A Batalha de Poitiers foi um confronto travado em 19 de setembro de 1356 durante a Guerra dos Cem Anos entre um exército francês comandado pelo rei João II e uma força anglo-gascã comandada por Eduardo de Woodstock, Príncipe de Gales. A batalha ocorreu a aproximadamente oito quilômetros ao sul de Poitiers, no oeste da França, quando entre catorze e dezesseis mil franceses atacaram uma posição defensiva mantida por seis mil anglo-gascões.
Eduardo, filho e herdeiro do rei Eduardo III da Inglaterra, partiu em uma grande campanha no sudoeste da França dezenove anos depois do início da guerra. Seu exército marchou de Bergerac até o rio Loire, mas não foi capaz de atravessá-lo. João reuniu um exército grande e foi atrás das forças de Eduardo. Os anglo-gascões estabeleceram uma forte posição defensiva próxima de Poitiers, sendo atacados pelos franceses depois de negociações infrutíferas.
O primeiro ataque incluiu duas unidades de cavalaria, uma grande força de besteiros e também muitos soldados de infantaria e homens de armas desmontados. Estes foram rechaçados pelos anglo-gascões, que lutaram todos desmontados. Seguiu-se um segundo ataque por quatro mil homens de armas a pé liderados por Carlos, Delfim de Viennois e filho de João. Este também foi rechaçado após uma luta prolongada. Confusão se espalhou entre os franceses enquanto a divisão de Carlos recuava e por volta de metade dos homens na terceira divisão sob Filipe, Duque de Orleães foram embora, levando os quatro filhos de João. Alguns que não fugiram realizaram um pífio terceiro ataque. Os franceses restantes se reuniram ao redor do rei e iniciaram um quarto ataque, novamente todos como infantaria. Eles lentamente ganharam a vantagem, mas uma pequena força montada de 160 anglo-gascões apareceu na retaguarda francesa. Alguns franceses fugiram achando que estavam cercados, o que deixou outros em pânico, e logo toda a força ruiu.
João foi capturado, assim como um dos seus filhos e entre dois e três mil homens de armas. Aproximadamente 2,5 mil homens de armas franceses foram mortos. Além disso, 1,5 ou 3,8 mil soldados de infantaria foram mortos ou capturados. Os franceses sobreviventes dispersaram, enquanto os anglo-gascões continuaram seu recuo em direção da Gasconha. Uma trégua de dois anos foi concordada na primavera seguinte e Eduardo escoltou João para Londres. Revoltas populistas estouraram pela França. Negociações para o fim da guerra e o resgate de João se arrastaram, fazendo Eduardo lançar outra campanha em 1359 em resposta. Os dois lados finalmente chegaram a um meio-termo no Tratado de Brétigny de 1360, em que uma enorme parte da França foi cedida à Inglaterra e o resgate de João foi estabelecido em três milhões de escudos de ouro. Na época isto pareceu dar fim à guerra, mas os franceses retomaram as hostilidades em 1369 e recapturaram boa parte do território perdido. A guerra só foi terminar em 1453 com uma vitória francesa.
Antecedentes Monarcas ingleses desde a conquista normanda em 1066 mantiveram títulos e terras na França, fazendo-os vassalos dos reis da França. A única significativa possessão inglesa na França no primeiro quarto do século XIV era a Gasconha no sudoeste. Entretanto, esta era desproporcionalmente importante: impostos cobrados sobre o vinho de Bordeaux, a capital da Gasconha, totalizava mais do que todos os outros impostos aduaneiros ingleses combinados e era de longe a maior fonte de renda do estado. Bordeaux tinha uma população de mais de cinquenta mil homens, maior do que a capital inglesa Londres, sendo possivelmente mais rica. Houve vários desentendimentos entre o rei Filipe VI da França e o rei Eduardo III da Inglaterra, fazendo com que o Conselho do Rei francês concordasse em 24 de maio de 1337 que todas as terras de Eduardo na França deveriam ser passadas para Filipe sob o argumento de que Eduardo estava quebrando suas obrigações de vassalo. Foi o estopim da Guerra dos Cem Anos, que durou 116 anos.
