O Convento do Grilo é um edifício de génese religiosa de arquitectura barroca localizado da freguesia do Beato, em Lisboa. Está classificado como Imóvel de Interesse Público desde o ano de 2002.Ficha na base de dados SIPA

É designado de modo alternativo como Igreja e antigo Convento do Grilo, Igreja e Antigo Convento dos Grilos, Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo, Recolhimento do Grilo, Convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete ou Igreja Paroquial de São Bartolomeu do Beato. História

Origens A fixação do cenóbio neste local remonta ao século XVII, numa propriedade anteriormente pertencente a Gonçalo Vasques da Cunha e inserida num sítio vulgarmente designado por Grilo. A implantação da ordem dos Irmãos Descalços de Santo Agostinho em território português concretizou-se a 2 de Abril de 1663, no dia de Nossa Senhora dos Prazeres, mediante o descalçamento do seu fundador, o padre frei Manuel da Conceição. Este clérigo obteve o patrocínio da rainha regente D. Luísa de Gusmão, de quem era confessor, tendo a cerimónia inaugural sido antecedida por uma procissão com origem na Ermida de D. Gastão Coutinho, perto da calçada com o mesmo nome. Para além do fundador, descalçaram-se outros três frades gracianos, nomeadamente frei Inácio dos Anjos, frei Bartolomeu de Santa Maria, frei Domingos da Madre de Deus e um irmão leigo, bem como cinco freiras provenientes do Convento das Mónicas, lideradas pela madre Maria da Apresentação.

A designação oficial do cenóbio homenageava Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete, invocação motivada pela existência prévia no local de uma pequena ermida demolida que guardava uma devota imagem do Senhor no Horto. Lançamento da primeira pedra do edifício decorreu a 15 de Maio de 1666, num acto presenciado pelo monarca D. Afonso VI e por D. Pedro, baseando-se a edificação num projecto da autoria do mestre da Casa da Rainha, João Nunes Tinoco.

No final do século XVII, a igreja foi alvo de intervenções artísticas, incluindo a elaboração de telas pelo pintor Bento Coelho da Silveira. Contudo, a 23 de Outubro de 1683, o complexo foi quase integralmente consumido por um violento incêndio que dizimou a igreja primitiva e grande parte das estruturas anexas. O culto do Santíssimo Sacramento, sob a forma de Lausperene, foi provisoriamente transferido para a igreja vizinha das religiosas da mesma ordem, fundação da Rainha D. Luísa de Gusmão, que pediu para ali ser sepultada, e onde pregou frei José dos Mártires. Reedificou-se o complexo, fixando-se no final do século XVII e início do século XVIII os traços essenciais do templo que subsiste na actualidade.

Os registos documentam diversas empreitadas neste período, como o testamento do pedreiro João Alves datado de 2 de Setembro de 1688, e a encomenda de obras no dormitório de São João Evangelista, solicitadas pelo padre Domingos dos Anjos aos mestres António e Luís Fernandes a 11 de Agosto de 1693. Posteriormente, o espaço religioso recebeu novas pinturas de Lourenço da Silva Paz em 1706, e a execução do retábulo-mor pelo escultor João António Bellini em 1739, avançando-se em 1746 para uma nova campanha de reedificação do complexo conventual. Volvida quase uma década, o sismo de 1 de Novembro de 1755 infligiu estragos na estrutura do edifício monástico. Contrariamente a muitos outros monumentos da capital, o convento não sofreu qualquer foco de incêndio subsequente, o que permitiu uma reparação lesta e simplificada, facto atestado pelas Memórias Paroquiais da freguesia dos Olivais logo em 1758, que já se referem ao edifício pelo nome de convento dos Grilos.LEANDRO, Sandra. «Ermida da Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião». In: ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (org.). Portugal Património: Guia-Inventário. Volume VII (Lisboa). Conselho científico de José Mattoso, Paulo Pereira e Teresa Belo. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008. p. 258-259.

O Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo O dealbar do século XIX trouxe profundas transformações ao uso do complexo arquitectónico, constatando-se logo em 1829 a total ausência de religiosos na instituição. Na sequência da extinção das ordens religiosas em 1834, as antigas dependências conventuais acolheram, no ano sendo, o Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo. Esta instituição feminina provinha da Mouraria, onde havia sucedido ao antigo Colégio dos Meninos Órfãos. O ambiente gerado por este acolhimento tornou-se singular, sendo o ambiente assim descrito pelo olisipógrafo Júlio de Castilho: "tudo ali respira ordem, sossego e benquerença".

Paralelamente, a paróquia de São Bartolomeu necessitava de uma localização definitiva, após várias décadas de transitoriedade originada pela destruição do seu templo original no Largo dos Lóios. A referida igreja primitiva, cujas fundações e arruinamento ficavam defronte ao espaço que hoje alberga o Quartel da Guarda Nacional Republicana, dispunha de capacidade para 300 indivíduos, cinco altares e um portal gótico. No reinado de Dom Dinis servira de capela real devido à proximidade do palácio da Rainha Santa Isabel, ostentando as armas reais pintadas no tecto e mantendo 12 capelães com rendas para enfermos, merceeiras e estudantes pobres. A sua antiguidade fora referenciada no ano de 1168 pelo bispo D. Álvaro, facto registado no Mapa de Portugal de João Baptista de Castro com base na História Eclesiástica de Lisboa de D. Rodrigo da Cunha.

