thumb|Computador a exibir software com dados, em tempo real, do EEG do paciente.
Neurofeedback (NFB), também denominado neuromodulação autorregulatória, neuroterapia, neurobiofeedback, e, finalmente, Condicionamento Operante de Ondas Cerebrais, também conhecido por sua nomenclatura em inglês, EEG Operant Conditioning ou EEG Biofeedback é um tipo de metodologia de biofeedback que utiliza uma touca com eletrodos visando permitir a leitura e o registro da atividade elétrica do cérebro (EEG - eletroencefalografia) do paciente. Esta leitura é feita em tempo real e tem a finalidade de localizar e identificar a presença de eventuais descompensações e desregulações na atividade da circuitaria do cérebro do paciente, que justificam sua sintomatologia, o que tecnicamente chamamos de “mapeamento da atividade cerebral” . Este mapeamento tem por finalidade a elaboração de protocolos de treinamento que permitam promover, durante as sessões de Neurofeedback, o recondicionamento da atividade cerebral identificada como comprometida do sistema nervoso central. No caso da eletroencefalografia são colocados sensores em diversos pontos na cabeça do paciente para medir a atividade cerebral, exibindo medições usando monitores de vídeo ou de som. O neurofeedback baseia-se no registo e análise automática da atividade elétrica do cérebro, com um considerável número de aplicações, com excelentes resultados. Se associado a outras técnicas do biofeedback, as aplicações podem ser de grande amplitude, a exemplo do trabalho com atenção, foco e concentração; reabilitação cognitiva; regulação do sono; avaliação e controle do estresse; aumento de performance física; tratamento de cefaleias e enxaqueca; redução de sintomas de TPM - Tensão Pré-Menstrual; treinos que auxiliam no tratamento de diversos distúrbios e transtornos psíquicos e emocionais (impulsividade, TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Depressão, TGA - Transtorno de ansiedade generalizada, Transtorno do pânico, Transtorno Bipolar, TEA - Transtorno do espectro autista, Esquizofrenia, TOC - Transtorno Obsessivo-Compulsivo, dependência química, entre outros).
Definição O neurofeedback é um tipo de biofeedback, isto é, um treinamento que permite otimizar o funcionamento cerebral. Uma abordagem do funcionamento do cérebro foca a atividade elétrica gerada pelo comportamento de populações de neurônios, que por sua vez pode ser definida por faixas de frequências de onda, as quais podem ser registradas por aparelhos de eletroencefalografia (EEG). Por exemplo, ondas que pulsam entre 16 e 21 pulsos por segundo são consideradas ondas rápidas; já ondas abaixo de 8 pulsos por segundo são consideradas ondas lentas. Na prática, as faixas frequencias são divididas em delta (0-4HZ), teta (4-8HZ), alfa (8-12HZ), beta (12-30HZ) e gama (mais de 30HZ). A premissa é que a experiência e o comportamento estão ligados à predominância de faixas frequencias no cérebro, as quais o EEG mede.
left|thumb|Paciente de neurofeedback, a exibir os elétrodos EEG.
Assim como outras formas de biofeedback, o treino através de neurofeedback (NFB) utiliza aparelhos que monitorizam informação, momento-a-momento, sobre o estado fisiológico do indivíduo e seu respetivo funcionamento e o uso dessa informação como um guia para o paciente. Por exemplo, o paciente tem um disfução em uma faixa frequencial (digamos menos alfa do que seria esperado no contexto), então, o aumento de alfa torna-se o objetivo do tratamento. Como é de se notar, o que distingue o NFB de outros tratamentos de biofeedback é o foco no cérebro. O NFB leva em conta aspetos comportamentais, cognitivos e subjetivos, assim como a atividade cerebral. Durante o treino, são colocados sensores no couro cabeludo do indivíduo, que depois são conectados a componentes eletrónicos de grande sensibilidade e a programas de software que detetam, amplificam e gravam atividade cerebral específica. Não envolve técnicas cirúrgicas ou terapias com medicação e não é doloroso. Quando este treino é aplicado por profissionais credenciados, geralmente não apresenta efeitos secundários negativos.
