Luanda é a capital e maior cidade de Angola. Localizada na costa norte do Oceano Atlântico, é o centro administrativo nacional e também da província homónima, além de ser o maior polo industrial, marítimo, cultural e urbano do país. De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), sua área urbana contém uma população de cerca de 9 milhões de habitantes, o que a torna a capital lusófona mais populosa do mundo, além da metrópole de língua portuguesa mais populosa fora do Brasil. Oficialmente, a Província de Luanda, que inclui municípios como Ingombota, Viana, Cacuaco, Cazenga e Belas, conta com uma população de 8,6 milhões de pessoas.
Entre as cidades coloniais mais antigas da África, Luanda foi fundada em janeiro de 1576 como São Paulo da Assunção de Loanda pelo explorador português Paulo Dias de Novais. A cidade serviu como centro do comércio de escravos para o Brasil antes da proibição da escravidão. No início da Guerra Civil Angolana, em 1975, a maioria dos portugueses brancos deixou o país como refugiados,Flight from Angola , The Economist (August 16, 1975). principalmente migrando para Portugal. A população da cidade aumentou consideravelmente devido aos refugiados internos que fugiam da guerra, mas a sua infraestrutura era inadequada para absorver esse aumento demográfico, o que agravou o surgimento de musseques (favelas) em torno de Luanda.
No século XXI, a cidade tem passado por uma grande reconstrução e se tornou um centro econômico nacional, sendo classificada como uma das cidades mais caras do mundo para expatriados. Entre as indústrias locais estão o processamento de produtos agrícolas, produção de bebidas, têxteis, cimento, automóveis, materiais de construção, plásticos, metalurgia, cigarros, calçados e petróleo.
Com um perfil extremamente cosmopolita, os habitantes de Luanda são, na sua maioria, membros dos grupos étnicos ambundos, congos e ovimbundos, existindo frações relevantes de todas as origens étnicas angolanas. Existe uma população de origem europeia, constituída principalmente por portugueses, estimada em cerca de 100 mil pessoas. Há também uma importante comunidade chinesa estimada em 50 mil. A língua oficial e a mais falada é o português, sendo também faladas várias línguas africanas.
Etimologia A cidade ganha o nome através da sua ilha (Ilha de Luanda), local onde os primeiros colonos portugueses se radicaram. O topónimo Luanda provém do étimo lu-ndandu. O prefixo lu, primitivamente uma das formas do plural nas línguas bantas, é comum nos nomes de zonas do litoral, de bacias de rios ou de regiões alagadas (exemplos: Luena, Lucala, Lobito) e, neste caso, refere-se à restinga rodeada pelo mar. Ndandu significa valor ou objecto de comércio e alude à exploração dos pequenos búzios colhidos na ilha de Luanda e que constituíam a moeda corrente no antigo Reino do Congo e reino do Ndongo em grande parte da costa ocidental africana, conhecidos por zimbo ou njimbo.
Como os povos ambundos moldavam a pronúncia da toponímia das várias regiões ao seu modo de falar, eliminando alguns sons quando estes não alteravam o significado do vocábulo, de Lu-ndandu passou-se a Lu-andu. O vocábulo, no processo de aportuguesamento, passou a ser feminino, uma vez que se referia a uma ilha, e resultou em Luanda.
Outra versão para a origem do nome refere que o mesmo deriva de "Axiluandas" (homens do mar), nome dado pelos portugueses aos habitantes da ilha, porque quando aí chegaram e lhes perguntaram o que estavam a fazer, estes responderam "uwanda", um vocábulo que em quimbundo designava trabalhar com redes de pesca.
História Da fundação à dominação neerlandesa thumb|esquerda|Paulo Dias de Novais, o primeiro capitão-governador de Angola
Quando os portugueses chegaram à região onde hoje se localiza a cidade de Luanda, esta era parte integrante do reino do Ndongo, tributário do reino do Congo, e era especialmente importante por ser uma zona produtora de nzimbo, uma pequena concha com valor fiduciário.
