A Capela de São Sebastião, ou Igreja de São Sebastião, localiza-se na freguesia de Lumiar, município de Lisboa, distrito de Lisboa, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA
Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1967.
História
Origens A história do local onde se implanta a ermida remonta ao ano de 1312, data em que o monarca D. Dinis cedeu uma residência palaciana que possuía no Lumiar a D. Afonso Sanches, seu filho ilegítimo. O espaço adquiriu então o título de Paços do Infante D. Afonso Sanches. Volvidas algumas décadas, em meados do século XIV, D. Afonso IV expropriou o património do seu irmão, passando a propriedade nobre a ser conhecida como Paço do Lumiar, nomenclatura que se estendeu gradualmente à aldeia limítrofe.
A edificação do templo religioso resultou directamente da fé dos habitantes locais que, receando as epidemias de peste, invocaram o santo mártir para seu amparo. Sendo propriedade do povo, a ermida foi inicialmente construída num ermo isolado, nos limites territoriais da cidade de Lisboa, convertendo-se, com o passar do tempo, no pólo aglutinador de novas habitações.
Relativamente à datação exacta da sua fundação, a generalidade das fontes aponta para o início do século XVI, havendo alguma possibildade de datar em vez disso da segunda metade da mesma centúria. Esta última tese fundamenta-se nos registos paroquiais da Igreja de São João Baptista do Lumiar, cuja nave orientada a sul albergava uma capela e um altar devotados a São Sebastião, estruturas que deixaram de constar dos assentamentos documentais a partir do ano de 1574.
Campanhas seiscentistas e setecentistas A primeira metade do século XVII foi marcada por empreitadas de relevo sob o mecenato do capitão Estêvão Soares de Albergaria, benfeitor da instituição. O patrocínio deste militar viabilizou cruciais trabalhos de manutenção e enriquecimento estético do espaço. Da campanha de 1628 resultaram os revestimentos azulejares do tipo tapete na nave, os quais envolvem painéis de cariz figurativo. Da mesma data datam as representações cerâmicas numa cruz de uma das paredes exteriores, de frontais de altar, bem como as figuras de São Pedro, São Paulo, São Francisco e Santo António com o Menino Jesus. Ainda no decurso deste período, foram afixadas composições idênticas no arco cruzeiro. Em 1642, procedeu-se à instalação de uma pia de água benta junto ao acesso principal, do lado da Epístola. Em 1644, faleceu o capitão Albergaria, cujos restos mortais repousam numa lápide sepulcral em campa rasa, disposta no corredor central do pavimento da nave. O chão do edifício reúne diversos túmulos dos séculos XVII e XVIII, um dos quais exibe um brasão de armas.
Nas primeiras décadas do século XVIII, desencadeou-se uma nova fase decorativa. A capela-mor foi integralmente forrada com painéis de azulejos figurativos monocromáticos, pintados pelo Mestre P.M.P., que narram episódios da vida do orago. Efectuaram-se igualmente aplicações de cerâmica de padrão nas paredes laterais do templo.
Terramoto e reformas oitocentistas O abalo sísmico de 1755 infligiu danos que exigiram prontas medidas de reconstrução, possivelmente coordenadas pelo padre António Mamede. No exterior, os trabalhos incidiram sobre a fachada principal, traduzindo-se na feitura de um novo janelão e respectiva empena, bem como no aditamento de pináculos laterais e de volutas em alvenaria nas fachadas leste e oeste. No interior da nave, foi concebida uma nova cobertura executada em estuque. Em 1658, as Memórias Paroquiais documentaram a existência da ermida na povoação. No término da centúria, procedeu-se à pintura do arco triunfal.
Do século XIX à actualidade O decurso do século XIX distinguiu-se unicamente pela alteração estrutural da torre sineira. Mais tarde, no ano de 1905, Gabriel Pereira aludiu à presença no local de uma pedra tumular bastante delida com o nome de Rodrigo Dinis Pereira.
Ao longo do século XX, era ainda perceptível no tecto da nave a coexistência de estratos estéticos distintos, descritos em documentação da época como correspondendo a "boas pinturas antigas entre estuques mais modernos". O reconhecimento da relevância patrimonial do imóvel consubstanciou-se na sua classificação como , em 1967. Contudo, o edifício acabou por atingir um severo estado de arruinamento.
Em Fevereiro de 1988, o padre Manuel Gonçalves solicitou oficialmente uma intervenção de salvaguarda. Uma inspecção da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais atestou a gravidade da situação: o telhado encontrava-se em estado calamitoso, carecendo de substituição urgente das telhas e da própria armação, e o tecto estucado apresentava parcelas colapsadas por virtude da prolongada infiltração de águas pluviais. Este cenário originou uma extensa obra de recuperação que se estendeu até mil novecentos e noventa e sete.
Neste intervalo, assinala-se um revés significativo em Novembro de 1989, altura em que a cobertura da nave abateu na íntegra. As subsequentes operações de restauro envolveram a reedificação de um tecto em madeira e a reconstituição do pavimento primitivo em tijoleira, salvaguardando o desenho original. Em 1991, a remoção da talha dourada tardo-barroca que encimava o altar-mor revelou um retábulo primitivo em pedra. Esta valiosa estrutura, segmentada em três nichos, ostentava embutidos de mármore laborados segundo a técnica italiana da intarsia.
Descrição
Exterior O templo ergue-se de forma isolada numa zona plana, situado exactamente no eixo de uma via pública. Esta implantação insólita gera um entroncamento de trânsito rodoviário com circulação nos dois sentidos, do qual o monumento é separado apenas por um exíguo passeio pavimentado a calçada.
