Academicismo ou academismo designa, originalmente, o método de ensino artístico profissionalizante concebido, formalizado e ministrado pelas academias de arte europeias. Este método estendeu sua influência sobre todo o mundo ocidental ao longo de vários séculos, desde sua origem na Itália em meados do século XVI, e teve um impacto em várias sociedades não-ocidentais por conta das conquistas do colonialismo. No entanto, os termos não têm uma aplicação consistente entre a crítica especializada, e às vezes ele foi ampliado, e às vezes limitado ou transposto para outras áreas. Para alguns eles se referem à versão do método consolidada na Academia Real de Pintura e Escultura da França, fundada em Paris em 1648 por um grupo de pintores liderados por Charles Le Brun, que impôs uma pedagogia fortemente sistemática, hierarquizada e ortodoxa. O sucesso da proposta francesa a tornou o modelo para a fundação de inúmeras outras escolas de arte de nível superior em vários países, de grande importância para a evolução das correntes barroca, neoclássica e parte da romântica. Outros escritores preferem empregá-los para descrever não tanto um método, mas um estilo particular, nascido nos círculos das academias ou por sua influência, também denominado arte acadêmica ou estilo acadêmico.Kleiner, Fred. Gardner's Art Through the Ages: The Western Perspective. Cengage Learning, 2009. Vol. II, 13ª ed. p. 655Academicismo. Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais. Atualizado em 29/12/2008 Finalmente, para muitos autores, se referem especialmente à arte produzida no âmbito das academias que funcionaram no século XIX.Kino, Carol. Returning the gaze . The National. August 20. 2009 11:11AM GMTKulka, Tomáš. Kitsch and art. Pennsylvania State University Press, 1996. p. 60, nota 23Greenberg, Clement & John O'Brian (editor). The Collected Essays and Criticism: Modernism with a vengeance, 1957-1969. University of Chicago Press, 1995. p. 299 Apesar de serem termos aplicáveis com toda a propriedade a qualquer das artes, a grande maioria dos pesquisadores tem voltado sua atenção principalmente aos efeitos do modelo acadêmico sobre as artes visuais, e dentre elas, a pintura.
As academias nasceram para suplantar o sistema corporativo e artesanal das guildas medievais de artistas, e tinham como pressuposto básico a ideia de que a arte pode ser ensinada através da sua sistematização em um corpo de teoria e prática integralmente comunicável, minimizando a importância da criatividade como uma contribuição toda original e individual. Valorizavam antes a emulação de mestres consagrados, venerando a tradição clássica, e adotavam conceitos formulados coletivamente que possuíam, além de um caráter estético, também uma origem e propósito éticos. As academias foram importantes para a elevação do status profissional dos artistas, afastando-os dos artesãos e aproximando-os dos intelectuais. Também tiveram um papel fundamental na organização de todo o sistema de arte enquanto funcionaram, pois além do ensino monopolizaram a ideologia cultural, o gosto, a crítica, o mercado e as vias de exibição e difusão da produção artística, e estimularam a formação de coleções didáticas que acabaram por ser a origem de muitos museus de arte. Essa vasta influência se deveu principalmente à sua estreita associação com o poder constituído dos Estados, sendo via de regra veículos para a divulgação e consagração de ideários não apenas artísticos, mas também políticos e sociais.Academic Art Style. Encyclopedia of Irish and World Art Por isso, desde sua origem, de parte de grupos de artistas que permaneciam à margem dos reduzidos círculos acadêmicos, foram cercadas de protesto e controvérsia a respeito do que seria uma arte oficial, e suas regulamentações restritivas e universalistas são consideradas um reflexo do absolutismo.Schwarcz, Lilia Moritz. O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d. João. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. pp. 65-66Academy of Art in Rome. Encyclopedia of Irish and World Art
A partir de fins do século XVIII, acentuando-se em meados do século XIX, o sistema acadêmico tradicional, que até então fora um dos principais promotores das vanguardas e o árbitro de toda a arte, perdeu parte da conexão vital com seu contexto e começou a ser atacado vigorosamente pelos praticantes do realismo e do impressionismo, que o acusaram de ser dogmático, conservador e contrário à expressão da individualidade, entrando o sistema em declínio. No início do século XX o antigo método acadêmico entrou em colapso com a ascensão do modernismo, que combateu todas as formas de tradição artística e privilegiou a intuição, a independência criativa e a expressão pessoal liberta de regras apriorísticas. Entretanto, mesmo através do modernismo, diversos princípios do antigo academicismo enquanto método de ensino sobreviveram em iniciativas como a da Bauhaus e outras escolas de arte, e como elemento estilístico pode ser detectado até mesmo em produções paradigmáticas da modernidade, como na intelectualização formalista do cubismo e no uso de símbolos e alegorias pelos surrealistas. Ainda que profundamente reformado, parte do ideal acadêmico primitivo em tempos recentes voltou a ser considerado válido e reingressou no currículo das escolas de arte das universidades e outras instituições de ensino superior, após o reconhecimento de duas necessidades: a de o artista ter um preparo intelectual sólido para poder criar e interagir no mundo da arte contemporânea, e a de se formular alguns critérios valorativos de uso comum. A arte acadêmica mais antiga conseguiu sobreviver ao modernismo como um monumento de eras passadas, mas a produzida na segunda metade do século XIX, a da geração que conviveu com os precursores modernistas, somente em torno da década de 1970 iniciou a ser recuperada pela crítica. Atualmente os seus produtos já são exibidos em vários museus em pé de igualdade com os de escolas mais prestigiadas e seus preços de mercado se elevam, mas o termo "academicismo" ficou impregnado com uma conotação pejorativa e ainda é usado na linguagem corrente para indicar tendências retrógradas, retóricas, artificiais, tecnicistas, ortodoxas, tradicionalistas ou conservadoras.Critic's Turn . Dahesh Museum of Art
