Abelardo Germano da Hora (São Lourenço da Mata, 31 de julho de 1924 — Recife, 23 de setembro de 2014) foi um artista plástico brasileiro.ARTE no Brasil. São Paulo, Abril Cultural. Escultor, desenhista, gravurista, pintor, ceramista, professor e poeta. Formado em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes do Recife e em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.
Categoria:Naturais de São Lourenço da Mata Categoria:Escultores de Pernambuco Categoria:Pintores de Pernambuco Categoria:Desenhistas de Pernambuco Categoria:Gravadores de Pernambuco Categoria:Ceramistas de Pernambuco Categoria:Oficiais da Ordem de Rio Branco Categoria:Agraciados com a Ordem do Mérito Cultural Categoria:Sepultados no Cemitério de Santo Amaro (Recife)
Biografia Abelardo Germano da Hora, filho de José Germano da Hora e Severina Maria Germano da Hora, nasceu aos 31 de julho de 1924 na Usina Tiúma, em São Lourenço da Mata (Pernambuco). A partir de 1928, muda-se com a família para a Usina São João da Várzea, no subúrbio do Recife.
Em 1939, Abelardo entrou para a Escola de Belas Artes do Recife. No mesmo ano, ingressou no curso de escultura, desta instituição. Estudou desenho, gravura, pintura e escultura, com uma geração de grandes mestres, anteriores à dele, destacando-se com maestria e virtuosismo em todas as técnicas. miniaturadaimagem|Abelardo da Hora em seu atelier no Engenho São João da Várzea, Recife, em 1944. Foto: acervo de família. A partir de 1940, começou a integrar o Diretório Estudantil da Escola de Belas Artes e foi eleito seu presidente em 1941, onde começou a estimular os estudantes a visitarem “a vida lá fora”, liderando grupos de alunos a desenhar e pintar paisagens urbanas e rurais, bem como as matas e a vida agitada nos subúrbios do Recife.
Seu trabalho chamou a atenção do industrial Ricardo Brennand, que possuía residência na região e o contratou, trabalhando com ele no período de 1943 até 1945, realizando vários projetos ligados às temáticas regionais, fauna e flora, manifestações culturais, a vida cotidiana da usina e adjacências, além de encomendas dos clientes da indústria cerâmica, produzindo relevos tanto em barro, quanto cerâmica artística e terracota(1). Em 3 de março de 1945 participou, no Recife, do comício pela redemocratização do país e contra a ditadura Vargas. Um de seus acompanhantes foi um dos filhos do industrial Ricardo Brennand: Francisco (Brennand), que teve Abelardo como seu primeiro professor de Arte e mestre para a vida. AMARAL, Aracy. Arte para quê?: a preocupação social na Arte brasileira 1930-1970: subsídio para uma história social da Arte no Brasil. São Paulo, Nobel. miniaturadaimagem|Abelardo da Hora (esq), em visita ao Museu Nacional RJ com Heloísa Alberto Torres (diretora na época) e Augusto Rodrigues; 1946. Foto: acervo de família. Em 1945 viajou para o Rio de Janeiro e instalou-se numa pensão do centro da cidade. Ali conheceu os irmãos Augusto e Abelardo RodriguesGASPAR, Lúcia. Abelardo da Hora. Recife, Fundação Joaquim Nabuco., e passou a acompanhar a atuação do Partido Comunista do Brasil (PCB) na Câmara dos Deputados da então capital federal. Fez a escultura “A Família” para participar do Salão de Belas Artes, que foi suspenso pelo presidente Dutra. Em 1946, voltou para o Recife(2). Abelardo passou o ano de 1947 preparando sua primeira exposição de esculturas, que foi realizada em abril de 1948 na Associação dos Empregados do Comércio de Pernambuco. Na vernissage da exposição, criou a Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), juntamente com o