Respondendo a um pedido de envio de missionários feito aos portugueses pelo rei Ndambi a Ngola do Ndongo em 1557, no dia 22 de Dezembro de 1559 zarparam de Lisboa três navios com um emissário do rei de Portugal, Paulo Dias de Novais, e dois padres jesuítas, Francisco de Gouveia e Agostinho de Lacerda. Chegados à barra do Cuanza no dia 3 de maio de 1560, a missão portuguesa foi recebida com hostilidade e desconfiança pelo novo rei do Ndongo, Ngola Kiluanje kia Ndambi, que os encarou como agentes do rei do Congo, mandando-os aprisionar. Mais tarde, com a promessa de conseguir apoio diplomático e militar português, Paulo Dias de Novais teve permissão para regressar a Portugal.
Na sua segunda viagem a esta região, Paulo Dias de Novais partiu de Lisboa no dia 23 de Setembro de 1574, acompanhado por mais dois padres da Companhia de Jesus, tendo chegado à Ilha de Luanda em Fevereiro de 1575, aportando com dois galeões, duas caravelas, dois patachos e uma galeota. Aí estabeleceu o primeiro núcleo de colonos portugueses: cerca de 700 pessoas, onde se encontravam religiosos, mercadores e funcionários, bem como 350 homens de armas. thumb|A Ilha de Luanda num mapa de Gerardo Mercator (ca. 1623).
A Ngola Kiluanje kia Ndambi tinha entretanto sucedido a Njinga Ngola Kilombo kia Kasenda, discípulo do padre Francisco de Gouveia que, na sua estadia forçada de dezena e meia de anos, tinha aproveitado para fazer a sua acção evangelizadora entre os angolanos. No dia 29 de Junho de 1575, Paulo Dias de Novais recebeu uma comitiva enviada pelo ngola para o saudar.
Reconhecendo não ser a ilha de Luanda o lugar mais adequado, avançou para terra firme e fundou a vila de São Paulo de Loanda em 25 de Janeiro de 1576, tendo lançado a primeira pedra para a edificação da igreja dedicada a São Sebastião — santo de grande devoção dos portugueses e patrono onomástico do rei de Portugal —, no lugar onde é hoje o Museu das Forças Armadas.
A escolha do novo local para a vila foi influenciada sobremaneira pela existência de um magnífico porto natural, situado numa baía protegida por uma ilha; de uma fonte de água potável, as águas do poço da Maianga na (então) lagoa dos Elefantes; e das excelentes condições de defesa oferecidas pelo morro de São Paulo, após a reconquista do lugar aos neerlandeses designado por morro de São Miguel, após a dedicação do forte que aí existe a São Miguel, santo da devoção de Salvador Correia de Sá.O Mundo Português, Volume VIII, 1941, p. 283 A população constituída pela comitiva de Paulo Dias de Novais, composta por sapateiros, alfaiates, pedreiros, cabouqueiros, taipeiros, um físico e um barbeiro, teve dificuldades de adaptação à inclemência do clima e à carência de condições para a fixação. No entanto, a vila expandiu-se para a "Cidade Alta", na continuação do morro de São Paulo, onde se construíram as instalações para a administração civil e religiosa. Os soldados e os mercadores de escravos viviam na "Cidade Baixa", na área actual dos Coqueiros. thumb|esquerda|upright|A História Geral das Guerras Angolanas de Cadornega, escrito em Luanda em 1680.
Em 1580, chegaram a Luanda dois missionários jesuítas, em 1584 outros dois e, em 1593, mais quatro. Apesar das naturais dificuldades encontradas, as primeiras tentativas da evangelização deram resultados apreciáveis, ao ponto de, em 1590, já se dizer que haver aqui cerca de vinte mil cristãos.
No dia 1 de agosto de 1594, chegou a Luanda um novo governador, João Furtado de Mendonça, que vinha substituir D. Francisco de Almeida e seu irmão D. Jerónimo. Fazia-se acompanhar por doze raparigas órfãs, educadas em Lisboa no recolhimento sustentado pela Misericórdia. A maior parte dos autores vê nestas raparigas as primeiras mulheres brancas que vieram para Luanda. Todas elas casaram com colonos aqui radicados.
