Eneida () é um poema épico latino escrito por Virgílio no século I a.C. Conta a saga de Eneias, um troiano que é salvo dos gregos em Troia, viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à península Itálica. Seu destino era ser o ancestral de todos os romanos.
Na Eneida, do poeta romano Virgílio (séc. I AEC), o destino surge como um poder maior, acima até do que os deuses desejam. Júpiter assegura que Roma será fundada segundo o projeto divino, apesar da oposição de Juno. O destino representa a ordem cósmica e política que justifica o império romano, tornando sagrada a missão de Eneias. As ações dos deuses (Juno, Vênus e Júpiter), mostram o conflito entre desejo e obrigação, mas o destino vence como vontade inevitável dos deuses e da história.
Uma epopeia por encomenda thumb|esquerda|upright=1.5|Eneias abandona Troia em chamas Federico Barocci, 1598, Galleria Borghese, Roma
Virgílio já era ilustre pelas suas Bucólicas (37 a.C.), um poema pastoril, e Geórgicas (30 a.C.), um poema agrícola. Então, o imperador Augusto encomendou-lhe a composição de um poema épico que cantasse a glória e o poder do Império Romano. Um poema que rivalizasse e quiçá superasse Homero, e também que cantasse, indiretamente, a grandeza de césar Augusto. Assim Virgílio elaborou um trabalho que, além de labor linguístico e conteúdo poético, é também propaganda política.
Muitos dos episódios na Eneida, que narra um tempo mítico, têm uma correspondência síncrona com a atualidade de Augusto. Por exemplo o escudo de Eneias, simbolizando a Batalha de Áccio, quando Otaviano derrotou Marco Antônio em 31 a.C. e a previsão de Anquises, no Hades, sobre as glórias de Marcelo, filho de Otávia, irmã do imperador.
Virgílio terminou de escrever Eneida em 19 a.C. A obra estava "completa" mas ainda não estava "pronta" segundo o seu criador. Virgílio gostaria ainda de visitar os lugares que apareciam no poema e revisar os versos dos cantos finais. Mas adoeceu e, às portas da morte, pediu a dois amigos que queimassem a obra por não estar ainda "perfeita". O grande poema, já conhecido de alguns amigos coevos, não foi destruído. Sem a epopeia virgiliana, não haveria Orlando Furioso, O Paraíso Perdido, Os Lusíadas, dentre outros grandes clássicos da literatura mundial.
A Emulação em Virgílio O ato de emular pode ser definido como: 1. competir ou rivalizar com; 3. tomar (algo ou alguém) como exemplo, procurando igualar-se [...]. No contexto da literatura e retórica latina, compreende-se que "os discursos não são a expressão do conceito, mas o conceito expresso", ou seja, bons discursos expressam os mesmos conceitos de formas inovadoras, e quando excelentes, se tornam modelos para as expressões sucessoras, que passam a emular esses mesmos modelos.
Em Virgílio, os modelos de excelência são as obras de Homero, a Ilíada e a Odisseia. Assim, sua ambição com a Eneida é emulá-las de forma a não só igualar-se em qualidade técnica, mas superá-las com o engenho, labor criativo que gera as diferenças entre a obra invejada e a obra nova. Essas diferenças fazem com que o "novo-repetido" não só gere no público semelhança em prazer quanto ao encontrado na obra invejada, mas a supere, fazendo com que seus tipos se encaixem mais e melhor no tropo emulado.
Na Eneida, a emulação se expõe sutilmente nas muitas "inversões, misturas e variações" das suas semelhanças ilusórias com as obras homéricas. É justamente a estranheza causada pela repetição em versão variada, a sensação de déjà vu, que atua para que o leitor acesse as referências que alimentam o poema.
