thumb|Justiça e vingança divina perseguindo o crime por Pierre-Paul Prud'hon, c. 1805–1808
Vingança é cometer uma ação prejudicial contra uma pessoa ou grupo em resposta a uma queixa, seja ela real ou percebida. Francis Bacon descreveu a vingança como uma espécie de "justiça selvagem" que "ofende a lei e a tira do cargo." A justiça primitiva ou justiça retributiva é frequentemente diferenciada de formas mais formais e refinadas de justiça, como justiça distributiva e julgamento divino.
História thumbnail|Anúncio alemão de matar 2.300 civis no massacre de Kragujevac como retaliação por dez soldados alemães mortos. Sérvia ocupada pelos nazistas, 1941 As vendetas são ciclos de provocação e retaliação, alimentados por um desejo de vingança e realizados por longos períodos de tempo por grupos familiares ou tribais. Eles eram uma parte importante de muitas sociedades pré-industriais, especialmente na região do Mediterrâneo. Eles ainda persistem em algumas áreas, principalmente na Albânia, com sua tradição de gjakmarrja ou "vingança de sangue"."Peacemaker breaks the ancient grip of Albania's blood feuds ". The Christian Science Monitor June 24, 2008 Durante a Idade Média, a maioria não considerava um insulto ou injúria resolvidos até que fosse vingado, ou, pelo menos, pago — daí o extenso sistema anglo-saxão de pagamentos de veregildo (literalmente, "homem-preço"), que atribuíam um certo valor monetário a certos atos de violência na tentativa de limitar a espiral de vingança codificando a responsabilidade de um malfeitor.
As vendetas de sangue ainda são praticadas em muitas partes do mundo, incluindo as regiões curdas da Turquia e em Papua-Nova Guiné."Blood feuds and gun violence plague Turkey's southeast ". Reuters. May 5, 2009"Deadly twist to PNG's tribal feuds ". BBC News. August 25, 2005
No Japão, honrar a família, clã ou senhor através da prática de assassínio por vingança é chamado de "katakiuchi" (敵討ち). Esses assassinatos também podem envolver os parentes de um infrator. Hoje, o katakiuchi é mais frequentemente substituído por meios pacíficos, mas a vendeta continua sendo uma parte importante da cultura japonesa.
Bases filosóficas A ética da vingança é acaloradamente debatida na filosofia. Alguns acreditam que ela é necessária para se manter uma sociedade justa. Em algumas sociedades, se acredita que o mal infligido deve ser maior do que o mal que originou a vingança, como forma de punição. A filosofia de "olho por olho" citada no Velho Testamento da Bíblia (Êxodo 21:24) tentou limitar a retaliação, igualando-a à agressão original, para evitar uma série de ações violentas que escalassem rapidamente e saíssem do controle. Outros argumentam contra a vingança alegando que se assemelha à falácia de que "Dois erros fazem um acerto". Alguns cristãos interpretam a passagem de Paulo "A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor" (Epístola aos Romanos 12:19, na versão da Bíblia Sagrada da editora Ave Maria) como significando que apenas Deus tem o direito de praticar a vingança.
Sobre as bases morais, psicológicas e culturais da vingança, a filósofa Martha Nussbaum escreveu:
Psicologia social Filósofos tendem a acreditar que punir e vingar são atividades muito diferentes:
De fato, Kaiser, Vick, & Major (2004) apontam:
A crença na "hipótese do mundo justo" também é associada à vingança, pois o indivíduo pode se sentir motivado a procurar vingança como uma forma de restaurar a justiça. Um crescente corpo de pesquisa revela que uma disposição vingativa está relacionada a condições ruins de saúde, como transtorno de estresse pós-traumático e morbidez psiquiátrica.
Na arte A vingança é um tema popular em muitas formas de arte. Alguns exemplos incluem a pintura "A vingança de Herodíade", de Juan de Flandes, e as óperas Don Giovanni e Le nozze di Figaro, de Wolfgang Amadeus Mozart. Na arte do Japão, a vingança é tema de várias xilogravuras que retratam os 47 rōnin por muitos artistas influentes e bem conhecidos, incluindo Utagawa Kuniyoshi. O dramaturgo chinês Ji Junxiang usou a vingança como tema central na sua peça "O órfão de Zhao"; ela mostra uma vingança familiar que se passa no contexto da moralidade confuciana e da estrutura social hierárquica.
A vingança tem sido um tema popular na literatura. Exemplos incluem as peças Hamlet e Otelo, o Mouro de Veneza, de William Shakespeare; as novelas O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, e Carrie, de Stephen King; e o conto O Barril de Amontillado, de Edgar Allan Poe.
Na internet O surgimento da internet criou novas formas de expressão da vingança. A vingança de consumidor tem, como alvo, empresas. As empresas têm, crescentemente, sofrido com críticas desfavoráveis de consumidores na internet. Os sites de mídias sociais, como o Facebook, Twitter e YouTube, têm servido de plataforma para a vingança de consumidores. A pornografia de vingança envolve a disseminação pública de vídeos e fotos íntimas da atividade sexual de alguém com a finalidade de causar vergonha. A permissão de anonimato nos sites de pornografia de vingança encoraja esse tipo de comportamento. Muitas vezes, a postagem fornece dados pessoais da vítima, inclusive suas conexões com contas de mídia social. A origem da pornografia de vingança na internet está na criação, por Hunter Moore, em 2010, do site IsAnyoneUp, que difundia fotos de sua namorada nua.
Em animais Os seres humanos não são a única espécie que pratica a vingança. Animais como camelo, elefante, peixe, leão, fulica, corvo e muitas espécies de primatas (chimpanzé, Macaca, babuíno etc.) também a praticam. Os primatologistas Frans de Waal e Lesleigh Luttrellave realizaram numerosos estudos que evidenciaram a vingança em primatas. Eles observaram padrões de vingança em chimpanzés: se um chimpanzé A ajuda um chimpanzé B a derrotar um chimpanzé C, então este se sentirá inclinado a ajudar um inimigo do chimpanzé A a derrotá-lo. Os chimpanzés são uma das espécies em que mais foram notados comportamentos vingativos, devido a seu desejo por dominância. Estudos com espécies menos cognitivas, como peixes, evidenciaram que espécies menos intelectuais também exercem vingança.
Função na sociedade O psicólogo social Ian Mckee diz que o desejo pela manutenção do poder motiva o comportamento vingativo, como uma forma de impressionar as pessoas:
O comportamento vingativo tem sido encontrado na maioria das sociedades humanas. Algumas sociedades encorajam a conduta vingativa. Essas sociedades encaram a honra de grupos e indivíduos como um elemento fundamental. Segundo essa lógica, ao proteger sua reputação, o vingador se sentiria como se estivesse restaurando seu estado anterior de dignidade e justiça. De acordo com Michael Ignatieff,
Portanto, a honra pode se tornar um património cultural que passa de geração a geração. Sempre que é assumida, a família ou membros da comunidade que são afetados podem se sentir compelidos a retaliar contra o agressor para restaurar o "equilíbrio de honra" inicial. Este ciclo de honra pode se expandir ao trazer os membros familiares e a comunidade inteira da nova vítima para o novo ciclo vingativo, que pode durar gerações.
Bibliografia Revista Filosofia Ciência & Vida, n. 46. Artigo: Os vieses da vingança