Carlos Heitor Cony (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2018) foi um jornalista e escritor brasileiro. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000, foi colunista do jornal Folha de S.Paulo e comentarista da rádio CBN.
Biografia Filho do jornalista Ernesto Cony Filho, considerado "obscuro", e de Julieta Moraes Cony, Carlos Heitor Cony cresceu no bairro de Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro. Foi considerado "mudo" pela família até os quatro anos de idade, quando pronunciou suas primeiras palavras reagindo a um barulho provocado por um hidroavião em Niterói. Por causa desse problema, que seria resolvido apenas quando o escritor tinha 15 anos em uma cirurgia, Cony foi alfabetizado em casa e estudou no Seminário Arquidiocesano de São José, no bairro carioca do Rio Comprido até 1945, abandonando-o antes da ordenação como padre. No ano seguinte, começou a cursar a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, mas interrompeu o curso em 1947, e teve sua primeira experiência como jornalista no Jornal do Brasil cobrindo férias de seu pai.
Trabalhou como funcionário público da Câmara Municipal do Rio de Janeiro até 1952, quando se tornou redator da Rádio Jornal do Brasil. Em 1955, começou a trabalhar na sala de imprensa da Prefeitura do Rio de Janeiro como setorista do Jornal do Brasil em substituição ao pai, que sofrera uma isquemia cerebral. No mesmo ano, escreve seu primeiro romance, O Ventre. Em 1956, inscreve a obra no Prêmio Manuel Antonio de Almeida, organizado pela Prefeitura. O júri do concurso considera o livro "muito bom", mas nega-lhe o prêmio por ser "forte demais". Em nove dias, escreve e inscreve um segundo livro, A Verdade de Cada Um, e ganha o concurso no ano seguinte. Outro livro de Cony, Tijolo de Segurança, ganharia o mesmo prêmio em 1958. Esses três livros iniciais do autor foram lançados em 1958, 1959 e 1960, respectivamente, pela editora Civilização Brasileira. thumb|direita|250px|Carlos Heitor Cony autografa seu livro O ato e o fato em 1964 Em 1960, entrou para o jornal carioca Correio da Manhã na função de copidesque e editorialista. Entre 1963 e 1965, manteve uma coluna no jornal Folha de S.Paulo, revezando espaço com a poetisa Cecília Meirelles. Inicialmente tendo apoiado o golpe militar de 1964 que tirou João Goulart da presidência da república, Cony se arrependeu da adesão e rapidamente veio a opor-se abertamente ao golpe, sendo preso por seis vezes ao longo do regime militar. Como editorialista do Correio da Manhã, escreveu textos críticos aos atos da ditadura militar, que foram reunidos em um livro, O Ato e o Fato, lançado ainda em 1964. Pressionado pela posição política, acabou pedindo demissão do jornal.
Após responder oito processos, três inquéritos e ser preso seis vezes por “delito de opinião”, deixou o país em 1967, se auto-exilando em Cuba durante um ano ao ser convidado pelo governo cubano para participar do júri do Prêmio Casa de Las Americas. Quando voltou ao Brasil, no ano seguinte, foi convidado pelo empresário Adolpho Bloch para trabalhar nas revistas publicadas pela Bloch Editores. Durante boa parte do período em que esteve na Bloch, entre 1968 e 2000, deixou de lado a literatura de ficção. Publicou seu último livro ficcional em 1973, Pilatos. Dedicando-se quase que integralmente ao jornalismo, foi colunista, repórter especial e editor de publicações como Manchete, Desfile, Fatos&Fotos e Ele Ela.
Além de trabalhar na mídia impressa, Cony também foi diretor de teledramaturgia da Rede Manchete entre 1985 e 1990, tendo escrito os primeiros capítulos da primeira minissérie da emissora, Marquesa de Santos, o projeto da novela Dona Beija, e a ideia original de Kananga do Japão juntamente com Adolpho Bloch.
Em 1993, Cony foi convidado pelo jornalista Jânio de Freitas para voltar a escrever para a Folha de S.Paulo, assumindo a coluna "Rio", ocupada antes pelo escritor Otto Lara Rezende. A primeira coluna na Folha saiu em 14 de março daquele ano. Cony escreveu no jornal até a morte. Depois de 22 anos afastado da literatura de ficção, em 1995, lançou Quase Memória, livro que marcou seu retorno ao gênero e se tornou uma de suas obras mais famosas após vender mais de 400 mil exemplares, recebendo também o Prêmio Jabuti de 1996 na categoria Livro do Ano - Ficção.
