direita|thumb|300px|A partida de xadrez

Sofonisba Anguissola (Cremona, 1532 Palermo, 16 de Novembro de 1625), foi uma pintora renascentista italiana, discípula de Bernardino Campi. Foi admirada por Michelângelo e Anthony van Dyck, entre outros.

Anguissola nasceu no seio de uma família nobre, mas relativamente pobre. Ela recebeu uma educação boa e completa, que incluiu as belas artes, a sua aprendizagem com pintores locais estabeleceu um precedente para que as mulheres pudessem ser aceitas como estudantes de arte. Enquanto jovem mulher, Anguissola viajou para Roma, onde foi apresentada a Michelangelo, que imediatamente reconheceu o seu talento, e para Milão, onde pintou o Duque de Alba e Isabel de Valois, mulher de Filipe II de Espanha, que era pintora amadora.

Até 1559, ainda jovem e vivendo na Itália, ela produziu majoritariamente autorretratos e cenas familiares, identificando-se em várias inscrições como “filha de Amilcare” e enfatizando sua condição de virgem. Esses marcadores reforçam não apenas valores socialmente desejáveis para a época, mas também indicam como a própria artista mobilizava elementos da feminilidade — virtude, recato, lealdade familiar — de forma consciente e sofisticada, compondo um imaginário feminino idealizado que permeia grande parte de sua obra inicial.

É nesse contexto que A Partida de Xadrez (1555) se destaca como uma obra paradigmática. A pintura retrata as irmãs Elena, Minerva e Lucia, acompanhadas por uma criada, em um momento de lazer que se converte em uma das primeiras pinturas de conversação do período. Assinada e datada na borda do tabuleiro, a obra estabelece uma forte proximidade emocional entre observador e personagens, instaurando a atmosfera intimista tão característica de Sofonisba. As vestes sinalizam o status social das jovens, enquanto a presença do xadrez — tradicionalmente associado à educação aristocrática masculina — evidencia o ambiente intelectual da família Anguissola. A segurança da irmã mais velha ao realizar sua jogada, somada ao riso contido e aos gestos sutis das demais, revela uma interação feminina raramente representada na época: inteligente, afetuosa, segura de si e inserida em um universo doméstico onde a educação e o refinamento intelectual das mulheres eram valorizados.

Leituras como as apresentadas no documentário dedicado ao quadro, “Sofonisba’s Chess Game”, estreado em 2025 e dirigido por Howard Burton, reforçam ainda mais a força simbólica e caráter inovador da arte de Sofonisba (16). Críticos destacam a capacidade dela de construir composições psicologicamente densas e culturalmente informadas, aproximando seu trabalho do de mestres como Leonardo da Vinci. Nesse sentido, o xadrez funciona como metáfora da própria trajetória da artista, que precisou articular estratégia, disciplina e sensibilidade para afirmar-se em espaços predominantemente masculinos. Sua escolha temática, portanto, reafirma sua intenção de representar mulheres engajadas intelectualmente, consolidando um imaginário feminino que ultrapassa as expectativas de sua época (17).

Posteriormente em 1569, Anguissola foi convidada para ir para Madrid e ser tutora de Isabel, com o posto de dama de companhia. Mais tarde, ela tornou-se pintora oficial da corte do rei e adaptou o seu estilo às exigências mais formais de retratos oficiais para a corte espanhola. Após a morte da rainha, Filipe ajudou a organizar-lhe um casamento aristocrático. Mudou-se para Palermo e, posteriormente, Pisa e Génova, onde continuou a atividade como pintora principal de retratos.

As suas pinturas mais características e atrativas são os retratos de si e da sua família, pintados antes de ela ter-se mudado para a corte espanhola. Em particular, as suas pinturas de crianças eram inovadoras e muito apreciadas. Na corte espanhola pintou retratos de Estado formais, no estilo oficial em vigor. No fim da vida, ela também pintou temas religiosos, embora muitas das suas pinturas religiosas tenham sido perdidas. Anguissola tornou-se numa rica patrona das artes após o enfraquecimento da sua vista, e em 1625 morreu aos noventa e três anos de idade em Palermo.