Etimologia thumb|220px|Mosaico de Pompeia mostrando a Academia de Platão, século I
A palavra "academia" remonta à Grécia Antiga (em grego: Ακαδήμεια, Akadimeia), denominando um bosque sagrado de oliveiras localizado na periferia de Atenas, dedicado à deusa Atena. Seu nome arcaico era Hekademia (Ἑκαδήμεια), mas no período clássico fora transformado para Akadimeia, por associação com o herói mítico Akademos, que possuíra o sítio. O santuário era especialmente venerado e protegido, e produzia o óleo de oliva que era distribuído como prêmio nos Jogos Panatenaicos.Schmitz, Leonhard. Academus. IN Smith, William. Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. Boston, 1870. Vol. 1, p. 5
Neste local Platão fundou a sua escola de filosofia, que foi conhecida como Academia Platônica. Dali o termo academia atravessou as eras e reapareceu em 1427, quando Poggio Bracciolini chamou sua villa de campo de "sua academia", possivelmente inspirado em Cícero, que assim chamara seu próprio retiro rural. Desde então o termo se tornou de uso corrente entre os humanistas italianos que estavam atualizando o platonismo. Na década de 1450 o grupo de intelectuais reunido em torno de Alamano Rinuccini se autointitulou Chorus Achademiae Florentinae. Na década seguinte, Pomponio Leto reuniu humanistas na Accademia Romana, e em torno de 1471 o cardeal Bessarion formou uma academia que levou seu nome. Mais importante, porém, foi a Accademia Platonica de Marsilio Ficino, organizada na década de 1470 e que contou com nomes como Angelo Poliziano, Cristoforo Landino e Pico della Mirandola.Pevsner, Nikolaus. Academias de arte: passado e presente. Companhia das Letras, 2005. pp. 69-72
O nome academia se difundiu pela Europa e passou a designar tanto um local de reunião de intelectuais e artistas e de estudos clássicos, como o próprio grupo de estudiosos e também uma corrente filosófica. Mais tarde a palavra ampliou ainda mais sua abrangência, podendo ser aplicada como sinônimo de universidade, sala de concertos, teatro ou outra instituição ou grupo cultural, artístico ou científico. Enquanto que as primeiras academias renascentistas eram informais, no século XVI começaram a ser estruturadas com maior rigidez, ainda que com pouca clareza de propósitos. A primeira que estabeleceu estatutos foi a Accademia dei Rozzi, em Siena, em 1531. Seus nomes eram muitas vezes bizarros, como mostram as academias dos Acesos, dos Inflamados, dos Obscuros, dos Renovados, dos Adormecidos, dos Aflitos, dos Desejosos, dos Imaturos, dos Naufragados, e assim por diante. Seus membros recebiam igualmente nomes fantasiosos. Todas elas se envolviam em duas linhas gerais de atividade: as filológicas-filosóficas e as científicas, e as academias especificamente para o cultivo das artes nasceram um pouco mais tarde.Pevsner, pp. 76-78
Origens e fundamentos teóricos As primeiras academias de arte
O surgimento das academias de arte no século XVI se deveu à necessidade de se responder a novas demandas sociais. Vários Estados nacionais, que se dirigiam para o modelo absolutista, entenderam que era preciso criar uma arte que os identificasse especificamente e servisse como símbolo de unidade cívica, e também fosse capaz de consolidar simbolicamente o status de seus governantes. Neste processo a Igreja Católica, antes a maior força política e o maior aglutinante social da Europa, começou a perder parte de sua influência, com a consequência da maior laicização das sociedades. A arte sacra, ao longo da Idade Média de longe o maior campo de expressão artística, passou a conviver com uma arte profana em expansão, derivada de fontes literárias clássicas, que estavam experimentando um lento resgate desde o século XII e que na altura do Renascimento estavam erigidas na referência cultural mais prestigiada e em modelo de qualidade.Duro, Paul. Academic Theory: 1550-1800. IN Smith, Paul & Wilde, Carolyn. A companion to art theory. Wiley-Blackwell, 2002. pp. 89-90Tanner, Jeremy. The sociology of art: a reader. Routledge, 2003. p. 4
Esta reemergência do classicismo exigiu que os artistas se tornassem mais cultos, a fim de transpor de maneira competente este referencial para as artes visuais. Paralelamente, o antigo sistema de produção artística, organizado pelas guildas - associações de classe de caráter artesanal, ligadas mais aos ofícios mecânicos do que à erudição intelectual - começou a ser visto como defasado e socialmente indigno, pois os artistas começaram a desejar uma equiparação ao intelectual versado nas artes liberais, uma vez que a própria arte passava a ser encarada não apenas como um labor técnico, como vinha sendo há séculos, mas principalmente como uma forma de aquisição e transmissão de conhecimento. Neste novo contexto, se passou a entender a pintura e a escultura como passíveis de teorização, assim como já eram teorizadas outras artes como a literatura e especialmente a poesia. Porém, se por um lado os artistas de fato ascenderam socialmente, por outro perderam a segurança da inserção no mercado que o sistema da guilda proporcionava, caindo na situação de ter de viver na expectativa incerta de uma proteção individual por algum mecenas, semelhante, como disse Pevsner, ao humanista que tinha de mendigar na corte dos poderosos, sendo esta a origem primeira da visão do artista como um boêmio, vivendo entre orgulho e miséria, que culminou no Romantismo. Durante os séculos seguintes, ser um artista equivaleu a escolher uma vida de aventura e insegurança econômica.Pevsner, pp. 97-98 thumb|220px|Auto-retrato de Giorgio Vasari.