Cony recebia polêmica pensão do governo federal em decorrência de legislação que autoriza pagamento de indenização aos que sofreram danos materiais e morais vitimados pela ditadura militar. O benefício, chamado de prestação mensal permanente continuada, foi aprovado pela Comissão de Anistia em 21 de junho de 2004, correspondendo à época em cerca de R$ 23 mil, que equivaleria ao salário que receberia no jornal caso não tivesse sido obrigado a se desligar. O valor mensal foi à época limitado a R$ 19 115,19, o teto do funcionalismo de então.Comissão de Anistia aprova indenizações. Folha de S.Paulo, 22/06/2004.
Em 2013, o escritor sofreu uma queda na Feira do Livro de Frankfurt, ocasionando a presença de um coágulo em seu cérebro. Debilitado pelo acidente e um câncer linfático que o acompanhava desde 2001, Cony morreu em 5 de janeiro de 2018, no Rio de Janeiro, devido a problemas no intestino e falência múltipla dos órgãos.
Academia Brasileira de Letras Foi eleito para a cadeira 3 cujo patrono é Artur de Oliveira, em 23 de março de 2000, sendo o seu quinto ocupante. Foi recebido em 31 de maio do mesmo ano por Arnaldo Niskier.
Obras
Romances
1958 - O Ventre 1959 - A Verdade de Cada Dia 1960 - Tijolo de Segurança 1961 - Informação ao Crucificado 1962 - Matéria de Memória 1964 - Antes, o Verão 1965 - Balé Branco 1967 - Pessach: A Travessia 1973 - Pilatos 1995 - Quase Memória 1996 - O Piano e a Orquestra 1997 - A casa do Poeta Trágico 1999 - Romance sem Palavras 2001 - O Indigitado 2003 - A Tarde da sua Ausência 2006 - O Adiantado da Hora 2007 - A Morte e a Vida 2022 - Paixão segundo Mateus
Crônicas
1963 - Da Arte de Falar Mal 1964 - O Ato e o Fato 1965 - Posto Seis 1998 - Os Anos mais Antigos do Passado 1999 - O Harém das Bananeiras 2002 - O Suor e a Lágrima 2004 - O Tudo ou o Nada 2009 - Para ler na Escola
Contos
1968 - Sobre Todas as Coisas - reeditado sob o título Babilônia! Babilônia! 1978 - Babilônia! Babilônia! 1997 - O Burguês e o Crime e Outros Contos
Ensaios biográficos
1965 - Charles Chaplin 1972 - Quem Matou Vargas 1982 - JK - Memorial do Exílio 1985 - Teruz
Jornalismo
1975 - O Caso Lou - Assim é se lhe Parece 1981 - Nos passos de João de Deus 1996 - Lagoa
Cinema 1975 - A Noite do Massacre
Infanto-juvenis
1965 - Quinze Anos 1977 - Uma História de Amor 1979 - Rosa, Vegetal de Sangue 1979 - O Irmão que tu me Deste 1986 - A Gorda e a Volta por Cima 1989 - Luciana Saudade 2002 - O Laço Cor-de-rosa 2014 - Vera Verão
Adaptações
1971 - Ben-Hur - de Lew Wallace 1972 - A Ilha Misteriosa - de Júlio Verne 1972 - As Maravilhas do Ano 2000 - de Emilio Salgari 1972 - O Leão de Damasco - de Emilio Salgari 1972 - Os Meninos Aquáticos - de Charles Kingsley 1972 - Ali Babá e os Quarenta Ladrões - de As Mil e uma Noites 1972 - Simbad, o Marujo - de As Mil e uma Noites 1973 - Um Capitão de Quinze Anos - de Júlio Verne 1973 - Tom Sawyer Detetive - de Mark Twain 1974 - As Viagens de Tom Sawyer - de Mark Twain 1974 - O Diário de Adão e Eva - de Mark Twain 1974 - Taras Bulba - de Nikolai Gogol 1978 - Pinóquio da Silva - de Carlo Collodi 1980 - A Máscara de Ferro - de Alexandre Dumas, pai 1983 - O Livro dos Dragões - de Edith Nesbit 1983 - Crime e Castigo - de Fiódor Dostoiévski 1985 - Um Ianque na Corte do Rei Artur - de Mark Twai 1987 - O Califa de Bagdá - de As Mil e Uma Noites 1987 - Aladim e a Lâmpada Maravilhosa - de As Mil e Uma Noites 1989 - O Roubo do Elefante Branco - de Mark Twain 1998 - O Ateneu - de Raul Pompeia 1998 - O Primo Basílio - de Eça de Queirós 2000 - Memórias de um Sargento de Milícias - de Manuel Antônio de Almeida 2002 - A Dama das Camélias - de Alexandre Dumas, filho Sem Data - Moby Dick - de Herman Melville Sem Data - Viagem ao Centro da Terra - de Júlio Verne Sem Data - As Aventuras de Tom Sawyer - de Mark Twain Sem Data - Huckleberry Finn - de Mark Twain Sem Data - O Capitão Tormenta - de Emilio Salgari Sem Data - O Grande Meaulne - de Alain-Fournier