Estudos mostram que o neurofeedback é eficaz no tratamento de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e epilepsia,Birbaumer, N., Ramos Murguialday, A., Weber, C., & Montoya, P. (2009). Neurofeedback and brain-computer interface clinical applications. International review of neurobiology, 86(09), 107–17. e está a ser realizada pesquisa para investigar a eficácia desta técnica no tratamento de autismo, dores de cabeça, insónia, ansiedade, toxicodependência e traumatismo cranioencefálico. Thornton, K. & Carmody, D. Efficacy of Traumatic Brain Injury Rehabilitation: Interventions of QEEG-Guided Biofeedback, Computers, Strategies, and Medications, Applied Psychophysiology and Biofeedback, 2008, (33) 2, 101-124 alt=sessão de neurofeedback cortesia Neuropulse|miniaturadaimagem|Sessão de neurofeedback cortesia da Neuropulse Sendo um método auto-regulamentado, o NFB difere de outros métodos neuro-moduladores, aceites como consistentes à base de pesquisa científica, como por exemplo audio-visual entrainment (AVE) e estimulação magnética transcraniana repetitiva (do inglês: Repetitive Transcranial Magnetic Stimulation, rTMS), que provocam uma resposta cerebral automática, apresentando um sinal específico. No nível neuronal, o NFB pretende ensinar o indivíduo a modular os padrões excitatórios e inibitórios de conjuntos neuronais específicos e caminhos baseado nos detalhes da instalação de sensores e os algoritmos de feedback utilizados, aumentando a flexibilidade e autorregulação do relaxamento e seus padrões de ativação. É importante se ter em mente que se trata de tratamento clínico, a ser ministrado por médicos e psicólogos, não sendo permitido seu uso por outros profissionais ou técnicos.
História thumb|O neurologista alemão Hans Berger.
Em 1924, o psiquiatra alemão Hans Berger conetou dois elétrodos (pequenos e redondos discos de metal) ao couro cabeludo de um paciente e detetou uma pequena corrente elétrica, por usar um galvanómetro balístico. Durante os anos 1929-1938 ele publicou 14 relatórios acerca dos seus estudos com EEGs, e muito do conhecimento atual sobre este assunto, deve-se à sua pesquisa. Kaiser, David A. "Basic Principles of Quantitative EEG." Journal of Adult Development, Vol. 12, Nos. 2/3, August 2005
Berger analisou os EEGs qualitativamente, mas em 1932 G. Dietsch aplicou a análise de Fourier em sete gravações de EEG e tornou-se o primeiro pesquisador do que mais tarde se chamou QEEG (EEG quantitativo).
Mais tarde, Joe Kamiya tornou o neurofeedback conhecido, na década de 1960, quando um artigo sobre as suas experiências com ondas cerebrais alpha foi publicado em Psychology Today, em 1968. A experiência de Kamiya era dividida em duas partes. Na primeira parte, era solicitado ao paciente que mantivesse os olhos fechados e que, quando ouvisse um determinado som, dissesse aquilo que ele julgasse que o som era, em alpha. Mais tarde, o paciente era informado sobre se tinha acertado ou errado. Inicialmente, o paciente iria obter cerca de 50% de respostas corretas, mas algumas pessoas iriam, com o tempo, desenvolvendo a capacidade de distinguir os diferentes estados e responder acertadamente uma grande maioria das vezes. Na segunda parte do estudo, os indivíduos eram convidados a entrar em alfa, quando uma campainha tocasse uma vez e a não entrar em alpha quando a campainha tocasse duas vezes. Novamente, alguns indivíduos foram capazes de entrar nesses estado quando solicitado. Outros, no entanto, não conseguiam ter controle sobre isso. Não obstante, os resultados foram significativos e muito atrativos. Os estados alpha foram relacionados com relaxamento, e o treino alpha trazia a possibilidade de aliviar condições relacionadas com o stress.
Apesar dessas alegações altamente dramáticas, a correlação universal da densidade alpha a uma experiência com indivíduos não pode ser provada. Os estados alpha não parecem ter o poder de alívio do stress como foi indicado por essas observações antigas.