thumb|esquerda|200px|A França em 1328, com apenas a Gasconha sob o controle inglês Eduardo conseguiu poupar apenas poucos recursos para a defesa da Gasconha, apesar desta ser a causa da guerra. Os gascões precisaram contar apenas com seus próprios recursos durante a maioria das temporadas de campanha e foram muito pressionados pelos franceses. Os gascões normalmente podiam formar forças de por volta de três a seis mil homens, a maioria dos quais de infantaria, porém aproximadamente dois terços precisavam ficar nas guarnições de fortificações importantes. Henrique de Grosmont, Conde de Lencastre, liderou várias campanhas algo-gascãs bem sucedidas na Aquitânia e foi capaz de tirar o foco da guerra para longe da Gasconha.
O porto francês de Calais foi conquistado pelos ingleses em agosto de 1347 durante a Campanha de Crécy. Logo em seguida foi assinada a Trégua de Calais, parcialmente resultado dos dois países estarem esgotados financeiramente. Neste mesmo ano a Peste Negra chegou no norte da França e sul da Inglaterra, com estimativas dizendo que aproximadamente um terço da população da Europa ocidental foi morta; a taxa de mortalidade no sul da Inglaterra foi de mais de quarenta por cento. Esta catástrofe durou até 1350 e temporariamente paralisou a guerra. A trégua foi ampliada repetidas vezes no decorrer dos anos, mas isto não parou confrontos navais os lutas em menor escala, que eram especialmente ferozes no sudoeste da França; também não parou confrontos em maior escala ocasionais.
Um tratado para encerrar a guerra foi negociado em Guînes e assinado em 6 de abril de 1354. Entretanto, a composição do círculo próximo do rei João II da França, sucessor de Filipe, mudou assim como os sentimentos em relação aos termos do tratado. João decidiu não ratificá-lo e ficou claro no verão de 1355 que os dois lados estavam comprometidos com uma guerra em escala total. Eduardo e seu conselho, tendo suas finanças em uma posição incomumente favorável, decidiram em abril de 1355 lançar ofensivas naquele mesmo ano no norte da França e na Gasconha. João tentou reforçar as guarnições nas suas cidades e fortificações do norte contra a esperada ofensiva inglesa, mas não conseguiu por principalmente estar sem dinheiro.
Chegada de Eduardo thumb|170px|Miniatura de Eduardo de Woodstock c. 1440–1450 Eduardo de Woodstock, Príncipe de Gales e o filho mais velho e herdeiro de Eduardo III, posteriormente alcunhado de o Príncipe Negro, recebeu 1355 o comando da Gasconha, começando a reunir homens, navios e suprimentos. Ele chegou em Bordeaux em 20 de setembro acompanhado de aproximadamente 2,2 mil soldados ingleses. No dia seguinte foi formalmente reconhecido por oficiais e dignitários gascões como o representante oficial do rei na Gasconha com poderes plenipotenciários. Nobres gascões o reforçaram com uma força de por volta de cinco a seis mil homens, também lhe proporcionando um comboio de ligação e um considerável comboio de suprimentos.
Eduardo partiu em 5 de outubro em um chevauchée, que era um tipo de incursão de cavalaria em grande escala. A força anglo-gascã marchou de Bordeaux para Narbona, 480 quilômetros de distância, quase no litoral do Mar Mediterrâneo e bem no meio do território francês, retornando então para Gasconha. Eles devastaram enormes extensões de território francês e saquearam muitas cidades no caminho. João I, Conde de Armagnac e o comandante das forças francesas locais, evitou uma batalha e assim houve poucos confrontos. Território algum foi capturado, mas danos econômicos enormes foram infligidos; o historiador Clifford J. Rogers concluiu que "dificilmente pode se exagerar a importância do aspecto do desgaste econômico do chevauchée". A expedição voltou para a Gasconha em 2 de dezembro depois de terem percorrido 1,1 mil quilômetros.