Telenovelas [1964 - Comédia Carioca - direção de Antonino Seabra (TV Rio) [1984 - Marquesa de Santos - direção de Ary Coslov (o roteiro foi escrito por Wilson Aguiar Filho e com colaboração de Cony)
Roteiros para o cinema 1973 - Os Primeiros Momentos - direção de Pedro Camargo 1975 - Intimidade - direção de Mike Sarne 1976 - Paranoia - direção de Antônio Calmon 1979 - Os Trombadinhas - direção de Anselmo Duarte (roteiro feito, também, por Pelé)
Documentários 1983 - JK – 7 anos Sem a Sua Companhia (Rede Manchete) 1983 - JK – A Voz da História (Rede Manchete) 1984 - Vargas – A Vida e a História (Rede Manchete)
Prefácios e introduções
1963 - A Chuva Imóvel - de Campos de Carvalho 1976 - A Cabana do Pai Tomás - de Harriet Beecher Stowe 1995 - Pente de Vênus - de Heloísa Seixas 1997 - O Horror Econômico - de Vivianne Forrester 1998 - Dupla Exposição: Stanislaw Ponte Preta - de Renato Sérgio 1998 - Mito em Chamas - de José Louzeiro 1999 - Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux - de Olavo de Carvalho (org.) 1999 - Balão: Paixão Inexplicável - de Odair Bueno e Ivo Patrocínio 1999 - Os Jornalistas - de Honoré de Balzac 1999 - Órfão de Tempestade - de Jason Tércio 1999 - Evangelho segundo João 2001 - A Fina Flor da Sedução - de José Louzeiro 2002 - Vidas dos Doze Césares - de Suetônio 2004 - Entre os Ossos e a Escrita - de Maitê Proença
Com outros autores
1966 - “Ordem do Dia” - In: 64 D.C. (Antônio Calado, Marques Rebelo, Sérgio Porto, Hermano Alves) 1974 - “Por vós e por Muitos” - In: Contos (Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Sérgio Sant'Anna, Luís Vilela, Otto Lara Resende, José J. Veiga, Érico Veríssimo, Moacyr Scliar, Samuel Rawet, Leon Eliacha, Elsie Lessa e Adonias Filho) 2000 - “O Burguês e o Crime” - In: MORICONI, Ítalo (org.) 2001 - “Luxúria” - In: Os Sete Pecados Capitais (Guimarães Rosa, Otto Lara Resende, Lygia Fagundes Telles, José Condé, Guilherme Figueiredo e Mário Donato) 2001 - “Amar a Deus Sobre Todas as Coisas” - In: Os Dez Mandamentos (Jorge Amado, Marques Rebelo, Orígenes Lessa, José Condé, Campos de Carvalho, João Antônio, Guilherme Figueiredo, Moacir C. Lopes e Helena Silveira)
Em parceria
2000 - O Presidente Que Sabia Javanês - com charges de Angeli Marina 2001 - As Viagens de Marco Polo - com Lenira Alcure 2001 - O Mistério das Aranhas Verdes - com Anna Lee 2001 - Wolff Klabin: A Trajetória de um Pioneiro - com Sergio Lamarão e Rosa Maria Canha 2002 - O Mistério da Coroa Imperial - com Anna Lee 2003 - O Mistério das Joias Coloniais - com Anna Lee 2003 - O Crime Mais Que Perfeito - com Anna Lee 2003 - O Beijo da Morte - com Anna Lee, Editor Objetiva, 2003,ISBN 85-7302-572-7 2004 - O Mistério da Moto de Cristal - com Anna Lee 2005 - A Joia dos Reis – Ilha Grande - com Anna Lee 2005 - Liberdade de Expressão I e II - com Heródoto Barbeiro e Artur Xexéo 2007 - O Mistério Final - com Anna Lee 2007 - As Rapaduras são Eternas - com Anna Lee 2009 - O Monstro da Lagoa de Abaeté - com Anna Lee
Edições estrangeiras México Pessach: la travesia. tradução de Jorge Humberto Robles
França Quasi-mémoires - tradução de Henri Raillard La traversée - tradução de Philippe Poncet
Portugal Informação ao Crucificado Quase-memória
Espanha Quase-memória
Adaptações de suas obras Para TV 1980 - Marina - adaptada por Wilson Aguiar Filho, baseado no romance Marina Marina,direção de Herval Rossano - Rede Globo Para o cinema 1968 - Antes, o Verão - direção e roteiro de Gerson Tavares 1968 - Um Homem e Sua Jaula - direção de Fernando Coni Campos e co-direção de Paulo Gil Soares; roteiro de ambos. 1975 - Você Tem Alguma Ideia Sobre a Ideia Que Pretende Ter? - roteiro de Antônio Moreno, Pedro Ernesto Stilpen e Olivar Luiz