A certa altura, Martin Orne, e outros, contestaram a ideia de que o alpha biofeedback realmente envolvia treino que regulava voluntariamente a atividade cerebral. James Hardt e Joe Kamiya, na época no Intituto Psiquiatrico Langley Porter da Universidade da California publicaram um jornal, que visava comprovar a eficácia do treino por neurofeedback.
Em finais da década de 1960 e inícios da década de 1970, Barbara Brown, uma das mais entusiastas adeptas do biofeedback, publicou diversos livros sobre esta temática, tornando o público muito mais consciente desta tecnologia. Esses livros incluíam New Mind New Body, com um prefácio de Hugh Downs, e Stress and the Art of Biofeedback.
alt=neurofeedback neuropulse cortesia neuropulse|miniaturadaimagem|Neurofeedback para distúrbios do sono (cortesia Neuropulse) left|thumb|Logo da Associação de Psicofisiologia Aplicada e Biofeedback, fundada em 1969 com o objetivo de promover uma nova compreensão do biofeedback e avançar os métodos utilizados nesta prática.
A obra de Barry Sterman, Joel F. Lubar, e sua equipa, indicou a alta eficácia do treino beta, implicando o papel da atividade EEG por ritmo sensorio-motor. Esta técnica de treino tem sido usada no tratamento da epilepsia, síndrome de défice de atenção e hiperatividade. O ritmo sensorio-motor (SMR) refere-se à atividade rítmica, entre os 12 e 16 hertz, que pode ser gravada de uma área próxima do córtex sonsorio-motor. O SMR pode ser atingido no estado acordado e é muito idêntico, senão igual, aos fusos de sono que se verificam no segundo estado do sono. Por exemplo, estudos de Sterman demostraram que o treino por SMR está associado a um processo inibitório do sistema motor e, por isso, aumentando o SMR através de condicionamento operante, aumenta a capacidade de controlar convulsões.
Durante anos, o neurofeedback foi considerado uma parte menor no campo do biofeedback. AAPB AAPB Em fevereiro de 1993, Rob Kall, presidente da Futurehealth, organizou o primeiro encontro anual de Estudos do Cérebro, Winter Brain Meeting Winter Brain Meeting em Key West, Florida. O encontro juntou muitas das personagens pioneiras neste campo e criaram uma base para que os dirigente pudessem discutir e planear estratégias a fim de criar influências para o desenvolvimento do neurofeedback.
Em abril de 1993, Ken Tachiki, Jim Smith e Bob Grove organizaram um encontro de líderes no campo do neurofeedback, em Catalina Island. Surgiu então a Sociedade Regulamentadora dos Estudos Neuronais (SSNR). Posteriormente a SSNR tornou-se a International Society for Neuronal Regulation (ISNR), que mais tarde ficou conhecida como Sociedade Internacional de Pesquisa e Neurofeedback. http://www.isnr.org ISNR ISNR]
Mas o neurofeedback ainda não era praticado em massa. Por muito tempo, o preço e a qualidade dos equipamentos necessários à prática do neurofeedback (entre 5 a 20 mil dólares) foram barreiras à disseminação desta prática. Somente no início dos anos 90, e devido à difusão da informática, apareceram dispositivos com preços mais acessíveis (1 a 5 mil dólares). Outro principal obstáculo para o desenvolvimento do neurofeedback foi falta de entendimento entre as classes profissionais envolvidas. Em 1999, devido ao lançamento da primeira monografia dedicada ao neurofeedback, pela Academic Press, houve mudanças. Desde então, as companhias de seguros dos EUA estão a cobrir os custos de tratamento de perturbações da atenção com este método. O número de publicações científicas a ele dedicadas está a crescer todos os anos. Desenvolvido inicialmente nos Estados Unidos, o neurofeedback é hoje objeto de divulgação nos mais diversos países. Há alguns anos, foram criadas a Biofeedback Foundation of Europe e a filial europeia da International Society for Neuronal Regulation.
Treino por Neurofeedback