel ativo na infantaria dos canhões da guarda nacional que manteve a barricada de Montmartre.
Em Maio, quando Versalhes iniciou o ataque contra a cidade, Louise tomou parte nas batalhas de Clamart, Issy-les-Moulineaux, Neuilly. Sobre a barricada de Clignancourt, ela tomou parte nos combates de rua onde a tiros conseguiu libertar da detenção sua mãe que iria ser presa em seu lugar. Posteriormente também assistiria à morte por execução de muitos de seus amigos, incluindo seu amante e companheiro Théophile Ferré, executado em 28 de novembro de 1871 junto com Louis Rossel, o ex-ministro da guerra da Comuna. Nos mesmos dias em que se ofereceu para pessoalmente executar Thiers, compôs em homenagem a Ferré, o poema Os cravos rubros (Les Œillets rouges), uma declaração de amor e carta de despedida.
Quando ao negro cemitério eu for, Irmão, coloque sobre sua irmã, Como uma última esperança, Alguns 'cravos' rubros em flor.
Do Império nos últimos dias Quando as pessoas acordavam, Seus sorrisos eram rubros cravos Nos dizendo que tudo renasceria. Hoje, florescerão nas sombras de negras e tristes prisões. Vão e desabrochem junto ao preso sombrio E lhe diga o quanto sinceramente o amamos.
Digam que, pelo tempo que é rápido, Tudo pertence ao que está por vir Que o dominador vil e pálido Também pode morrer como o dominado.Tradução livre do inglês e do francês de AltCtrlDel
Sem qualquer questionamento sobre o tamanho de seu sentimento de perda, Victor Hugo dedica seu poema Viro Major a ela. Este depoimento ardoroso será talvez uma das maiores fontes de exaltação já feitas em sua homenagem, causando grandes constrangimentos aos inimigos de Michel.Viro Major de Victor Hugo
Diante das mortes de seus companheiros Louise Michel passa a reivindicar para si o direito ao assassinato do juiz que os condenou. No entanto presa, em Dezembro de 1871 ela é levada a julgamento no VI Conselho de Guerra, sendo alvo de uma série de acusações incluindo a tentativa de derrubada do governo, encorajar cidadãos a pegar em armas, e utilizar armas e fardamento militar. De forma desafiadora no tribunal ela reafirma seu compromisso com a Comuna e seus ideais, e desafia os juízes a sentenciá-la à morte. Talvez por medo de uma reação popular a sentença de morte não é comutada.
Entre 1871 e 1873, Louise Michel passa vinte meses na detenção na Abadia de Auberive (convertida em prisão), para ser posteriormente condenada à deportação. Àquela época a imprensa estatal de Versalhes satiricamente a nomeia la Louve rouge, la Bonne Louise (a loba vermelha, a boa Louise).Louise Michel, Xavière Gauthier, Histoire de ma vie, 2e et 3e parties, Presses Universitaires de Lyon, coll. « Hors Collection », 2000
Deportação thumb|upright|Louise Michel em Nouméa
Em 8 de Agosto de 1873 Louise Michel é colocada no navio Virginie, que a levará para seu exílio na Nova Caledônia onde ela desembarca após 4 meses de viagem.
Ainda a bordo do navio Louise Michel se aproxima do também prisioneiro Henri Rochefort, à época uma famosa figura polêmica, que se tornaria seu amigo até sua morte. Também conhece Nathalie Lemel, outra anarquista ativa durante a Comuna. Estes contatos fazem com que Louise passe a se reconhecer publicamente como anarquista. Permanece na Nova Caledônia por sete anos, recusando qualquer tratamento especial reservado às mulheres.
Se aproxima da população local, da etnia kanak, cria a revista "Petites Affiches de la Nouvelle-Calédonie" (Pequenas Cartas da Nova Caledônia) e publica o livro "Légendes et chansons de gestes canaques" onde compila os cantos e as lendas dos nativos. Leciona para adultos e crianças nativas, e ao contrário de outros communards deportados, toma parte ao lado dos kanaks em sua revolta de 1878. Posteriormente ela afirmaria ter enviado ao líder da rebelião, Ataî, um pedaço de sua manta.
No ano seguinte, Louise Michel recebe autorização das autoridades coloniais para se lecionar em Noumea para os filhos dos deportados — entre eles muitos cabilas (Cabilas do Pacífico da rebelião de Cheikh Mokrani de 1871) — e mais tarde também passa a dar aulas em uma escola para meninas.
Retorno thumb|upright|Retrato de Louise Michel Michel retorna a Paris em 1880 depois que a anistia foi garantida aos Communards. Sua paixão revolucionária não havia diminuído. Em 21 de Novembro de 1880 é calorosamente recebida por uma multidão para a qual discursa. Retomando sua incansável atividade de militante revolucionária na Europa, participando de eventos e reuniões e do congresso anarquista em Londres em 1881, onde ajuda a organizar manifestações falando para multidões imensas. Após dois meses de sua chegada ela inicia a publicação de seu romance "La Misère" (A Miséria) em fascículos atingindo enorme sucesso.http://lire.ish-lyon.cnrs.fr/spip.php?article131