arquiteto Hélio Feijó e a artista Ladjane Bandeira, sendo presidente da SAMR por dez anos.BRUSCKY, Paulo (org.); LEITE, Ronildo Maia (org.). Abelardo de todas as horas. Recife: Fundarpe.. miniaturadaimagem|Escultura “A Fome e o Brado” (versão em bronze), 1947, participante da primeira exposição de Abelardo da Hora. A partir dos anos 1950, Abelardo da Hora passou a ser peça-chave na movimentação cultural de Pernambuco, contribuindo decisivamente para a forma como este estado seria visto pelo país no campo das artes. Os frutos da SAMR gerariam o Ateliê Coletivo (1952 a 1957), onde Abelardo foi seu presidente e coordenou ações em várias vertentes das artes visuais, dando aulas e formando grupos de novos artistas, e gerando intercâmbios regionais, nacionais e internacionais, especialmente com os Clubes de Gravura de outros estados(3). O Ateliê marca o rompimento com o sistema acadêmico de ensino implantado pela Escola de Belas Artes local. Tratava-se de um dos primeiros movimentos de artistas organizados na capital pernambucana, responsável, entre outros, pelos 3º e 4º Salões de Arte Moderna, como continuação dos 1º e 2º Salões dos Independentes da década anterior. No Ateliê Coletivo, o objetivo central era "valorizar a arte e revigorar o caráter brasileiro de nossa criação artística", indicava o próprio Abelardo. No Ateliê, formou e trabalhou junto com outros grandes artistas, como Corbiniano Lins, Ladjane Bandeira, José Cláudio, Gilvan Samico, Wilton de Souza, Ivan Carneiro, Wellington Virgolino, Reynaldo Fonseca, entre outros. No campo político, foi um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular, na gestão do então prefeito do Recife Miguel Arraes de Alencar, em 1960. miniaturadaimagem|Torre Cinética, obra de arte em espaço público, criada por Abelardo da Hora em 1961, no Recife. À esquerda, imagem do Diário de Pernambuco, em foto no momento da inauguração da obra. À direita, maquete 3D em exposição no Memorial Abelardo da Hora (inaugurado em 2022). Criou, entre os anos 1961 e 1963 a série “Meninos do Recife”, desenhos a bico de pena onde o mestre denunciava a situação de pobreza e de risco das crianças de rua da cidade, apresentando um traço e um estilo próximos ao cubismo com um viés expressionista, típicos de sua obra(4). Entre os anos 1950 e 1960, povoou a cidade do Recife com esculturas de temas populares e de formas arredondadas – típicas da tradição Nordestina e Pernambucana vindas desde Vitalino; bem como projetos de mobiliário urbano, monumentos; e fez, ainda, a primeira escultura pública de grande escala do “Espaço Dinamismo” (ou Arte Cinética) no Brasil, em 1961: a torre de iluminação, que ficava no que se chama hoje de Bairro da Torre, no Recife – tendo sido destruída pelos militares durante o golpe.
Produziu, também, trabalhos no campo do muralismo, tanto para o Recife, quanto para outras capitais do Nordeste – trabalho que também levou até o fim da vida, ao finalizar, em 2012, série de murais para as fachadas de hospitais públicos em Pernambuco(5).
Ao lado de seu trabalho como artista, teve participação de igual magnitude na política, tendo sido membro do PCB até o golpe militar de 1964 e sendo figura importante nos processos da redemocratização do país. Com o golpe, Abelardo também foi afastado de sua função como Secretário de Educação e Cultura na Prefeitura do Recife, e preso, junto com o líder do partido Gregório Bezerra. A partir disso, ele, Gregório e outros integrantes do partido (como Jorge Amado e Oscar Niemeyer) deixaram o PCB, mas mantiveram a militância progressista.