Algumas das instâncias em que se percebe o aceno as outras épicas são:
A ordem dos acontecimentos centrais e temáticos do enredo: na Odisseia, a viagem se dá depois da destruição de uma cidade, enquanto na Eneida a viagem se dá para que se estabeleça uma cidade, justaposição explicitada nos versos abaixo:
"O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas errâncias, destruída Tróia, pólis sacra, [...]" (Hom. Od. I 1-2; tradução de Trajano Vieira)
"As armas e o varão canto que, [...] por muito tempo nos mares e em terras vagou [...] para as bases lançar da cidade [...]" (Virg. Aen. I 1-4; tradução de Carlos Alberto Nunes)
A ordem das obras a que pertencem as referências: pode-se dizer que enquanto a primeira parte da Eneida emula a Odisseia, a segunda parte da epopeia de Virgílio emula a Ilíada. Nisto, percebe-se a confusão intencionalmente provocada, visto que a Odisseia é, essencialmente, a sequência da Ilíada. O gênio em primeiro referenciar a obra mais recente é indiscutível, mas a forma como isso foi realizado demonstra domínio total das referências e completa confiança em seu engenho.
Essa mistura é percebida, por exemplo, na ordem e características das invocações encontradas na Eneida. Na primeira invocação, é rememorada a invocação da Odisseia, enquanto nas cinco seguintes são rememoradas as invocações da Ilíada. O Profº Drº Marcos Martinho dos Santos explica como isso ocorre para além do conteúdo das invocações: "[...] Daí, que a primeira invocação da Eneida seja interpelação singular da Musa, e das outras cinco seja uma interpelação plural das Musas, lembra, também respectivamente, a invocação da Odisséia, que é interpelação singular da Musa, e as invocações da Ilíada, de que quatro são interpelações plural das Musas." (SANTOS, M. M. dos. LETRAS CLÁSSICAS, nº 5, p. 171) Hoje, para o leitor comum, desavisado, as referências estão há alguns, muitos, milhares de anos de distância, e, contudo, a genialidade não passa despercebida. Mais genial ainda na época de publicação da epopeia, quando todas essas obras estavam vivas no imaginário popular e eram de fácil acesso.
Personagens Há dois tipos de personagens na Eneida: os "humanos" e os "deuses". Há uma espécie de terceira entidade que é a do Fatum (Fado, destino) que nem os deuses podem obliterar.
Humanos thumb|upright=1.5|Eneias ferido por uma flecha, curado pelo médico Iapige, com o filho Ascânio e assistido por VênusPintura em parede, século I a.C., Pompeia, atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles
A Eneida tem doze capítulos — a metade do número de capítulos da Odisseia. Anquises — pai de Eneias Ascânio — filho de Eneias e de Creusa Creusa (filha de Príamo) — esposa de Eneias Dido — rainha de Cartago Evandro — ancião Eneias — troiano, sobrevivente à Guerra de Troia Turno — rei latino, inimigo de Eneias em Itália
Deuses Apolo — deus do Sol, da profecia, da poesia, das artes, da música, da cura, da justiça, da lei, da ordem, do tiro ao alvo e da peste Éolo — deus dos ventos Juno — mulher de Júpiter, opositor de Eneias Júpiter — rei dos deuses Mercúrio — deus mensageiro Neptuno — deus dos mares Vénus — deusa do amor e da beleza, coadjuvante de Eneias
Tempo da diegese O tempo da diegese, ou seja, dos acontecimentos narrados, ocorre imediatamente após a queda da cidade de Troia, portanto a Eneida dá continuidade à Ilíada de Homero. Se a Odisseia narra as aventuras de um grego, de Ulisses (ou Odisseus), que tenta voltar para a sua casa e para a sua família, a Eneida narra as aventuras de um troiano que, depois da destruição de Troia, foge com a sua família. A sua fuga dá-se por mar. Eneias procura um sítio para fundar uma nova cidade.
Tempo do discurso Quando o texto começa, a aventura de Eneias já se iniciou (a narrativa começa in medias res, isto é, a meio da acção). O herói naufraga ao largo de Cartago (a actual Tunes) e vai ter com a rainha Dido. Conta-lhe as suas viagens até ao momento em que se encontra. Esse é um processo de analepse (em inglês, flashback). A partir do quarto capítulo, o tempo da diegese é contemporâneo ao da narração do poema, ou seja os acontecimentos são narrados como se estivessem acontecendo no presente.