1356 thumb|esquerda|170px|Pintura contemporânea de João c. 1350–1375 As tropas inglesas retomaram a ofensiva após o Natal, obtendo grande sucesso. Mais de cinquenta cidades ou fortificações francesas foram capturadas nos quatro meses seguintes, incluindo cidades estrategicamente importantes próximas da fronteira com a Gasconha, enquanto outras ficavam a 130 quilômetros de distância. Comandantes franceses locais não tentaram impedir. Vários membros da nobreza francesa local mudaram de lealdade para os ingleses, com Eduardo recebendo suas homenagens em 24 de abril de 1356.
Dinheiro e entusiasmo pela guerra estavam baixíssimos na França. O historiador Jonathan Sumption descreveu a administração francesa como "caindo aos pedaços em acrimônia ciumenta e recriminação". Um crônico contemporâneo registrou que "o Rei da França era muito odiado em seu próprio reino". A cidade de Arras se revoltou e matou lealistas. Nobres importantes da Normandia se recusaram a pagarem impostos. João prendeu em 5 de abril o notoriamente traiçoeiro rei Carlos II de Navarra, um dos maiores proprietários de terra na Normandia, mais nove de seus críticos mais conhecidos; quatro foram sumariamente executados. Outros nobres normandos se voltaram a Eduardo em busca de auxílio.
Eduardo III, enxergando uma oportunidade, desviou uma planejada expedição para a Bretanha no final de junho para a Normandia. Lencastre partiu com 2,3 mil homens, pilhando e queimando seu caminho pela Normandia rumo leste. João foi para Ruão com uma força maior para interceptar os ingleses. Estes resgataram e reabasteceram as fortificações cercadas de Breteuil e Pont-Audemer, então atacaram e saquearam Verneuil. João os perseguiu, mas estragou várias oportunidades para forçar uma batalha e os ingleses escaparam. A expedição, em três semanas, sofreu poucas baixas, tomou muita pilhagem, incluindo cavalos, forjou novas alianças e danificou a economia e prestígio franceses. O rei voltou para Bretuil e reestabeleceu o cerco, se distraindo das preparações inglesas para uma nova chevauchée no sudoeste da França.
Prelúdio Manobras thumb|310px|Mapa mostrando as rotas dos exércitos anglo-gascão e francês em 1356 Uma força combinada de seis mil gascões e ingleses deixaram Bergerac em 4 de agosto de 1356 em direção ao norte. Juntos estavam aproximadamente quatro mil não combatentes. Todos os combatentes estavam montados, incluindo aqueles que sempre lutariam em pé, como os arqueiros. O exército anglo-gascão se separou em 14 de agosto em três divisões que continuaram a marchar para o norte uma ao lado da outra, sistematicamente devastando por onde passavam. As unidades dos flancos estavam a 64 quilômetros uma da outra, permitindo que devastassem uma faixa de oitenta quilômetros de largura, mas ainda assim capazes de enfrentarem um inimigo dentro de um dia. Avançaram lentamente para facilitar suas tarefas de saque e destruição. O historiador David Green descreveu o progresso do exército de Eduardo como "deliberadamente destrutivo, extremamente brutal ... metódico e sofisticado". Vários castelos foram atacados e capturados. A população em sua maior parte fugiu ou se rendeu assim que as tropas anglo-gascãs eram avistadas. Houve novamente pouca resistência. Caso um exército de campo francês estivesse na área, as forças anglo-gascãs só precisariam ficar relativamente próximas umas das outras, prontas para darem apoio caso uma fosse atacada. A ausência de qualquer força do tipo permitiu que as formações do príncipe se dispersassem bastante a fim de maximizar seu efeito destrutivo pelo interior francês.