Sem condições de trabalhar no Recife, Abelardo mudou-se para São Paulo, onde foi recebido pela amiga Lina Bo Bardi e seu marido Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp).ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo, Itaú Cultural. Nessa cidade, lançou a coleção de desenhos “Danças Brasileiras Populares de Carnaval”, um trabalho minucioso de evocação das danças tipicamente brasileiras, de várias regiões, onde ele usou o seu desenho e seu traço inconfundíveis em nanquim, acrescentando cores em acrílico, com vernissage na Galeria Mirante das Artes. A partir de 1966, passou a trabalhar na TV Tupi, onde assinou cenários para produções do canal, com destaque para seu trabalho na novela “A Ré Misteriosa”, cujo projeto foi premiado na IV Feira Nacional da Indústria (conhecida como Fenit). Em seu retorno ao Recife, tornou-se empresário, nos anos 1970, com seu irmão Luciano, do ramo de pesca e pescados, mas continuou sua atividade artística.
Também nos anos 1970, passou temporada em Paris, trabalhando, convivendo com a cena artística local e participando de exposições coletivas. Ao retornar ao Recife, voltou a produzir intensamente, seja a nova série de esculturas com a temática da mulher – que levou até o fim da vida-, seja trabalhos em cerâmica com motivos da fauna, da flora, e da cultura afrobrasileira, especialmente sobre as divindades do Candomblé.
Abelardo sempre teve papel decisivo no desenho da paisagem lúdica da cidade do Recife, desde os anos 1950, com o desenvolvimento de diversas esculturas de temas populares para praças públicas da cidade, dos icônicos escorregos de concreto nos parques infantis, ou com a sugestão ao poder público de colocação de esculturas em áreas construídas com mais de mil metros quadrados (aprovado pela Câmara Municipal do Recife, tornando-se lei). A partir dos anos 1980, passou a povoar prédios privados e shopping centers da cidade com suas esculturas de mulheres gigantescas em concreto.DA HORA ALVES, D. (org.); DA HORA FILHO, A (org.) Amor e Solidariedade: catálogo de exposição. Recife, Ed. Dom Bosco. miniaturadaimagem|Primeira obra da série “Mulher Objeto de Repouso”. Concreto armado / polido, 1975.
Em 1975, a convite do prefeito municipal de Sousa, na Paraíba, Gilberto Sarmento, fez a estátua de Frei Damião, na qual o próprio Frei Damião fez o lançamento da pedra fundamental e a missa de inauguração. Hoje é local de peregrinação de milhares de devotos. miniaturadaimagem|Escultura “Mulher Reclinada V”, bronze, 1998 - acervo Memorial Abelardo da Hora. Foto: JC / divulgação. Nos anos 1980, participou de grandes exposições pelo país, incluindo cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1983 foi eleito presidente da Associação dos Artistas Plásticos de Pernambuco e nomeado membro do Conselho Municipal de Cultura, pela prefeitura do Recife. Em 1986, foi criado o Espaço de Esculturas Abelardo da Hora, pertencente à prefeitura de Recife, às margens do Rio Capibaribe, um dos cartões postais da cidade. No mesmo ano, voltou a expor em Paris, no Centro Internacional de Arte Contemporânea(7).
Intelectual com formação em Artes e Direito, a partir dos anos 1990 até os anos 2010 passou a ser figura constante na mídia de Pernambuco, dando opiniões sobre as questões da cidade, do estado e do país. Nesse período recebeu diversas homenagens e condecorações, entre elas a Medalha da Ordem do Mérito dos Guararapes, pelo então governador de Pernambuco Eduardo Campos, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural (Grã-Cruz), pela então presidente Dilma Rousseff, e a comenda da Ordem do Rio Branco, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.PERNAMBUCANOS em Brasília. Brasília, Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Inaugurou, ainda em vida, a partir de 2004, o Instituto Abelardo da Hora (iAH), Oscip cultural idealizada por seu filho Abelardo da Hora Filho e seu neto Daniel da Hora (filho da terceira filha, Lêda). Com os projetos do iAH, passou a ter sua obra divulgada em várias plataformas editoriais, tanto impressas como digitais, e ganhou exposições itinerantes em diversas cidades do Brasil, até depois de sua morte.