Estrutura da Obra
O Proêmio (I, 1-11): Estrutura e Programa
O Proêmio da Eneida, que compreende os versos I, 1-11, atua como o programa narrativo e ideológico de todo o poema de Virgílio. Sua função é dupla e essencial para o gênero épico: anunciar o tema e invocar a divindade. A estrutura, portanto, divide-se em duas partes principais, conforme análise de Jones e Vasconcellos.
A Proposição Propositio (versos 1-7)
Nesta primeira parte, o poeta anuncia o que será cantado. Virgílio começa com a célebre declaração: "Arma virumque cano..." (As armas e o varão eu canto), utilizando uma concisa metonímia para apresentar os temas do conflito (arma, a guerra) e do herói (virum, o varão). Essa escolha é altamente programática, pois sugere que a Eneida será uma combinação dos dois grandes épicos gregos de Homero: o tema da guerra (a Ilíada) e o tema da viagem (a Odisseia). O propósito final do herói, Eneias, é imediatamente estabelecido: fugir de Troia e fundar o povo que daria origem a Roma, cumprindo seu destino (Fatum).
A Invocação Invocatio (versos 8-11)
A segunda parte, que é a *Invocação, ocorre quando Virgílio invoca a Musa (a deusa inspiradora) para obter auxílio e, de forma mais crucial, para que lhe sejam reveladas as causas (causae) do sofrimento do herói. É aqui que o poeta introduz o motor da narrativa: a implacável ira de Juno (saevae memorem Iunonis ob iram). Ao questionar por que uma deusa possui rancor tão feroz contra um herói piedoso, Virgílio estabelece que o drama de Eneias e a fundação de Roma serão marcados pela interferência e oposição divina. Em suma, o Proêmio não é apenas um início; ele é o contrato de leitura que estabelece o enredo, a temática dual (guerra e viagem) e a moldura teológica (destino e ira divina) que conduzirão o épico até seu clímax.
JONES, P. Reading Virgil. Aeneid I and II. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. SANTOS, M. M. dos. Da disposição da Eneida, ou Do gênero da Eneida segundo as espécies da Ilíada e Odisseia. Letras Clássicas, n. 5, p. 159-206, 2001. VASCONCELLOS, P. S. de. Épica I: Ênio e Virgílio. Campinas: Editora da Unicamp, 2014.
Capítulos ou cantos
Embora seja organizada em doze cantos, a Eneida apresenta uma estrutura dividida em duas grandes partes que dialogam diretamente com seus modelos homéricos. Por isso, muitos estudiosos entendem o poema como um "gênero misto", que reúne e adapta elementos da Odisseia e da Ilíada.
A primeira metade (Livros 1–6) é considerada "odisseica", pois acompanha a viagem de Eneias desde a queda de Tróia até sua chegada ao Lácio, retomando o modelo narrativo da Odisseia. Já a segunda metade (Livros 7–12) é chamada de "iliádica", por narrar a guerra travada na Itália para o estabelecimento dos troianos, em diálogo com o enredo bélico da Ilíada.
Segundo Santos (2001), além dessa divisão, Virgílio também altera a ordem dos modelos homéricos: enquanto Homero narra primeiro a guerra (Ilíada) e depois a viagem (Odisseia), a Eneida apresenta primeiro a viagem e depois a guerra. Essa inversão é essencial para compreender como o poema foi composto e como ele se posiciona dentro da tradição épica.
I - Eneias naufraga ao largo de Cartago Depois de partir da Sicília, Eneias é arrastado por uma tempestade que o faz naufragar. Eneias observa a cidade. Ele que vem de Troia que fora totalmente arrasada e que tem por missão fundar uma nova cidade. É recebido por Dido, rainha de Cartago. Comove-se ao ver os afrescos nas paredes que narram a guerra de Troia. Dido começa a apaixonar-se por Eneias.
II- Eneias narra a Dido o último dia de Troia