O historiador de arte Giorgio Vasari descreveu Sofonisba Anguissola como alguém que "mostrou maior dedicação e graça do que qualquer outra mulher do nosso tempo nas sua ambições em desenho; portanto ela não só conseguiu isso no desenho, como também na coloração e pintura da natureza, e como na cópia excelentemente de outros artistas, mas também por que ela mesma criou pinturas raras e muito bonitas".

Família miniaturadaimagem|Autorretrato em miniatura (1556) O nome da família Anguissola tem a sua origem em uma antiga tradição bizantina. De acordo com essa tradição, os Anguissola são descendentes de Galvano Sordo (Σούρδη, um nome de família ainda em uso hoje na Grécia, Constantinopla e Esmirna). Em 717 d.C, Galvano serviu no exército do Imperador Leão III, o Isaurino. Após a vitória de Galvano sobre os omíadas, criou-se o grito de guerra "Anguis sola fecit victoriam" ("A cobra trouxe a vitória sozinha"). O ditado se tornou popular, e Galvano foi apelidado de "Anguissola". Posteriormente, o imperador concedeu o sobrenome Anguissola aos seus descendentes. Foi sugerido que o monograma retratado no autorretrato em miniatura de Sofonisba Anguissola traga o lema da sua família ou, simplesmente, o nome de seu pai, Amilcare. Fugindo de uma pestilência que assolava Constantinopla, os descendentes do primeiro Anguissola se estabeleceram na Itália, casaram-se com outras famílias nobres como os Komnenoi, os Gonzagas, os Caracciolos, os Scottis e os Viscontis, e construíram propriedades autônomas em Piacenza, Cremona, Vicenza e outras regiões da Itália. Os Anguissola que se estabeleceram em Veneza pertenceram ao patriciado daquela cidade de 1499 a 1612.

Infância e educação Sofonisba Anguissola nasceu em Cremona, Itália em 1532. Seu pai era Amilcar Anguissola e sua mãe Bianca Ponzoni, e pertenciam à pequena aristocracia local. Era a irmã mais velha de seis irmãs e um irmão. E por conta de terem formação suficiente, se preocuparam em educar seus filhos na área do latim, letras, pintura e instrumentos musicais. Os filhos do casal Anguissola tiveram sua educação baseada no manual de Baldassare Castiglioni, “O Cortesão”, onde o autor expunha que os mesmos atributos que eram necessários para um membro masculino da corte também deveriam ser necessários às mulheres, como a pintura, tocar instrumentos, cantar e escrever poesias. Sofonisba e duas de suas irmãs estudaram no atelier de Bernardino Campi (1522-1591) entre os anos de 1550 e 1559. Sofonisba e suas irmãs se concentraram em pintar retratos no âmbito familiar e seus autorretratos (o retrato, sendo um dos poucos gêneros vistos como aceitáveis de serem produzidos por artistas mulheres). Lá, Sofonisba desenvolveu um estilo à maneira de seu mestre Bernardino Campi. Porém, apresentou muita originalidade na aplicação da luz, nas cenas, na exploração das texturas e na expressão de seus personagens, desenvolvendo sua prórpia técnica singular.BAYER, A. Sofonisba Anguissola and her sisters. Cremona, Viena and Washington. The Burlington Magazine, v. 13, n. 1104, p. 201-202, Mar. 1995.Sofonisba anguissola, Cindy Sherman: autorretratos Ligia de Oliveira Barros A artista teve grande incentivo por parte de seu pai, que querendo difundir a filha, leva diversas vezes seus trabalhos à Roma. Inclusive enviando uma carta contendo um de seus desenhos para Michelangelo.