Durante este tempo, a economia da cidade assentava exclusivamente no comércio de escravos, proporcionando avultados lucros e um elevado nível de vida. Esta abundância reflecte-se em muitos aspectos da vida da cidade, por exemplo, nas festas levadas a efeito em 1620 para comemorar a beatificação de São Francisco Xavier. O custo da comédia pastoril representada e do fogo-de-artifício que se queimou, atingiu a soma de 3 mil cruzados, uma verba considerada exorbitante na época.
No entanto, nem tudo foram gastos sumptuosos nesta época. Em 1605, com o aumento da população europeia e do número de edificações, que se estendiam já de São Miguel ao largo fronteiro do actual Hospital Josina Machel, a vila de São Paulo de Luanda recebeu foral de cidade, sendo constituída a primeira vereação municipal. Nesta época ergueram-se, na parte alta, as igrejas da Misericórdia, em 1576; a Sé Episcopal, em 1583, no local onde actualmente funciona Casa Militar da Presidência da República; bem como a igreja dos Jesuítas, em 1593; o Convento de São José, em 1604, no local onde hoje se ergue o hospital; o palácio do governador, em 1607; e da Casa da Câmara, em 1623, onde, mais tarde, funcionou o Tribunal da Relação de Luanda.
Luanda tornou-se a partir de 1627 o centro administrativo da região — que se começou a chamar de Angola, mas cuja dimensão era muito limitada. Para a defender foi construída a Fortaleza de São Pedro da Barra, em 1618, e a Fortaleza de São Miguel de Luanda, em 1634. Isto, no entanto, não evitou a sua conquista pelos neerlandeses e o domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, entre 1641 e 1648.
Da reconquista à abolição do tráfico de escravos
thumb|Mapa de Luanda (antiga São Paulo) e São Tomé, 1641. A tomada de Luanda pelos neerlandeses a 25 de agosto de 1641 teve como consequência a brusca interrupção do fornecimento de escravos ao Brasil por parte da Coroa portuguesa, passando o tráfico de escravos para as mãos neerlandesas que conseguiam assim fornecer a mão de obra necessária às suas plantações no nordeste brasileiro. A braços com uma longa guerra com a Espanha, a metrópole portuguesa era incapaz de pôr cobro à situação. Coube, pois, aos próprios governantes locais brasileiros, apoiados pela coroa portuguesa, a organização de uma expedição a Angola.
Uma primeira tentativa de reconquistar Angola foi chefiada pelo governador do Rio de Janeiro Francisco de Souto-Maior à frente de uma expedição constituída por oito navios e 500 soldados, incluindo dezenas de índios. Apesar de a expedição não ter alcançado o resultado esperado o facto de terem logrado trazer para o Rio dois mil escravos deu novo alento aos donos de engenho, que se entusiasmaram com uma nova expedição.
Dois anos mais tarde, nova esquadra de 15 navios atravessou o Atlântico Sul rumo a Luanda. A expedição, capitaneada pelo novo governador do Rio, Salvador Correia de Sá e Benevides, deixou a baía de Guanabara no dia 12 de Maio de 1648, reunindo entre 1400 e 1500 homens, segundo o historiador Charles Ralph Boxer, entre portugueses, brasileiros e angolanos refugiados. A esquadra aproximou-se da capital angolana no dia 12 de agosto, tendo encontrado a cidade protegida por apenas 250 neerlandeses nos Forte do Morro e da Guia, já que o grosso da guarnição, comandada por Symon Pieterszoon, se encontrava em Massangano, combatendo os portugueses com os jagas. thumb|esquerda|Vista actual da Fortaleza de São Miguel de Luanda.
Apesar de nos recontros de Luanda terem perecido 150 portugueses, contra apenas três mortos e oito feridos do lado neerlandês, a expedição logrou infligir um golpe fatal aos neerlandeses, destruindo as suas peças de artilharia, vitais para a sustentação da defesa. Perante isso, o administrador Cornelis Hendrikszoon Ouman pediu a paz.
Nos termos da rendição ficou acordado que deixariam Luanda e os postos avançados no Cuanza e em Benguela, mas levando consigo os escravos que eram propriedade da companhia neerlandesa. Regressado de Massangano, Pieterszoon aceitou a rendição, mas não sem antes distribuir amplamente armas entre os jagas, para que pudessem oferecer resistência aos colonizadores.