Este complexo original ruiu por completo com a queda da frontaria e da cobertura devido ao terramoto de 1755 e respectivo incêndio. Após a catástrofe, a paróquia transitara pela Capela de Nossa Senhora da Glória, pela Ermida de Nossa Senhora do Rosário até 1765, local onde mais tarde operou um armazém de sacaria, e, desde 1770, pela Igreja do Beato António. Com a expulsão dos frades e a venda das ruínas desta última para habitações e armazéns em 1834, o Governo tencionou alocar a freguesia ao devoluto e profanado Convento de Nossa Senhora de Jesus de Xabregas, pretensão que esbarrou na forte oposição popular. Acatando os pedidos da população, determinou-se a instalação da sede paroquial no convento do Grilo em Novembro de 1835, cuja oficialização ocorreu a 27 de Dezembro do mesmo ano, ocupando a paróquia estritamente a igreja e a respectiva sacristia. No decurso da segunda metade de Oitocentos, regista-se o restauro do tecto estucado e do edifício em 1870. Posteriormente verificou-se a deslocação das antigas telas para a igreja matriz de Alhandra em 1887 na sequência de um incêndio, e a trasladação dos despojos mortais de D. Luísa de Gusmão para o Panteão dos Bragança, em São Vicente de Fora, no ano de 1889.

Contemporaneidade Nos últimos anos do século XIX, especificamente a partir de 1897, toda a área remanescente do antigo convento foi progressivamente readaptada para a instalação de indústrias de cariz alimentar. O reconhecimento oficial do valor patrimonial deste histórico imóvel materializou-se no termo do século XX, com a elaboração de uma Carta de Risco pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais em Novembro de 1998. Este processo de salvaguarda arquitectónica culminou na sua classificação definitiva como através de diploma publicado a 19 de Fevereiro de 2002.

Descrição

Exterior O conjunto edificado, situado na Rua do Grilo, 118, constitui um exemplar de arquitectura religiosa maneirista e barroca, desenvolvendo-se a partir de uma planta rectangular. As antigas dependências conventuais e a igreja organizam-se em torno de dois claustros, correspondentes à quadra primitiva. O corpo monástico, adossado a Sul do templo, apresenta alas cobertas por telhados de duas águas que se articulam nos ângulos.

Fachada A fachada do convento divide-se em três níveis ritmados por janelas rectangulares de verga curva e emolduramento simples. No extremo Sul deste bloco destaca-se um pano mural delimitado por pilastras de cantaria, que integra a eixo um portal de arco de volta inteira e duas janelas de sacada. A frontaria principal da igreja, orientada a Este e antecedida por três degraus, mantém a sua fisionomia original do século XVII. Este alçado estrutura-se verticalmente em três panos separados por pilastras lisas, encontrando-se dividido em dois registos horizontais. Ao nível térreo, abrem-se três arcos de volta inteira que facultam a entrada para o galilé rectangular, ladeados nos panos laterais por dois pequenos vãos quadrangulares munidos de malheiros de ferro. O registo superior é rasgado por cinco janelas que iluminam o interior, compreendendo três vãos centrais de verga encurvada sob áticas e dois rectangulares nas extremidades. O remate faz-se sob a forma de frontão triangular com cruz e fogaréus nos acrotérios, ostentando no alto tímpano um medalhão esculpido com uma coroa real, encontrando-se a torre sineira de secção quadrada adossada à parede Sul do templo, recuada face ao plano da fachada principal.

Convento O acesso às áreas do extinto convento processa-se através de uma portaria ou primeiro átrio, cujas paredes se encontram integralmente revestidas por silhares de azulejos azuis e brancos de finais do século XVII, em bom estado de conservação. Estes painéis retratam cenas campestres e temáticas bíblicas, fazendo-se acompanhar de expressivas legendas em latim. Neste compartimento figura igualmente uma placa epigráfica alusiva ao extinto Colégio dos Meninos Órfãos da Mouraria, ao qual sucedeu o Recolhimento do Amparo aquando da sua transferência em 1835. A este acolhimento inicial segue-se um segundo vestíbulo, de pé-direito superior, que exibe análoga ornamentação azulejar azul.

Deste átrio nasce uma ampla escadaria de feição palaciana, construída totalmente em cantaria, que se desenvolve em sucessivos lanços rectos protegidos por guardas de ferro forjado. Os muros envolventes reflectem um extenso aparelho de azulejaria recortada com figurações de corte, caça e episódios da vida de São Francisco Xavier, aproximando-se do estilo de São Vicente ao conjugar pormenores profanos e místicos. O tecto estucado desta caixa de escadas, conjecturalmente atribuído a João Grossi ou à sua escola, exibe figuras e inscrições em relevo. Num dos topos da abóbada pode ler-se a inscrição "Feito em 1746", e no lado oposto "Retocado em 1870". Os corredores do recolhimento, percurridos por aposentos habitados, mantêm a austeridade conventual primitiva e albergam espólio cerâmico setecentista. As portas das antigas celas, que dão agora acesso aos quartos das recolhidas, possuem molduras de azulejos e sobreportas decoradas com versículos do Novo Testamento, em latim, exortando a reflexões sobre a vida e a morte.

Igreja

Nave e capelas laterais