Inserida no Núcleo Antigo do Paço do Lumiar, a ermida acha-se rodeada por variados edifícios residenciais históricos, nomeadamente a Casa da Quinta de São Cristóvão, a Casa da Quinta do Paço e a habitação onde residiu o poeta Cesário Verde. Nas imediações imediatas, o tecido urbano é ainda valorizado por outras estruturas de notório interesse arquitectónico e cultural, perfilando-se a Casa da Quinta de Nossa Senhora da Paz, a Casa da Quinta de São Sebastião e o próprio Cruzeiro da Ermida de São Sebastião.
Arquitectura O templo obedece a uma planta longitudinal, caracterizando-se pela articulação de volumes de massa marcadamente horizontalista. O corpo principal cinde-se entre a nave e uma capela-mor de menor largura.
A este conjunto justapõem-se, no flanco Sudeste, uma sacristia de configuração rectangular e uma torre sineira de secção quadrangular. As coberturas evidenciam tipologias distintas consoante o corpo em causa: telhados de duas águas sobre o templo, cobertura de uma água na sacristia e um remate em terraço na torre.
As superfícies parietais exteriores, integralmente rebocadas e caiadas de branco, assentam sobre um embasamento saliente com pintura amarela. Os ângulos são definidos por cunhais apilastrados que partilham a mesma tonalidade ocre. O coroamento superior dos alçados é assegurado por uma beirada dupla, com excepção da frontaria, a qual termina num friso e cornija. Regista-se, transversalmente, um nítido contraste entre as molduras esculpidas em calcário vermelhão e os restantes elementos e modinaturas executados em pedra calcária do tipo lioz.
Fachada principal A fachada principal, orientada a Sudoeste, culmina numa empena ladeada por volutas e por pináculos cónicos sobre as pilastras dos cunhais. No vértice superior exibe uma cruz latina de hastes tubulares. O rasgamento central é protagonizado por um portal de feição manuelina, em arco canopial de arquivolta única ornada com rosetas, evidenciando cogulhos no extradorso. A estrutura repousa sobre colunelos finos, cujos capitéis ostentam decorações entrelaçadas, possuindo bases assentes em toros e escócias.
O vão é resguardado por uma porta de madeira de dupla folha com almofadados. Num plano imediatamente superior, rasga-se um janelão de moldura pétrea em arco abatido, sobrepujado por um pequeno friso e protegido por um gradeamento em ferro. Este rasgo é flanqueado por duas argolas metálicas e encimado por um óculo circular exíguo de moldura saliente. O portal constitui o elemento de maior relevo numa fachada que, ao longo dos séculos, sofreu sucessivas adulterações.
Fachada lateral esquerda O alçado lateral Noroeste apresenta, ao nível da nave, uma porta travessa de lintel recto com friso e cornija, vedada por duas folhas de madeira almofadadas. Por seu turno, o pano exterior correspondente à cabeceira é pautado por uma janela rectilínea cingida por grades de metal.
Fachada lateral direita e torre sineira No flanco oposto, a Sudeste, o delineamento é dominado pela sacristia adossada, provida de uma porta de acesso com verga recta e guarnição simples em cantaria.
Na intersecção deste anexo com a capela-mor eleva-se a torre sineira, muito alterada no decurso do século XIX, estruturada em dois registos divididos por um friso pétreo. O nível inferior evidencia frestas emolduradas em duas das suas faces e um relógio quadrangular voltado a Sudoeste. O registo cimeiro compreende três ventanas de volta perfeita assentes em impostas com pedras de fecho salientes, estando a abertura a Sudoeste entaipada. O topo da estrutura termina em friso e cornija, suportando um terraço protegido por guarda metálica. Uma sineira em arco de volta perfeita, suportada por impostas salientes e encimada por uma cruz latina, desponta na face Nordeste, constituindo muito possivelmente o campanário primitivo da ermida.
Fachada posterior A fachada posterior consubstancia-se num frontão barroco sem retorno, ladeado por volutas e coroado por uma cruz latina, assumindo um carácter arquitectónico mais rico que o alçado principal. Este plano exibe duas frestas com molduras de cantaria e gradeamento férreo, as quais ladeiam um cruzeiro cerâmico. A referida composição azulejar assenta sobre um monte policromático, conjugando azuis, ocres, verdes e tons de manganês. Esta obra resulta do reaproveitamento de 17 azulejos provenientes de diversos painéis de épocas renascentista, maneirista e barroca, integrando nove unidades azuis e seis distintas. No ponto de intersecção, destaca-se um azulejo ocre com uma coroa de louro que envolve a sigla "INRI". Na secção inferior deste núcleo, num parágrafo independente enquadrado em fundo branco, consta a gravação epigráfica "ANNO 1628".
Sob a inscrição, corre um friso de azulejos monocromáticos, evidenciando-se uma lacuna correspondente a quatro azulejos desaparecidos.
Interior O tecto da nave é concebido em madeira com formato de masseira, pintado de branco, repousando sobre um friso e cornija do mesmo material e estabilizado por tirantes. O pavimento combina um lajeado pétreo, onde se inserem lajes tumulares dispostas longitudinalmente em direcção à capela-mor, com um mosaico cerâmico de padrão axadrezado formado por hexágonos de tom alaranjado e quadrados brancos.
As superfícies parietais estão revestidas na sua totalidade por azulejaria seiscentista do tipo "tapete". Esta ornamentação divide-se em dois registos distintos, ostentando a secção superior uma padronagem mais complexa e evoluída. Em cada um dos flancos deste nível superior, evidenciam-se dois emblemas alusivos a São Sebastião, representados por uma coroa que cinge um feixe de três setas.