Corte Espanhola Devido à crescente fama de Sofonisba, o Duque de Sessa - representando o rei Felipe II da Espanha - envia uma carta para Amilcare Anguissola em 1559 pedindo para que Sofonisba fosse enviada para a corte da Espanha, o que foi um ponto de virada em sua carreira. Anguissola tinha aproximadamente 26 anos quando deixou a Itália para se juntar à corte espanhola. Felipe II estava prestes a se casar com Isabel de Valois, sua terceira esposa, e convidou Sofonisba para ser dama de companhia da futura rainha, que também se considerava uma retratista, porém amadora.

Anguissola logo conquistou a admiração e a confiança da rainha e passou os anos seguintes pintando muitos retratos oficiais para a corte. Esse estilo de pintura era muito mais exigente do que os retratos informais nos quais Anguissola baseou sua reputação inicial, pois exigia uma quantidade enorme de tempo e energia para reproduzir os muitos desenhos complexos de tecidos finos e joias elaboradas associadas aos súditos reais.

Durante sua residência de 14 anos, ela orientou o desenvolvimento artístico da rainha Isabel e foi dama e tutora das duas princesas, Isabel Clara Eugênia e Catalina Micaela. Após a morte da rainha, Sofonisba restringe sua arte à retratística tendo pintado a sucessora de isabel, ana da austria que foi rainha consorteda espanha, portugal e nápoles,agora dos membros da corte. Sofonisba adaptou seu estilo de pintura às normas do retrato da corte espanhola, porém permaneceu fiel ao seu interesse pela representação da intimidade da pessoa retratada, e de manter na obra algum caráter anedótico que quebrasse um pouco a rigidez do ambiente cortês.

Experiências enquanto artista mulher É notório o declínio da atuação das mulheres na sociedade durante o Renascimento, uma vez que a Legislação Romana provocou um recuo significativo no espaço participativo que as mesmas tinham na esfera pública. Vistas como "desqualificadas" para atuar na vida intelectual, Sofonisba, opõe-se à essa conjuntura renascentista onde a mulher era excluída e relativizada e consegue desenvolver sua atividade artística para o campo profissional.

Anguissola e seus irmãos tiveram sua educação baseada no manual de Baldassare Castiglioni, "O Cortesão", que afirmava que os atributos ensinados aos membros masculinos da corte deveriam também ser ensinados às mulheres, como a pintura, tocar instrumentos, cantar e escrever poesias.CREMASCO, Renata Lima. As mulheres (in)visíveis na Arte Renascentista. Encontro de História da Arte, Campinas, SP, n. 14, p. 361–368, 2019. DOI: 10.20396/eha.vi14.3476. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/eventos/index.php/eha/article/view/3476.

Como pintora mulher na segunda metade do século XVI, devia se restringir a gêneros específicos como: pintura religiosa, naturezas mortas ou a pinturas de retratos. Desse modo, para realizar seus trabalhos, desempenhava retratos de suas irmãs, de seu irmão e dos irmãos, além de diversos autorretratos.HARGRAVE, Isabel. Sofonisba Anguissola (1532/38-1625): uma pintora italiana no renascimento espanhol. Encontro de História da Arte, Campinas, SP, n. 6, p. 211–219, 2010. DOI: 10.20396/eha.6.2010.3824. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/eventos/index.php/eha/article/view/3824.

Devido a seu sucesso, Sofonisba foi muito creditada como apta a incorporar vida a imagens, sendo a exceção a regra imposta sobre as mulheres artistas de sua época.Woman's Capacity to Create: The Unusual Case of Sofonisba Anguissola, by FREDRIKA H. JACOBS. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/2863112?read-now=1&seq=24#page_scan_tab_contents Tendo limitações para se expressar em seus trabalhos artísticos devido a seu gênero, Sofonisba soube aproveitar todos os recursos disponíveis para edificar a natureza da representação e exposição de suas obras.

Na construção de sua identidade utiliza suas habilidades para mostrar ao observador, seu público, como realmente queria ser vista, completando sua intenção através das vestimentas, acessórios e objetos utilizados no seu contexto histórico, também questionando a imagem estereotipada da mulher daquela época.Sofonisba anguissola, Cindy Sherman: autorretratos Ligia de Oliveira

Barros. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/328074447.pdf

Anos finais